“Eu só quero é ser feliz…”

Vágner Love parece que foi filmado (não sei, não vi, mas rola por aí) num baile funk na favela, sendo escoltado por traficantes. Rolou um barulho na imprensa, com jornalistas condenando a tal escolta no twitter, blogs e TV. Reproduzo duas tuitadas:

Sobre Vagner Love: ele pode ir onde quiser, mas quando diz na TV que é “normal” andar com e ser protegido por traficantes, erra

André Henning, TV Esporte Interativo, retuitado (replicado, endossado) por Conrado Giulietti, ESPN/Eldorado

Qual o problema de um jogador frequentar festa em favela? Nenhum. Qual o problema de aceitar escolta de traficantes/marginais? Todos.

Marília Ruiz (é do “Lance” ainda, né?)

Em essência, todos estão “autorizando” o Love a ir à favela, mas ele (por agora ser “do asfalto”?) não pode se comportar como todos os que lá estão. Ou seja, não deve “pedir bença” aos donos do pedaço para se divertir. Tamanha falta de percepção da realidade eu tenho visto com frequência entre jornalistas. Quem não percebe bem o mundo em que vive não consegue retratá-lo fielmente.

Há uma contradição absurda nas frases dos dois jornalistas, equivalente a se dizer que o cara pode ir a uma festa black-tie de bermuda e chinelão caso não possua um smoking. Não, não pode, da mesma forma que o Vágner Love tem, sim, de pedir penico pro dono da boca, e este fará questão de oferecer-lhe segurança. Afinal, tudo o que ele não quer é trazer má publicidade pro negócio dele.

Quem manda na favela é o tráfico, queiram os polianas jornalistas ou não. É um território onde as leis e os costumes são outros. É um “outro estado”, e não é recomendável que se recuse mesuras de um Chefe de Estado quando em visita diplomática. Se um jogador de futebol for a um baile funk, nem pense ele que “estar seguro” é chegar no Caveirão do Bope. Estar seguro, sim, é chegar com o “patrão”. Se aparecer na festa abraçado com o Cap. Nascimento, será a última da sua vida por lá.

Portanto, se é inevitável para um famoso ir à favela sem aceitar a proteção do “dono”, todo esse barulho nada mais é que uma forma velada de dizer que o Love deve deixar de lado suas raízes e “juntar-se aos bons”. Aí, para não parecer politicamente incorreto, dizem “ele pode fazer o que quiser”. Ora, como? Para ele “fazer o que quer”, a condição sine qua non é aceitar as regras do lugar. Como diz o Arnaldo, a regra é clara. No morro, o “STF” funciona e a “Constituição” é cumprida à risca.

Caro Vágner Love: quando quiser ir à ópera, use o traje adequado e não fale durante os atos. Marília, Conka e Henning: quando quiserem curtir um pancadão, falem antes com o “chefe”, que ele arruma a casa pra vocês. Fica a dica.

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26 respostas para “Eu só quero é ser feliz…”

  1. rafael disse:

    Creio que essa é a vontade de rotular mocinhos e bandidos, na clareza da separação que facilita a vida; quando o bom moço do asfalto adentra o antro da marginalidade, provoca perturbação na ordem das coisas. Mas ele tem um papel aí advindo do fato de ser – falta-me melhor expressão, então vai essa mesmo – “figura pública”, não? Queria pensar um pouco mais sobre isso.

    Rafael, é errado ir a baile funk na favela? Não (eu não iria, mas por causa da “música”). Só que o único jeito de ir é recebendo proteção do “patrão”. Esse negócio de “figura pública”, “exemplo” é uma seara muito controversa. A Xuxa dá bom exemplo? Eu acho que não, preferia meus filhos seguindo o VL do que ela. Não se pode deixar de lembrar que o Estado abandonou a favela à própria sorte. E eles se viram como podem. Mas isso é uma masturbação sociológica que eu não gostaria de entrar. O fato é que você como formador de opinião não pode ser hipócrita (ou ingênuo) pra dizer “vai lá se quiser” (sabendo como funciona) pra depois condenar o modus operandi.

    • rafael disse:

      Sim, sim. Sem dúvida, o ponto de vista do discurso jornalístico, sua leitura é muito acertada: principalmente porque conhece-se muito bem sobre a organização, o funcionamento e a divisão dos poderes que rolam com o tráfico. Aprovar o comportamento dele com ressalvas é estratégico para reforçar a idéia de qual grupo agora ele pertence, sem ficar mal com a cultura alheia. Forte abraço, Vinícius.

      Valeu, Rafael.

