Reflexões sobre repartições públicas

dezembro 26, 2011

Fui renovar minha CNH achando que, nesses tempos de internet e poupatempos, seria uma grande moleza. E acabei descobrindo que a profissão mais necessária no Brasil é a de despachante. Deveria até existir um curso profissionalizante no Senac. “Sem despachante, o Brasil não anda”, o despachante é mais necessário que a Kombi.

Fui a um CFC (aka autoescola) para fazer o “curso” de direção defensiva (uma prova), pois eu fui habilitado em 1983 e o Estado descobriu agora que, durante todo esse tempo, eu fui um psicopata do volante. Tudo bem, regras são regras. Mas o moço da autoescola disse que o ~sistema~ mudou (bem na minha vez, claro) e eu teria que agendar uma “coleta biométrica” (tocar piano eletrônico) no Detran. “É que tinha muita fraude, os caras dos CFCs tiravam molde de silicone da mão dos candidatos e faziam a prova por eles”. Brasil, sem limites para a falcatrua (e os burocratas vão ao delírio).

Frustrado, voltei para casa e entrei no site do Detran pra agendar a tal coleta biométrica (e ver todos os procedimentos necessários para a renovação). Lendo a portaria que disciplina o assunto e lembrando de muitas desventuras nos balcões de atendimento, cheguei a algumas conclusões sobre repartições públicas e normas em geral:

1 – Toda boa norma deve ter uma regra simples e 3 milhões de exceções complicadíssimas; uma boa norma pública deve ser IMPOSSÍVEL de ser representada por um fluxograma;

2 – Na parte das exceções (99.99% do texto), uma boa norma contém, entre uma exigência e outra, dezenas de “E” e “OU”, aleatoria e estrategicamente situadas para confundir o cidadão.

3 – Normas oferecem ao cidadão muitas opções, mas são escritas de forma a parecerem obrigações. Com isso, o pobre contribuinte fará inúmeras tarefas redundantes e/ou desnecessárias;

4 – O uso indiscriminado (e sorrateiro) de “DEVERÃO” e “PODERÃO” no texto (dica do @emendesjf, obg) também surte efeito altamente complicador na cabecinha da pessoa: se ela entender UM “deverão” como “poderão”, o objetivo será inapelavelmente frustrado; se entender o inverso, ela verá o diligente funcionário público, com ar de desdém, dizendo “pra que o sr. trouxe isso, nem precisava!”, atirando ao lixo toda papelada que você passou HORAS para conseguir;

5 – É de bom tom também usar a informática: faça o trouxa preencher quilométricos pré-cadastros via web: isso dá um ar de modernidade ao serviço público. IMPORTANTE: ENCHA o formulário de “códigos CAPTCHA” (um em cada bloco – quanto mais ilegíveis, mais seguros-), e deixe o coitado ir preenchendo cada bloco de dados SEM CORRIGIR os erros no final daquele bloco; quando ele chegar ao final do formulário, aponte TODOS os erros de uma vez, direcionando-o para o primeiro bloco e fazendo-o digitar NOVAMENTE todos os códigos captcha (mesmo que o erro esteja no último bloco).

6 – O “protocolo do pré-cadastro” deverá sempre ser impresso, para garantia. E o “número” de protocolo deverá ter, no mínimo, 36 caracteres hexadecimais e aleatórios (usar, por exemplo, o número do RG+data é coisa pra amadores e não dá ~segurança~ ao sistema).

6 – Claro que, quando o infeliz encostar a barriga no balcão, o servidor dará a ele OUTRO cadastro idêntico, só que de papel (pra ficar ~documentado no processo~).

7 – Agendamento via web é a bolsa Louis Vuitton do serviço público: toda repartição chique deve ter. Mas o bravo servidor não precisa se preocupar em cumprir o horário marcado (afinal há muito serviço e pouca gente pra fazê-lo). E é CLARO que o contribuinte não pode atrasar UM minuto sequer, pois será punido com a necessidade de “reagendar” um novo horário (que sempre terá uma “carência” de vários dias ÚTEIS para ser novamente efetuado);

8 – Exigem sempre mais documentos que o necessário; o que abunda, não prejudica. E “evita fraudes”.

9 – O bom servidor público sempre usará seu “poder discricionário” para interpretar a norma como bem lhe aprouver (geralmente, para negar o atendimento). Não raro, existem 384 interpretações diversas sobre um mesmo tema, e o sucesso depende do cidadão ter a sorte de ser atendido por um funcionário que concorde com ele na interpretação da portaria.

10 – Painéis eletrônicos e papeletas de senha são a coqueluche do momento na administração pública: o importante é deixar o dispensador de papeletas no local mais improvável possível. Deve também ser criado um tipo de senha para cada sub-sub-tipo de serviço (a probabilidade do caboclo pegar a senha errada aumenta consideravelmente). Também é legal colocar um painel para cada tipo de senha, pois aí o infeliz fica olhando no painel errado e a vez dele nunca chega. Quando ele vai reclamar da demora, o servidor só diz “o sr. é que não prestou atenção, já chamaram seu número faz tempo!”

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PS.: No ano que vem, vou ver se invento um manual de sobrevivência nas repartições públicas.

Feliz 2012 a todos.


Louca Academia sem Polícia

novembro 4, 2011

Este texto estava no rascunho do blog desde quando houve o homicídio do rapaz da FEA, eu não tive coragem de publicar. Com a ocupação da FFLCH em protesto contra a presença da PM, resgatei.

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Semana passada morreu um estudante de Ciências Atuariais da FEA/USP, assassinado dentro do campus quando ia pegar seu carro no estacionamento. Com isso, reabriram um velho debate: como efetuar policiamento ostensivo/preventivo na USP, se a universidade não curte a presença da PM por lá?

Quem me acompanha nas redes sociais sabe o que eu penso a respeito, e sabe também que muita gente (100% deles do meio acadêmico) veio oferecer o contraponto às minhas opiniões, dizendo que “Polícia e Universidade não combinam”, que a PM “não entende de manifestação cultural/política e vai chegar dando porrada”, “PM é sinônimo de repressão”…

Como diz a receita culinária, separe isto e reserve. Foi só um gancho para entrar em outra seara: para que serve a USP? A quem serve a USP? Quem toma conta da USP? Como funciona a tal “autonomia universitária”?

Claro que, quando eu digo “USP”, refiro-me às universidades públicas. No final dos 1970 e começo dos 1980, era comum ver em qualquer manifestação no Brasil a faixa “MAIS VERBAS PARA A EDUCAÇÃO” (eu vi até em estádio de futebol, e o portador saiu acariciado pelos PMs do Choque).

