O câncer de Lula e a miopia dos neopseudodefensores do SUS

outubro 31, 2011

A imprensa noticiou que o ex-Presidente Lula tem um câncer na laringe. Esse anúncio gerou, nas internets da vida, três reações: uma parte das pessoas ficou triste e demonstrou sua solidariedade (política, humana ou rodrigueana, tanto faz); outra parte mandou um “bem feito, desgraçado!”; e uma terceira leva (os que se julgam politizados) iniciou uma campanha exigindo que ele fosse se tratar no SUS, pra sentir na pele o que sentem os brasileiros sem plano de saúde. Deixemos os dois primeiros grupos de lado. O primeiro, pela obviedade da reação; o segundo, pela anencefalia que os acomete.

Os que se manisfestaram exigindo nas redes sociais que Lula fosse se tratar no SUS, esses, sim, preocupam. Preocupam porque julgam estar interferindo politicamente nos destinos da nação, mas suas atitudes atabalhoadas e infantilóides só pioram as coisas. Mas isso é tema para outro dia.

Muitos identificaram na exigência insólita feita a Lula um ódio de classe, já que nunca se exigiu isso de inúmeras autoridades abastadas que, adoecidas, recorrem ao serviço privado de saúde. E nem é preciso ir muito longe para constatar isso, já que o VICE do Lula passou um tempão no caríssimo Hospital Sírio Libanês e, morto, foi tratado como herói nacional. Por que só Lula?

Eu respeito essa tese, mas ofereço outra forma de ver a coisa (mesmo porque Lula já mudou de classe faz tempo): existe um ressentimento político contra Lula. E, a meu ver, injustificado.

Como a história de vida de Lula é diferente das histórias de todos que o antecederam (e parecida com a da maioria da população brasileira), o povo viu na ascensão dele ao poder a chance de tudo mudar por aqui. Só que, obviamente, não mudou. Por conta disto, o ex-presidente (e CANSEI de ouvir isso) seria um traidor do movimento. Aos traidores, você bem sabe, o esquartejamento em praça pública é a pena.

Mas vejam só o paradoxo: por que Lula mudou e “traiu o movimento”? Porque VOCÊ MANDOU ele mudar! Ééé, você mesmo que postou no facebook que ele deveria se tratar no SUS, sabia? Não? Explico.

Em 1989, você elegeu Collor contra Lula porque o 1º era “caçador de marajás” e o 2º era um “agitador badernista greveiro barbudo comunista que ia dividir sua casa própria com os sem-teto”. Só que Lula e o PT, à época, estavam muito mais sintonizados com o que você HOJE considera o “movimento traído”. Você não o quis.

Em 1994, a mesma história. E novamente não foi dada a Lula a chance de “mudar tudo”. Preferiram FHC (e até com certa razão, a coisa parecia que ia engrenar, e o PT não oferecia nada mais atraente do que o já rejeitado em 89). Em 1998, cansado de apanhar e sem saber o que fazer, o PT se mostrou mais indeciso que mulher em loja de roupa. Outra sova no PT/Lula.

Aí o segundo governo FHC te deixou bem puto da vida, lembra? E você, de saco cheio, pediu pra oposição um projeto de mudar tudo, pero no mucho.

O PT entendeu bem a parte do “pero no mucho“, e escreveu uma cartinha de amor aos brasileiros, garantindo que tudo iria mudar, sem traumas ou revoluções. O velho e bom “fique rico grátis”, ou “vá pro céu sem morrer”, o esporte mais adorado pelos brasileiros.

E o Lula aparou a barba, passou falar mais corretamente, usar ternos chiques e, principalmente, apertou a mão e abraçou gente que, num passado nem um pouco distante, ele havia chamado de “300 picaretas”. Barganhou, ofereceu posições e garantiu que nada mudaria na vida deles, os picaretas.  E você, tão politizado, não percebeu que, para mudar tudo sem mudar o principal, o caminho é mais longo e penoso. E pode-se nunca chegar ao destino.

Agora, sem todas as mudanças que você gostaria que ocorressem sem o ônus da ruptura, acreditando numa terceira via que nunca existiu, você fica bravo com o Lula e quer se vingar dele. Age como o cara que propõe à esposa participar de swing e, no meio da brincadeira, reclama que ela está gozando mais com um desconhecido recém-conhecido do que contigo.