  2. [...] corolário da história toda. Sobre isso, o amigo Vinícius Duarte externou exatamente o que penso aqui. Love e Adriano, hoje estrelas internacionais de salários astronômicos, nasceram e cresceram em [...]

  3. Bomber disse:

    Incrível é que esses mesmos jornalistas que ficam se fazendo de politicamente corretos não tem telhado de vidro não? Será que eles são totalmente certinhos na vida deles?
    Eu fico muito puto com o VL pelo que ele fez no Palmeiras, mas o direito dele fazer o que quiser da vida dele é sagrado.
    Duvido que esses três aí nunca tenham feito uma balada na vida, enchido a cara e depois foram trabalhar de ressaca…
    Haja Saco!!!!

    Eu vejo esse papo como hipocrisia, Bomber. Eles querem é que o cara se afaste de tudo que “é feio”. Porque, se estivessem preocupados com o problema, atacariam as causas. Parafraseando Elton John, se despejassem os papelotes consumidos nas redações uns sobre os outros, ia parecer o Everest. Mas eles devem comprar no Wal-Mart, acho.

  4. Claudio disse:

    E o pó branco que domina as redações é vendido por quem mesmo?

    Pois é… Como disse ao Bomber, deve ser vendido no Wal-Mart.

  5. Carlitos disse:

    O alcanço de seu blog deve ser bom, mas acho que seu texto mereceria um espaço maior, como o Observatório da Imprensa, por exemplo.

    Ele é de utilidade pública.

    Tá zoando, né? :D

  6. Carlos disse:

    Engraçado é ver a cara de “moderadamente indignados” dos apresentadores do Bom (?) Dia “Brazil”, vulgos Renato & Renata, após mostrarem a entrevista do VL.
    Parecem vestais desaprovando, com as respectivas cabeças, uma “presepada” de um semi-deus descido à Terra…

    Esses dois aí são dose pra tiranossauro rex. Topar com essas figuras logo cedo é duro.

  7. h.romeu pinto disse:

    E aí Vinícius tudo certo? Você leu o post do santo 1nho sobre o ocorrido? Parece até que nosso amigu1nho virou juiz, julgando tudo e a todos, esquecendo-se que também comete erros (os 2 CPFs que o digam hehhehe)

    Abraço

    Li. Aquilo lá é a prova inequívoca dos males que o jornalismo-bom-mocista-juramentado-poliana pode causar à sociedade: parir rematados imbecis e caras-de-madeira como ele, alçando-los à “glória”. Parabéns ao Juca Kfouri e seus amiguinhos bonzinhos do jornalismo teletubbie.

  8. André disse:

    Não acho grave o caso desses dois jornalistas, no twitter coloca-se opiniões pessoais e eles devem ter achado de bom-tom criticar o Vágner Love.
    Grave é o Bom Dia Brasil ficar nesse moralismo de ponto de táxi, sendo que existe uma equipe para dar suporte às reportagens e aprofundar as análises. O Renato Machado deve achar que conhecer vinho é a única manifestação de inteligência que existe.

    É o “jornalismo bom-tom”. E não há moralismo em pontos de táxi, eu asseguro.

  9. André Nogueira disse:

    Documentários, filmes, reportagens, grupos de turismo. A Globo deve manter até um pacote fidelidade com os chefões, afinal tudo depende do aval do comando do morro.
    Todos se submetem ao poder do criminosos e convivem de maneira asséptica com a situação.
    Vagner é/foi do morro e o frequenta sem qualquer nojo ou idealização de passeio pitoresco-turístico.
    Usar o Love como alvo dessa polêmica é pura hipocrisia pra brasileiro estúpido ver e [1nhO mode: on] bater palmas com as orelhas.

    A palavra é essa: hipocrisia. E das mais “hipo”.

    • André Nogueira disse:

      Achei suspeito essa materia do VL passar logo depois da entrevista do Adriano. A Globo já foi mais sutil. Quer limpar a barra do http://migre.me/oRjy ? Beleza. Será necessário justificar o peso e a medida da convocação. Se possível mudar o foco pra outro escandalo(?).
      Love foi usado como um vassalo alaranjado do poder corrompido global.

      Cara, esse “vassalo alaranjado” deve ser alguma coisa sobre a Holanda da idade média, sei lá. Só sei que eu cago de rir toda vez que eu leio. Esse rapaz1nho é uma das maiores fontes de humor involuntário da internet.