Pois bem: as “mais verbas” chegaram. Não sei se na medida dos anseios da comunidade universitária, mesmo porque verba pública é igual a encher pneu furado: quanto mais se põe, mais falta pra se obter a pressão ideal. E, evidentemente, as tais “mais verbas” chegaram na ponta final (a universidade), haja vista a situação precaríssima do ensino básico no Brasil. E, pra ser bem sincero, não creio que os portadores daquelas antigas faixas de protesto estivessem lá muito preocupados com o dinheiro para a escola de ensino fundamental da periferia.

A universidade pública coloca gente no governo? Sim, mas na cúpula do governo. Deveria colocar na base, e isso não faz (e, a continuar assim, nunca fará). Formandos em pedagogia pela USP, por exemplo, deveriam ser obrigados a, ao final do curso, prestar serviços em sala de aula da escola pública por, pelo menos, o tempo que levaram na sua formação acadêmica. Mas quem está ralando como professor I da rede estadual é o formado na UNIBAN, que mal sabe pra ele. O formando em pedagogia da USP vai para a escola privada, que paga mais, ou entra no chamado ciclo eterno: faz pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, publica, publica, publica, faz concurso e vira professor da USP, dá umas aulas, faz conchavos, arruma uma boquinha no Departamento e cabô, tá aposentado.

Nos dois caminhos acima (ir pra iniciativa privada ou virar estudante profissional – isto vale para quase todas as carreiras), temos dois movimentos: 1) ou a universidade pública alimenta o setor privado, ou 2) a universidade pública cria um sistema hermético de proteção aos integrantes da própria academia. Quem tá dentro, não sai; quem tá fora, não entra.

E a sociedade, que é quem sustenta a universidade pública, o que ganha com isso? Muito pouco. E ela precisa de pessoas capazes compondo a máquina do Estado. Não lá nos primeiros três escalões, mas aqui embaixo. O problema do Estado brasileiro está na base, não no topo. Um gênio comandando uma cambada de idiotas não resolve nada.

Voltemos ao reservado lá de cima: toda e qualquer ação que vise a controlar ou fiscalizar a atividade universitária ou o seu funcionamento é prontamente rechaçada pela comunidade acadêmica, sob os argumentos mais criativos (alguns até válidos, reconheço).

A Cidade Universitária quer ser uma bolha, um ente autônomo, quase uma Embaixada do Reino da Sapiência no Brasil. Não é da conta de ninguém saber ou cobrar o que ocorre por lá: como são utilizados os recursos, em que a sociedade brasileira está sendo beneficiada com a produção científica, qual é a produção científica…  tudo em nome da autonomia universitária. A universidade não gosta de ser vigiada. Nem pela polícia, nem pela sociedade.

Não se metam com a USP. Mesmo em caso de assassinato. Se a coisa apertar muito, eles criam uma polícia própria, um judiciário próprio, um cemitério próprio…


O câncer de Lula e a miopia dos neopseudodefensores do SUS

outubro 31, 2011

A imprensa noticiou que o ex-Presidente Lula tem um câncer na laringe. Esse anúncio gerou, nas internets da vida, três reações: uma parte das pessoas ficou triste e demonstrou sua solidariedade (política, humana ou rodrigueana, tanto faz); outra parte mandou um “bem feito, desgraçado!”; e uma terceira leva (os que se julgam politizados) iniciou uma campanha exigindo que ele fosse se tratar no SUS, pra sentir na pele o que sentem os brasileiros sem plano de saúde. Deixemos os dois primeiros grupos de lado. O primeiro, pela obviedade da reação; o segundo, pela anencefalia que os acomete.

Os que se manisfestaram exigindo nas redes sociais que Lula fosse se tratar no SUS, esses, sim, preocupam. Preocupam porque julgam estar interferindo politicamente nos destinos da nação, mas suas atitudes atabalhoadas e infantilóides só pioram as coisas. Mas isso é tema para outro dia.

Muitos identificaram na exigência insólita feita a Lula um ódio de classe, já que nunca se exigiu isso de inúmeras autoridades abastadas que, adoecidas, recorrem ao serviço privado de saúde. E nem é preciso ir muito longe para constatar isso, já que o VICE do Lula passou um tempão no caríssimo Hospital Sírio Libanês e, morto, foi tratado como herói nacional. Por que só Lula?

Eu respeito essa tese, mas ofereço outra forma de ver a coisa (mesmo porque Lula já mudou de classe faz tempo): existe um ressentimento político contra Lula. E, a meu ver, injustificado.

Como a história de vida de Lula é diferente das histórias de todos que o antecederam (e parecida com a da maioria da população brasileira), o povo viu na ascensão dele ao poder a chance de tudo mudar por aqui. Só que, obviamente, não mudou. Por conta disto, o ex-presidente (e CANSEI de ouvir isso) seria um traidor do movimento. Aos traidores, você bem sabe, o esquartejamento em praça pública é a pena.

Mas vejam só o paradoxo: por que Lula mudou e “traiu o movimento”? Porque VOCÊ MANDOU ele mudar! Ééé, você mesmo que postou no facebook que ele deveria se tratar no SUS, sabia? Não? Explico.

Em 1989, você elegeu Collor contra Lula porque o 1º era “caçador de marajás” e o 2º era um “agitador badernista greveiro barbudo comunista que ia dividir sua casa própria com os sem-teto”. Só que Lula e o PT, à época, estavam muito mais sintonizados com o que você HOJE considera o “movimento traído”. Você não o quis.

Em 1994, a mesma história. E novamente não foi dada a Lula a chance de “mudar tudo”. Preferiram FHC (e até com certa razão, a coisa parecia que ia engrenar, e o PT não oferecia nada mais atraente do que o já rejeitado em 89). Em 1998, cansado de apanhar e sem saber o que fazer, o PT se mostrou mais indeciso que mulher em loja de roupa. Outra sova no PT/Lula.

Aí o segundo governo FHC te deixou bem puto da vida, lembra? E você, de saco cheio, pediu pra oposição um projeto de mudar tudo, pero no mucho.

O PT entendeu bem a parte do “pero no mucho“, e escreveu uma cartinha de amor aos brasileiros, garantindo que tudo iria mudar, sem traumas ou revoluções. O velho e bom “fique rico grátis”, ou “vá pro céu sem morrer”, o esporte mais adorado pelos brasileiros.

E o Lula aparou a barba, passou falar mais corretamente, usar ternos chiques e, principalmente, apertou a mão e abraçou gente que, num passado nem um pouco distante, ele havia chamado de “300 picaretas”. Barganhou, ofereceu posições e garantiu que nada mudaria na vida deles, os picaretas.  E você, tão politizado, não percebeu que, para mudar tudo sem mudar o principal, o caminho é mais longo e penoso. E pode-se nunca chegar ao destino.

