Foi surpreendente a entrevista do governador de SP, Cláudio Lembo, à Folha e, posteriormente, ao Terra Magazine. Afinal, o discurso de Lembo cairia melhor num político de esquerda, não do PFL. Algumas considerações devem ser feitas: Lembo é elite, é fato. Mas é reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Os americanos (principalmente os protestantes) têm uma consciência social muito mais apurada, ou seja, já perceberam há séculos que ganhar dinheiro é muito bom, mas não deixar a desigualdade ficar muito acentuada garante a paz, o bom convívio e, principalmente, mais lucros.
Comentários irados de pessoas que nem têm tanto dinheiro assim bombardearam o pobre Sr. Burns, que caiu de pára-quedas no campo minado pela desastrosa administração tucana no estado de SP. Bem em cima da mina mais explosiva de todas, a da segurança pública. Voltemos à bolsa.
Os (poucos) ricos brasileiros talvez constituam o que há de mais abjeto na espécie humana. Este é um país com indicadores econômicos de primeiro mundo e sociais de quarto. Os ricos adoram dizer “sou cidadão, pago meus impostos, gero empregos e contribuo para o desenvolvimento do país”. Pois bem, vamos destruir estes mitos hipócritas:
1- “Sou cidadão”: ser cidadão pressupõe muito mais do que ter um CIC, RG, título de eleitor e nome limpo na praça; cidadania significa contribuir para o bem comum, através de ações que façam a coisa funcionar para todos. Se você, elite, é daqueles que não se importam em cometer infrações de trânsito – tenho dinheiro para pagar multas e a pontuação eu apago via suborno – , costuma agir à base de “carteiradas”, do “sabe com quem está falando”, se não instrui o seu serviçal a catar o cocô do seu cachorro, seu conceito de cidadania é, digamos, um tanto distorcido…
2- “Pago meus impostos”: Paga mesmo? Gozado, diversos estudos mostram que a carga tributária no Brasil é das mais injustas do mundo, pois, proporcionalmente, os pobres e a classe média pagam muito mais imposto que os ricos. Você paga somente o imposto que quer pagar.
3- “Gero empregos”: Você gera é uma legião de pessoas que trocam sua dignidade, quando muito, por comida, roupas e moradia precária. Duvida? Visite a casa dos seus serviçais, abra seus armários, passe um fim de semana com eles.
4- “Contribuo para o desenvolvimento do país”: É mesmo? Então porque o país não se desenvolve? Deve ser culpa dos pobres “que procriam feito baratas”, como disse a intelectual Ingrid. Deve ser culpa do governo, que você elegeu, injetando dinheiro e colhendo benesses.
Para não ser interpretado como crítico de palavras vazias, faço propostas aos ricos e poderosos para que a situação, pelo menos no raio de ação deles, melhore:
1- Seja cidadão: respeite as leis, não as discuta. Conviva de maneira harmoniosa com todos, trate todos de igual para igual. Não discrimine as pessoas. Não se ache mais importante que ninguém, olhe para si e veja que as moléculas, tecidos e órgãos de seu corpo são iguais às dos outros, e que terão o mesmo fim; coloque-se no lugar do outro, não tente levar vantagem em tudo (Vila Rica já não existe mais);
2- Pague impostos: o governo é corrupto? não vê onde seu dinheiro é aplicado? Cobre, fiscalize, mas PAGUE SEUS IMPOSTOS! Dispense aquele monte de “consultores e engenheiros tributários” da sua empresa. Crie uma “alíquota própria”, um imposto que você mesmo gerencia para aplicar nos pobres próximos a você. Seja um “governinho”. Sabe aquele carro de 500 mil que você ia comprar? Compre um de 250 mil (ainda seria um puta carro), e com o troco construa 10 casas. Aquele vestido da Daslu, que custa 10 mil? Compre um de 5 mil (um puta vestido), e invista a diferença em 200 uniformes escolares.
3- Gere empregos: o tempo da escravidão já deveria ter passado, mas ainda não se foi. Só vocês podem mudar essa situação, já que são os donos dos postos de trabalho. Paguem salários dignos, eduquem seus funcionários. Em vez de aceitar (sub)contratar um policial como segurança nas folgas dele, pagando 1000 reais/mês, ofereça a ele a oportunidade de se desligar da polícia recebendo, por sugestão, 4000 reais. Estará dobrando o salário e tendo-o disposto e alerta em tempo integral. Aquele jardineiro burro que não corta a grama na medida desejada pode ser encaminhado a um curso de jardinagem, e, de quebra, a uma palestra sobre planejamento familiar, para que não fique “procriando feito baratas”.
4- Contribua para o desenvolvimento do país: Se só você cresce, o PIB aumenta, mas o país não se desenvolve. Pense na acromegalia, uma doença onde uma pessoa tem suas extremidades crescendo desproporcionalmente ao resto do corpo: o queixo cresce, mas o rosto não. As mãos aumentam, mas os braços não. É bonito isso (salve, Lilico)? O país só vai crescer se todos os cidadãos crescerem. Isso é desenvolvimento: crescimento harmônico e constante.
Pra arrematar, uma frase para você, elite, repetir todos os dias ao acordar:
“Ele é pobre, eu sou rico, mas as bactérias não fizeram faculdade de economia”.