Governo precisa gastar em propaganda?

junho 21, 2011

Há longínquos cinco anos, escrevi este texto. Não se trata, portanto de um posicionamento oportunista ou recente, mas ele voltou à minha cabeça ontem, quando eu li o documento dos autoproclamados blogueiros progressistas, que tem, no seu item “f”, a seguinte proposta para a “democratização da informação”:

f) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs. (o grifo NÃO é meu).

Pois é: os blogueiros progressistas querem dinheiro do governo para disseminar a informação pela internet. Muito justo. Afinal, o governo já gasta bilhões em propaganda com a Globo, Record, Folha de SP… Por que não destinar uma merrequinha para os “blogs sujos”, que são verdadeiros Dons Quixotes para levar a informação imparcial, corrigindo as distorções do malvado “PiG” (que, engraçado, também vive à custa do governo)?

Tá bom, chega de ironias bestas. O assunto é: você sabe quanto, onde e como o poder público gasta em propaganda? Fácil responder: muito, no lugar errado e da pior forma. O princípio constitucional da publicidade dos atos de governo é usado como desculpa para verdadeiras farras do boi, enriquecendo agências de propaganda e veículos (pequenos, médios e grandes). O dever de manter a população informada sobre o que o poder público está fazendo por nós foi substituído por peças publicitárias caríssimas que só servem para enaltecer QUEM está governando, muito embora exista também o princípio constitucional da impessoalidade na Administração Pública.

Sim, claro, eles não colocam o nomezinho deles no anúncio, mas, como você bem sabe, a propaganda é a arte de fazer coisas parecerem maiores, melhores e mais bonitas do que realmente são, com o objetivo de fazer o consumidor adquiri-las. E, se há uma coisa na qual não podemos ser ludibriados ou iludidos, esta é a administração do Estado e dos seus recursos. Sim, pois o dinheiro é nosso.

Não somos “consumidores” do governo A ou B, somos PARTE DELE. Portanto, as informações devem chegar a nós de forma clara, objetiva e até CHATA, de tão fria e transparente. Façamos uma analogia: imagine que o síndico do teu prédio resolva “informar” os condôminos não através de maçantes boletins de papel, mas por meio de um programa semanal que entraria nas TVs dos moradores via antena coletiva do prédio; para tanto, ele contrataria uma produtora de vídeo com o dinheiro do condomínio e ficaria lá, todo pimpão, dando uma de “Lula do prédio”. Certamente, seria decapitado na reunião de condomínio em que tivesse apresentado tal sandice, e sua cabeça seria colocada em uma bandeja na porta do apartamento dele.

Não há qualquer sentido em se gastar UM NÍQUEL em propaganda governamental, e desafio qualquer um (exceto os partidos políticos, é claro!) a tentar me convencer do contrário. Os atos de governo devem ser impessoais, transparentes e públicos, e SÓ. Não devem ser bonitos ou feios, grandes ou pequenos, de fulanos ou beltranos. Esses juízos de valor devem ser feitos pelas pessoas, sem qualquer tipo de induzimento por artifícios publicitários.

A “propaganda” da SABESP, por exemplo, é esta: o fulano abre a torneira, sai água; dá a descarga, os dejetos vão para a rede de esgoto, e de lá para tratamento. Só isso vai mostrar que a empresa está trabalhando direito. Não adianta patrocinar time de vôlei, peça de teatro, comprar 30seg. em rede nacional na Globo se as torneiras estão secas, ou se o cocô tá passeando na porta da casa do cidadão.

“Sim, mas tem também as campanhas de esclarecimento, de vacinação e tal…”. Verdade, tem sim. E daí? As TVs e rádios cobrem 100% do território nacional, são concessões públicas, e têm o DEVER LEGAL de ceder espaço para essas campanhas, e o DEVER MORAL de ceder equipamentos, produção, profissionais e insumos para produzir essas peças. Afinal, não são elas que vivem falando em “cidadania”? E, convenhamos, pra bolar um “Zé Gotinha” não precisa pagar nenhum Washington Olivetto.

Não há como lutar por uma imprensa independente e vigilante se esta mesma imprensa vive à custa de quem deveria denunciar. Como eu disse em outro texto, pode procurar UMA nota negativa sobre as Casas Bahia na imprensa, você nunca vai encontrar. Afinal, ela é o maior anunciante privado brasileiro.

Por tudo isso (e muito mais), me parece bastante claro que a blogosfera progressista, em vez de lutar contra esse sorvedouro abjeto de recursos públicos, prefere lutar para garantir seu lugar na festa.