Agora, sem todas as mudanças que você gostaria que ocorressem sem o ônus da ruptura, acreditando numa terceira via que nunca existiu, você fica bravo com o Lula e quer se vingar dele. Age como o cara que propõe à esposa participar de swing e, no meio da brincadeira, reclama que ela está gozando mais com um desconhecido recém-conhecido do que contigo.

Lula mudou? Sim. Lula traiu ideais históricos do PT? Sim. Mas fez tudo isso à sua ordem, cidadão-de-bem, ou não teria chegado lá em 2002. Portanto, dê a quem foi tão subserviente à sua vontade o direito de usar o mesmo hospital que você usa ou usaria. Porque, certamente, o PT de 1989 (aquele que você escorraçou) era bem mais preocupado com a melhora da saúde pública. E, cá entre nós, você também nunca deu muita bola para o assunto, já que resolveu o seu problema comprando um plano de saúde de uma empresa que, certamente, faz generosas contribuições para a campanha dos políticos (Lula e o PT, inclusive). E aí fica difícil dar aquela vontade neles de melhorar a saúde, né?


A FIFA enganou o Brasil? Não, porque a regra é clara.

outubro 21, 2011

É bem forte o barulho contra as exigências da FIFA para a realização da Copa no Brasil. Estão falando que o governo está abrindo mão da soberania nacional, atropelando direitos conquistados a duras penas… É, talvez estejam mesmo, mas quem se candidatou a sede da Copa-2014 sabia que isso talvez fosse necessário. Se não sabia, deveria saber. Se sabia e não contou ao povo, sinto muito. Agora a bola já está rolando.

A Copa do Mundo FIFA é um evento privado, uma espécie de circo que fica parado em Zurique e, a cada quatro anos, viaja por um mês para fazer uma turnê no país que pagar melhor a ela. Por “pagamento”, entenda-se ATENDER AOS REQUISITOS do famigerado “Caderno de Encargos FIFA” e realizar uma miríade de conchavos políticos que garantam a sua escolha como país-sede.

De 1986 para cá, o circo da FIFA vem ficando cada vez mais sofisticado e cheio de não-me-toques, toalhas de linho branco e garrafas de Möet Chandon a 8ºC no camarim, graças à exacerbação do conceito de futebol-empresa. A Copa é o espetáculo esportivo mais visto e mais caro do mundo, nada pode dar errado (segundo os parâmetros da dona do evento). Não se perca de vista que a dona da Copa é a FIFA, não o país-sede.

Tá, mas e daí?

E daí que a FIFA usa padrões do futebol europeu (Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra – não Grécia, Portugal ou Croácia) para formular seu conceito de “tudo certinho”. Então, ANTES de se meter a fazer Copa do Mundo, o candidato tem de ver como as coisas funcionam por lá, pra ver se AGUENTA a bagaça. Se não aguenta, nem se candidata. E por “aguentar”, entenda-se não ter de rasgar leis ou violar direitos e, claro, não quebrar o país ou enchê-lo de inutilidades (se você não tem dinheiro para desperdiçar com elas).

É absolutamente ingênuo achar que a FIFA vai “se adaptar” ao país-sede, por três razões muito simples:

1) existe UMA FILA de países querendo os jogos, muitos deles submetendo-se a qualquer coisa para tê-los;

2) existe OUTRA FILA de países querendo os jogos e que não precisam mover uma palha para “se adaptar” aos caprichos da entidade, pois os tais caprichos estão plenamente incorporados (os tais países-modelo da FIFA).

3) É a FIFA que aceita o país-sede, não o contrário.

Bem, mas você pode perguntar: “peraí, mas tem coisa que não estava no Caderno de Encargos e que estão exigindo agora, estão rasgando o contrato!”. CLARO que tinha, porque a tal brochura é um documento que deve ser seguido por todos os candidatos, não comportando especificidades do tipo “ingresso de aposentado não pode”, porque isso é uma jabuticaba.

Para a FIFA conseguir sua almejada qualidade HDMax no evento, ela nivela todos os países candidatos “por cima”, e exige de quem quer fazer o evento que suba se estiver embaixo. “Suba”, sempre é bom ressaltar, de acordo com os parâmetros dela, não os da sede. O objetivo da entidade é um só: seja na África do Sul, Inglaterra, Brasil ou Qatar, o cliente deve se sentir da mesma forma e os parceiros devem ter as mesmas regalias, senão o contrato dela fura e ela perde dinheiro.

A história recente mostra que, quando o país não é “modelo-FIFA”, depois que o circo vai embora a coisa fica bem feia: lixo pra todo lado, bosta do elefante branco espalhada pelo terreno e um monte de conta no espeto.

PS.: isso vale também para a Olimpíada, claro.


A Praça é Nossa!

setembro 15, 2011

Printei a página porque acho que o grupo deve ser trancado jájá.

Quando você pensa que já viu tudo, a humanidade volta a supreender (e este moribundo blog renasce).

Depois da gente diferenciada da Zona Sul e Central, cidadãos-de-bem-pagadores-de-impostos-que-contribuem-para-o-crescimento-do-país da Zona Oeste da Locomotiva do Brasil se unem, num gesto cívico, para salvar a nação da massa ignara e chupim que só faz sangrar valiosos recursos que poderiam ser aplicados em saúde, educação e SEGURANÇA.

O Hospital Panamericano, incrustrado nas ruas arborizadas e cheias de casas com 30 metros de frente do Alto de Pinheiros, realmente, era algo estranho. Afinal, naquela zona da cidade só tem edificações térreas, e ele era um predião de vários andares. Estranho, sim. Mas São Paulo é uma cidade estranha, e o Alto de Pinheiros é um bairro tão estranho quanto, pois seus habitantes precisam ir de carro à padaria, de tão isolado que é. O transporte público é uma peça de ficção, e os moradores já chegaram a pedir para que os escassos ônibus que atendem a região sejam transferidos para outras ruas mais distantes.

Nunca deu IBOPE aquele hospital privado, apesar da vizinhança abastada. Pertenceu a Intermédica São Camilo, passou para a SAMCIL. Era cheio dos plantonistas bolivianos, eu mesmo só estive lá uma ou duas vezes. Mas é um hospital pronto, um equipamento de boa qualidade, passível de ser encampado pelo poder público (um grande credor da SAMCIL). Fechou este ano, quando o dono do plano de saúde se matou no interior do hospital, atolado em dívidas.

Pois bem: esse grupo de preclaros moradores do entorno resolveu se mobilizar para pedir a DEMOLIÇÃO do nosocômio, com vistas a dar lugar a uma bucólica PRAÇA.

É, senhores: uma PRAÇA. Como ninguém é obrigado a saber a localização do Panamericano, vai um mapinha do google (abrilhantado com a minha conhecida habilidade no “paintbrush”):

Mais praças! Mais praças!

