PEC das Domésticas: não curtiu? Faça você mesmo!

março 25, 2013

Qual a diferença entre trabalhar em uma casa de família e trabalhar num escritório?

Do ponto de vista da relação de emprego, nenhuma: o trabalhador doméstico cede sua força de trabalho ao dono da casa em troca de uma remuneração, e o trabalhador do escritório faz o mesmo com relação ao empresário. Isso pode parecer óbvio, mas aqui no Brasil até o óbvio é caso de controvérsia.

A chamada PEC das Domésticas apenas e-qui-pa-rou o empregado doméstico aos demais empregados com contratos regidos pela CLT. Até então, os domésticos formavam uma categoria profissional diferenciada (pra baixo, claro), e a relação de emprego domiciliar era regulamentada por lei específica (a 5859/1972).

A partir da promulgação da lei nova, a “secretária do lar” (que lindo isso!) passará a ter os mesmos direitos mínimos que o patrão dela tem (se este for empregado), ou os que o patrão dela já concede aos empregados da  “firma” (se este for empregador). Se você é “PeJotinha”, não há o que fazer. Faz parte de uma categoria anômala de trabalhadores, não há lei que te proteja. Mas você sabia disso quando aceitou a contratação.

E por que há tanta gritaria? Vamos ouvir a voz do povo:

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1) “eu já tinha dificuldade de manter a minha empregada na lei antiga, o que faço agora? É justo isso?

R.: Faça o mesmo que o seu empregador faria contigo se não pudesse mais arcar com a sua “manutenção”: demita-a e faça você mesmo o serviço que ela faria.

Sim, é muito justo. Não precisa ficar com dor na consciência só porque ela “é quase como se fosse da família” (que lindo isso!). Ela supera. Se você mora no eixo RJ-SP-BH, então, ela sai da tua casa pra outro emprego, rapidinho.

Agora, antes de demitir o seu “braço direito que é pau pra toda obra” (que lindo isso!) vem cá comigo: você já botou no papel o aumento de custos REAL que virá com a nova lei?

Eu te digo: você será obrigado a recolher 8% sobre o salário mensal dela para o FGTS. E se quiser demiti-la sem justa causa, + 40% sobre os depósitos que tiver feito durante o contrato. Resumindo: na PIOR das hipóteses, esta empregada vai te custar mais 11,2% sobre o que você já paga de salários/13º/férias. Nada mais.

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2) “Ei, você se esqueceu das horas extras com 50% de adicional!”

R.: Não esqueci, não. A menos que você more em uma mansão e exija ser servido 24h por dia (e, neste caso, este texto não te serve porque teu problema não deve ser pouco dinheiro), ter uma pessoa à disposição por 44 horas semanais (8 horas de seg/sex mais 4 aos sábados) é tempo de sobra para que ela cuide de uma casa normal (lavar, passar, cozinhar, arrumar e limpar). Experimente fazer isso quando tirar férias (se tiver intimidade com a coisa, claro).

Portanto, você só pagará horas extras se: a) for muito otário (a empregada te enrola), ou b) se precisar de serviços extras que você pagaria “por fora” para outrem caso não tivesse empregada (cuidar do bebê ou de um idoso enquanto sai à noite, ou ajudar numa festa em casa). É só fazer as contas: se ficar mais barato contratar um profissional avulso para essas ocasiões, CONTRATE! Ou pague a hora extra. Se você não trabalha de graça (se trabalha, azar o teu. Ela não tem nada com isso), por que o empregado doméstico deveria trabalhar? Só porque você “a trata como uma grande amiga” (que lindo isso!)?

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3) “Se a empregada dorme no serviço não pode nem servir o jantar? Vai ficar lá no quarto dela vendo novela enquanto eu me lasco todo aqui?”

R.: Você não acha meio esquisito esse negócio de “dormir no emprego”? Você dormiria no teu emprego todo santo dia, até na tua folga? Tá, deixa isso pra lá.

Se ela dorme no emprego (já sei, ela “veio do ~norte~ só com a roupa do corpo, tadinha blablabla”), que tal deixá-la dormir (ou assistir TV, fazer a unha, passear etc) e VOCÊ pegar uma colher, tirar a comida (que ela deixou pronta) da panela e botar no teu prato? Sai mais barato do que pagar uma hora extra pra ela.

Patrão só paga hora extra pra empregado se for vantajoso para ele. Se é vantajoso, não há do que reclamar. Paga e não bufa.

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4) “Você quer comparar o poder econômico de uma empresa com o de uma dona de casa assalariada? Absurdo!”

R.: Não, de jeito nenhum! E nem seria o caso, mesmo porque existem empresários que faturam menos do que assalariados, porém nem esses deixam de cumprir a CLT. A lei trabalhista vale tanto para empresários mequetrefes quanto para tubarões do capitalismo. Por isso mesmo, um pequeno empresário faz muitas contas antes de contratar um empregado. Você deve fazer o mesmo. Se não aguenta, vai pra pia.

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5) “Ó lá, tá vendo? Eu faço as contas, vejo que não posso mais pagar a empregada e não contrato! Olha a demagogia causando desemprego!”

R.: As coisas mudam com o tempo, amigo (a). E você não é a última bolacha do pacote empregatício. Pesquise no gugol por “está cada vez mais difícil arrumar empregada mensalista”, ou “salário oferecido aos empregados domésticos não para de subir”. Oferta de emprego MAIOR que o estoque de trabalhadores disponíveis. Isso ANTES da PEC “desempregadora”! Por que será?

No tempo da lei 5859/1972, realmente as empregadas “vinham do norte só com a roupa do corpo”. Só com a roupa do corpo, sem referências familiares e analfabetas reais. Muitas nem folga tiravam por medo de se perderem na cidade grande, pois eram incapazes de ler uma placa de rua.

