E era uma piada?

abril 25, 2011

Marcelo Adnet é um dos bons humoristas da nova geração: versátil, inteligente, rápido, tem repertório e bagagem cultural. Comanda o “Comédia MTV” e deixou passar este episódio por baixo das pernas.

Em seu twitter, Adnet declara que já havia conseguido impedir que o quadro “Casa dos Autistas” fosse exibido no ano passado mas, desta vez, foi voto vencido. E eu, sinceramente, acredito nele. Não porque o ache o defensor dos oprimidos, minorias e do politicamente correto, mas porque acredito no seu senso de humor. Este esquete não tem graça NENHUMA. Esse é o ponto. Causa qualquer reação, menos vontade de rir.

Tento imaginar o caminho que levou a um desastre humorístico desta monta: um JÊNIO fez o trocadalho do carilho, achou engraçado. O difícil seria transformar uma idéia tão besta em um quadro.

Difícil, não: era impossível. Mas sempre há alguém burro e teimoso o suficiente para forçar a concretização da sua “idéia”. Como muitos quadros, este acabou sendo gravado, mas não foi selecionado para exibição e ficou na prateleira. Um belo dia, não surgia nada na cabeça dos produtores para preencher o programa e o JÊNIO lembrou-se do seu JENIAL quadro engavetado, propondo novamente a sua exibição. E foi aceito, por falta de opção. E HAJA falta de opção para tamanha imbecilidade ser exibida.

Pessoas em situações não-convencionais ou de infortúnio sempre foram utilizadas como tema de programas humorísticos, mas existe um componente importantíssimo para que isso seja, eventualmente, engraçado: o infortúnio deve ser PONTUAL, não habitual (não pode fazer parte do cotidiano do caricaturado). Nego ri de videocassetada porque sabe que aquilo ocorreu EXCEPCIONALMENTE com o infeliz. Afinal, pessoas que tomam tombos de 5 em 5 minutos não são engraçadas, causam pena. Dá vontade de ajudar o cidadão, não de rir dele.

Alguém acha engraçado ver um cadeirante com dificuldade de locomoção em uma calçada esburacada? Por que cargas d’água o imbecil que idealizou o vídeo acharia que alguém veria graça em repetir comportamentos estereotipados de autistas?

Acredito também que os familiares de autistas podem ficar tranquilos, pois o quadro não teve nenhum impacto negativo sobre a visão da sociedade com relação ao problema. Repito, NINGUÉM achou graça, pois NÃO TEM graça. Mesmo pessoas insensíveis a qualquer causa não riram de um espetáculo tão deprimente.

No final das contas (e à revelia do autor), a idiotice pode ter servido para sensibilizar as pessoas sobre o autismo e as dificuldades dos que cuidam deles. E Adnet deveria demitir o inventor deste quadro. Não por punição pelo desrespeito com os autistas, mas para o bem do próprio programa. É um perigo manter um zé-graça tão sem-graça na equipe de criação.


Admiração, inveja, plágio e quebra-quebra no botequim Twitter

abril 21, 2011

Foi um bafafá nas redes sociais nos últimos dois dias, mas agora passou (como todos os bafafás na internet): dois textos da Leonor Macedo publicados no blog Eneaotil (Revista TPM) apareceram “remixados” no blog da Gabriela Yamada, editora de Cidades da EPTV Ribeirão Preto/Globo.

Esse é um problema cada vez mais recorrente, desde o advento do ctrl-c-v: a cópia de textos (ou trechos) na internet, sem indicar a fonte ou, em casos mais carudos, atribuindo-se a autoria.  Como a rede é grande, nego acha que ninguém vai ver se ele der uma roubadinha de leve. É um crime fácil de executar, e parece difícil de se descobrir. E é óbvio que não é, basta pegar um trecho do texto e dar um google. Se você for um sujeito cheio de amigos nas redes sociais, então, mais fácil ainda: sempre haverá um conhecido que, indo de lá pra cá, acaba trombando com o plágio e vai te avisar.

No caso em questão, foi isso que aconteceu: a Leonor é uma blogueira conhecida, alguém deu de cara com o texto no blog da Gabriela e a avisou. A Leonor, CLARO, não gostou e gritou pro povo no twitter. Mas antes de entrarmos no quesito  “histeria tuiterística e linchamento virtual” (que a Camilla Lopes levantou hoje, depois do vendaval, e o Maurício Savarese levantou no meio da confusão, mas partindo de uma premissa equivocada, a meu ver), falemos sobre o plágio.