Como se depreende da imagem, se há uma coisa realmente necessária neste carente bairro é uma boa área de lazer para que seus moradores possam esquecer, ainda que por instantes, das vicissitudes da vida dura que levam. Vejam, cidadãos, há apenas SETE praças num raio de 200 metros do hospital. A mais ou menos um km. do local, o Parque Villa-Lobos. SÓ SETE praças (e um parque) para atender esse enorme contingente de desvalidos, onde vamos parar?

Chega de ironia e vamos ser claros: ninguém quer praça coisa nenhuma. Eles mal saem de casa a pé, apavorados com a “violência”.

O motivo é outro: aquele hospital era o tumor do Alto de Pinheiros, e a quebra da SAMCIL deu a chance que eles esperavam. Agora, fechado, imagina se aparece um louco e reabre o Panamericano como hospital PÚBLICO, ou transforma o prédio em outra edificação de uso comum. Babau.

Aliás, se pudessem, os moradores do Alto de Pinheiros erguiriam um muro em volta do bairro. Dissimuladamente, eles já tentam há anos (com relativo sucesso) impedir o trânsito de veículos fechando ruas para evitar que se desvie dos congestionamentos – com os quais eles contribuem regiamente pilotando suas frotas de SUVs – usando o viário alternativo.

Lamento, mas nenhuma iniciativa de moradores que conseguiram fechar uma ESCOLA PÚBLICA para uso como QG da Polícia Militar me espanta mais. Eles, quando querem, sabem por onde atacar e, geralmente, são bem sucedidos. Afinal, até o ex-governador José Serra faz parte do “Grupo Alto de Pinheiros Quer PAZ”.

PS.: se os moradores do Alto de Pinheiros querem botar abaixo um hospital que tem uns 50 anos, imagina se vão deixar uma LINHA DE METRÔ passar pela região.


Governo precisa gastar em propaganda?

junho 21, 2011

Há longínquos cinco anos, escrevi este texto. Não se trata, portanto de um posicionamento oportunista ou recente, mas ele voltou à minha cabeça ontem, quando eu li o documento dos autoproclamados blogueiros progressistas, que tem, no seu item “f”, a seguinte proposta para a “democratização da informação”:

f) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs. (o grifo NÃO é meu).

Pois é: os blogueiros progressistas querem dinheiro do governo para disseminar a informação pela internet. Muito justo. Afinal, o governo já gasta bilhões em propaganda com a Globo, Record, Folha de SP… Por que não destinar uma merrequinha para os “blogs sujos”, que são verdadeiros Dons Quixotes para levar a informação imparcial, corrigindo as distorções do malvado “PiG” (que, engraçado, também vive à custa do governo)?

Tá bom, chega de ironias bestas. O assunto é: você sabe quanto, onde e como o poder público gasta em propaganda? Fácil responder: muito, no lugar errado e da pior forma. O princípio constitucional da publicidade dos atos de governo é usado como desculpa para verdadeiras farras do boi, enriquecendo agências de propaganda e veículos (pequenos, médios e grandes). O dever de manter a população informada sobre o que o poder público está fazendo por nós foi substituído por peças publicitárias caríssimas que só servem para enaltecer QUEM está governando, muito embora exista também o princípio constitucional da impessoalidade na Administração Pública.

Sim, claro, eles não colocam o nomezinho deles no anúncio, mas, como você bem sabe, a propaganda é a arte de fazer coisas parecerem maiores, melhores e mais bonitas do que realmente são, com o objetivo de fazer o consumidor adquiri-las. E, se há uma coisa na qual não podemos ser ludibriados ou iludidos, esta é a administração do Estado e dos seus recursos. Sim, pois o dinheiro é nosso.

Não somos “consumidores” do governo A ou B, somos PARTE DELE. Portanto, as informações devem chegar a nós de forma clara, objetiva e até CHATA, de tão fria e transparente. Façamos uma analogia: imagine que o síndico do teu prédio resolva “informar” os condôminos não através de maçantes boletins de papel, mas por meio de um programa semanal que entraria nas TVs dos moradores via antena coletiva do prédio; para tanto, ele contrataria uma produtora de vídeo com o dinheiro do condomínio e ficaria lá, todo pimpão, dando uma de “Lula do prédio”. Certamente, seria decapitado na reunião de condomínio em que tivesse apresentado tal sandice, e sua cabeça seria colocada em uma bandeja na porta do apartamento dele.

Não há qualquer sentido em se gastar UM NÍQUEL em propaganda governamental, e desafio qualquer um (exceto os partidos políticos, é claro!) a tentar me convencer do contrário. Os atos de governo devem ser impessoais, transparentes e públicos, e SÓ. Não devem ser bonitos ou feios, grandes ou pequenos, de fulanos ou beltranos. Esses juízos de valor devem ser feitos pelas pessoas, sem qualquer tipo de induzimento por artifícios publicitários.

A “propaganda” da SABESP, por exemplo, é esta: o fulano abre a torneira, sai água; dá a descarga, os dejetos vão para a rede de esgoto, e de lá para tratamento. Só isso vai mostrar que a empresa está trabalhando direito. Não adianta patrocinar time de vôlei, peça de teatro, comprar 30seg. em rede nacional na Globo se as torneiras estão secas, ou se o cocô tá passeando na porta da casa do cidadão.

“Sim, mas tem também as campanhas de esclarecimento, de vacinação e tal…”. Verdade, tem sim. E daí? As TVs e rádios cobrem 100% do território nacional, são concessões públicas, e têm o DEVER LEGAL de ceder espaço para essas campanhas, e o DEVER MORAL de ceder equipamentos, produção, profissionais e insumos para produzir essas peças. Afinal, não são elas que vivem falando em “cidadania”? E, convenhamos, pra bolar um “Zé Gotinha” não precisa pagar nenhum Washington Olivetto.

Não há como lutar por uma imprensa independente e vigilante se esta mesma imprensa vive à custa de quem deveria denunciar. Como eu disse em outro texto, pode procurar UMA nota negativa sobre as Casas Bahia na imprensa, você nunca vai encontrar. Afinal, ela é o maior anunciante privado brasileiro.

Por tudo isso (e muito mais), me parece bastante claro que a blogosfera progressista, em vez de lutar contra esse sorvedouro abjeto de recursos públicos, prefere lutar para garantir seu lugar na festa.

Esta é uma briga muito grande, exige uma mobilização-monstro, mas que eu participaria com o maior prazer. E você, cidadão comum que quer ver o dinheiro público menos mal gasto, não toparia?


Cartolas, jogo sujo. E no jornalismo da Record, como é o jogo?

junho 16, 2011

A TV Record iniciou nesta segunda feira uma série de reportagens sobre os bastidores do futebol brasileiro, destacando os jornalistas Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna (que, nas horas vagas, atuam como blogueiros progressistas nesses links aí) para o trabalho.