Estamos em 2013. O ensino foi universalizado no Brasil (a grande maioria de possíveis domésticas chegam analfabetas funcionais, mas com diploma de fundamental e sabendo ler placas). Sempre há um parente/amigo aqui para acolher a “vinda do norte” até que ela arrume um emprego (num supermercado, terceirizadora de serviços de limpeza etc.). Portanto hoje você, empregador doméstico, não está mais disputando empregada SÓ com a sua vizinha, e sim com todo e qualquer empregador que ofereça vagas para pessoas sem qualificação com salário equivalente (ou até menor, mas eles PAGAM o FGTS e horas extras que você reluta em pagar!). Adivinha quem vai perder o candidato se não se adequar à nova concorrência?

E é isso que o empregador doméstico que chia contra a PEC não percebe: ao oferecer as mesmas (ou melhores) condições do empresário normal, AMPLIA a oferta de candidatos à vaga, uma vez que elimina boa parte da diferença entre trabalhar numa empresa e trabalhar numa casa! Superadas as dificuldades econômicas, basta agora superar o preconceito e dar ao trabalho doméstico o seu devido valor como atividade humana. Isso demora, e não se resolve com leis.

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6) “É nada! Sabe o que vai acontecer? Vai todo mundo pra informalidade! Eu mesmo vou demitir minha empregada e contratar como diarista!”

Olha, se você está pensando em fazer isso com a tua empregada mensalista por causa dos 11,2%, ou nunca precisou mesmo de empregada mensalista, ou subestima a inteligência da “mocinha que trabalha em casa e é um amor de pessoa” (que lindo isso!). Vejamos:

Como mensalista, se você paga R$ 1.200 mensais por 25 dias úteis de trabalho no mês, a empregada te custa R$ 18.778 anuais (1200 x 13 + 1200/3 de férias + 1.920 INSS* + 858 VT desc. 6%). Com a PEC, você terá um acréscimo de R$ 1.792,00  na despesa (16.000 x 11,2%), que vai a R$ 20.570. Dividindo R$ 20.570 por 275 dias de trabalho = R$ 74,80 por dia trabalhado.

Só que você bem sabe que, se propuser a ela que ganhe R$ 68,28 (18.778/275) por dia na tua casa sem vínculo empregatício, não vai rolar. Ela consegue BEM mais que isso como diarista em várias casas. Intuitivamente, ela sabe que para abrir mão da garantia de emprego e virar empreendedora,  só melhorando a perspectiva do “faz-me rir”. É por isso que muitas já foram por este caminho.

E nem preciso falar que, caso ela aceite tua proposta, no dia em que você a demitir, ela poderá tranquilamente ir à Justiça do Trabalho e exigir todas as verbas a que fez jus (mesmo as que você pagou “camufladas”), pois está configurada a relação de emprego. Quem paga errado, paga duas vezes.

Agora, se você propuser a ela que venha só 2 ou 3 vezes por semana a R$ 100 + VT “cheio” e isso resolve o teu problema, você economizará bastante (gasto de R$ 11.024 ou 16.536 anuais). Mas aí eu te pergunto: pra que você tinha (ou queria ter) empregada mensalista?

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* O valor da contribuição patronal do empregado doméstico ao INSS pode ser lançado como dedução do seu IR, até o limite mensal (+ 13º +1/3 de férias) de 12% sobre o salário-mínimo vigente à época do recolhimento. Já dá um refresquinho (pra quem declara IR, evidentemente).


“Fique Rico Grátis” (ou pagando uma pequena quantia, que seja)

março 19, 2013

O título deste post (a parte entre aspas) é de autoria do meu amigo desde tempos pré-internetianos Humberto.

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No final de fevereiro, alguém nas redes sociais indicou este texto do blog Acerto de Contas, alertando sobre a existência de um possível golpe financeiro que estaria sendo aplicado em grandes proporções, principalmente em cidades pequenas e médias do interior do Brasil.

A princípio, fiquei triste em perceber que golpes não morrem ou envelhecem. Na verdade, fiquei mais triste em perceber que nem golpes nascem mais neste mundo. É tudo “releitura”, “remake” ou “repaginação” de golpes mais velhos que minha avó. Sinal de que até estelionatários e golpistas perderam a criatividade. Também, do jeito que a coisa anda, nem precisa ser criativo.

Golpes do tipo “Pirâmide de Ponzi” me são especialmente enojantes porque todas as vítimas, ao se verem dentro dele, tornam-se cúmplices do golpista e agem de maneira até mais repugnante do que o “inventor”. Não poupam esforços em atrair mais vítimas. Não se preocupam com laços familiares, de amizade, nada. O objetivo é saciar a ganância e escapar da teia em que foram enredadas do melhor jeito possível. Nem que pra isso tenham de destruir a vida financeira de  pessoas próximas. É uma das demonstrações de miséria humana mais evidente e inexplicável que eu conheço.

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Vou tentar escrever este texto de um jeito que até um “potencial divulgador TelexFREE” consiga entender. Em tópicos, do tipo “pergunta-resposta”.

1) TelexFREE é “Ponzi”?

R.: ÓBVIO que é “Ponzi”! Se você for discordar, vai ter de ler até o final e rebater ponto por ponto. Se não quiser, guarde sua opinião pra você e caia fora daqui. Ou então mande a Ympactus me processar por difamação e calúnia.

2) TelexFREE é um bom negócio?

R.: DEPENDE. O que você considera “bom negócio”? Se acha que “bom negócio” é VOCÊ ganhar dinheiro e o resto que se dane, é um EXCELENTE negócio! VAI NA FÉ, IRMÃO! Só não reclame se apanhar na rua quando der merda (ou fuja da cidade antes disso acontecer).

Mas CALMA, não vai ficando assanhado e fazendo empréstimo consignado no nome da vovó! Também precisamos ver a tua POSIÇÃO ATUAL no negócio: se é de quem VAI FERRAR ALGUÉM ou de quem VAI SE FERRAR. Sim, não há outra posição nesta brincadeira.

Lembre-se de uma coisa muito simples (e que qualquer retardado sabe): se você ganhou dinheiro, ALGUÉM PERDEU. Dinheiro não brota do chão. Se brotasse, ninguém trabalharia e todos seriam ricos. Só não se sabe o que se faria com tanto dinheiro, pois se ninguém trabalha, não haveria o que comprar.

