Este texto estava no rascunho do blog desde quando houve o homicídio do rapaz da FEA, eu não tive coragem de publicar. Com a ocupação da FFLCH em protesto contra a presença da PM, resgatei.
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Semana passada morreu um estudante de Ciências Atuariais da FEA/USP, assassinado dentro do campus quando ia pegar seu carro no estacionamento. Com isso, reabriram um velho debate: como efetuar policiamento ostensivo/preventivo na USP, se a universidade não curte a presença da PM por lá?
Quem me acompanha nas redes sociais sabe o que eu penso a respeito, e sabe também que muita gente (100% deles do meio acadêmico) veio oferecer o contraponto às minhas opiniões, dizendo que “Polícia e Universidade não combinam”, que a PM “não entende de manifestação cultural/política e vai chegar dando porrada”, “PM é sinônimo de repressão”…
Como diz a receita culinária, separe isto e reserve. Foi só um gancho para entrar em outra seara: para que serve a USP? A quem serve a USP? Quem toma conta da USP? Como funciona a tal “autonomia universitária”?
Claro que, quando eu digo “USP”, refiro-me às universidades públicas. No final dos 1970 e começo dos 1980, era comum ver em qualquer manifestação no Brasil a faixa “MAIS VERBAS PARA A EDUCAÇÃO” (eu vi até em estádio de futebol, e o portador saiu acariciado pelos PMs do Choque).
Pois bem: as “mais verbas” chegaram. Não sei se na medida dos anseios da comunidade universitária, mesmo porque verba pública é igual a encher pneu furado: quanto mais se põe, mais falta pra se obter a pressão ideal. E, evidentemente, as tais “mais verbas” chegaram na ponta final (a universidade), haja vista a situação precaríssima do ensino básico no Brasil. E, pra ser bem sincero, não creio que os portadores daquelas antigas faixas de protesto estivessem lá muito preocupados com o dinheiro para a escola de ensino fundamental da periferia.
A universidade pública coloca gente no governo? Sim, mas na cúpula do governo. Deveria colocar na base, e isso não faz (e, a continuar assim, nunca fará). Formandos em pedagogia pela USP, por exemplo, deveriam ser obrigados a, ao final do curso, prestar serviços em sala de aula da escola pública por, pelo menos, o tempo que levaram na sua formação acadêmica. Mas quem está ralando como professor I da rede estadual é o formado na UNIBAN, que mal sabe pra ele. O formando em pedagogia da USP vai para a escola privada, que paga mais, ou entra no chamado ciclo eterno: faz pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, publica, publica, publica, faz concurso e vira professor da USP, dá umas aulas, faz conchavos, arruma uma boquinha no Departamento e cabô, tá aposentado.
Nos dois caminhos acima (ir pra iniciativa privada ou virar estudante profissional – isto vale para quase todas as carreiras), temos dois movimentos: 1) ou a universidade pública alimenta o setor privado, ou 2) a universidade pública cria um sistema hermético de proteção aos integrantes da própria academia. Quem tá dentro, não sai; quem tá fora, não entra.
E a sociedade, que é quem sustenta a universidade pública, o que ganha com isso? Muito pouco. E ela precisa de pessoas capazes compondo a máquina do Estado. Não lá nos primeiros três escalões, mas aqui embaixo. O problema do Estado brasileiro está na base, não no topo. Um gênio comandando uma cambada de idiotas não resolve nada.
Voltemos ao reservado lá de cima: toda e qualquer ação que vise a controlar ou fiscalizar a atividade universitária ou o seu funcionamento é prontamente rechaçada pela comunidade acadêmica, sob os argumentos mais criativos (alguns até válidos, reconheço).
A Cidade Universitária quer ser uma bolha, um ente autônomo, quase uma Embaixada do Reino da Sapiência no Brasil. Não é da conta de ninguém saber ou cobrar o que ocorre por lá: como são utilizados os recursos, em que a sociedade brasileira está sendo beneficiada com a produção científica, qual é a produção científica… tudo em nome da autonomia universitária. A universidade não gosta de ser vigiada. Nem pela polícia, nem pela sociedade.
Não se metam com a USP. Mesmo em caso de assassinato. Se a coisa apertar muito, eles criam uma polícia própria, um judiciário próprio, um cemitério próprio…
Escrito por Vinicius Duarte 