Na primeira (capitaneada por LC Azenha), as VELHAS denúncias de sempre contra Ricardo Teixeira, exaustivamente apresentadas durante a falecida CPI da CBF-Nike e (que não se perca pela – falta de – memória) até pela ALIADÍSSIMA Rede Globo, em 2001. Enriquecimento meteórico, casa em Búzios, fazendas cinematográficas, dinheiro de propina via ISL, Lichtenstein, Juca Kfouri, Andrew Jennings e todo o resto. Novidade? Praticamente nenhuma. Mas a reportagem foi, do ponto de vista jornalístico, correta.

Na segunda, o escalado pelo Bispo Macedo foi Rodrigo Vianna, e a missão dada foi bater MUITO em Andrés Sanchez, presidente do Corinthians.

Antes de falar sobre a reportagem, uma digressão. O presidente do SCCP é um sujeito pelo qual nutro alguma simpatia. Não como dirigente, mas como figura humana: destrambelhado, falastrão, com tiradas inteligentes e irônicas, é o tipo de cara que eu gosto de ouvir no futebol. Ele me diverte. Também, parou por aí. Não compraria um carro usado dele, como também não compraria de qualquer dirigente de futebol, empresário e essa curriola toda.

Voltando: do ponto de vista da moralidade, todos os dirigentes merecem apanhar (inclusive Andrés, claro), mas há de se ver o método de surra. O futebol é das coisas mais sujas que existem. A série de reportagens visa atingir Teixeira por todos os lados possíveis: seja batendo diretamente nele, seja dando pauladas nos seus afins.

E o primeiro alvo-satélite do RT foi justamente o cara que destruiu de forma retumbante as pretensões da TV Record de tirar o futebol da telinha da Globo. Esse espinho estava entalado na garganta do Bispo. E com bispo não se brinca, eles têm procuração outorgada por Deus passada em cartório celeste.

Pois bem: lá foi o Vianna, todo serelepe, levantar a capivara do Andrés e fazer a matéria encomendada. Convenhamos que encontrar BO de dirigente de clube não é lá tão difícil. Mormente no Corinthians, onde a briga política é tão acirrada que a oposição nem liga se, para derrubar a situação, tiver de destruir o clube junto. É só parar na porta, ligar a câmera e já aparece um gaiato louco pra denunciar o inimigo.

Só que Rodrigo fez o caminho “certo” para alcançar Andrés, mas usou o veículo errado. Para descobrir as falcatruas do “Taxinha”, deveria falar com alguém da oposição, nada mais lógico. Mas ele resolveu abastecer seu arsenal destrutivo com um “conhecidíssimo” “jornalista” que atende pela alcunha de Paulinho do blog do Paulinho, apresentando-o ao mundo como “profundo conhecedor dos bastidores do SCCP”.

Ora, se há alguma coisa que Paulinho do blog do Paulinho conhece “profundamente” é a arte de escapar de Oficiais de Justiça, e SÓ. O rapaz, atualmente, cumpre pena de prisão domiciliar pelos crimes previstos nos artigos 138. 139 e 140 do Código Penal (conhecidos, no popular, por calúnia, injúria e difamação). Responde a outros inúmeros processos (inúmeros, MESMO, seu Vianna!), nas esferas cível e criminal, todos pelos chamados “delitos de opinião”. Não só contra dirigentes esportivos, mas por colegas seus de profissão, donos de faculdade, juízes de direito, advogados, empresários e gente que nem de futebol gosta.

Outra digressão: Se Juca Kfouri (e outros jornalistas famosos) fizeram um mal ao jornalismo, este foi jactarem-se de serem processados a torto e a direito, conferindo a esses processos um status de “atestado de idoneidade”, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Ser acionado judicialmente é risco do ofício de quem dá noticia que possa desagradar alguém, mas transformar a interpelação judicial numa confissão ficta do acusado da veracidade das denúncias beira o absurdo e, pior, joga contra toda a classe jornalística que, pelo exemplo dos medalhões, apura com menor esmero os fatos e assaca contra a honra alheia como quem vende pipocas na esquina, escudada pela “liberdade de expressão” (e por escritórios de advocacia regiamente pagos pelos veículos).

Paulinho do blog do Paulinho não é fonte, muito menos fonte confiável, Vianna. É um aventureiro do jornalismo e umbilicalmente ligado a Antonio Roque Citadini, adversário de Andrés. Duvida de mim? Levante da cadeira e vá a editoria de esportes da Record e pergunte ao setorista do SCCP sobre o rapaz. Pergunte ao Jorge Kajuru o que houve entre eles.

Mesmo assim, o experiente Rodrigo Vianna embasou quase a metade das denúncias contra Sanchez no depoimento pessoal do rapaz, e ainda ilustrou-a com um post do “Jornalismo com Credibilidade” (sim, é ele mesmo quem se atribui credibilidade!), no qual Paulinho afirma ter conhecido um tal Grego e visto diversos documentos comprometedores contra Sanchez (doravante chamado “Taxinha”).

Tanta gente no mundo cheia de ódio contra o Andres, e o Vianna bate na porta do PAULINHO? Por quê?

Tenho uma suspeita: para conferir à matéria um ar de isenção (pra quem não sabe quem é o figura, claro!), tipo “oh, estou aqui com um insuspeito JORNALISTA, nem é oposição, nem nada, viu?”. Tá, abraça.

Logo ele, Paulinho, o cara que:

- publicou que Andrés e Ronaldo estavam bêbados numa boate do RJ, na véspera do jogo CRF x SCCP que eliminou o Timão de mais uma Libertadores (tendo como “fonte” um e-mail anônimo e falso);

- assegurou a seus leitores que Adriano jogara pela Roma com a camisa 105 (em alusão ao Comando Vermelho) com base numa fotomontagem do Kibeloco;

- disse estar o mesmo Adriano com o “fígado em frangalhos” por cirrose hepática avançada;

- há uma semana, “informou” que o goleiro do Liverpool confessou ter sido subornado na final do Mundial de Clubes de 1981 contra o Flamengo (com base numa pegadinha de 2003 do ex-site-de-pegadinhas Cocadaboa);

- e, saindo do campo esportivo, é o mesmo Paulinho que DIVULGOU COMO VERDADEIRA a Ficha DOPS falsa da Dilma e não se retratou até hoje!

É essa a sua fonte, Rodrigo? Como conferir credibilidade a um cidadão capaz de produzir essas belezuras e nem ficar vermelho? E tem muito mais por aí, é só pesquisar.

