Pela primeira vez, ousei comentar no blog do Seo Cruz. O tema do post é surrado, fala sobre arrogância, apatia e falta de compromisso da torcida do meu time, comparando-se com o dele e do Cláudio. Eu até já escrevi aqui um texto bem porco (no sentido de “sujo”, CRUZ!) sobre o assunto.
A tese defendida pelo CLÁUDIO e pelo CRUZ é a seguinte: corinthianos e palmeirenses são torcedores “de verdade”, e os sãopaulinos são “torcedores-fake”. Mais do que isso: o SPFC seria, ele todo, um grande embuste futebolístico, mais assemelhando-se a uma desapaixonante franquia da NBA. Simplificando: SCCP e SEP são times, SPFC é “bizines” puro. E, como no mundo do “bizines” a sujeira campeia, praticamente todas as conquistas tricolores seriam maculadas por “tenebrosas transações”. Ponto a ponto, vamos tentar rebater:
O SPFC, dos grandes clubes brasileiros, foi o último a ser fundado, na forma pela qual existe hoje. Sim, ele é a fusão de outros clubes, mas nada pode assegurar que as torcidas deles (se é que as havia em grande número) migraram automaticamente para o novo clube. Suponhamos, então, que o SPFC de 1935 fosse uma espécie de São Caetano ou Paraná Clube. Nasceu de chocadeira, 25 anos depois dos rivais. Estes, por sua vez, contavam com torcidas apaixonadas, arregimentadas num tempo de semi-amadorismo, estádios precários e atletas que, após o jogo, saíam pra tomar umas com os fãs. Devia ser uma época linda, mas EU não a vivi. Nem o CRUZ, nem o CLÁUDIO. E nem a minha mãe, a pessoa que me ensinou a gostar de futebol (meu pai morreu quando eu tinha nove anos).
Tradição é algo que se passa de pai para filho. Meu avô era sãopaulino fanático, mas teve dois filhos corinthianos e dois tricolores. Foi incompetente para passar a tradição a 50% da sua prole. Minha mãe, zelosa, teve 100% de sucesso com seus três rebentos. E EU mandei bem e ensinei o “bom caminho” a todos os meus dois filhos, que o seguem. Mas voltemos lá para 1935.
Se o SPFC não tinha torcida, e os dois rivais tinham, como hoje temos tantos torcedores (depois entramos no mérito da “torcida verdadeira”)?
1 – os corinthianos e palmeirenses não souberam perpetuar a tradição entre seus descendentes;
2 - futebol é uma diversão em que a graça está em vencer, e não é divertido torcer por um time que acumula derrotas. Taí a Portuguesa pra não me deixar mentir. Algumas pessoas escolhem seus times por conta dos resultados alcançados;
3 – A soma dos dois fatores acima.
Tomemos como exemplo clássico um time que, até o surgimento de um extraterrestre para vestir sua camisa, tinha como rivais o Jabaquara e a Portuguesa Santista. Passou quase vinte anos aplicando surras homéricas nos grandes da capital e encantando o mundo. Passou de clubinho de cidade média para o rol dos maiores do Brasil. Pais sãopaulinos, palmeirenses e corinthianos se descabelaram com filhos “convertidos” ao SFC. Faltou aí a “mão pesada” do pai apaixonado. E afirmo, sem medo de errar: a maior baixa ocorreu na torcida alvinegra, seguida pela tricolor. Sim, porque os palmeirenses ainda comeram umas migalhas deixadas pelos praianos nesse período, enquanto o SCCP e o SPFC armavam times pífios. Nesse período, auxiliados pelo extraterrestre, faturamos três copas do mundo, e todo mundo começou se interessar por futebol. Neste ponto da história, entram CRUZ, CLÁUDIO e EU. Nascemos por aqui.
Com o fim da carreira do extraterrestre, os três grandes de São Paulo voltaram a reinar. O primeiro tricolor que eu vi jogar tinha Gérson, Pedro Rocha, Forlan, Roberto Dias, Terto, Toninho e Paraná. Um time do caralho, temido por todos. E a torcida? Pequena, em comparação com os outros dois do trio de ferro. Mas, façam as contas: se saiu do zero em 1935, ganhou corpo até 1957, e, a partir daí, perdeu adeptos pela “fila do Morumbi”, mais a chegada do extraterrestre, como poderia ser grande? Não dá uma geração completa! Não dava tempo de nascer um filho sãopaulino nesses dois lapsos temporais. Portanto, o ato de ser tricolor começou a crescer em 1970, quando os primeiros palestrinos e corinthianos já eram “nonos”, ostentavam robustas proles, netos e até bisnetos.
