O sofisma dos criminalistas e o Rocambole do Reinaldo

“Com a ajuda da imprensa brucutu, estamos alcançando, como direi?, o socialismo na Justiça. Em vez de se impedir que a Polícia meta o pé na porta dos pobres, resolvemos construir a igualdade com uma polícia que mete o pé na porta de pobres e de ricos, indistintamente.” R.A.

Essa foi a pérola cunhada pelo cidadão Reinaldo Azevedo, blogueiro da “Veja”, para “desconstruir” (meu deus, de novo?…) a indignação dos que acham injusto o tratamento desigual dado pela polícia brasileira aos pobres e ricos, notadamente no episódio “espetacularização das prisões”.

Esse assunto é nauseabundo, mas vou abordá-lo, não por estar na moda, mas porque o nível de asneira praticado está subindo assustadoramente. Vamos lá.

Era uma vez, um cidadão brasileiro, de origem norte-americana. Era muito respeitado, dentro e fora do Brasil e no seu âmbito de atuação (era rabino).

Um belo dia, passeando por West Palm Beach (ei, brasileiro que “passeia por WPB” NÃO É POBRE, né?), esse cidadão, acometido de um surto de cleptomania, furtou gravatas em uma loja. Cleptomania, sim, porque ele não precisava roubar, muito menos roubar gravatas. Mas o sistema de segurança da loja detectou o furto e a polícia foi acionada.

Esse cidadão, de nome Henry Sobel, foi alcançado pela polícia norte-americana, ALGEMADO e preso. Algemado, identificado (“tocou piano”, no popular) e preso. Pagaram a fiança e ele saiu. MAS ELE FOI ALGEMADO. Isso, ELE FOI ALGEMADO. A polícia, com uma câmera instalada na viatura, filmou o caso. Passou na TV e está no youtube. Sobel é idoso, não oferecia resistência, confessou o crime perante a câmera da polícia, MAS FOI ALGEMADO.

Outro caso: quando houve a quebra da Enron, por fraude no balanço, o CEO (CEO de empresa grande NÃO É POBRE, NÉ?) da empresa foi algemado e preso. Algemado, identificado (“tocou piano”, no popular) e preso. MAS ELE FOI ALGEMADO. Isso, ELE FOI ALGEMADO. Passou no “60 minutes”, na CNN e deve estar no youtube (não vou procurar).

Por que razão os senhores e senhoras acham que TODA VEZ que alguém aparece alguém criticando a tal da “espetacularização das prisões”, eles procuram, para embasar suas idéias cínicas, doutos ADVOGADOS CRIMINALISTAS? Simples: porque a função do advogado criminalista é, exatamente, IMPEDIR QUE SEU CLIENTE SEJA ALGEMADO E PRESO, ora! É a mesma coisa que perguntar a um barbeiro se você precisa cortar o cabelo.

Esta é a questão: a lei é para todos. Só existe um código penal, só um código de processo penal, só uma Constituição, para TODOS os brasileiros. Se o crime está descrito na lei, se o rito processual está especificado, é o que deve ser feito, e ponto final.

No caso das detenções em tela (Nahas, DD, Pitta), é evidente que não houve qualquer excesso, até um cego vê: ninguém “entrou chutando porta”, os detidos não foram colocados com um pontapé nos fundilhos dentro do camburão, nada. Foram, inclusive, sentados no confortável banco traseiro de uma Toyota Hilux, carro que eles (os presos) curtem, e até devem ter em suas garagens. Algema é “excesso”? Sobel é bem menor que Pitta, e muito mais velho, mas lá nos EUA grampearam ele. “Ah, mas um excesso não pode justificar outro“. Não, não e não. Não existe excesso nenhum em algemar alguém preso, é procedimento normal NO MUNDO INTEIRO. Os símbolos universais da detenção são as grades e as algemas. E é muito engraçado que, por aqui, as cadeias dos poderosos não possuam grades e eles não possam ser algemados.

Ser detido por um crime é humilhante. Naturalmente humilhante, porque é, entre outras coisas, a mostra da desaprovação da sociedade pelo ato praticado. Tem caráter educativo, não para quem vai preso, mas para quem está solto, mostra que o crime não é tolerado pelos honestos e não compensa. Por isso, deve ser um ato de conhecimento público. E não adianta dourar a pílula com “cela especial”, ausência de algemas ou viaturas “descaracterizadas”. Não existe “prisão bonitinha”. Existe PRISÃO, ato de constranger a liberdade de outrem, tirar do indivíduo aquilo que ele tem de mais precioso: a sua liberdade. Medida extrema, que deve ser aplicada quando a sociedade entender, no devido processo legal e através dos seus representantes (MP e Justiça), que a pessoa não é digna de se manter livre por atentar contra todos.

Então, senhor Reinaldo, não é o caso de “chutar a porta do rico para vingar o pobre”, como pobremente afirmou o senhor, para justificar a indignação da “imprensa brucutu”. Sei que o senhor construiu esse rocambole sofismático para confundir a todos e dar guarida a interesses escusos. Não cave o pênalti, não simule a agressão. Não houve nenhuma agressão aos detidos, e qualquer manifestação nesse sentido é suspeita.

Quanto mais eu leio o que escreve, e vejo as manifestações da sua claque, mais eu perco a esperança num país melhor. Porque quando alguém se escora em teses tão frágeis (que até um imbecil como eu consegue destroçar) e convence tanta gente da sua validade, é sinal de que, realmente, até um “apedeuta” pode ser o chefe desse fim de mundo aqui.

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