A FIFA enganou o Brasil? Não, porque a regra é clara.

É bem forte o barulho contra as exigências da FIFA para a realização da Copa no Brasil. Estão falando que o governo está abrindo mão da soberania nacional, atropelando direitos conquistados a duras penas… É, talvez estejam mesmo, mas quem se candidatou a sede da Copa-2014 sabia que isso talvez fosse necessário. Se não sabia, deveria saber. Se sabia e não contou ao povo, sinto muito. Agora a bola já está rolando.

A Copa do Mundo FIFA é um evento privado, uma espécie de circo que fica parado em Zurique e, a cada quatro anos, viaja por um mês para fazer uma turnê no país que pagar melhor a ela. Por “pagamento”, entenda-se ATENDER AOS REQUISITOS do famigerado “Caderno de Encargos FIFA” e realizar uma miríade de conchavos políticos que garantam a sua escolha como país-sede.

De 1986 para cá, o circo da FIFA vem ficando cada vez mais sofisticado e cheio de não-me-toques, toalhas de linho branco e garrafas de Möet Chandon a 8ºC no camarim, graças à exacerbação do conceito de futebol-empresa. A Copa é o espetáculo esportivo mais visto e mais caro do mundo, nada pode dar errado (segundo os parâmetros da dona do evento). Não se perca de vista que a dona da Copa é a FIFA, não o país-sede.

Tá, mas e daí?

E daí que a FIFA usa padrões do futebol europeu (Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra – não Grécia, Portugal ou Croácia) para formular seu conceito de “tudo certinho”. Então, ANTES de se meter a fazer Copa do Mundo, o candidato tem de ver como as coisas funcionam por lá, pra ver se AGUENTA a bagaça. Se não aguenta, nem se candidata. E por “aguentar”, entenda-se não ter de rasgar leis ou violar direitos e, claro, não quebrar o país ou enchê-lo de inutilidades (se você não tem dinheiro para desperdiçar com elas).

É absolutamente ingênuo achar que a FIFA vai “se adaptar” ao país-sede, por três razões muito simples:

1) existe UMA FILA de países querendo os jogos, muitos deles submetendo-se a qualquer coisa para tê-los;

2) existe OUTRA FILA de países querendo os jogos e que não precisam mover uma palha para “se adaptar” aos caprichos da entidade, pois os tais caprichos estão plenamente incorporados (os tais países-modelo da FIFA).

3) É a FIFA que aceita o país-sede, não o contrário.

Bem, mas você pode perguntar: “peraí, mas tem coisa que não estava no Caderno de Encargos e que estão exigindo agora, estão rasgando o contrato!”. CLARO que tinha, porque a tal brochura é um documento que deve ser seguido por todos os candidatos, não comportando especificidades do tipo “ingresso de aposentado não pode”, porque isso é uma jabuticaba.

Para a FIFA conseguir sua almejada qualidade HDMax no evento, ela nivela todos os países candidatos “por cima”, e exige de quem quer fazer o evento que suba se estiver embaixo. “Suba”, sempre é bom ressaltar, de acordo com os parâmetros dela, não os da sede. O objetivo da entidade é um só: seja na África do Sul, Inglaterra, Brasil ou Qatar, o cliente deve se sentir da mesma forma e os parceiros devem ter as mesmas regalias, senão o contrato dela fura e ela perde dinheiro.

A história recente mostra que, quando o país não é “modelo-FIFA”, depois que o circo vai embora a coisa fica bem feia: lixo pra todo lado, bosta do elefante branco espalhada pelo terreno e um monte de conta no espeto.

PS.: isso vale também para a Olimpíada, claro.

10 respostas para A FIFA enganou o Brasil? Não, porque a regra é clara.

  1. Lucius disse:

    Na hora da venda dos ingressos será outro choro. Nos estádios os brasileiros serão minoria. :-)

    Sim, e por isso mesmo a FIFA já manda botar aqueles telões em praças, pro povo mostrar sua alegria e satisfação pela honra de sediar a Copa.

  2. Leonardo disse:

    E o “pacta sunt servanda” da Copa!

    Na verdade Vinícius, não decepciona pô, defende aí a “função social do mundial”!

    Todo evento de grande porte causa impacto algum positivo na sociedade, e ele pode ser maior ou menor, dependendo da forma como é executado.

  3. Athosbr99 disse:

    Ótimo texto. Eu que não curto futebol (esse post brotou no meu Twitter) curti muito.

  4. Ismael Scatolin disse:

    Olá. É prazeroso ler os textos publicados neste blog. É uma pena que temos que esperar muito pra ler algo novo. Até mais.

    Obrigado. Não tenho tido muita vontade de escrever, ando meio sem paciência. Mas você pode assinar o blog (tem um botãozinho na lateral), e receberá uma mensagem sempre que eu postar alguma bobagem aqui.

  5. A FIFA enganou o Brasil? Não, o Brasil é que vive a enganar o Brasil!

    Todos conhecem as regras e todos fazem vistas grossas. Essa choradeira toda pelo meio ingresso é pra ingles ver como sempre. Ou será que nossos homens estão mesmo tão preocupados com o povo sofrido dest país humilde?

    Muita coisa ainda vem por aí e muita chiadeira ainda vai acontecer. Normalmente nos momentos criticos, quando se faz necessário desviar a atenção de algo maior que traga beneficios a este pessoal tão meticuloso que tanto preza por nós.

    É o pão e circo amigo, como sempre. A cada 4 anos ganha força. Durante a copa é que se aprovam os mais famigerados projetos, sempre foi assim. E veja só, desta vez teremos pelo menos 2 anos de pura alegria. E depois mais 2 até as Olimpiadas.

    É isso aí povo sofrido, vamos fiscalizar as pequenas coisas, vamos vibrar com nossas vitórias e nossas medalhas… Depois vamos choramingar por mais uns anos, até a próxima Copa… Então tudo vira festa novamente.

    Parabens pelo post amigo.

    Grande abraço!

  6. qualquergordotemblog disse:

    Que bom que voltou a escrever, hein!

  7. Alemão disse:

    Pois é meu velho… primeiro abaixam até as calças pros caras fazerem aqui o evento, depois colocam a FIFA como vilã da história sendo q já sabiam q ela faz exigências extravagantes e “desnecessárias” ao menos para o padrão brasileiro…
    belo texto…
    abraços

  8. Marcelo Abdul disse:

    Mas teve concorrência para sediar a Copa de 2014? O Brasil foi canditato único. Não teve que se submeter a nada porque já estava tudo acordado entre a Fifa e Ricardo Teixeira. Só esqueceram de avisar o governo depois.

  9. Poi zé, meu velho… sempre fui contra a execução desse tipo de evento aqui no Brasil. Copa, Olimpiadas, Pan….

    Não faço idéia do por que países ainda compram essa idéia, afinal de contas, são eventos caros, caríssimos, e que acabam virando elefantes brancos pra qualquer administração.

    Referências na net não faltam sobre os prejuizos gerados por esses eventos nos últimos 21 anos. Várias delas, de imprensa respeitada. (Juro que não tou falando do blog do Paulinho, huahuahua!!!)

    No mais, diminue um pouco a periodicidade dos seus sumiços, eu, pessoalmente, prefiro ler blogs de opinião dentro do próprio blog mesmo, pra não encher demais minha caixa de entrada no e-mail, que eu reservo só pra blogs de humor sem conteúdo.

    Grande abraço, Vinícius.

  10. Quando uma empresa de entretenimento chega ao ponto de colocar países de joelhos, alguma coisa está muito errada tanto na economia quanto na política…

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