Quando uma pessoa faz algo, mais que eventuais recompensas materiais, quer ver o seu trabalho RECONHECIDO pelas pessoas. Nem vem querer dar uma de “tô nem aí”, porque ninguém cai nessa. Quem se expõe deseja, em primeiro lugar, a glória, o aplauso, o elogio. E o plágio irrita o autor original porque o plagiador rouba não só a obra, mas o aplauso que seria dele. A gente canta no chuveiro por diversão e canta no palco pra ser aplaudido.

Gabriela Yamada escreveu os posts em janeiro/2011; a Leonor em outubro/2010. Gabriela leu o texto da Lelê e se emocionou, se viu no texto, deixou até comentário! Sentiu aquela coisa que eu já senti muitas vezes: “putaqueopariu, por que eu não escrevi esta porra antes dela?”. É compreensível e humano, chamam de admiração que causa inveja. Até aí, tudo normal.

Só que, se eu não escrevi foi porque não fui capaz, não saquei, tanto faz. Perdi o bonde. Nunca senti a menor vontade de pegar uma obra que tanto admirei e fazer uma igual pra chamar de minha e mostrar pros amigos como eu sou foda.

Quando a pessoa faz isso, é desonesto com quem foi surrupiado e, pior, desonesto com ela própria, pois as pessoas verão a obra e dirão: “cara, você é sensacional! Maravilhoso! Lindo, tesão, bonito e gostosão!”. É o estado-da-arte do auto-engano! Você sabe que é um bosta, ladrãozinho barato de idéias e loas alheias. Por isso, de todos os tuítes meus a respeito da confusão, destaco este:

Agora, o linchamento/histeria na rede: a estratégia de defesa possível no caso de você ser pego em flagrante cometendo um crime utiliza vários instrumentos e artifícios, MENOS UM: negar o fato criminoso flagrado. Você pode demonstrar arrependimento, buscar excludentes de ilicitude, atenuantes, etc. Ou, se vê que vai em cana mesmo, sem colher de chá, só te resta fugir. Se der.

Quando estourou o rolo, Leonor usou o twitter para chamar a atenção da Gabriela, mencionando-a. IMEDIATAMENTE (é, caixa alta mesmo), a Yamada tomou três atitudes: 1) tirou todo o blog do ar; 2) “trancou” o twitter dela; 3) ignorou solenemente a queixa da Leonor.

A segunda atitude eu até entendo, porque foi uma enxurrada de gente partindo pra cima dela. E isso, sinto muito, é incontrolável no twitter: a rede funciona como se fora um grande botequim de periferia: todo mundo conversando animadamente, jogando dominó e tal, até que sai uma garrafada numa mesa. Daí, amigo, sai de baixo que voa cadeira, mesa, copo, facada e tiro. Nego toma partido do amigo sem saber nem se ele foi o responsável pela treta.

Mas a primeira e, principalmente, a terceira, deixaram claro que a Gabriela SABIA que tinha feito merda. Viu que foi pega com a boca na botija e fugiu. E quem foge de briga de boteco acaba sendo perseguido na rua até por quem nem estava dentro do bar.

Não conheço pessoalmente a Lelê, mas o twitter acaba conferindo boas dicas sobre a índole das pessoas. Ela é da paz, não é barraqueira, é bem-humorada e inteligente. Mas tem quatro mil e poucos amigos no twitter que, eventualmente, podem ser barraqueiros, mal-humorados e da guerra. E, na minha opinião, alguns desses amigos acabaram influenciando negativamente no desfecho pacífico do caso. Apareceu advogado (real, não virtual) oferecendo serviço, investigadores de polícia (esses, virtuais – eu incluído, haha) e muita gente pra xingar a moça, dentre vários que estão na internet só pelo prazer de agredir virtualmente sem o ônus de receber um revide real.

Em desfavor da moça Gabriela (e nisso concordo com o Sava), pra piorar o que já estava feio, o fato de ser funcionária da Globo. Aí apareceram os interessados não em defender a Leonor, mas em bater na emissora (usando a Lelê como marreta e a cabeça da Gabriela como bigorna).

Talvez o melhor para a Gabriela fosse não ter fugido, evitando a horda correndo atrás dela com paus, pedras e picaretas. Quando um bandido é pego pela população enfurecida, tudo o que ele quer ver na sua frente é um camburão de polícia quentinho e aconchegante, que o leve a um delegado que ouça suas razões para ter cometido o crime.