Entendo que vale tudo para alcançar o objetivo de malhar o Andrés, tarefa dada é tarefa cumprida “e vice-versa”, mas e se o cipoal de denúncias que o Paulinho do blog do Paulinho te apresentou também for baseado em “fontes” como Kibeloco, Cocadaboa ou hoaxes de email, hein? Como é que fica a tua reputação, amigo? A da Rede Record, pouco importa. Eles não estão preocupados com isso, e não é a primeira vez que fazem esse tipo de “jornalismo-vendetta”.

E agora, o principal: em defesa de Vianna, recebi de uma Árvore do PSJ a informação que a produção da Record esteve em contato com o tal Grego e VIU os documentos comprometedores, mas que o referido cidadão não quis repassá-los ao jornalista. Ou melhor, até repassaria, desde que a Record pagasse por eles. A emissora se negou a comprar os papéis mas, como já tinham visto tudo mesmo (e o Paulinho! publicou), era certeza que era tudo quente.

Ei, PERAÍ, a coisa é MUITO pior, então! Que raio de jornalista é você, Vianna, que VÊ a falcatrua ali, escritinha na tua frente, NÃO BANCA SOZINHO a parada e ainda vai se fiar num cara altamente suspeito e desmoralizado por inúmeras denúncias falsas e tosqueiras inomináveis, colocando a matéria toda sob suspeição?

E olhe só como são as coisas, Rodrigo Vianna: enquanto sua produção afirma que o Grego é um escroque que vende documentos, o “jornalista com credibilidade” (ele mesmo, SUA FONTE) responde assim a um comentarista:

E aí, quem está falando a verdade?

1 – O Paulinho, que diz ser o Grego um ratinho assustado pelas ameaças da Máfia Russa;

2 – sua produção (que trata o cara como um mercenário); ou

3 – o Celso Freitas, que disse ao final da reportagem, com a voz empostada: “a TV Record ouviu o Grego, que não quis confirmar nem desmentir a matéria”? OPA, então a Record ouviu o Grego DEPOIS do Paulinho? A matéria já estava pronta? Paulinho do blog do Paulinho não era “elenco de apoio”, mas o pilar estrutural da reportagem, é isso? Explica pra mim, por favor.

Só posso recomendar ao Rodrigo Vianna que torça bastante pra não ter sido “induzido ao erro” pelo “periodista” que “não tem compromisso com o erro”, seja lá o que isto signifique.

Boa noite… e boa sorrrrte.


Esse papo de “Censura!” não é brinquedo, não!

junho 3, 2011

Funciona assim: abro o editor de texto do blog e saio escrevendo sobre o que eu quiser. Ninguém me impede de escrever e qualquer um pode ler. Não submeto previamente meu texto a nenhum órgão do governo ou pessoa. O nome disso é liberdade de expressão, e é o que temos hoje (como nunca antes neste país). Não precisa montar jornal, ganhar concessão de TV ou rádio. Vai lá, monta podcast, videolog, blog, site e recebe meia-dúzia ou 6 milhões de visitantes diários. E, a despeito de toda essa liberdade, está na moda como nunca gritar que foi, está sendo ou será censurado.

É muito triste pra quem viveu o tempo da censura ouvir isso hoje, principalmente de bocas libertárias, liberais ou libertinas, algumas inclusive que foram MESMO amordaçadas nos anos de chumbo, mas parecem ter se esquecido como era sinistra a parada.

Quando eu era moleque, ligava a TV e antes de TODOS os programas aparecia um papel datilografado na tela, escrito “Censura Federal”, com um locutor de voz tenebrosa ao fundo: “Este programa foi aprovado pela Censura Federal para ser exibido NEESTE horário”. Pra quem foi sortudo e não viu, era assim:

Uma vez eu perguntei pra minha mãe o que era aquilo, e ela me explicou: “tem uns caras que ganham pra assistir todos os programas antes de todo mundo e, se eles gostarem, batem esse papel aí e deixam a TV transmitir.”. Eu achei um baita emprego maneiro.

Isso, pra felicidade geral, não ocorre mais no Brasil. E já faz um bom tempo. Promulgamos uma Constituição em 1988, ela é bem bacana, tem um artigo 5º com trocentos incisos (78) e parágrafos, num capítulo denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. No inciso IV, está escrito assim:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

Logo abaixo, tem o inciso V:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

E aí começa a bagunça: tem gente que quer usar o direito conferido pelo Inciso IV sem os problemas que essa besta do inciso V prevê a quem passa da medida no direito de dizer o que pensa a respeito de outrem.

EPA, PERAÍ, mas não é livre a parada? Que medida é essa? Liberdade não tem limites!

Claro que tem, e aprendemos isso logo cedo: você pode andar livremente por aí, mas experimente entrar na casa de alguém sem ter sido autorizado. Se o dono não for com a tua cara (e for meio esquentadão), você será retirado aos tapas do recinto. E, convenhamos, ficaria meio esquisito você ficar no portão da casa dele alegando que seu “direito de ir e vir” foi violado, né?

Pois é, mas voltemos à tal da “Nova Censura”, e dois casos emblemáticos: o site “FAlha de São Paulo” (uma paródia ao jornal “Folha de São Paulo”) e a ameaça de processo do jornalista Marcelo Tas à blogueira Lola Aronovich. Um por vez.

No primeiro caso, o jornal paulistano ingressou com ação para retirar do ar o domínio do site e o layout da página, alegando violação de propriedade intelectual e dano à imagem. Acabou ocorrendo que saiu foi TUDO do ar (até o conteúdo), pois o site, como ocorre nas paródias, era totalmente calcado no original. Seria como se a Maria Bethânia ingressasse com uma ação contra o Didi Mocó por isto aqui:

Se a Bethania ganhasse, o Didi ia ter de tirar do quadro: a música, a peruca, os brincos, os colares e o vestido. Acabou a brincadeira. Seria censura?

Pra mim, não. Ninguém é obrigado a servir de escada pra ninguém. Ninguém é obrigado a rir de si mesmo ou aceitar que façam graça consigo, seja com bons ou maus propósitos. Não é crime ser mal-humorado ou não ter senso de humor (é só uma falha, mas ninguém é perfeito…). E, caso o cidadão entenda que a paródia é ofensiva, o judiciário está lá é pra isso mesmo: PROTEGER SEU DIREITO de não fazer parte do show alheio sem dar permissão para tal.

No caso da Lola, ela disse o que bem quis sobre o Marcelo Tas/CQC:  ”misógino”, “fascista” e o escambau, usando o direito garantido pelo inciso IV da CF. E, vejam, O POST ESTÁ LÁ até agora, e ela já  ESCREVEU OUTRO marretando mais ainda a cabeça do carequinha. E esse segundo post foi escrito DEPOIS que o Tas ameaçou usar o seu direito conferido pelo (maldito) inciso V (da MESMA CF que permitiu a Lola exercer seu direito de opinião). Se o post está lá, CADÊ A CENSURA? O pessoal me explica assim:

- argumento-padrão nº1: “ah, tudo bem, ele ATÉ tem direito, mas é HIPOCRISIA, porque quem se diz democrático e pluralista não age assim.”.