Portanto, tenha em mente que o cara que te chamou pra entrar no esquema te toma hoje como um otário, mas torce para que você consiga outros otários e passe para o lado dos espertos como ele. E não porque ele é teu amigo, mas sim porque é a sobrevivência dele no golpe. E assim, sucessivamente.

Não há nenhum integrante de esquemas Ponzi com QI acima de 35 que não pense assim. Inclusive você (se teu QI for acima de 35, claro). O comum entre todos os piramidistas é que ninguém é ingênuo (exceto os de QI abaixo de 35). Há uma filhadaputice intrínseca em todos. É o mesmo cara que finge estar dormindo no banco reservado a idosos no ônibus, ou que fura fila etc.. A Constituição Federal desses sujeitos (de TODOS, não só os que bolam os golpes) só tem UM artigo, o 1º (e único) da Lei de Gérson (“goxto de levar vantagem em tudo, cerrrto?”).

3) Os caras que mostram grandes ganhos no sistema TelexFREE são todos mentirosos?

R.: NÃO! AQUILO É TUDO VERDADE, CARA!

Realmente, alguns estão ganhando fábulas de dinheiro, vários estão recuperando o dinheiro investido com algum lucro (o que os estimula a investir mais e chamar mais gente) e muitos estão recuperando pelo menos o dinheiro que colocaram no esquema.

Só que eu vou contar UMA coisinha pra vocês: TODA PIRÂMIDE DE PONZI é alimentada assim, sabia? Os que ganham muito fazem questão de alardear seus ganhos espetaculares, os que recuperaram seu investimento com algum lucro se enchem de esperança (e fazem tudo para ter as coisas que os acima deles já conseguiram) e os iniciantes ACREDITAM nos dois grupos anteriores e entram no sistema.

E você, em qual posição está?

4) Se a TelexFREE é picaretagem, como você explica os impostos que ela paga, o CNPJ, a sede suntuosa etc.?

R.: Quem te disse que pra um negócio ser ilícito ele não pode ser aparentemente lícito?

Vou explicar pra você, potencial “divulgador TelexFREE”: o DARF milionário (aquela guia de pagar imposto) que vocês vivem dizendo que é o “atestado de idoneidade” da empresa é pago DA MESMA FORMA QUE É PAGA TODA E QUALQUER COMISSÃO que a Ympactus Comercial Ltda.-ME paga aos seus “divulgadores”!

5) Ah, é? Como?

Ora, com o dinheiro de QUEM ENTRA no sistema! A empresa NÃO TEM RECEITA A NÃO SER O DINHEIRO QUE VOCÊS COLOCAM no esquema! É tão difícil entender isso?

E mais: “os impostos”, vírgula! A TelexFREE recolhe somente o IMPOSTO DE RENDA sobre o valor que os divulgadores ganharam por recrutar mais pessoas! Ela não paga ICMS porque “não vende nada”. Paga ISS pelo “serviço de marketing multinível prestado”?. Não sei, essa guia ela nunca mostrou. Sobre o uso da tal telefonia VoIP, é certeza que não recolhe, mesmo porque o serviço é prestado (segundo ela) a partir dos Estados Unidos e a TelexFREE Inc. não tem sede no Brasil.

Sobre a sede suntuosa, vamos transcrever a fala de um personagem do filme “Tropa de Elite” (do qual participou também um hoje divulgador da TelexFREE) :

“É você que financia essa porra!”

6) “Cara, ou você tem inveja da TelexFREE, ou de mim que tô montado na grana, ou é pago pela concorrência para desqualificar nosso trabalho!”

Ok, capitão. Para resolver uma eventual “inveja da TelexFREE”, basta eu… COMPRAR (desculpa, “investir”) UM AdCenter TelexFREE ou qualquer porra similar e entrar no esquema, não? É bem fácil. Desculpa, mas eu não sou trouxa, nem me acho o “pica das galáxias”.

Inveja de VOCÊ eu não posso ter. Primeiramente, nem sei se você é o ferrador ou o ferrado. Como já explicado anteriormente, só há essas duas possibilidades.

Se você for o ferrador, não consigo ter inveja de alguém que se dá bem à custa da desgraça alheia. SIM, você SABE que essa porra vai explodir, mas enquanto tá tomando seus bons drinks e comprando seu Camaro, quer mais é que se alguém se lasque. Cada um vive como quiser, mas essa tua vida não me serve.

Se você é o potencial ferrado (e não é o consumado ferrado porque ainda pode se salvar arrumando outro fiofó pra botar na reta), jamais quereria estar na tua pele. É como segurar uma granada sem pino: se você não repassar, explode na tua mão.

Quanto a “ser pago pela concorrência”, apenas UMA pergunta pra eu ver se sou financiado por algum deles: quem é (são) o(s) concorrente da TelexFREE? A Herbalife? Ela não vende VoIP, vende shakes nojentos (com a sua marca); a MonaVie vende igualmente shakes nojentos (com sua marca) e não VoIP; afinal, qual outra empresa vende VoIP no Brasil? A Skype, que hoje pertence à Microsoft? Acho que ela não está muito preocupada com vocês a ponto de me pagar. Sendo mais claro, uma coisa que nunca foi mostrada pelos “executivos” da TelexFREE é o volume de ligações feitas através do seu sistema VoIP. Se é que alguém consegue telefonar com aquilo.

7) A TelexFREE (Ympactus) não comercializa nada! O advogado da empresa já explicou, seu burro! É uma empresa de marketing multinível! Você não conhece mkt multinível, seu ignorante?

R.: Pois é, né? Imagina a credibilidade de uma empresa aberta com o nome de Ympactus COMERCIAL Ltda.-ME que, através de seu advogado, diz que não COMERCIALiza nada. Parabéns ao contador que abriu a empresa.

Tudo bem, sei lá, vai ver foi erro do cartório. Não vamos acusar sem provas.