Hoje Gabriela, a ré, deu o seu depoimento à “Delegacia da Internet”. A vítima, Leonor, também deu o seu. Leiam e façam seu julgamento pessoal.

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ATENÇÃO: muito embora plágio seja realmente crime contra a propriedade intelectual, os termos policialescos usados neste post estão em sentido figurado.


Rica Perrone, um trapalhão

abril 15, 2011

Acompanho o Rica Perrone há um bom tempo, e talvez por isso tenha mais condições de avaliá-lo do que a montanha de gente que só o conheceu hoje, graças ao lamentável post “Hipocrisia tem limite”, no qual comentou a punição ao Cruzeiro no jogo de vôlei onde a torcida chamou o atleta adversário de “viado”.

Preliminarmente, é de se destacar que Rica Perrone (apesar de jornalista formado) escreve mal, MUITO mal. E essa forma escrita claudicante acaba embaralhando até BOAS idéias que ele tenha. É importante dizer isso, não para desqualificá-lo, mas porque estamos todos sentando a porrada no cara por aquilo que ENTENDEMOS que seria o pensamento dele a respeito do assunto homofobia,  e a expressão desse pensamento veio de forma escrita.

Pela minha prática de “leitor de Perrones” (é, eu gosto de futebol e leio alguns blogs sobre o assunto por aí), resolvi dar uma dissecada no texto do cidadão e explicar  com uma metáfora VOLEIBOLÍSTICA: Rica tinha um match point na mão: se preparou, fintou o bloqueio, foi pra ponta, recebeu a bola redonda do levantador, subiu 4 metros e, na hora de bater, furou. A bola caiu na própria quadra. Os movimentos, quadro a quadro:

Eu sei, é bonito defender causas nobres e que estejam na moda. Sei também que vai pintar ONG pra tudo que é lado me enchendo o saco e interpretando o que eu digo, também, como uma “ofensa” ou “preconceito”. Mas, convenhamos, sem viadagem… já deu né?

Essa introdução já era um prenúncio que ia dar merda. Tá carregada de ironia barata, provocação e referências desairosas a atitudes engajadas. Mas ainda é possível ao autor dar uma arrumada. Insisto, ele vai abordar um tema importante. Adiante:

O Cruzeiro ser punido no Voley porque sua torcida chamou o carinha do outro time de “viado” é a piada do século. Pra mim, é claro. Pra muitos é a “lição de moral” do ano.

Qualé a novidade em uma torcida chamar um adversário de viado? Qual foi o jogo, dentre os últimos 9 milhões aqui no Brasil, onde a torcida local não chamou o destaque rival de “viado”?

Veja o trecho destacado: BONÍSSIMA premissa pra montar um raciocínio bacana e desqualificar a punição, atribuindo a ela o almejado status de “piada do século”. Afinal, como deixou nas entrelinhas do último parágrafo o REINALDO AZEVEDO, essa punição seria cabível até AO CONTRÁRIO (o SPFC, por exemplo, teria de pagar R$ 50.000 a todos os adversários dele, porque sua intolerante torcida insistia em chamar o jogador Richarlyson - do seu próprio clube de coração – de “viado” a cada vez que ele tocava na bola!).

Mas Rica se empolgou (e começou a se enrolar):

Onde é que está o processo contra as torcidas que chamaram o Ronaldo de gordo?

Cadê a liga da justiça pra encher o saco quando xingam a mãe do juiz no futebol?

Não tem ONG “Mamães legais” ainda? Cria uma aí, pô! Se dá grana não sei, mas ibope dá.

Vamos separar as coisas e excluir o oportunismo ignorante, que é o pior que tem.

O sujeito que nasce negro ou branco não pode ser discriminado pela cor que tem. Racismo é CRIME, é absurdo e não faz sentido.

O que não tem NADA a ver com o fato de eu virar pros meus amigos negros e chama-los, carinhosamente, de “Negão”. Pois assim o Pelé, rei do futebol, se chama, por exemplo.

Como nunca dei ataque por ser chamado de “gordinho” ou “alemão”.

São termos que, goste você ou não, perderam o tom ofensivo. É absolutamente popular, comum, inofensivo.

Assim como brincar com seu amigo e chama-lo de “viado”, ou hostilizar um rival com o termo. É normal, não quer dizer que “odiamos você por você gostar de meninos”.

