A triste morte de Lúpulo, o craque

Lembram do Lúpulo? Meia habilidoso, jogava e chutava com as duas. Era meio baixinho, mas quase sempre se saía bem na disputa pelo alto. Boa impulsão.
Seu nome de batismo era Luís Puccini Lopes ( daí veio “Lúpulo”, uma espécie de anagrama ) e foi descoberto num time amador do interior do Estado – grande celeiro de craques deste Brasil – por um velho técnico, já quase aposentado. Trazido para a Capital, estreou no profissional com 16 anos. Foi dele o gol, aos 45 do segundo tempo, que acabou com a fila de 27 anos que seu time então enfrentava. Devido a sua idade, o técnico da Seleção achou melhor não chamá-lo para disputar a Copa daquele ano. Demos azar e a amarelinha caiu na primeira fase, num grupo que tinha Escócia, Costa Rica e Irã. Ficamos em quarto lugar.
Mas a mídia já fazia planos para o futuro. Com a nova leva de jogadores, encabeçada pelo cracão Lúpulo, essa Copa seria devidamente esquecida pela torcida brasileira. Só mais quatro anos de espera.
Então , a vida seguiu. No campeonato estadual, Lúpulo foi o grande destaque do time, que faturou o bi. O primeiro da história do clube.
Só que a mão-boba do mercado não perdoa. No campeonato nacional, o time não disporia de sua estrela. Foi negociado com um time do Rio. E foram glórias e glórias, até que Lúpulo saiu para o Exterior. Ganhou mais uma legião de fãs.
Na temporada que precedia a Copa, Lúpulo, de volta ao Brasil – pois não gostou do clima europeu – disputava o campeonato paulista quando machucou-se. Nada sério, mas os açougueiros do departamento médico ferraram com seu joelho, e ele ficou parado mais tempo do que o previsto.
Todos o dias ia até o clube, fazia leves exercícios, andava em volta do campo, tentava dar uns piques e parava, pois doía demais. E o tempo passava…
O pai de Lúpulo morrera cêdo. Cirrose, devido ao altíssimo consumo de álcool. A mãe de Lúpulo morrera também, antes do pai, só que num acidente de automóvel. O carro em que viajava era conduzido pelo pai de Lúpulo. O condutor, aliás, dirigia em estado deplorável de embriaguez.
Vamos pular a parte triste.
Um dia, para combater o tédio, Lúpulo entrou num bar e pediu uma cerveja. Estava calor. Os rostos jovens e lindos dos e das modelos, que adornavam um cartaz publicitário de conhecida marca de cerveja eram por demais convincentes.
Lembrou-se de sua condição de atleta. Mas estava em “férias forçadas”. E, afinal, era só uma mesmo. E foi só uma mesmo.
Tempos depois, ainda não recuperado da lesão, Lúpulo estava no boteco, e já terminara sua 4ª. ou 5ª. cerveja da manhã. Pessoas passavam, olhavam e reconheciam o craque. Alguns acenavam. Outros, entre o reverente e o curioso, se aproximavam e trocavam umas palavras. Pediam autógrafos.
Passaram-se meses, e a Copa começou e acabou. Lúpulo assistiu o torneio em casa, pela televisão. O Brasil foi vice-campeão. Perdeu a final para a surpreendente Nova-Guiné.
Os dirigentes do clube, que não os mencionei até aqui, viam seu craque desandar. Não sabiam exatamente o que ocorria. Lúpulo passava no médico, mas não parecia muito dedicado a recuperar sua forma. Junto com a lesão no joelho, uma fadiga persistente. Noites mal-dormidas, má-alimentação. Disscussões e brigas. Uma realidade completamente diferente daquela mostrada nos filmes publicitários. Torcedores cobravam do jogador que tivesse atitude. Ele disse que era adulto, e que não tinham que cuidar de sua – dele – vida. Retrucavam, diziam que o álcool estava fazendo-lhe mal e ele treplicava: “Sou adulto, e este produto é dirigido a adultos!!”
Uma noite, Lúpulo estava num bar e, já bebaço, decide ir para casa. Com certa dificuldade, pega o carro, dá a partida e segue.
Em seu caminho, reencontra o passado: sem condições de enxergar o próprio nariz, Lúpulo atropela um senhor que atravessava a rua. O homem estava na faixa e o sinal vermelho para Lúpulo. Por pouco não terminou em tragédia. Quando percebeu o vulto atravessando a rua, uma centelha de lucidez surgiu, e Lúpulo – que ia a 110 Km por hora – desviou da vítima, atingindo-a apenas de raspão.
Apavorado e ofegante, Lúpulo se desvencilha totalmente do efeito do álcool que consumira. Prontamente, aciona a polícia e o socorro, e os aguarda junto à vítima, que está bem, foi meio que um susto e alguns arranhões.
Tomado de imensa vergonha e remorso, Lúpulo confessa às autoridades que estava dirigindo embriagado, e que tinha a verdadeira noção daquilo que causara. Não se furtaria a prestar assistência à vítima, e responderia à Justiça por seu ato.
A imprensa, claro, fez uma festa. Celebridades embriagadas costumam atrair muita atenção, audiência e, claro, anunciantes. Famosa revista de fofocas conseguiu um belo – e caro – contrato de publicidade com uma marca de cerveja que costumava patrocinar festas juninas em colégios.
O episódio, de certa maneira, ajudou o jogador. Voltou a se empenhar em sua recuperação. Parou de beber. Entendeu aquilo como um sinal, uma mensagem enviada por seus pais, falecidos em situações parecidas com essa.
***
As coisas iam bem. Lúpulo havia voltado aos gramados, jogando tudo o que sabia. Seu time era líder do campeonato, com bastante folga. O jogador se encontrava noivo, com casamento marcado para breve.
Certo dia, cedinho, Lúpulo caminha por uma rua tranquila. Estava indo para o treino. Deixou o carro a algumas quadras do clube, e completava o percurso andando, para “economizar” aquecimento.
De onde não se sabe, mas surgiu um carro à toda, e pegou Lúpulo em cheio. Apesar do sinal estar vermelho para os carros, a vítima atravessando na faixa e o limite de direção naquele trecho ser de 30 km p/h ( o carro ia a 100 km p/ h ), Lúpulo foi colhido pelo veículo e morreu na hora. Como não tinha olhos na nuca, o jogador não viu o carro, que vinha de marcha-à-ré.
Os ocupantes do carro travam o seguinte diálogo:
– IHhHHhaimeudeuzz…mmmerrmãoo…óóóbrôu…V-V-vai v-v-verr como tááá ou ca…rinhaaa…
– Zuzobem…
– Eaí… … … coommé que apesssoa tá??
– Vudeu…GelAAAAAaaaadaaaa!!!
E fogem, sem dar assistência a Lúpulo.
Anúncios

2 Responses to A triste morte de Lúpulo, o craque

  1. andre.nogueira disse:

    Esse texto merece um comentário.
    Parabéns ao Humberto.

  2. Humberto Capellari disse:

    Oba.Obrigado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: