Tormento Olímpico – 1

O Brasil é um país que se leva muito a sério, e isso não é uma qualidade de se admirar.

A cada quatro anos, vem mais uma edição dos Jogos Olímpicos, e o que se ouve aqui antes do início das competições é que “agora, vai!”: voltaremos carregados de medalhas, nossos atletas são fenômenos, a delegação brasileira “é a maior de todos os tempos”, blá, blá, blá. Aí, começam os jogos, e vem a realidade: aparecem “adversários fortíssimos” (surgiram do nada, acho), “fatalidades” (o Brasil deve ser boneco de vodu), e, inexplicavelmente, publicam o quadro de medalhas, com Vanuatu e Samoa Americana à frente da poderosa equipe canarinho. O que há de errado? Como sempre, a imprensa.

Esta madrugada estava assistindo ao jogo Brasil X Hungria, pelo handebol feminino. São dois tempos de 30 min., e o Brasil ficou atrás (por vários minutos, MUITO atrás) no placar por quase todo o jogo. Durante a transmissão, o locutor do Sportv chegou a dizer que “o Brasil se defende como pode!”, uma clara demonstração de desespero. Pois bem, o jogo foi se desenrolando e, nos últimos 4 minutos, o Brasil encosta no placar, empata e VIRA o jogo. O outrora “time que se defende como pode” virou, em 2 minutos, A MAIOR potência mundial no esporte. Faltando 1 seg., depois de o locutor ter gritado um gol brasileiro como se fosse de futebol, falta para as húngaras, e o empate. Aí o comentarista diz: “foi um empate com sabor de derrota! Uma falta de sorte!”. Ora, o time leva um “sacode” o jogo todo, se mata para virar no fim, e foi falta de sorte?

Se fôssemos mais humildes, estaríamos comemorando o empate. Foi um empate heróico, e com sabor de VITÓRIA, porque o adversário é melhor e foi melhor durante quase todo o jogo. E vencer seria, sim, excesso de sorte. Mas somos tão bons em handebol, né?

Aí está o problema: se a imprensa realmente passasse a realidade aos espectadores, ninguém ficaria esperando medalhas impossíveis, e comemoraríamos resultados como esse aí da mesma forma que países sem tradição no esporte comemoram quando seus atletas chegam a uma semifinal. E não ficaríamos crucificando inocentes, como fizeram com a Daiane em 2004. Ou, pior, não nos tornaríamos a “Pátria de Ferraduras”, torcendo por um cavalo com nome francês e um cavaleiro que, de brasileiro só tinha a certidão de nascimento.

Parece que a Newsweek faz, antes dos Jogos, uma espécie de previsão sobre quem vai se destacar, em todas as modalidades. Lá, o único brasileiro existente, na verdade, é uma brasileira: a Marta, do futebol. Mas futebol é esporte coletivo, e ela precisa das outras dez para ganhar o ouro olímpico.

Assistir aos jogos, é muito legal. Mas sem cair nessa conversinha de “fulano (brasileiro) tem a melhor marca do ano”, “chance de medalha”, e outros chavões. Porque os comentaristas, assim como nós, só se interessam pelo que ocorre no mundo esportivo olímpico a cada quatro anos.

OOPA: A Revista citada é a “Time”, não “Newsweek”. Mas dá na mesma…

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