Quer dizer: “Você é viado!”, sendo ou não. É uma forma de mexer com o jogo, só.

Ai, Rica Perrone, você tinha cinco picanhas pra assar e fez uma salada de rúcula pros teus amigos carnívoros? Nem precisa explicar (eu acho, mas se alguém precisar, vá aos comentários e eu respondo).

Ser gay, que no meu conceito é 100% diferente de ser viado, é uma OPÇÃO SEXUAL. Viado é uma “opção pra aparecer”. Assim sendo, é opcional ser gótico, Emo, pagodeiro, roqueiro, palmeirense, flamenguista, etc. Você escolhe o que quer ser e como quer viver. E isso gera grupos que se afastam ou se aproximam de você.

Adoro samba, logo, tenho enorme facilidade em ter amigos sambistas. Não tenho, porém, grandes amigos roqueiros daqueles que andam de preto balançando a cabeça. Sou guitarrofobico?

Porra! São escolhas, e não ofendendo, não menosprezando, é tão direito seu andar de rosa quanto meu andar do outro lado da rua. Qualé?

Você quer ser gay ou amigão da galera? Quer ter direitos ou “mais direitos” que os outros?

Pronto: a partir desse ponto a homofobia do Rica começou a ficar escancarada (mas ele acha uma coisa normal).

Aliás, não seria exatamente uma homofobia, mas uma “homoojeriza”, um “homonojo”, tipo uma placa fincada, com os dizeres: “ae, maluco, tu é bicha, eu aceito porque a galera pressionou, beleza. Mas NEM VEM PERTO DE MIM, eu tenho direito de escolher os meus amigos e não curto viado.”

Ei, Rica, e QUEM te falou que os gays imploram pra serem seus amigos? Eles querem ter o direito de não serem discriminados, de poderem andar pela rua e não verem pessoas como você indo para a calçada oposta, como se fossem eles portadores de uma moléstia infecciosa e mortal. Ou, pelo menos, que não sejam alvejados com tacos de beisebol na Av. Paulista. Aproveitando seus exemplos: por algum acaso você vai pro outro lado da calçada quando vê um emo, um roqueiro, um gordo? Não, eu sei. E POR QUE CARGAS D’ÁGUA cogita fazer isso quando vê um gay na sua linha reta?

Pelo que brigam, afinal?

Porque nunca no esporte ficaram de nhe-nhe-nhe com as ofensas de uma torcida a um jogador e agora vão fazer isso?

Porque ele é gay? E dai? Quem disse que a mãe do juiz não é, de fato, uma puta?

Como fica então as musiquinhas de torcida que ofendem pessoas de outro estado a cada jogo? Puniram alguém por isso?

Fizeram ondinha por isso?

Me lembro que na Vila Belmiro a torcida do Santos meteu faixas tirando sarro do Richarlyson, que jura não ser gay. No outro dia tinha jornal e principalmente moralista babaca na tv dizendo que o “ato homofobico” da torcida….

Que homofobia se ele é homem???????

Homofobico é você, que está chamando ele de gay.  A torcida deu a ele o mesmo tratamento que dá ao destaque do time rival, sempre.

Maior palhaçada esportiva que já vi nos últimos tempos a punição ao Cruzeiro. Ridículo, lamentável e hipocrita.

Pois é, Rica, você poderia ter suprimido 70% do texto já copiado aqui, feito umas amarrações mais firmes e ficaria maneiro. Mas agora é tarde, você já cagou com tudo. O exemplo do Richarlyson e a reação da imprensa é realmente intrigante e configura um paradoxo. Mas quem vai dar crédito a um cara que, linhas atrás, quis defender seu direito de, ao avistar um “viado” ou “gay” (você fez essa classificação com base nos trejeitos da pessoa, mas eu não entendi bem), mudar de lado na calçada? Homofóbico é VOCÊ, com base no que VOCÊ escreveu. Sinto muito.

Eu não sou gay, nunca destratei um gay, não sou homofobico, mas não quero ter um filho gay. Como não quero ter um filho gótico e nem Emo, o que não me torna um “emofobico” ou “Goticofobico” e nem gera centenas de moralistas me enchendo o saco.

Porque? Quem está tendo “tratamento diferenciado” agora?

Sejam gays. A gente aceita. Só não forcem pra ser “exemplo”.

Se querem igualdade, taí. O que querem, agora, é tratamento VIP.

Já nos obrigaram, com razão, a respeitar. Não tentem nos obrigar a gostar.