Apesar do sobrenome macabro, a TelexFREE (Ympactus) é uma empresa de “marketing multinível”. Portanto, prestadora de serviços. Consideremos assim, pra ninguém ficar bravo.

Como toda empresa de marketing (aliás, como QUALQUER empresa já nascida no mundo desde o tempo dos Faraós), a TelexFREE precisa ter… CLIENTES.

E quem são os clientes da Ympactus? Pelo que eu entendi, só a pobre TelexFREE Inc., sediada nos Estados Unidos, que (teoricamente) VENDE(ria) tecnologia VoIP. Até aí, tranquilo: a TelexFREE Inc. vende linhas telefônicas, e a Ympactus faz a intermediação desta venda. Nem entremos na questão “preço”, porque uma característica dos produtos oferecidos por empresas MMN é serem caros pra cacete (vide Amway, Herbalife, Mary Kay etc).

Mas tem boi nessa linha, e vocês verão a seguir.

Para fins de ilustração, chamaremos as linhas VoIP da TelexFREE Inc. de “pãezinhos“, e a TelexFREE Inc. de “padaria“. Segundo o advogado da Ympactus (a corretora de “pãezinhos”), ela apenas divulga a existência da “padaria” americana e intermedeia a venda dos “pãezinhos” dela. Nada mais.

Pois bem: Toda “padaria” tem um LIMITE de produção de “pãezinhos” (baseado na quantidade de farinha, padeiros, tamanho do forno etc.). Portanto, da “padaria”, saem no máximo os “pãezinhos” compatíveis com sua capacidade produtiva. E não há “marketing multinível” que mude isso de uma hora para outra. Se a padaria só consegue produzir 100 pães, não adianta oferecer 500. Parece bem claro, não?

Mas, vejam: essa empresa de marketing multinível oferece, por sua conta e risco, INFINITOS “pãezinhos”!

8) MENTIRA!

R.: Tá duvidando? Tem problema não, amigo. Eu demonstro:

Uma AdCentral entrega 10 “pãezinhos”, e uma AdCentral Family entrega 50 “pãezinhos” na mão do divulgador. Não há limite de divulgadores baseado na capacidade instalada do cliente (TelexFREE Inc.)?

9) NÃO, CLARO QUE NÃO, SEU BURRO, basta pagar US$ 299 ou 1.375 que receberá 10 ou 50 “pãezinhos”! Marketing multinível é isso, nunca viu?

VI SIM, IDIOTA, por isso estou dizendo que:

a) você está dando um golpe;

b) sendo cúmplice  de um golpe;

c) sendo vítima de um golpe.

Ou as três alternativas, simultaneamente ou combinadas duas a duas.

10) Por quê?

Porque se não há limites para se arregimentar novos divulgadores (e, por consequência, novos detentores de linhas VoIP – ou “pãezinhos”), quer dizer que nunca acaba a farinha da padaria? O padeiro é o Multi-Homem? O forno se auto-amplia? Explica isso pra mim.

E só piora: segundo as regras da Ympactus, basta você publicar anúncios na internet (e não importa se alguém verá ou clicará no teu anúncio, basta publicar em qualquer espelunca internética grátis), que você ganhará mais um ou cinco “pãezinhos-bônus” pela “propaganda da padaria” (dependendo do teu investimento).

Alguém perguntaria:  mas se o cara nem vendeu os 10 (ou 50) pãezinhos que vieram no pacote do investimento, o que vou fazer com mais um (ou cinco)?

ORA, NÃO SE PREOCUPE COM BOBAGENS, AMIGÃO! A empresa de marketing multinível os comprará de você pela metade do preço de revenda do “pãozinho” (US$ 20)! Afinal, o seu esforço em divulgar a empresa (mesmo que num site mais desconhecido e inóspito que a mais remota caverna de Plutão) deve ser recompensado!

Ou seja, a empresa de marketing multinível também ficará com um estoque de “pãezinhos” recomprados dos divulgadores que fizeram os anúncios.

E o que ela faz com eles?

Como o advogado da Ympactus disse que a empresa não comercializa nada (só lembrando que “comercializar” significa “comprar de alguém para revender a outrem”), certamente ela não os pode vender a outrem. Se comprou do divulgador, que use de enfeite, pendure no pescoço, coloque no parabrisa do carro. Revender, não pode.

11) Sabe como faz a Ympactus, trouxa? Devolve para a “padaria” (TelexFREE Inc.), e ela oferece as linhas aos novos entrantes no sistema! Tá vendo como você não manja nada de mkt multinível, babaca?

Olha, seria uma solução, hein? Genial! Os “pãezinhos-bônus” dos anúncios que ninguém vê (o primeiro caso de propaganda sem exigência de retorno da história da humanidade) voltariam para a “padaria”, e ela não precisaria produzir mais “pãezinhos”!

MA MA MA PERAÍ! Se é assim, QUE VANTAGEM MARIA (tb conhecida como “padaria”) LEVA?

Depois de um tempo, só circulariam os “pãezinhos” grátis (destinados aos bônus-divulgação)! A “padaria” comprou a farinha, pagou o padeiro, construiu o forno, comprou lenha e entrega TUDO DE GRAÇA? Assim vocês me quebram a firma, ó pá!

E, pior: como não param de postar esses malditos anúncios que não dão retorno algum à padaria e exigem mais e mais pãezinhos grátis todo mês, o padeiro pergunta: QUEM PAGA A PORRA DA FARINHA, Ó RAIOS?


Reinaldinho protegendo a Liberdade do Salgadinho

janeiro 25, 2013

Reinaldo Azevedo, por razões ocultas que eu não identifiquei (as aparentes são “defesa da liberdade de expressão” e “respeito ao texto constitucional”), abriu fogo contra o Instituto Alana.

Por coincidência, eu assisti ontem ao filme “Muito Além do Peso” (você também pode assistir no link), que fala sobre a pandemia de obesidade infantil, em todas as classes sociais, atribuída por especialistas aos péssimos hábitos alimentares disseminados na sociedade, e sobre as estratégias mercadológicas dos fabricantes de alimentos processados para alcançar o paladar infantil. O Instituto pugna pela aprovação de uma lei que retsrinja a propaganda desses produtos.