  10. Valmir disse:

    Coincidentemente, os dois textos são de paulixxtass, com o mesmo estilinho lugar comum, tipo “pode, mas não deve” … esses paradoxizinhos chatos. Baita falta de estilo e personalidade.
    Os caras tratam uma engenharia social muito louca que é o Rio de Janeiro, como se fosse um esqueminha tático, através de suas pranchetinhas morais … lá, são outras as formas de poder, os códigos de conduta, a convivência.
    Isso não é assunto pra essa patotinha que mal e porcamente conhece futebol …
    E esse papinho de que boleiro é figura pública, exemplo p´ras criancinhas … pro inferno com isso. Quanto a filhos seguirem os exemplos ídolos e boleiros, isso pra mim cheira a máscara para a incompetência dos pais.

    Exatamente. Se eu, pai, for deixar um jogador (bonzinho ou malvado, foda-se) virar exemplo pro meu filho, passei o atestado de zéruelice.

  11. Valmir disse:

    paradoxozinhos … revision fail, rs

  12. Alê disse:

    -
    Não sei. Não tenho opinião formada. Como o Valmir comentou, a engenharia social carioca é complexa e distante da minha realidade.

    Sua visão realista e desencantada, beirando o cinismo, Vinícius só é possível ser externada em um blog pessoal, como este.

    Deixo algumas indagações:

    A imprensa não deveria ser hipócrita?
    Deveria endossar, cinicamente, atitudes discutíveis de hã… celebridades?

    Alê

    Acho que o jornalismo, se quer ser alguma coisa parecida com isso, deveria se perguntar porque a segurança da favela é feita pelos amigos do Vágner Love, e não pela Polícia. Vasculhar balada de jogador de futebol para escandalizar o mundo com imagens de armas sobejamente conhecidas não me parece apontar para a melhora do problema.

    • Alê disse:

      -
      Até onde sei (e sei pouco) a polícia só faz segurança (isso qdo faz) se houver uma ameaça iminente. Famosos se valem dos serviços de seguranças particulares.

      No que difere um negão de óculos escuros, armado e vestindo terno escuro de um neguinho armado usando havaianas e camisa do flamengo?

      Eu, particularmente, fico escandalizado SIM, sempre que as corriqueiras imagens cariocas exibindo confrontos entre policiais e bandidos e/ou mostrando armamento pesado em posse de civis, presumivelmente funcionários do tráfico.

      Vasculhar baladas de figuras públicas é trabalho de uma parte nojenta da imprensa, que só existe pq consumimos essa nojeira. Se ao fazê-lo o jornalista se deparar com um fato inusitado, como este envolvendo o VL, é claro que vai publicar a notícia e vai publicar mantendo um viés moralista.

      Se não for em uma midia anárquica como a net, não dá para fazer de outra maneira.

      Bom. São apenas divagações sobre o tema e sobre sua resposta. Como disse acima, não tenho opinião formada.

      Alê

      Bem, num território infestado de fuzis AR-15 nas mãos de moleques de 16 anos, acho que a ameaça já passou da categoria “iminente” para a categoria “fudeu”. O problema não é ficar escandalizado com as imagens, e sim a imprensa centrar fogo num cara que, no fim das contas, só queria ir a um baile, e aceitou as regras do organizador. Como as armas chegam aos traficantes no morro? Quem consome a droga que eles vendem? É culpa do Vágner Love? E se eu filmar MILHARES de moradores da favela, trabalhadores, abraçados com traficantes num churrasco e levar pra Globo, enquadra todo mundo por apologia ao crime? Uma coisa é a vida real, Alê. Outra é como gostaríamos que ela fosse.

      • Alê disse:

        -
        …sempre que vejo as corriqueiras…
        -

      • Alê disse:

        -
        Hummm… ok.

        Sua tese, se entendi direito, é que o VL, na condição de famoso, é vítima de um involuntário complô midiático e que os demais cidadãos cariocas são vítimas conformadas de um sistema social esculhambado(e que para mim é tão incompreensível qto o sistema de castas indiano).

        Não tenho argumentação.

        Vou ler os demais comentaristas, assistir ao Datena, consultar a Veja e a Carta Capital e ver se consigo me posicionar.

        Não estou sendo irônico. Vou fazer isso, e valendo-me de uma antiga autorização sua, postar este post em uma cmm de debates do orkut.
        Se houver algum comentário interessante por lá, eu trago para cá.

        Alê

        Não falei em complô aqui. É só falta de compromisso, mesmo. Como comparação: o “Ego” distribui 100 fotógrafos pela orla de Copacabana para fotografar ex-BBB tomando água de coco. Por que as imagens do VL não foram captadas “oficialmente”? Porque a Globo não pode subir o morro sem autorização, e sabe muito bem disto. Mas quer que o VL suba “na caruda”? Aí fica no asfalto esperando um morto de fome com celular filmar o jogador no baile, pagar R$ 100 pra ele e dizer que “fez jornalismo-denúncia”. Denúncia era gastar um Globo Repórter inteiro mostrando como traficante compra fuzil israelense igual eu compro cigarro.

