Quando a gente acredita numa coisa…

Saiu uma matéria de Fabiano Angélico, no Terra Magazine, estabelecendo relação entre o IDH e a conquista de medalhas em olimpíadas. O título é Topo no quadro de medalhas? Só com alto IDH”.

O título da matéria, infelizmente, não bate com o levantamento. Ele comparou os 30 primeiros no ranking do IDH com os 30 primeiros do quadro de medalhas em Pequim. E, apressadamente, concluiu que, como dos 10 primeiros em medalhas, 8 estão entre os 30 do IDH (as exceções são 1º – China e 3º – Rússia), isso (melhor IDH, melhor desempenho olímpico) era verdade. Mas não viu que, dos 30 primeiros nos jogos, mais da metade (16) NÃO SÃO “TOP 30” no IDH. E daí? Daí que, se quisesse, poderia fazer uma matéria assim: “Alto índice de desenvolvimento humano não garante bom desempenho na olimpíada”. E estaria tão “certo” quanto o que escreveu. De novo: e daí?

Daí, caríssimos, que, como diria Juarez Soares, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Desempenho esportivo nada tem a ver com educação, cultura, combate à fome e à pobreza, saúde pública. Tem a ver com DISPOSIÇÃO GOVERNAMENTAL DE FAZER PAPEL BONITO NA OLIMPÍADA. E, pra ser bem sincero, acho um tanto sinistro um governo que se laureia de ganhar medalhas nos jogos. Isso é usado como propaganda de prosperidade interna, mas, dependendo de COMO se chegou ao resultado, pode mostrar, isso sim, que se priorizou a disponibilidade de recursos não para o combate às mazelas do país (que afetam o desempenho medido pelo IDH), mas para mostrar ao mundo “como somos fortes e saudáveis”.

Vamos olhar aqui pra dentro: num país onde milhares de escolas não possuem uma quadra esportiva decente, milhões e milhões de reais foram investidos para a construção das instalações dos grandiosos Jogos Pan-Americanos; milhões e milhões foram investidos para levarmos cavalos puro-sangue dopados , Diegos Chorões, Thiagos “Fiz o meu melhor”, Fabianas Sem-Varas, Jadéis Animadores de Torcida, e Vicentes “a surpresa dos 100m sou eu”.

Façamos uma abstração com “novas manchetes”:

– Jadel leva o ouro no triplo com 18 metros
– Thiago supera Phelps com oito ouros
– Diego não cai de bunda e recebe nota máxima
– Fabiana acha a “vara mágica” e salta 6,00m.
– Vicente “Bolt” Lenílson corre os 100m em 9seg45

Aí seriam mais 12 ouros, e o Brasil pularia para a 5ª colocação (sem descontar as medalhas “perdidas pelos outros”). Qual discurso Nuzman faria na “chegada dos campeões”?

(A) “Mostramos que estamos no caminho certo. Agora é ‘dar prosseguimento’ e viva Rio-2016”

(B) “O país mostrou que tem potencial esportivo, mas o importante é investir na educação básica para que tenhamos no Brasil mais do que atletas, cidadãos.”

Aposto que ninguém lá na Islândia (IDH “number one”) está muito preocupado com o desastroso 71º lugar em Pequim (só uma medalhinha, e de prata). Nem o “Nuzman” islandês. Lá os Diegos não choram.

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