A característica mais marcante de um “liberal” (aspas necessárias quando o sujeito é Reinaldinho) é lutar pela liberdade de quem nunca sofreu qualquer tipo de restrição: muito ao contrário, sempre está com a chave da cadeia. Para estes “liberais”, o mundo é dividido em competentes apesar do Estado e incompetentes que vivem à custa do Estado. Ninguém precisa ser protegido de nada, o único bem jurídico a ser tutelado pelo Estado é a liberdade de quem hoje está sambando na cabeça do semelhante (que só está na posição de sambódromo porque é um incompetente, claro).

Bem, voltemos ao caso da publicidade dos alimentos dirigida a crianças.

Existem diversas restrições à propaganda de diversos produtos (no mundo todo, não só em Banânia™): tabaco e álcool são as que vêm à mente logo de cara. Posso estar enganado, mas nunca vi um “liberal” se insurgir contra a violação do direito de se expressar da Souza Cruz ou Ambev (e como se publicidade se encaixasse neste direito). A lei está aí, “estuprando a Constituição”, e as restrições só aumentam. E o Reinaldinho, nada?

Ora, mas a Nestlé vende COMIDA!!!1 nadavê cara.

Bem, eu defendo a liberdade de um adulto ingerir qualquer coisa, inclusive MERDA (e textos do Reinaldinho). Defendo até o direito deste adulto OFERECER merda ao seu filho. Desde que ele SAIBA que é merda.

Como o filme mostra de forma inequívoca, a propaganda de alimentos processados é de uma perversidade e desfaçatez comparável às peças publicitárias de cigarro dos anos 1960. Engana adultos, seduz crianças e produz obesos, diabéticos, hipertensos e obesos-diabéticos-hipertensos. Um produto composto por 10% de suco de fruta, 50% de água e 40% de puro açúcar é vendido com o nome de “néctar”, e na TV aparece um senhor grisalho, tipo vovozinho, cheirando languidamente duas tangerinas retiradas do pé e selecionando a mais bonita para preparar o “néctar”; um passarinho voa pela seção de frutas de um supermercado e resolve bicar justamente o saquinho de um kissuco ~sabor~ manga.

Enquanto batuco este texto, aprecio um cigarro (mentira, agora sou dependente e mal sinto o gosto). Quando comecei a fumar, tabaco era vendido como um produto que tornava o homem bonito, forte, destemido e irresistível. Às moças, conferia beleza, sensualidade, carisma e personalidade. A situação saiu completamente do controle, porque o cigarro é cancerígeno, destrói os dentes, dá bafo, tira o fôlego do herói, enche a perna da moça de varizes e entope hospitais. Trinta anos depois do “Carlton, um raro prazer” ou do “Hollywood, ao Sucesso”, o que eu vejo no maço é a foto de um pé corroído pela gangrena. Não foi por iniciativa da Philip Morris que isso ocorreu.

Sim, agora eu sei que cigarro é uma merda, e fumo se eu quiser. Mas a bolacha recheada ainda é vendida como a bolacha do Ben10, sendo que o consumo excessivo dela vai transformar o aspirante a Ben10, com sorte, num lutador de sumô aposentado.

“Ora, é função dos pais educar os filhos!”

Sim, é. Mas eles ENTENDEM a composição, o valor nutricional e o processo de produção desses trecos? Conseguem avaliar com clareza se esses produtos são mesmo alimentos?

Claro que não! E não entendem porque:

1) a propaganda dessas porcarias seduz o adulto com a idéia da praticidade, vida moderna, aplacando sua consciência pesada por não cozinhar para a família com a imagem de que o miojo sai quase igual ao macarrão da mamma com o sachê Sapore di Napoli blablabla.

2) não é nada fácil para o cidadão médio entender o que é maltodextrina, sorbato de potássio ou glutamato monossódico presentes nas fórmulas impressas nas embalagens. E também porque essas fórmulas NUNCA contemplam a totalidade dos ingredientes usados e a quantidade de cada um deles na composição. Afinal, a fórmula de um produto é considerada propriedade intelectual e segredo industrial do fabricante. 

3) Também não é nada fácil para ele entender as “tabelas nutricionais” que o Estado manda imprimir nos produtos, porque elas são feitas para CONFUNDIR e podem induzir o consumidor a achar que o produto FAZ BEM à saúde! Senão, vejamos: a tabela mostra os percentuais de açúcares, carboidratos, gorduras, fibras, sódio etc. presentes no produto em relação ao NECESSÁRIO para uma dieta equilibrada (chamado “Valor Diário de Referência”). Ou seja, se um saco de Cebolitos™ contém 2% de proteínas necessárias para uma pessoa, o incauto pode achar que 50 sacos de Cebolitos™ equivalem a um bifinho (já ouviram isso?). No filme, é marcante a passagem em que o entrevistador pergunta: “se o produto tem zero gordura trans, o que quer dizer?” “Ah, que faz bem pro coração, né?”

4) o mais importante (e tão óbvio que dá vergonha explicar): criança é… criança. Não tem o discernimento necessário para perceber que uma mensagem publicitária é uma peça de ficção elaborada por adultos espertos e criativos, com o objetivo de despertar no consumidor um desejo em relação ao produto. Impactar a consciência frágil e fantasiosa de uma criança com um filmete publicitário chega a ser uma covardia, de tão fácil. Mostrando na TV os poderes mágicos do salgadinho XYZ, oferecendo à criança um brinquedo (que todo mundo tem na escola, menos ele) junto com o lanche, que pai conseguirá impedir a birra no corredor do supermercado? Além de tudo, “ai, é tão baratinho, deixa de ser pão-duro e faz um agrado pro moleque!”