Queridos e queridas, incoerência não é hipocrisia, muito menos crime. Se fosse, muitos dos que cerram fileiras na cyberatividade estariam PRESOS hoje. Eu, inclusive. Quantas vezes defendemos coisas que nos parecem razoáveis à primeira vista, mas que, olhando BEM de perto e com calma, é uma grande cagada? Quantas vezes deixamos de nos colocar no lugar do outro em determinada situação e sentamos o cacete no comportamento dele, mas QUANDO ARDE NO NOSSO pelo mesmo motivo ficamos putos e queremos briga?

- argumento-padrão nº2: “o processo é uma forma de calar o réu pelo uso da força (da grana, dos bons advogados…), a justiça sempre julga a favor dos poderosos contra os oprimidos e não temos chance contra ‘o sistema’!”

Vamos tomar isso como verdade, muito embora eu esteja aqui rodeado de processos nos quais o patrão opressor sempre perde a causa para os empregados oprimidos, e é flagrante a diferença técnica entre os defensores das partes (os advogados dos patrões são muito melhores). É uma amostra viciada, reconheço. Mas mostra que nem todo juiz olha a conta bancária ou a fama das partes para decidir.

Deixando isso de lado, façamos a seguinte analogia: tem um cara tipo “armário 2×2″ falando um monte de besteira a seu respeito numa festa, e sendo aplaudido pelos ouvintes. Você, um mirradinho de 1m60 e 40 kg, puto com aquela situação, faz o quê? a) vai lá e mete o dedo na cara dele; b) deixa quieto e vai chorar em casa; c) chama uns 30 amigos teus e parte pra porrada.

Se você escolheu a), tá mais que na cara que vai apanhar feito boi ladrão e periga ser ridicularizado mais ainda pelos presentes. Se escolheu b),  julgou-se impotente e sofrerá as consequências da sua passividade. Se escolheu a c), pode obter algum sucesso (desde que seus amigos sejam bons de briga e a comprem).

E é isso que as pessoas não entendem nessa parada de liberdade de expressão: quer falar, FALE. Tá tudo liberado. Mas segura o BO depois, ok? Não vai lá meter o dedão na cara do maluco (mesmo que você tenha razão!) e achar que ele, segundo a SUA avaliação, tem o dever de aguentar calado. Se ele agir assim, será POR MERA LIBERALIDADE dele, entende? Ele não é obrigado, e nem estará sendo canalha ou censor por revidar contra algo que ele considerou ofensivo, por mais que você esteja certo. Lembre-se: se ele pensasse como você, vocês não estariam discutindo. E ele, tanto quanto você, tem liberdade de expressão. Se você interditar a dele, a sua morre junto.

No que diz respeito à “parcialidade” da Justiça, um dado estatístico: 100% das sentenças são injustas. Duvida? Saia entrevistando os perdedores das ações e comprovará o número. A gente sempre tem razão, pena que o nosso julgamento próprio nunca é levado em conta. Puta mundo injusto.

Portanto, se você quer expor opiniões fortes na internet, fortaleça-se também pra aguentar as porradas vindouras, sejam elas na forma do contraditório (eu prefiro, mas às vezes não é suficiente), ou na forma de se defender de um eventual processo na justiça. O primeiro tipo de porrada você deve aguentar (se não, nem entra pra brincar); contra o segundo tipo, mostre seu texto a um advogado antes de publicá-lo, ou conheça a lei e os limites da liberdade concedida. Ou vá pra cima deles com sua turma. Isto não é censura, é jogar conforme a regra do jogo. Não gosta da regra? Lute para mudar a regra, mas ANTES de começar a partida. Não com ela em andamento, que isso é coisa de criança que não sabe perder.

O uso do termo “censura” em situações nas quais o que está ocorrendo é apenas o direito de defesa ou resposta pode ter um efeito contrário à liberdade que conquistamos a duras penas. Vai que aparece um doido querendo impor o “jeito certo” de pensar ou agir, e ai de quem pensar diferente. Eu já vi este filme e não gostei.


E era uma piada?

abril 25, 2011

Marcelo Adnet é um dos bons humoristas da nova geração: versátil, inteligente, rápido, tem repertório e bagagem cultural. Comanda o “Comédia MTV” e deixou passar este episódio por baixo das pernas.

Em seu twitter, Adnet declara que já havia conseguido impedir que o quadro “Casa dos Autistas” fosse exibido no ano passado mas, desta vez, foi voto vencido. E eu, sinceramente, acredito nele. Não porque o ache o defensor dos oprimidos, minorias e do politicamente correto, mas porque acredito no seu senso de humor. Este esquete não tem graça NENHUMA. Esse é o ponto. Causa qualquer reação, menos vontade de rir.

Tento imaginar o caminho que levou a um desastre humorístico desta monta: um JÊNIO fez o trocadalho do carilho, achou engraçado. O difícil seria transformar uma idéia tão besta em um quadro.

Difícil, não: era impossível. Mas sempre há alguém burro e teimoso o suficiente para forçar a concretização da sua “idéia”. Como muitos quadros, este acabou sendo gravado, mas não foi selecionado para exibição e ficou na prateleira. Um belo dia, não surgia nada na cabeça dos produtores para preencher o programa e o JÊNIO lembrou-se do seu JENIAL quadro engavetado, propondo novamente a sua exibição. E foi aceito, por falta de opção. E HAJA falta de opção para tamanha imbecilidade ser exibida.

Pessoas em situações não-convencionais ou de infortúnio sempre foram utilizadas como tema de programas humorísticos, mas existe um componente importantíssimo para que isso seja, eventualmente, engraçado: o infortúnio deve ser PONTUAL, não habitual (não pode fazer parte do cotidiano do caricaturado). Nego ri de videocassetada porque sabe que aquilo ocorreu EXCEPCIONALMENTE com o infeliz. Afinal, pessoas que tomam tombos de 5 em 5 minutos não são engraçadas, causam pena. Dá vontade de ajudar o cidadão, não de rir dele.

Alguém acha engraçado ver um cadeirante com dificuldade de locomoção em uma calçada esburacada? Por que cargas d’água o imbecil que idealizou o vídeo acharia que alguém veria graça em repetir comportamentos estereotipados de autistas?

Acredito também que os familiares de autistas podem ficar tranquilos, pois o quadro não teve nenhum impacto negativo sobre a visão da sociedade com relação ao problema. Repito, NINGUÉM achou graça, pois NÃO TEM graça. Mesmo pessoas insensíveis a qualquer causa não riram de um espetáculo tão deprimente.