E é essa a “igualdade” que você oferece aos homossexuais? Você não quer ter um filho gay POR QUÊ, CATZO? Explique, Rica! Faça um post sobre as desvantagens de ser gay! Afinal, se você não quer que seu filho seja, deve ser por algum fator NEGATIVO, né? Que você não queira que seu filho seja um assassino, um bandido, todos entendem. Mas gay, essa coisa que você, todo atrapalhado, tentou dizer que não te incomoda (mas que te faz pular pro outro lado da rua)? Que porra de respeito é esse a uma característica que deprecia tanto a ponto de ser INDESEJÁVEL a um ente querido?

Foi mal, Rica Perrone. Sua argumentação acabou por sepultar sua premissa. De novo, pois você é mestre em fazer isso.


Tiros em Realengo

abril 8, 2011

Se você não estiver sozinho lendo isso, gostaria que olhasse à sua volta e se perguntasse: será que não é possível haver um Wellington Menezes em potencial no aconchego do meu lar? (guarde a resposta para o final)

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Agora, outra pergunta (em formato teste, com gabarito):

Por que Wellington entrou na escola e saiu matando as crianças?

(  ) porque ele era ateu

(  ) porque ele era muçulmano

(  ) porque ele era Testemunha de Jeová

(  ) porque ele era portador do vírus HIV

(  ) porque ele sofreu bullying na escola e resolveu se vingar

(  ) porque o Governo não instalou detectores de metal na porta das escolas

(  ) porque o Código Penal é frouxo e protege os bandidos

(X) porque ele era portador de transtorno mental grave e não foi tratado

As pessoas ditas normais assumem comportamentos distintos perante às que apresentam transtornos psiquiátricos: 1) “aceitam” o louco, mas tentam entendê-lo e julgá-lo pela “régua normal”, ou seja, procurando motivos pelos quais eles (os normais) adotariam o mesmo comportamento anômalo, e, pela falha de julgamento, propõem ao problema soluções inviáveis; 2) deixam o louco ao deus-dará, esperando que a Providência se incumba de manter as coisas sob controle; 3) querem se livrar do louco a qualquer custo, ou escondê-lo debaixo da cama.

Voltemos á pergunta inicial. Procurei, procurei, e não achei UMA coisa: se a família detectou que o rapaz não batia bem (a irmã disse que ele era esquisitão), por que não o encaminhou a um tratamento?

Esse é o ponto: enquanto a sociedade ficar tentando encaixar os porquês das atitudes dos portadores de transtorno mental nos porquês das pessoas normais, estarão sonegando o atendimento necessário aos loucos para que eles possam conviver minimamente em sociedade.

Loucos deliram, ouvem vozes, vêem coisas inexistentes. E não há como mostrar a eles que aquilo (que para eles é a realidade cristalina) não ocorre de verdade. As justificativas das pessoas com transtorno mental para cometerem seus atos não são iguais às das pessoas ditas normais.

E quem percebe primeiro que tem um Wellington nascendo? A família, pessoas próximas. O louco, claro, não assume a sua loucura, mas suas atitudes revelam que ele precisa de ajuda. E o que vemos hoje é a família negando o problema e, consequentemente, adiando a solução ou a redução dos danos (ao doente e à sociedade).

Ninguém quer um sujeito com problemas em casa, principalmente com ESTE tipo de problema, muitas vezes de difícil visualização a olho nu pelas outras pessoas (que já não costumam prestar atenção a ninguém senão a si mesmas) e para o qual se arrumam várias desculpas esfarrapadas em caso de estranhamento de terceiros (do tipo “ah, ele é quietão assim mesmo, é caseiro, gosta de computador e ficar na dele…”).

Mas quem é de casa sabe (e esconde) que o cara não toma banho, não conversa com ninguém, vive isolado, esconde as coisas, é cheio de manias e se tranca no quarto. “Mas é o jeitinho dele, deixa…”

“Deixa”, até que, conectado à internet o dia todo sem qualquer supervisão, delirando e legalmente capaz, o cara compra armas, munição, bola um plano (orientado pelas vozes de Deus, que só ele ouve), entra numa escola, mata 11 crianças, fere 22 e se mata.

E a reação da sociedade depois da merda feita é: bradar contra a violência, a venda de armas, a polícia, o governo, o código penal, o cacete, quando deveria exigir de si própria que não seja hipócrita e não esconda o culpado: ELA mesma, que trata o problema das pessoas com transtorno mental com indiferença (quando longe de si) e com a negação e o auto-engano (quando dentro da própria casa).

