Que pena!

Vicente*, Lígia*, Tiago* e Natália* são uma família-cliente, antiga e fiel. Vicente, o pai, é um cara com quem me dou bem, apesar de, às vezes, estar meio de “ovo virado”. A mãe, Lígia, uma simpatia: cumprimentava a todos do ponto, chamando pelo nome, era figurinha carimbada no bairro. O filho, Tiago, era meio que uma mistura dos pais: fechadão e simpático. Monossilábico, porém cirúrgico, tinha sempre uma boa tirada na ponta da língua. A Natália era espevitada, magricela, não parava no banco do carro. Carregava abaixo dos seus verdes olhos e do nariz bem feito um sorriso de Monalisa. Para mim, que vejo de fora, o protótipo da família feliz.
Ontem tocou o telefone do ponto e a BINA dedurou: era da casa do Vicente. Eu, na pole, atendi:

– Ponto de Táxi, bom dia!

A voz inconfundível (e dedurada pela BINA) do Vicente, respondeu:
– Manda um carro aqui no 243.
– Já está a caminho!

Desce do prédio o pai, meio esbaforido, apertando a gravata. Entra no carro e, após meu protocolar bom-dia, solta o verbo:

– Pô, Vinicius, ainda bem que caiu na sua vez de atender, cara. Estou precisando conversar.
– Velho, tô a disposição.

Todo mundo tá cansado de saber que táxi e salão de cabeleireiro são usados indevidamente como divãs de psicanálise pelos clientes, e eu já estou mais que calejado para essa, digamos, tarefa humanitária.
– Cara, estou me separando da Lígia.

A pancada bateu forte. Porra, esse cara é xarope mesmo. Baita mulher, filhos lindos, vai querer arrumar o quê? Deu vontade de dar um esporro nele, mas minha função não é esta. Cautela e “movimentos friamente calculados” devem ser o tom. Abro o livro:

– Por que, Vicente, aconteceu alguma coisa?

– Não aconteceu nada, e este é o problema.

– Num tô entendendo…

– Cara, tô numa encruzilhada: ou eu fico nessa vida que todo mundo acha legal – menos eu-, ou vou tentar o outro caminho, que eu mesmo não sei qual é, mas me pode proporcionar a felicidade pra minha vida. Desse jeito aí que você vê, é que não dá. Estou me anulando como pessoa pra manter essa situação, mas todos à minha volta percebem que não estou bem. Sou um cara infeliz, muito infeliz. As pessoas olham de fora e pensam “como esse cara é sortudo, tem tudo o que eu queria ter”, mas não sabem o quanto custa essa imagem. Minha mulher é sensacional, mas não me ama como marido. E isso irradia para todos os lados, inclusive os filhos, que percebem a falta de afinidade. Não tem a chamada “química”, irmão. Velho, pra tocar essa família é melhor eu estar de fora, tipo um treinador de futebol. E é isso que eu vou fazer, porque jogando, eu estou fodendo o time todo.

É difícil falar qualquer coisa com relação a esse diagnóstico. Ainda mais pra mim, que não sou da família. Já presenciei, no carro, muito clima ruim entre Vicente e Lígia. Desconfiei que o entendimento não era dos melhores, mas isso não é da minha conta.

– Olha, Vicente, muitas pessoas passam a vida buscando a tal da felicidade, e morrem sem saber se encontraram. Mas é certo que uma pessoa que se acha infeliz tem todo direito (e o dever) de continuar buscando. Como isso (a busca da felicidade) não tem fórmula, não sei dizer se essa sua decisão é a que vai levá-lo ao caminho certo. Mas, se você não tentar, certamente vai se arrepender, caso tenha feito a escolha errada (ficar como está) e a sua vida acabar como você se sente hoje. Respira fundo e vai.

É uma pena, mas o casamento deles acabou.

* – nomes fictícios

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3 Responses to Que pena!

  1. Anonymous disse:

    é eu estou nessa e pior que ela não quer mais, estou super arrependido e sozinho agora estou me vendo na lama e ela com outro. ja pedi para voltar e ela não quer, estou tendo um ataque de nervos. fui burro.

  2. Vinicius Duarte disse:

    Sr. Anônimo,

    Você era feliz e não sabia? Ou, pior, confundiu felicidade com infelicidade?
    É verdade, as coisas ruins podem ficar ainda piores, mas escolhas a fazer aparecem a todo momento na vida. E nós somos responsáveis por elas e suas conseqüências. Vou parar por aqui para não ser confundido com escritor de auto-ajuda.

  3. carlão disse:

    Garçom! Traz mais uma!!!

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