Esta é uma briga muito grande, exige uma mobilização-monstro, mas que eu participaria com o maior prazer. E você, cidadão comum que quer ver o dinheiro público menos mal gasto, não toparia?


Cartolas, jogo sujo. E no jornalismo da Record, como é o jogo?

junho 16, 2011

A TV Record iniciou nesta segunda feira uma série de reportagens sobre os bastidores do futebol brasileiro, destacando os jornalistas Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna (que, nas horas vagas, atuam como blogueiros progressistas nesses links aí) para o trabalho.

Na primeira (capitaneada por LC Azenha), as VELHAS denúncias de sempre contra Ricardo Teixeira, exaustivamente apresentadas durante a falecida CPI da CBF-Nike e (que não se perca pela – falta de – memória) até pela ALIADÍSSIMA Rede Globo, em 2001. Enriquecimento meteórico, casa em Búzios, fazendas cinematográficas, dinheiro de propina via ISL, Lichtenstein, Juca Kfouri, Andrew Jennings e todo o resto. Novidade? Praticamente nenhuma. Mas a reportagem foi, do ponto de vista jornalístico, correta.

Na segunda, o escalado pelo Bispo Macedo foi Rodrigo Vianna, e a missão dada foi bater MUITO em Andrés Sanchez, presidente do Corinthians.

Antes de falar sobre a reportagem, uma digressão. O presidente do SCCP é um sujeito pelo qual nutro alguma simpatia. Não como dirigente, mas como figura humana: destrambelhado, falastrão, com tiradas inteligentes e irônicas, é o tipo de cara que eu gosto de ouvir no futebol. Ele me diverte. Também, parou por aí. Não compraria um carro usado dele, como também não compraria de qualquer dirigente de futebol, empresário e essa curriola toda.

Voltando: do ponto de vista da moralidade, todos os dirigentes merecem apanhar (inclusive Andrés, claro), mas há de se ver o método de surra. O futebol é das coisas mais sujas que existem. A série de reportagens visa atingir Teixeira por todos os lados possíveis: seja batendo diretamente nele, seja dando pauladas nos seus afins.

E o primeiro alvo-satélite do RT foi justamente o cara que destruiu de forma retumbante as pretensões da TV Record de tirar o futebol da telinha da Globo. Esse espinho estava entalado na garganta do Bispo. E com bispo não se brinca, eles têm procuração outorgada por Deus passada em cartório celeste.

Pois bem: lá foi o Vianna, todo serelepe, levantar a capivara do Andrés e fazer a matéria encomendada. Convenhamos que encontrar BO de dirigente de clube não é lá tão difícil. Mormente no Corinthians, onde a briga política é tão acirrada que a oposição nem liga se, para derrubar a situação, tiver de destruir o clube junto. É só parar na porta, ligar a câmera e já aparece um gaiato louco pra denunciar o inimigo.

Só que Rodrigo fez o caminho “certo” para alcançar Andrés, mas usou o veículo errado. Para descobrir as falcatruas do “Taxinha”, deveria falar com alguém da oposição, nada mais lógico. Mas ele resolveu abastecer seu arsenal destrutivo com um “conhecidíssimo” “jornalista” que atende pela alcunha de Paulinho do blog do Paulinho, apresentando-o ao mundo como “profundo conhecedor dos bastidores do SCCP”.

Ora, se há alguma coisa que Paulinho do blog do Paulinho conhece “profundamente” é a arte de escapar de Oficiais de Justiça, e SÓ. O rapaz, atualmente, cumpre pena de prisão domiciliar pelos crimes previstos nos artigos 138. 139 e 140 do Código Penal (conhecidos, no popular, por calúnia, injúria e difamação). Responde a outros inúmeros processos (inúmeros, MESMO, seu Vianna!), nas esferas cível e criminal, todos pelos chamados “delitos de opinião”. Não só contra dirigentes esportivos, mas por colegas seus de profissão, donos de faculdade, juízes de direito, advogados, empresários e gente que nem de futebol gosta.

Outra digressão: Se Juca Kfouri (e outros jornalistas famosos) fizeram um mal ao jornalismo, este foi jactarem-se de serem processados a torto e a direito, conferindo a esses processos um status de “atestado de idoneidade”, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Ser acionado judicialmente é risco do ofício de quem dá noticia que possa desagradar alguém, mas transformar a interpelação judicial numa confissão ficta do acusado da veracidade das denúncias beira o absurdo e, pior, joga contra toda a classe jornalística que, pelo exemplo dos medalhões, apura com menor esmero os fatos e assaca contra a honra alheia como quem vende pipocas na esquina, escudada pela “liberdade de expressão” (e por escritórios de advocacia regiamente pagos pelos veículos).