O caso do massacre de Realengo é um caso de saúde pública, não de segurança pública. E tende a piorar, pois a vida que levamos está cada vez mais fabricando loucos, de diversos tipos. E, para não buscarmos ajuda para tratar a loucura, resolvemos elastecer o nosso conceito de normalidade.

Até o próximo massacre.


Cala a boca, Bolsonaro!

abril 4, 2011

O falatório estridente da semana na internet ficou na conta do deputado Jair Bolsonaro, autor de (mais) declarações estapafúrdias sobre homossexuais, cotas raciais e outros temas de seu (des)apreço.

Jair Bolsonaro foi eleito deputado federal com 120.646 votos no estado do Rio de Janeiro (11º, de 46 cadeiras). É seu SEXTO mandato parlamentar consecutivo. Sua plataforma eleitoral sempre foi calcada no ódio e intolerância contra homossexuais, na defesa da mão pesada das autoridades contra o que ele chama de “baderna” e “desestruturação da família” e a defesa do regime militar e seus métodos. Portanto, pode-se inferir que ele não enganou seus eleitores, pois vem repetindo no exercício do mandato tudo o que sempre disse fora dele.

Muita gente (mas muita, mesmo) no Brasil concorda com as posições de Bolsonaro. Alguns, de maneira apaixonada e explícita, outros veladamente. Então, por que não dar voz a um representante do pensamento de parcela significativa da sociedade brasileira, como defende Ricardo Noblat e vários outros? Não seria antidemocrático cercear a opinião de quem quer que seja, sob o risco de termos nossa própria opinião cerceada futuramente? A minha resposta é NÃO.

O discurso conservador “a la bolsonaro” é de fácil assimilação para o cidadão médio: apresenta um modelo de Estado provido de uma espécie de “autoridade do pai bravo”, que resolve as “distorções” na base da chinelada e do castigo; sugere a chamada ditadura da maioria (se todo mundo é de um jeito, por que você quer ser o diferentão? só pode estar querendo aparecer!); dá cabo de uma “aberração” contida no princípio constitucional da isonomia (tratar os desiguais como desiguais), colando na testa deste princípio a pecha de “privilégio de uma minoria”. E, quem faz parte da maioria (ele, o tal cidadão médio) se vê representada por esse discurso.

Numa sociedade individualista e, sob muitos aspectos, primitiva como a nossa, a fala desses caras soa como música. E, não à toa, a maioria das teses defendidas pelos Bolsonaros da vida encontra respaldo e sustentação em religiosos, que usam trechos da Bíblia descrevendo relações sociais e “acontecimentos” de quase 2000 anos atrás para justificar suas posições.

Sim, mas e o direito de se dizer o que quer? Ora, NINGUÉM tem o direito de dizer tudo o que quer, nunca teve e nunca terá. Assim fosse, seria permitido a pedófilos, por exemplo, externar livremente suas preferências sexuais. “Ah, mas pedofilia é crime!”. Sim, e discriminação pela cor da pele ou orientação sexual, é o quê? E se aparecer uma tese malucona apoiada por milhares de pessoas dizendo que pedofilia é uma forma de sexo como outra qualquer? É a sociedade, dentro de seus anseios, crenças e convicções, que define o que é crime ou não, e quais são as penas aplicáveis. Não existe Código Penal Universal.

Ao contrário do que muitos pensam, discursos como o do deputado fomentam o CAOS, não a ordem. E é fácil entender isso: quando você trata, por exemplo, homossexuais como cidadãos promíscuos e sacanas de segunda classe, está autorizando seus adeptos a promoverem o linchamento e a discriminação dessas pessoas “em nome da ordem e da família”; quando defende posturas autoritárias do Estado “contra a baderna e a subversão”, dá oportunidade deste calar a boca de todos os seus desafetos. Quando te obrigam a ser como a média, ou te sonegam direitos por estar fora dela, tem alguma coisa errada: ser a média não é ser “o certo”.

Portanto, veja o paradoxo: ao darmos liberdade a vozes conservadoras do naipe do Jair, estaremos, sim, condenados à prisão da nossa própria voz e ao cerceamento de direitos conquistados. Eles sempre rugem mais alto e vencem pela intimidação.  Afinal, se você teve um pai bravo, sabe muito bem de quem era a palavra final e quem definia o que era melhor para você.


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