No final das contas (e à revelia do autor), a idiotice pode ter servido para sensibilizar as pessoas sobre o autismo e as dificuldades dos que cuidam deles. E Adnet deveria demitir o inventor deste quadro. Não por punição pelo desrespeito com os autistas, mas para o bem do próprio programa. É um perigo manter um zé-graça tão sem-graça na equipe de criação.


Admiração, inveja, plágio e quebra-quebra no botequim Twitter

abril 21, 2011

Foi um bafafá nas redes sociais nos últimos dois dias, mas agora passou (como todos os bafafás na internet): dois textos da Leonor Macedo publicados no blog Eneaotil (Revista TPM) apareceram “remixados” no blog da Gabriela Yamada, editora de Cidades da EPTV Ribeirão Preto/Globo.

Esse é um problema cada vez mais recorrente, desde o advento do ctrl-c-v: a cópia de textos (ou trechos) na internet, sem indicar a fonte ou, em casos mais carudos, atribuindo-se a autoria.  Como a rede é grande, nego acha que ninguém vai ver se ele der uma roubadinha de leve. É um crime fácil de executar, e parece difícil de se descobrir. E é óbvio que não é, basta pegar um trecho do texto e dar um google. Se você for um sujeito cheio de amigos nas redes sociais, então, mais fácil ainda: sempre haverá um conhecido que, indo de lá pra cá, acaba trombando com o plágio e vai te avisar.

No caso em questão, foi isso que aconteceu: a Leonor é uma blogueira conhecida, alguém deu de cara com o texto no blog da Gabriela e a avisou. A Leonor, CLARO, não gostou e gritou pro povo no twitter. Mas antes de entrarmos no quesito  “histeria tuiterística e linchamento virtual” (que a Camilla Lopes levantou hoje, depois do vendaval, e o Maurício Savarese levantou no meio da confusão, mas partindo de uma premissa equivocada, a meu ver), falemos sobre o plágio.

Quando uma pessoa faz algo, mais que eventuais recompensas materiais, quer ver o seu trabalho RECONHECIDO pelas pessoas. Nem vem querer dar uma de “tô nem aí”, porque ninguém cai nessa. Quem se expõe deseja, em primeiro lugar, a glória, o aplauso, o elogio. E o plágio irrita o autor original porque o plagiador rouba não só a obra, mas o aplauso que seria dele. A gente canta no chuveiro por diversão e canta no palco pra ser aplaudido.

Gabriela Yamada escreveu os posts em janeiro/2011; a Leonor em outubro/2010. Gabriela leu o texto da Lelê e se emocionou, se viu no texto, deixou até comentário! Sentiu aquela coisa que eu já senti muitas vezes: “putaqueopariu, por que eu não escrevi esta porra antes dela?”. É compreensível e humano, chamam de admiração que causa inveja. Até aí, tudo normal.

Só que, se eu não escrevi foi porque não fui capaz, não saquei, tanto faz. Perdi o bonde. Nunca senti a menor vontade de pegar uma obra que tanto admirei e fazer uma igual pra chamar de minha e mostrar pros amigos como eu sou foda.

Quando a pessoa faz isso, é desonesto com quem foi surrupiado e, pior, desonesto com ela própria, pois as pessoas verão a obra e dirão: “cara, você é sensacional! Maravilhoso! Lindo, tesão, bonito e gostosão!”. É o estado-da-arte do auto-engano! Você sabe que é um bosta, ladrãozinho barato de idéias e loas alheias. Por isso, de todos os tuítes meus a respeito da confusão, destaco este:

Agora, o linchamento/histeria na rede: a estratégia de defesa possível no caso de você ser pego em flagrante cometendo um crime utiliza vários instrumentos e artifícios, MENOS UM: negar o fato criminoso flagrado. Você pode demonstrar arrependimento, buscar excludentes de ilicitude, atenuantes, etc. Ou, se vê que vai em cana mesmo, sem colher de chá, só te resta fugir. Se der.

Quando estourou o rolo, Leonor usou o twitter para chamar a atenção da Gabriela, mencionando-a. IMEDIATAMENTE (é, caixa alta mesmo), a Yamada tomou três atitudes: 1) tirou todo o blog do ar; 2) “trancou” o twitter dela; 3) ignorou solenemente a queixa da Leonor.

A segunda atitude eu até entendo, porque foi uma enxurrada de gente partindo pra cima dela. E isso, sinto muito, é incontrolável no twitter: a rede funciona como se fora um grande botequim de periferia: todo mundo conversando animadamente, jogando dominó e tal, até que sai uma garrafada numa mesa. Daí, amigo, sai de baixo que voa cadeira, mesa, copo, facada e tiro. Nego toma partido do amigo sem saber nem se ele foi o responsável pela treta.

Mas a primeira e, principalmente, a terceira, deixaram claro que a Gabriela SABIA que tinha feito merda. Viu que foi pega com a boca na botija e fugiu. E quem foge de briga de boteco acaba sendo perseguido na rua até por quem nem estava dentro do bar.

Não conheço pessoalmente a Lelê, mas o twitter acaba conferindo boas dicas sobre a índole das pessoas. Ela é da paz, não é barraqueira, é bem-humorada e inteligente. Mas tem quatro mil e poucos amigos no twitter que, eventualmente, podem ser barraqueiros, mal-humorados e da guerra. E, na minha opinião, alguns desses amigos acabaram influenciando negativamente no desfecho pacífico do caso. Apareceu advogado (real, não virtual) oferecendo serviço, investigadores de polícia (esses, virtuais – eu incluído, haha) e muita gente pra xingar a moça, dentre vários que estão na internet só pelo prazer de agredir virtualmente sem o ônus de receber um revide real.

Em desfavor da moça Gabriela (e nisso concordo com o Sava), pra piorar o que já estava feio, o fato de ser funcionária da Globo. Aí apareceram os interessados não em defender a Leonor, mas em bater na emissora (usando a Lelê como marreta e a cabeça da Gabriela como bigorna).

Talvez o melhor para a Gabriela fosse não ter fugido, evitando a horda correndo atrás dela com paus, pedras e picaretas. Quando um bandido é pego pela população enfurecida, tudo o que ele quer ver na sua frente é um camburão de polícia quentinho e aconchegante, que o leve a um delegado que ouça suas razões para ter cometido o crime.

Hoje Gabriela, a ré, deu o seu depoimento à “Delegacia da Internet”. A vítima, Leonor, também deu o seu. Leiam e façam seu julgamento pessoal.

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ATENÇÃO: muito embora plágio seja realmente crime contra a propriedade intelectual, os termos policialescos usados neste post estão em sentido figurado.


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