Lula mudou? Sim. Lula traiu ideais históricos do PT? Sim. Mas fez tudo isso à sua ordem, cidadão-de-bem, ou não teria chegado lá em 2002. Portanto, dê a quem foi tão subserviente à sua vontade o direito de usar o mesmo hospital que você usa ou usaria. Porque, certamente, o PT de 1989 (aquele que você escorraçou) era bem mais preocupado com a melhora da saúde pública. E, cá entre nós, você também nunca deu muita bola para o assunto, já que resolveu o seu problema comprando um plano de saúde de uma empresa que, certamente, faz generosas contribuições para a campanha dos políticos (Lula e o PT, inclusive). E aí fica difícil dar aquela vontade neles de melhorar a saúde, né?


A FIFA enganou o Brasil? Não, porque a regra é clara.

outubro 21, 2011

É bem forte o barulho contra as exigências da FIFA para a realização da Copa no Brasil. Estão falando que o governo está abrindo mão da soberania nacional, atropelando direitos conquistados a duras penas… É, talvez estejam mesmo, mas quem se candidatou a sede da Copa-2014 sabia que isso talvez fosse necessário. Se não sabia, deveria saber. Se sabia e não contou ao povo, sinto muito. Agora a bola já está rolando.

A Copa do Mundo FIFA é um evento privado, uma espécie de circo que fica parado em Zurique e, a cada quatro anos, viaja por um mês para fazer uma turnê no país que pagar melhor a ela. Por “pagamento”, entenda-se ATENDER AOS REQUISITOS do famigerado “Caderno de Encargos FIFA” e realizar uma miríade de conchavos políticos que garantam a sua escolha como país-sede.

De 1986 para cá, o circo da FIFA vem ficando cada vez mais sofisticado e cheio de não-me-toques, toalhas de linho branco e garrafas de Möet Chandon a 8ºC no camarim, graças à exacerbação do conceito de futebol-empresa. A Copa é o espetáculo esportivo mais visto e mais caro do mundo, nada pode dar errado (segundo os parâmetros da dona do evento). Não se perca de vista que a dona da Copa é a FIFA, não o país-sede.

Tá, mas e daí?

E daí que a FIFA usa padrões do futebol europeu (Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra – não Grécia, Portugal ou Croácia) para formular seu conceito de “tudo certinho”. Então, ANTES de se meter a fazer Copa do Mundo, o candidato tem de ver como as coisas funcionam por lá, pra ver se AGUENTA a bagaça. Se não aguenta, nem se candidata. E por “aguentar”, entenda-se não ter de rasgar leis ou violar direitos e, claro, não quebrar o país ou enchê-lo de inutilidades (se você não tem dinheiro para desperdiçar com elas).

É absolutamente ingênuo achar que a FIFA vai “se adaptar” ao país-sede, por três razões muito simples:

1) existe UMA FILA de países querendo os jogos, muitos deles submetendo-se a qualquer coisa para tê-los;

2) existe OUTRA FILA de países querendo os jogos e que não precisam mover uma palha para “se adaptar” aos caprichos da entidade, pois os tais caprichos estão plenamente incorporados (os tais países-modelo da FIFA).

3) É a FIFA que aceita o país-sede, não o contrário.

Bem, mas você pode perguntar: “peraí, mas tem coisa que não estava no Caderno de Encargos e que estão exigindo agora, estão rasgando o contrato!”. CLARO que tinha, porque a tal brochura é um documento que deve ser seguido por todos os candidatos, não comportando especificidades do tipo “ingresso de aposentado não pode”, porque isso é uma jabuticaba.

Para a FIFA conseguir sua almejada qualidade HDMax no evento, ela nivela todos os países candidatos “por cima”, e exige de quem quer fazer o evento que suba se estiver embaixo. “Suba”, sempre é bom ressaltar, de acordo com os parâmetros dela, não os da sede. O objetivo da entidade é um só: seja na África do Sul, Inglaterra, Brasil ou Qatar, o cliente deve se sentir da mesma forma e os parceiros devem ter as mesmas regalias, senão o contrato dela fura e ela perde dinheiro.

A história recente mostra que, quando o país não é “modelo-FIFA”, depois que o circo vai embora a coisa fica bem feia: lixo pra todo lado, bosta do elefante branco espalhada pelo terreno e um monte de conta no espeto.

PS.: isso vale também para a Olimpíada, claro.


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