Pra terminar, Reinaldinho descobriu que o Instituto Alana é dirigido por pessoas ligadas ao Banco Itaú. E aproveitou para construir mais uma das suas incontáveis falácias: saiu caçando anúncios do banco em que houvesse a atuação de crianças. Deu aquela misturada marota no objetivo do Alana (restringir propaganda DIRIGIDA A CRIANÇAS) com o objetivo do Itaú (fazer propaganda DIRIGIDA A ADULTOS usando CRIANÇAS).

Mas fica tranquilão, Reinaldinho: a propaganda do Itaú com o bebê rasgando papel não motivou a petizada a se atirar em porta de banco gritando “mããããe, eu quero abrir uma conta aquiiii!”.


Russomanno é “o novo”? Tem certeza, Forastieri?

setembro 18, 2012

André Forastieri, blogueiro do R7 (IURD), cometeu este texto. Eu me irritei com ele (com o Forastieri, não com o texto). E me irritei porque não posso acreditar que ele o escreveria dessa forma caso seu blog estivesse em outra casa.

Segundo o autor, Russomanno seria “o novo”, e Haddad não. Quanto à segunda afirmação, eu concordo. Aliás, ninguém é “o novo” na política brasileira (inclusive Russomanno). O motivo da minha irritação é que eu achava que André Forastieri, por quem tenho apreço e considero inteligente, soubesse disso (bem, desconfio que ele saiba, mas…).

Em palpos de aranha por ter sido escalado para uma tarefa tão difícil (vender Russomanno aos hipsters sem botar muito a mão na mercadoria), Forastieri usa um artifício tão antigo quanto desonesto: morde nas linhas, assopra nas entrelinhas; parece contundente e crítico, mas é laudatório e conformado. O pessoal modernoso adora isso, cala fundo no coraçãozinho deles. No meu, não. Cheira a picaretagem.

O problema de usar essa técnica é que chega uma hora em que você se enrola todo e começa a se contradizer no parágrafo seguinte. Sim, não é preciso pesquisar o acervo de textos do André e cotejá-lo com este pra ver que ele não pensa nada do que escreveu. Quando a opinião é nossa, a gente segura o rojão pra cima até estourar no céu; quando não é, na primeira fagulha a gente se assusta, o rojão cai e estoura no chão. Mas vamos ao texto.

Ao opinar “sob encomenda”, é sempre bom iniciar usando um “pensador a favor” como escudo. Afinal, se desandar a maionese, pode-se jogar tudo nas costas dele com o velho “não concordo, mas é uma outra visão, né?”. Forastieri escolheu Boris Fausto, tratando-o como o “bambambam que manja mais até que eu”. E utilizará uma “sacada genial” dele no final, pra fazer o CQD próprio afiançado pelo “pensador”.

Diversos outros autores levantaram esse “voto de consumidor” que alicerça a liderança de Russomanno, portanto Forastieri não está descobrindo nada. Só que, como qualquer fenômeno, ele pode ser analisado de forma neutra, negativa ou positiva. Adivinhem qual ele escolheu? Positiva, claro. Só que um “positivo envergonhado”, que passa ao largo da explicação política e confere certo conforto a quem escolhe o candidato do PRB. Afinal,

“o paulistano paga, em grana e stress e saúde, por serviços que não recebe. Para a cidade ter água, esgoto, polícia, hospital, transporte, ar respirável. Quer algo em troca. Quer o que foi combinado.”

Quer versão mais descolex para o velho “sou cidadão de bem, pago meus impostos e quero um governo que me sirva direito” que essa?

Esse tipo de proposta (“vou fazer mais e fazer funcionar melhor o que já existe” – lembraram do Serra/2010? Então…) é oferecida pelos candidatos desde 1500.

André colou o “novo” na testa do Russomanno usando uma justificativa bem da velhinha. Agora eu quero ver, hein? EI, PERAÍ, ele também colocou que Haddad NÃO É “o novo”! PUXA, pode ser uma boa idéia: basta provar que o Haddad é o “velho”, e, como o Russas tá ali ao lado mesmo, ele rejuvenece! Eu, perto do Niemeyer, sou um bebê. BOA! Avante na missão!

Com base nessa tática, Forastieri desanda a bater sem piedade no candidato do PT desde o primeiro parágrafo. É claro que ele deve ter escolhido o Haddad por causa do slogan da campanha petista. Mas não se perca no caminho, o objetivo é usar o mote A FAVOR do candidato da IURD. A surra no Fernando é efeito colateral. Como ele deixa claro no texto, nada tem contra Haddad, inclusive tem amigos e parentes que são. Vejam:

Haddad propõe mais escola, creche, centro de saúde, bilhete único, isso e aquilo. Tudo importante? Claro. Mas é o que todos falam. 

Russomanno promete: você me conhece, vou lá buscar o seu direito e resolver essa parada.

Dentre as duas promessas que você selecionou, qual é a “nova”, Forasta? A do Russomanno? Ora, você já tem cabelos brancos, amigo! Não é possível que nunca tenha ouvido um candidato prometendo ser o Justiceiro do Povo, o defensor dos fracos e oprimidos! Varre, varre, vassourinha! Varre, varre a bandalheira!

“Tá, mas esse negócio de ficar prometendo fazer as coisas também não é novo, viu?”. Pois é, este é o truque: colar algo reconhecidamente velho (político prometendo obra) ao lado de uma coisa sem-pé-nem-cabeça, mas que por isso mesmo parece nova. Afinal, o que significa exatamente um candidato a prefeitura dizer “vou buscar o seu direito”? Vai advogar para o povo contra si mesmo (ele é o executivo!)? Seria, por acaso, fazer o que não está sendo feito? Ora, mas isso não é o que TODOS prometem? Cadê o “novo”, doutor?

Russomanno é pós-democrático. Por isso é o novo, e não Haddad. Novo não é o que eu digo, ou você diz, que é novo. O novo é o que o eleitor paulistano entende que é novo. E ao mesmo tempo, Russomanno é herdeiro de uma tradição da cidade. Não, não é o malufismo. É o janismo, sugere Boris. Eureca.