  13. Renato Godoy disse:

    Muito bom, Vinícius. É lamentável essa reação direcionada ao cara. Ele vai ser ouvido pela polícia por conta disso. Se ele tivesse frequentando festa de sonegador de imposto na Barra da Tijuca, não teria uma linha no jornal.
    Queriam que ele fizesse o quê? Chamasse a polícia ao ver os “bandidos fortemente armados”?
    Abraço,
    Renato

    É, Renato. E o bonzinho Julio Cesar, goleiro da seleção, marido da Suzana Werner e truta do Galvão, grampeado pela polícia marcando festa com trafica? Como anda o caso? Morreu, né? Foda.

    • Alê disse:

      -
      Curioso. Hoje de manhã no Jornal do SBT, fizeram referência à esse caso do Júlio César. Desconhecia esse caso e achei engraçado a gravação do diálogo entre JC e o traficante. O traficante tava muito doido, viajando legal.

      Na sequencia, veio o comentário do José Neumanne. Parecia que ele tinha o lido esse blog para se posicionar. Parafraseou tudo o que foi postado, comentários incluídos. Pena que não achei o vídeo na net.

      Alê

      Ser “parafraseado” pelo Neumanne cabeção não é lá motivo de muita honra pra mim. :)

      • Lucius disse:

        Além do Júlio César, se não estou enganado, o Romário também esteve envolvido em situação semelhante. Mas as notícias ruins em relação a esses desaparecem rapidinho.
        Agora, essa tal compra de uma moto para mãe de traficante pode render problemas pro Imperador. O Belo que o diga.
        O engraçado foi que no Redação Sportv de segunda e de terça ficaram falando desse assunto o tempo todo, criticando a invasão de privacidade, mas lendo todas as reportagens.

        Esse negócio da moto é meio controverso (não me inteirei da história, vai no chute): o cara compra moto pra quem ele quiser. Ninguém pede atestado de antecedentes pra presentear alguém. Se tivesse comprado um AK-47 ou uma Glock, aí seria rolo.

  14. André Nogueira disse:

    É impressão minha ou sua vizinhança ficou livre de um psicopata?

    O Cadu (intimidade, hein?) :D Mora aqui na rua Aquiramum, pertinho da Marisa Orth.

  15. Quando a Globo coloca o Marcelo D2 ou o Barão Vermelho no programa do Faustão cantando “Se segura malandro” ou mete um funk no programa está fazendo o quê? Utilizando o marketing da favela em seu favor. E os desfiles das escolas de samba? Existe alguma que esteja fora do contexto da favela? A erva defendida pelo D2, até onde eu sei, por enquanto continua ilegal, embora na favela seja até mais difícil de encontrar do que o pó hoje em dia. Muito trabalho pra pouco lucro. O staff global ajuda em grande parte a financiar os canhões que apareceram na reportagem, devido às toneladas de cocaína que turbinam a programação.
    O foda é que o cara é preto e veio da favela. Infelizmente esse ainda é o parâmetro dos caras. Saber eles sabem. Até o Michael Jackson teve que negociar certa vez pra filmar no morro, e os caras noticiaram. Alguém então não sabe que as leis mudam de acordo com o lugar?
    É bem o que você falou. Se quiser ir a um baile funk na favela, é no contexto da favela que você está se envolvendo. Eu mesmo jogo futebol todo final de semana, às vezes os jogos são marcados em campos no meio da favela. Levo meu filho comigo todas as vezes. Ele gosta tanto quanto gosta de ir ao Hopi Hari ou ao cinema. Há bandidos? Tráfico? Armas? Leis próprias? A chance é considerável. Muitas vezes se joga contra times financiados pelos “patrões” das “biqueiras”. Armados até os dentes. Fazendo a própria segurança, muitas vezes com armamento fornecido pelas próprias forças de segurança pública. Muitos deles só conhecem outra realidade pela tv, cresceram vendo tudo aquilo. Não se pode esperar algo diferente. É comum ver traficante “sangue nos óio” evitar falar palavrão porque tem mulher presente ou a função ir fumar seu baseado em outro lugar por causa das crianças. O jogo transcorre tranquilamente, muitas vezes os locais são derrotados e todo mundo sai no respeito, apertando as mãos e desejando boa semana. A lógica é outra, funciona de outra forma.
    No fim das contas, a escolha é simples: “em Roma, aja como romano.” Ou não vá. O resto é manipulação midiática covarde e suja.

    “Em Roma, aja como romano”. Definitivo, Matheus. Se não gosta do César, derrube-o se for capaz.

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