Os “novos tricolores” seriam, a partir de então, e embalados pelas conquistas (como ocorrera com o SFC tempos atrás – e a esse ninguém chamou de “modinha”- ), os imigrantes nordestinos (que chegavam aos montes em SP), os “filhos tradicionais” (remanescentes da geração 1935/1969 que não desertou) e… os filhos de corinthianos, palmeirenses e santistas que viriam a nascer depois de 1970 e viraram casaca (ou estavam sem nenhuma e vestiram a do vencedor).
Depois dessa longa explanação, ficam as perguntas:
1 – cadê os pais dessas crianças, nascidas de famílias alviverdes e alvinegras, verdadeiros “menores abandonados”, capturados pelo Tricolor campeão paulista de 1970/71/75/80/81/85/87/89, brasileiro de 77/86, vice paulista de 72/73/78/82/83, vice brasileiro de 81/89/90?
2 – aos que dizem haver uma “conspiração midiática” para expor o SPFC favoravelmente e influenciar a opinião pública, expliquem-me: como pode a imprensa esconder, ignorar ou esculachar um clube que, em vinte anos, só não foi o primeiro ou segundo em seis?
3 – Como impedir que as pessoas, diante disso, não se encantem e passem a torcer para o SPFC, da mesma forma que milhões viraram santistas na década de 1960?
4 – Qual a diferença entre uma tradição de 100 anos e uma de 50 anos, quando as duas são passadas para as gerações futuras?
Voemos, agora, para o “abate do canarinho voador”, que levou um tiro em 1982 e foi atropelado em 1986. Espertinhos sacaram que futebol dava dinheiro, muito dinheiro. E que aceitava qualquer tipo de dinheiro. Servia, inclusive, para lavar dinheiro.
Em 1987, os maiores clubes brasileiros, propondo “um novo paradigma para o futebol”, criaram um tal de “Clube dos 13″ como sendo a redenção de um futebol que ameaçava se “Uruguaizar”: jogadores sendo transferidos a granel para o exterior, carência de ídolos, estádios vazios. Era o fim do futebol-paixão, começava o “bizines”.
Vejam como os períodos de “renascimento” do SPFC e do ‘bizines’ se sobrepõem. CRUZ, CLÁUDIO e EU, vimos muito pouco do futebol-paixão, mas o tempo suficiente para arraigar em nossa memória o quanto era bom aquele tempo. Só que “aquele tempo” acabou. Não só para sãopaulinos, mas para TODAS as torcidas. A diferença é que quase toda a história tricolor (e a grandeza de um time se faz pelas glórias alcançadas) remonta ao início do ‘bizines’. Essa é nossa cultura. Errado? Certo? Quem pode dizer HOJE, 2009, tempos onde todos os clubes devem seguir esse caminho, sob pena de se extinguirem? O SCCP e seu manto sagrado com espaço publicitário no sovaco?
Hoje, todos os times querem “arena multiuso”, CTs de “primeiro mundo”, “setor Visa”, “camarote VIP”, “bar temático”. O futebol que levou CRUZ, CLÁUDIO e EU a amá-lo acabou. Nem várzea se pode mais acompanhar por amor à arte, é semi-profissional, só rola grana: é Copa Kaiser, TV, site e o caralho. Vamos a Javari, onde o Abilio Diniz enfia dinheiro e “revela craques“?
Que futebol é esse, onde um dono de supermercado (Sonda) trata os clubes que amamos como gôndolas do seu empreendimento, pendurando lá os Souzas e Bills da vida? Onde um ex-repórter de campo vira um milionário player (sem nunca ter chutado uma bola) e praticamente arrenda um time de massa para expor sua “carga viva”?
Hoje, todos são “clubes-modinhas”, amici. As torcidas, idem. O Zé Italiano já morreu, o Peirão de Castro foi pras picas, e no lugar deles colocaram o Flávio Prado, Chico Lang, Cogumelo do Sol e ASSOVESP. Reconheçamos: nós três estamos ficando velhos, e não conseguimos passar para as gerações seguintes o verdadeiro amor pelo futebol. Eles venceram. O que liga, agora, é ouvir o PVC e sua memória de HD para concluir o óbvio, cadeira numerada e coberta, ir ao bar da Vila Madalena usando “camisa oficial“, azarando as menininhas com “camisa oficial baby look“, com telão rolando pay-per-view, e ver jogador beijar um escudo diferente por mês. Essa é a lei vigente, para qualquer clube ou torcida.
Tenham certeza, CRUZ e CLÁUDIO: se seus times desandarem a ganhar títulos, suas torcidas crescerão em PG, MUITO MAIS RAPIDAMENTE do que a do tricolor cresceu nos anos 70/80. Hoje tudo acontece mais rapidamente. Pessoas viram ídolos com um vídeo caseiro postado no youtube. “Modinha rules“, como dizem por aqui na internet.
Mas, se servir de consolo, quem sabe um dia torcedores apaixonados como CRUZ, CLÁUDIO e EU não viramos verbete na Wikipedia?