Pronto, aí desmoronou tudo a casinha do Forasta. Ele até tentou jogar uma massa grossa na rachadura da laje com esse “pós-democrático”, mas se descuidou com a viga que estava comprometida pelo peso de um JANISMO sendo adotado como paradigma da novidade na política. Aproveitando o tema “construção civil”, é bom lembrar que se uma criança de 10 anos herdar uma casa velha, esta continuará sendo velha.

O cidadão é automaticamente membro de uma comunidade. Comunidades pressupõem negociação, pressão e contrapressão, trocas, regras. Já o consumidor é um indivíduo. Está pagando, pô! E o novo consumidor brasileiro, que não é classe média coisíssima nenhuma, mas o trabalhador com um dinheirinho no bolso, quer ser tratado como indivíduo – finalmente. É uma conquista. Não é pouco. Não é tudo.

A “pós-democracia” do André Forastieri, pelo que se depreende, passa pela total despolitização da sociedade, um verdadeiro “cada um por si, quem tiver dinheiro leva”. Quem paga, exige. Isso até pode ser “novo”, mas não costuma acabar bem quando aplicado fora das relações de consumo. No governo, então… EI, mas pra que governo, né? É muito mais fácil o mundo ser um emaranhado gigantesco de contratos bilaterais “um-contra-um”! Para quem não estiver cumprindo, resta chamar o prefeito Russomanno, ele faz um acordo e Fica Bom para Ambas as Partes™.


Intelectual de esquerda, o filho enjeitado do Lulismo

agosto 31, 2012

 

 

Primeiramente, quero deixar claro que não tenho nada contra intelectuais e acadêmicos, inclusive tenho amigos que são.

O vídeo acima é o registro da participação de Vladimir Safatle no debate “A Ascensão Conservadora em São Paulo”, realizado na USP. Marilena Chauí também participou, e classificou a sociedade paulistana, em especial sua classe média, como “protofascista”. Mas deixa a Chauí pra lá, meu papo é com o Safatle.

Vladimir alicerçou sua fala no surgimento de um “filho bastardo do Lulismo”, que seria um neoconservadorismo oriundo de fatores como alianças políticas heterodoxas, fortalecimento de programas assistenciais e aumento de renda que gerou inclusão social pelo consumo. Pode-se concluir, portanto, que o apoio maciço da população ao PT demonstrado nas últimas eleições seria um apoio tão fisiológico quanto o apoio que o PRB do Russomanno dá ao PT nas votações do Congresso. Não haveria um componente ideológico na adesão popular ao PT. Desta parte eu não tenho muito o que discordar. Ideologicamente, o Brasil não mudou quase nada com a ascensão do PT.

Mais adiante vêm os pontos nos quais eu gostaria de meter minha colher de pedreiro: Safatle fala em “quebra da hegemonia cultural da esquerda no Brasil”. Olha, eu tenho quase 50 anos e nunca identifiquei essa hegemonia, mas ele (e seus pares) identificaram. É fácil explicar o motivo da discórdia: eles são intelectuais, eu não.

Intelectuais, em sua maioria, vivem em um mundo apartado da realidade concreta da maioria das pessoas. Isso não é uma crítica, é assim que deve funcionar. O pensador/intelectual deve cometer seus pensamentos/intelectualidades olhando as coisas do alto, para que enxergue o todo e tenha grandes sacadas.

Mas esse distanciamento (necessário) tem efeitos colaterais: um deles é que intelectuais ficam tão isolados nas suas casinhas conversando somente com outros intelectuais (por corolário, todos pensando muito parecido), que acabam criando uma fantasia de que o mundo seria melhor se todos pensassem como eles, e que eles sabem o que é melhor para o mundo. Afinal, se eu sou mestre e o PhD concorda comigo, quem é o pedreiro pra dizer que eu tô errado?

Outro ponto (que acaba sendo meio que consequência do anterior): como a academia brasileira tem como marca a luta travada contra contra a ditadura militar nos anos 60/70, intelectual no Brasil já vem com “de esquerda” embutido no título. Não há intelectual “de direita” reconhecido entre nossas cabeças pensantes. Vejam que Safatle, lá pelos 6 min. do vídeo, associa as hediondas discussões morais suscitadas nas campanhas eleitorais recentes com um “antiintelectualismo ferrenho”. Ora, a riqueza do debate de idéias e a difusão para a sociedade aparece com intelectuais contra e a favor do tema suscitado, seja ele até uma discussão sobre casamento gay, aborto, ditadura etc. Isso não acontece no Brasil, porque está definido que o intelectual-padrão deve sempre estar de um dos lados (não preciso dizer qual), e quem estiver no oposto não é digno do título.

Essa falta de dicotomia no discurso intelectual no Brasil acaba dando margem ao aparecimento de caricaturas do tipo Bolsonaro para compor o outro time, pois esses temas conservadores/morais são, sim, de interesse da população média. Eles discutem isso no bar, na feira, no ônibus, na igreja. O que ocorre é que, contra opositores tão toscos, os intelectuais acabam desistindo da discussão. E como o discurso das tosqueiras é de fácil assimilação, vence por WO e se dissemina pelos bares, feiras, ônibus e igrejas. O ciclo se repete, há anos, e acabou por transformar o país num lugar MUITO conservador. O “país da FFLCH” é liberal, o Brasil não é. E, sinceramente, neste quase meio século, nunca foi.

Bem, mas e o Lulismo? Safatle identificou que, para Lula governar como governou (com alianças e inclusão pelo consumo) e receber esse apoio popular maciço (ainda que fisiológico), optou por afastar os intelectuais (de esquerda) do seu rol de colaboradores, uma vez que eles não são adeptos desse método. Sim, nisso ele também está correto. Lula enjeitou os filhos acadêmicos do PT. Mas não foi o ato de enjeitá-los que tornou a sociedade brasileira esse angu de caroço moralista, ela JÁ ERA ASSIM. E, em grande parte, porque a própria academia brasileira interditou e empobreceu o debate desde sempre, não dando vez e voz aos divergentes de suas teses, além de restringirem-se a seus guetos.