Paulinho do blog do Paulinho não é fonte, muito menos fonte confiável, Vianna. É um aventureiro do jornalismo e umbilicalmente ligado a Antonio Roque Citadini, adversário de Andrés. Duvida de mim? Levante da cadeira e vá a editoria de esportes da Record e pergunte ao setorista do SCCP sobre o rapaz. Pergunte ao Jorge Kajuru o que houve entre eles.

Mesmo assim, o experiente Rodrigo Vianna embasou quase a metade das denúncias contra Sanchez no depoimento pessoal do rapaz, e ainda ilustrou-a com um post do “Jornalismo com Credibilidade” (sim, é ele mesmo quem se atribui credibilidade!), no qual Paulinho afirma ter conhecido um tal Grego e visto diversos documentos comprometedores contra Sanchez (doravante chamado “Taxinha”).

Tanta gente no mundo cheia de ódio contra o Andres, e o Vianna bate na porta do PAULINHO? Por quê?

Tenho uma suspeita: para conferir à matéria um ar de isenção (pra quem não sabe quem é o figura, claro!), tipo “oh, estou aqui com um insuspeito JORNALISTA, nem é oposição, nem nada, viu?”. Tá, abraça.

Logo ele, Paulinho, o cara que:

- publicou que Andrés e Ronaldo estavam bêbados numa boate do RJ, na véspera do jogo CRF x SCCP que eliminou o Timão de mais uma Libertadores (tendo como “fonte” um e-mail anônimo e falso);

- assegurou a seus leitores que Adriano jogara pela Roma com a camisa 105 (em alusão ao Comando Vermelho) com base numa fotomontagem do Kibeloco;

- disse estar o mesmo Adriano com o “fígado em frangalhos” por cirrose hepática avançada;

- há uma semana, “informou” que o goleiro do Liverpool confessou ter sido subornado na final do Mundial de Clubes de 1981 contra o Flamengo (com base numa pegadinha de 2003 do ex-site-de-pegadinhas Cocadaboa);

- e, saindo do campo esportivo, é o mesmo Paulinho que DIVULGOU COMO VERDADEIRA a Ficha DOPS falsa da Dilma e não se retratou até hoje!

É essa a sua fonte, Rodrigo? Como conferir credibilidade a um cidadão capaz de produzir essas belezuras e nem ficar vermelho? E tem muito mais por aí, é só pesquisar.

Entendo que vale tudo para alcançar o objetivo de malhar o Andrés, tarefa dada é tarefa cumprida “e vice-versa”, mas e se o cipoal de denúncias que o Paulinho do blog do Paulinho te apresentou também for baseado em “fontes” como Kibeloco, Cocadaboa ou hoaxes de email, hein? Como é que fica a tua reputação, amigo? A da Rede Record, pouco importa. Eles não estão preocupados com isso, e não é a primeira vez que fazem esse tipo de “jornalismo-vendetta”.

E agora, o principal: em defesa de Vianna, recebi de uma Árvore do PSJ a informação que a produção da Record esteve em contato com o tal Grego e VIU os documentos comprometedores, mas que o referido cidadão não quis repassá-los ao jornalista. Ou melhor, até repassaria, desde que a Record pagasse por eles. A emissora se negou a comprar os papéis mas, como já tinham visto tudo mesmo (e o Paulinho! publicou), era certeza que era tudo quente.

Ei, PERAÍ, a coisa é MUITO pior, então! Que raio de jornalista é você, Vianna, que VÊ a falcatrua ali, escritinha na tua frente, NÃO BANCA SOZINHO a parada e ainda vai se fiar num cara altamente suspeito e desmoralizado por inúmeras denúncias falsas e tosqueiras inomináveis, colocando a matéria toda sob suspeição?

E olhe só como são as coisas, Rodrigo Vianna: enquanto sua produção afirma que o Grego é um escroque que vende documentos, o “jornalista com credibilidade” (ele mesmo, SUA FONTE) responde assim a um comentarista:

E aí, quem está falando a verdade?

1 – O Paulinho, que diz ser o Grego um ratinho assustado pelas ameaças da Máfia Russa;

2 – sua produção (que trata o cara como um mercenário); ou

3 – o Celso Freitas, que disse ao final da reportagem, com a voz empostada: “a TV Record ouviu o Grego, que não quis confirmar nem desmentir a matéria”? OPA, então a Record ouviu o Grego DEPOIS do Paulinho? A matéria já estava pronta? Paulinho do blog do Paulinho não era “elenco de apoio”, mas o pilar estrutural da reportagem, é isso? Explica pra mim, por favor.

