Terça-feira é especial para mim. É o dia do rodízio do meu veículo. Acordo, pego minha mochila, vou até o ponto de ônibus pegar o cata-loco pro serviço. É um dia calmo, ônibus vazio, fone de ouvido rolando notícias.
Depois de um belo e produtivo dia de trabalho, troco de roupa e volto pra casa, andando por 8 km. Pouca coisa, quando se está disposto e escutando um Songs in the Key of Life do mestre Wonder, misturado com Echo & the Bunnymen.
Ponte da Vereador, Ibirapuera, Pavão, Quatá, Hélio Pelegrino, 16°C, trânsito tranqüilo. Na trilha sonora, Isn’t She Lovely. Neste momento, cruzamento da Amauri, atravessando a rua em seu último quarto, o semáforo abre para os carros. Contrariando a música que escutava, enquanto corria com a mão espalmada, pedindo ao mesmo tempo desculpas (e mais tempo para terminar a travessia), uma bela moça em seu veículo (fabricado por uma marca originária de um país onde a desonra muitas vezes resulta em haraquiri) acelerou, buzinou e mostrou o dedo médio para mim. O mesmo gesto que o Cristian do Timão fez em certa oportunidade, só que sem cruzar os punhos.
Para azar da extrema e externamente linda garota, ela ficou presa no meio do meu caminho. Não me alongarei contando a conversa que tive com ela, pois a moça é tão mal educada que o nobre leitor não merece ler os argumentos da acéfala dendroclasta: é mal educada, não sabe viver em sociedade e desconhece completamente as leis de trânsito. Conheci a biliar garota pelo lado negro de sua personalidade; do contrário, pegaria-a, fácil.
Segui meu caminho pensando sobre o ocorrido e cheguei à conclusão de que a moça nunca gastou sola de sapato nas ruas de São Paulo. Talvez tenha algumas caminhadas em Shoppings ou ruas comerciais, mas caminhar de verdade, enfrentando a ausência de setas de conversão, os sinais vermelhos e faixas de pedestres desrespeitados, calçadas inteiras em 30° (andar inclinado é foda), buracos, lixo, carros sobre o passeio… Nunca.
Escutando a versão do Echo para People Are Strange, percebi que a tal “moça bonita por fora” mudou meu foco para as coisas ruins do trajeto, e quase me esqueci de agradecer outra lindona que, educadamente, parou antes da faixa para que eu passasse.
* (texto do André Nogueira, só dei uma copidescada de leve – e troquei o título. Disculpaí…)
Escrito por André Nogueira
Escrito por André Nogueira