Outra coisa que o Vladimir também não percebeu é que Lula, depois de 25 anos ouvindo os intelectuais (e aprendendo muito com isso, justiça seja feita), viu que o projeto deles até era de um Brasil bem bacana, mas que não tinha a menor possibilidade de ser implantado. Viu FHC sair da academia para o governo e mandando todo mundo esquecer o que ele escreveu.

Lula disse “ó, pra chegar lá, só se for assim”; os intelectuais não curtiram. Pior, disseram que assim não dava, que as coisas não mudariam nada. Só não conseguiram convencer o povo de que aquilo tudo que eles sentiam e viam de mudança na vida deles não era real, pois o discurso “nóis vai” do Lula ou o “porrada neles” do Bolsonaro a população brasileira entende facilmente; o “epifenômeno” do Safatle nunca lhes foi ensinado. Essa função era dos intelectuais, mas eles preferiram usar seu tempo pra conversar entre si e mostrar uns aos outros o quanto eles eram geniais.


Soninha, um jeito adolescente de fazer política

maio 17, 2012

Soninha Francine, pré-candidata à prefeitura de SP pelo PPS, tem como slogan “um jeito diferente de fazer política”. E esse jeito deve ser tão diferente que ninguém consegue entendê-la.

Ela fala muito pelas redes sociais e, não raro, vira alvo de piadas e esculacho. Às vezes, os absurdos digitados são tão grandes que o povo nem ri, fica bravo na hora. E ela fica brava com o povo, se acha perseguida, vítima de ataques de petistas ensandecidos. Ontem, na hora da colisão entre trens do metrô de SP, ela se manifestou:

As reações variaram entre incredulidade, indignação e galhofa, e a hashtag #mtoloco alcançou os assuntos mais comentados no twitter. Portais de notícias escreveram matérias sobre a manifestação da pré-candidata, algumas até com críticas bastante severas. Ela ficou bem chateada, e fez dois posts em seu blog, tentando se justificar.  Em um deles eu tentei comentar, mas não foi aprovado pela moderação.

A atuação de Soninha na internet só pode ser analisada por dois caminhos: ou ela é uma doidivanas, completamente sem noção do alcance das declarações de um político na rede, ou está criando um personagem “diferente de tudo que está aí, sou galerosa como vocês, jovenzinhos da MTV! Vamos tomar o poder juuuuuntooooos! uhul!! \o/”.

Se formos pelo primeiro caminho, o desastre é certo. Imaginem uma maluquete governando uma cidade de 10 milhões de habitantes. Declarações descoladas da realidade, sem compromisso, tipo “oh, que cidade louca essa em que vivemos, não?” são aceitáveis vindos da boca de uma adolescente de 14 anos, nunca de uma pessoa que está comandando uma   metrópole como SP. Nem os habitantes de uma comunidade alternativa curtiriam.

Se escolhermos o segundo, ela seria apenas um Tiririca hipster formado na ECA-USP. Sinceramente, o original no governo oferece menos riscos, é mais pé-no-chão. E, quando abre a boca como deputado, parece mais sensato.

Todos querem mudança nas práticas políticas no Brasil, mas a que Soninha Francine está tentando propor é qualquer coisa, menos prática política. Se é pra colocar um adolescente no poder, confio mais nos meus filhos (mentira, confio não). Adolescente é cheio de querer mudar o mundo, mas não dá conta nem de arrumar o próprio quarto.


Alunos Diferenciados

março 20, 2012

Matéria do Estadão informa que amanhã haverá um “apitaço” dos alunos do Mackenzie, em protesto contra a decisão da universidade de admitir 50% dos novos alunos sem que sejam submetidos ao seu tradicional concurso vestibular. Essas vagas seriam preenchidas levando em conta a nota obtida no ENEM. A alegação dos universitários é que essa decisão “desvalorizaria o diploma” mackenzista.

Juro que tive muito boa vontade para entender esse processo de “desvalorização” anunciado. Afinal, qual a relação entre o resultado de anos de estudo (o “valor” do diploma) com a forma de ingresso na escola?

Suponhamos que essa metade de alunos que entrariam no Mackenzie via ENEM sejam beócios consolidados. Sim, eu sei que o ENEM não é lá a baba do quiabo e que TODOS os secundaristas devem prestar o exame, mas suponhamos também (usando o raciocínio do presidente do DA João Mendes Júnior), que todos os alunos “enemzistas” tenham fraudado o exame para obterem sua vaguinha. Afinal aquilo é uma várzea, as fraudes atingem 99% das provas.

Pois bem: está lá formada a bateria mackenzista, com 50% de Usain Bolts e 50% de paraolímpicos. É dado o tiro de largada, e quem fizer 100m em pelo menos 11s leva o diploma. O que o Mackenzie pode fazer:

1) deixa as exigências como estão (os paraolímpicos perceberão que não têm qualquer chance e cairão fora – o diploma não se “desvalorizaria”);

2) muda as regras, permitindo um tempo mais longo para a conclusão da prova. Em tese, isso significaria REBAIXAR o nível de exigência acadêmica do Mackenzie. E, aí, espertalhão, bate com as aflições dos meninos, não?

Bate, mas a coisa fica pior. Se uma faculdade COGITA fazer isso (adaptar suas exigências de acordo com sua “clientela”), é porque ELA JÁ É RUIM HOJE! É apenas uma expedidora de diplomas “on demand”, usando o mesmo modus operandi das UniEsquinas da vida!

Sim, trouxa, mas se o on demand for de alto nível, tá beleza! Ok, otário, mas desde quando o vestibular garante alto nível da faculdade? O alto nível depende EXCLUSIVAMENTE do que é ministrado e apreendido DURANTE o curso, não leva em conta a vida escolar pregressa do aluno. Os conteúdos são outros, a abordagem é outra, os professores são outros. O aluno que se vire se trouxer alguma deficiência de casa.

Se você acha uma casa bonita hoje e, sem que haja qualquer alteração nela, passe a achar feia só por causa dos novos moradores, é bem provável que você não esteja mais olhando a casa.


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