Só posso recomendar ao Rodrigo Vianna que torça bastante pra não ter sido “induzido ao erro” pelo “periodista” que “não tem compromisso com o erro”, seja lá o que isto signifique.

Boa noite… e boa sorrrrte.


Esse papo de “Censura!” não é brinquedo, não!

junho 3, 2011

Funciona assim: abro o editor de texto do blog e saio escrevendo sobre o que eu quiser. Ninguém me impede de escrever e qualquer um pode ler. Não submeto previamente meu texto a nenhum órgão do governo ou pessoa. O nome disso é liberdade de expressão, e é o que temos hoje (como nunca antes neste país). Não precisa montar jornal, ganhar concessão de TV ou rádio. Vai lá, monta podcast, videolog, blog, site e recebe meia-dúzia ou 6 milhões de visitantes diários. E, a despeito de toda essa liberdade, está na moda como nunca gritar que foi, está sendo ou será censurado.

É muito triste pra quem viveu o tempo da censura ouvir isso hoje, principalmente de bocas libertárias, liberais ou libertinas, algumas inclusive que foram MESMO amordaçadas nos anos de chumbo, mas parecem ter se esquecido como era sinistra a parada.

Quando eu era moleque, ligava a TV e antes de TODOS os programas aparecia um papel datilografado na tela, escrito “Censura Federal”, com um locutor de voz tenebrosa ao fundo: “Este programa foi aprovado pela Censura Federal para ser exibido NEESTE horário”. Pra quem foi sortudo e não viu, era assim:

Uma vez eu perguntei pra minha mãe o que era aquilo, e ela me explicou: “tem uns caras que ganham pra assistir todos os programas antes de todo mundo e, se eles gostarem, batem esse papel aí e deixam a TV transmitir.”. Eu achei um baita emprego maneiro.

Isso, pra felicidade geral, não ocorre mais no Brasil. E já faz um bom tempo. Promulgamos uma Constituição em 1988, ela é bem bacana, tem um artigo 5º com trocentos incisos (78) e parágrafos, num capítulo denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. No inciso IV, está escrito assim:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

Logo abaixo, tem o inciso V:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

E aí começa a bagunça: tem gente que quer usar o direito conferido pelo Inciso IV sem os problemas que essa besta do inciso V prevê a quem passa da medida no direito de dizer o que pensa a respeito de outrem.

EPA, PERAÍ, mas não é livre a parada? Que medida é essa? Liberdade não tem limites!

Claro que tem, e aprendemos isso logo cedo: você pode andar livremente por aí, mas experimente entrar na casa de alguém sem ter sido autorizado. Se o dono não for com a tua cara (e for meio esquentadão), você será retirado aos tapas do recinto. E, convenhamos, ficaria meio esquisito você ficar no portão da casa dele alegando que seu “direito de ir e vir” foi violado, né?

Pois é, mas voltemos à tal da “Nova Censura”, e dois casos emblemáticos: o site “FAlha de São Paulo” (uma paródia ao jornal “Folha de São Paulo”) e a ameaça de processo do jornalista Marcelo Tas à blogueira Lola Aronovich. Um por vez.

No primeiro caso, o jornal paulistano ingressou com ação para retirar do ar o domínio do site e o layout da página, alegando violação de propriedade intelectual e dano à imagem. Acabou ocorrendo que saiu foi TUDO do ar (até o conteúdo), pois o site, como ocorre nas paródias, era totalmente calcado no original. Seria como se a Maria Bethânia ingressasse com uma ação contra o Didi Mocó por isto aqui:

Se a Bethania ganhasse, o Didi ia ter de tirar do quadro: a música, a peruca, os brincos, os colares e o vestido. Acabou a brincadeira. Seria censura?

Pra mim, não. Ninguém é obrigado a servir de escada pra ninguém. Ninguém é obrigado a rir de si mesmo ou aceitar que façam graça consigo, seja com bons ou maus propósitos. Não é crime ser mal-humorado ou não ter senso de humor (é só uma falha, mas ninguém é perfeito…). E, caso o cidadão entenda que a paródia é ofensiva, o judiciário está lá é pra isso mesmo: PROTEGER SEU DIREITO de não fazer parte do show alheio sem dar permissão para tal.

No caso da Lola, ela disse o que bem quis sobre o Marcelo Tas/CQC:  ”misógino”, “fascista” e o escambau, usando o direito garantido pelo inciso IV da CF. E, vejam, O POST ESTÁ LÁ até agora, e ela já  ESCREVEU OUTRO marretando mais ainda a cabeça do carequinha. E esse segundo post foi escrito DEPOIS que o Tas ameaçou usar o seu direito conferido pelo (maldito) inciso V (da MESMA CF que permitiu a Lola exercer seu direito de opinião). Se o post está lá, CADÊ A CENSURA? O pessoal me explica assim:

- argumento-padrão nº1: “ah, tudo bem, ele ATÉ tem direito, mas é HIPOCRISIA, porque quem se diz democrático e pluralista não age assim.”.

Queridos e queridas, incoerência não é hipocrisia, muito menos crime. Se fosse, muitos dos que cerram fileiras na cyberatividade estariam PRESOS hoje. Eu, inclusive. Quantas vezes defendemos coisas que nos parecem razoáveis à primeira vista, mas que, olhando BEM de perto e com calma, é uma grande cagada? Quantas vezes deixamos de nos colocar no lugar do outro em determinada situação e sentamos o cacete no comportamento dele, mas QUANDO ARDE NO NOSSO pelo mesmo motivo ficamos putos e queremos briga?

- argumento-padrão nº2: “o processo é uma forma de calar o réu pelo uso da força (da grana, dos bons advogados…), a justiça sempre julga a favor dos poderosos contra os oprimidos e não temos chance contra ‘o sistema’!”

Vamos tomar isso como verdade, muito embora eu esteja aqui rodeado de processos nos quais o patrão opressor sempre perde a causa para os empregados oprimidos, e é flagrante a diferença técnica entre os defensores das partes (os advogados dos patrões são muito melhores). É uma amostra viciada, reconheço. Mas mostra que nem todo juiz olha a conta bancária ou a fama das partes para decidir.

Deixando isso de lado, façamos a seguinte analogia: tem um cara tipo “armário 2×2″ falando um monte de besteira a seu respeito numa festa, e sendo aplaudido pelos ouvintes. Você, um mirradinho de 1m60 e 40 kg, puto com aquela situação, faz o quê? a) vai lá e mete o dedo na cara dele; b) deixa quieto e vai chorar em casa; c) chama uns 30 amigos teus e parte pra porrada.

Se você escolheu a), tá mais que na cara que vai apanhar feito boi ladrão e periga ser ridicularizado mais ainda pelos presentes. Se escolheu b),  julgou-se impotente e sofrerá as consequências da sua passividade. Se escolheu a c), pode obter algum sucesso (desde que seus amigos sejam bons de briga e a comprem).

E é isso que as pessoas não entendem nessa parada de liberdade de expressão: quer falar, FALE. Tá tudo liberado. Mas segura o BO depois, ok? Não vai lá meter o dedão na cara do maluco (mesmo que você tenha razão!) e achar que ele, segundo a SUA avaliação, tem o dever de aguentar calado. Se ele agir assim, será POR MERA LIBERALIDADE dele, entende? Ele não é obrigado, e nem estará sendo canalha ou censor por revidar contra algo que ele considerou ofensivo, por mais que você esteja certo. Lembre-se: se ele pensasse como você, vocês não estariam discutindo. E ele, tanto quanto você, tem liberdade de expressão. Se você interditar a dele, a sua morre junto.

No que diz respeito à “parcialidade” da Justiça, um dado estatístico: 100% das sentenças são injustas. Duvida? Saia entrevistando os perdedores das ações e comprovará o número. A gente sempre tem razão, pena que o nosso julgamento próprio nunca é levado em conta. Puta mundo injusto.

Portanto, se você quer expor opiniões fortes na internet, fortaleça-se também pra aguentar as porradas vindouras, sejam elas na forma do contraditório (eu prefiro, mas às vezes não é suficiente), ou na forma de se defender de um eventual processo na justiça. O primeiro tipo de porrada você deve aguentar (se não, nem entra pra brincar); contra o segundo tipo, mostre seu texto a um advogado antes de publicá-lo, ou conheça a lei e os limites da liberdade concedida. Ou vá pra cima deles com sua turma. Isto não é censura, é jogar conforme a regra do jogo. Não gosta da regra? Lute para mudar a regra, mas ANTES de começar a partida. Não com ela em andamento, que isso é coisa de criança que não sabe perder.

O uso do termo “censura” em situações nas quais o que está ocorrendo é apenas o direito de defesa ou resposta pode ter um efeito contrário à liberdade que conquistamos a duras penas. Vai que aparece um doido querendo impor o “jeito certo” de pensar ou agir, e ai de quem pensar diferente. Eu já vi este filme e não gostei.


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