"Café-com-leite" Olímpico

Clodoaldo Silva nadador paraolímpico brasileiro
Será que ele vai desfilar no carro de Bombeiros?
foto: Agência O Globo


É bem possível que esse post seja apedrejado pelo teor de incorreção polítca que conterá, mas tudo bem.
Quando a gente era criança, e ia brincar de pega-pega, sempre tinha aquele menino gordinho ou pequenino que era considerado o “café-com-leite”: ele era um semi-excluído, as regras do jogo para ele eram amainadas, ou todos fingiam que ele estava brincando, mas suas ações eram ignoradas. Quando vejo esses jogos paraolímpicos, é exatamente o que eu penso: estão “quebrando o galho” dos portadores de deficiência, deixando-os correrem no Ninho do Pássaro, ou nadarem no Cubo D´Água, só para dizerem assim: “tá vendo como sou legal? Eu promovo a inclusão social!”.
Conversa fiada pra boi dormir: inclusão social é tratar os desiguais de maneira igual. Significaria que o Thiago Silva deveria cair na piscina COM O PHELPS. Ah, mas aí é covardia, diriam. Então, que o Thiago busque a sua inclusão na sociedade numa posição onde ele estaria em igualdade de condições com as pessoas sem deficiência, ora! E isso ocorre? Não. AINDA não. Quem luta pela acessibilidade dos portadores sabe bem disso: não há transporte adaptado, não há empregos para deficientes.
Outro dia fui ao supermercado, e pedi uma informação para um repositor, e ele me “disse” que era surdo-mudo e não poderia me atender. “Legal”, pensei, esse cara está realmente incluído, fazendo um serviço para o qual sua deficiência não o incapacita, e que o permite ter uma vida igual a de todos os outros repositores, sejam eles deficientes ou não.
Paraolimpíada não é inclusão, pelo contrário: é segregação pura. Quando aquele sul-africano, amputado das duas pernas, requisitou ao COI sua inscrição para correr entre os “normais”, foi-lhe negado o direito, sob a alegação de que suas próteses lhe dariam “força extra”. Esse seria um caso clássico de inclusão social de um portador de deficiência física no esporte! Mas vai que o cara ganha a prova, né? Ficaria bem feio para os outros… Então, nego, se quiser, corre lá com os “cafés-com-leite”! Você vai bater recorde mundial, ganhar medalhinha, igual a nós! Fica lá, quietinho.
A maior prova disso tudo é o tratamento que os atletas paraolímpicos recebem quando chegam aqui: o cara, para aparecer 30 seg. no “Globo Esporte”, tem de ganhar 850 medalhas de ouro; carro de bombeiros na Av. Paulista? Nããão, “tumultua o trânsito”. “Tirar o chapéu” no Raul Gil, como fez a Maurren Maggi ontem? Difícil, hein? Mostre duas fotos, lado a lado, para o povo: uma da Maggi, outra do Clodoaldo, e pergunte ao povo se ele identifica quem é quem. Desnecessário dizer o resultado.
Ainda tem a morbidez popular de ver pessoas com deficiência fazendo algo que os não-deficientes fazem com mais facilidade. Para isso cunharam uma expressão nojenta para adocicar o sadismo: “exemplo de superação”. Exemplo de superação é o cidadão estar ainda vivo entre nós, com todas as armadilhas que colocamos para eles nas ruas, nas portas que batemos na cara deles quando nos pedem uma oportunidade de apenas serem como nós.
Em suma: os “normais” querem sempre que os “não-normais” estejam bem, contanto que seja LONGE DELES. É assim que tratamos todas as minorias e diferenças: segregando-as e tomando-as  como “cafés-com-leite” no “pega-pega” da sobrevivência. Talvez seja medo de ser “pego” por um dos seus integrantes, sei lá…
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4 Responses to "Café-com-leite" Olímpico

  1. CrápulaMor disse:

    Dizer para os deficientes buscarem sua inclusão onde eles estão em igualdade de condições com as pessoas sem deficiência significa exclui-los definitivamente de atividades como os esportes. Não faz sentido colocar nadadores como Phelps para competir com pessoas que não têm todos os membros. Ou será injusto com os deficientes, por motivos óbvios; ou será injusto para os não-deficiente, quando próteses e mecanismos artificias desequilibram a disputa. Neste caso, não há como tratar os diferentes com igualdade. E aí? Os deficientes não têm o direito de praticar esportes oficialmente? Têm, sim. Não diria que a Paraolimíada é inclusão, mas é uma saída objetiva para que os diferentes também realizem suas competições esportivas.

    Quanto à filosofia de “tratar os desiguais de maneira igual” é muito conveniente quando nós fazemos parte daquele grupo de diferentes, que fica com a maioria absoluta dos privilégios. Nos casos em que as diferenças não implicam concentração de oportunidades, são apenas características distintas, tudo bem, dá pra falar em tratar de maneira igual. Mas nos casos em que uma das partes é amplamente benecificada, em detrimento da outra parte, varrer as diferenças pra debaixo do tapete e tratar todo mundo de maneira igual é reforçar injustiças. Nesse caso, há de haver políticas para reversão do quadro e medidas voltadas especificamente para os que estão em desvantagem.

    Comente no meu Blog:
    http://crapula-mor.blogspot.com/

  2. Vinicius Duarte disse:

    Sim, Crápula-mor, por partes:

    “Dizer para os deficientes buscarem sua inclusão onde eles estão em igualdade de condições com as pessoas sem deficiência significa exclui-los definitivamente de atividades como os esportes.”

    Não, meu caro, significa que para ESPORTES COMPETITIVOS não dá, a não ser que seja num que os não-deficientes, se quiserem competir, fiquem sujeitos às MESMAS REGRAS E CONDIÇÕES. Ex.: basquete em cadeira de rodas. Todos nós temos limitações, e a adaptação do ser humano ao meio significa encontrar no mundo algo para fazer onde essas limitações não sejam impeditivas ou restritivas. Acho que a luta dos não-deficientes tem de ser essa: não atrapalhar os deficientes na sua luta pela vida.

    As alusões ao Phelps/Thiago foram apenas hipérboles para reforçar meu discurso.

    Quanto a “varrer as diferenças pra debaixo do tapete”, eu acho que é exatamente isso o que se faz quando se promove esse tipo de “inclusão”. Amanhã acaba a paraolimpíada, os medalhistas voltam para suas casas e suas dificuldades práticas continuarão, porque os “normais” continuarão a não promover a acessibilidade a eles, e eles terão contra si os mesmos preconceitos. Nenhum portador de deficiência quer ser coitadinho, quer apenas ser mais um na multidão. E paraolimpíada só faz
    o mundo vê-los com ar de comiseração. Ou, pior, com uma ponta de sadismo. Taí o kibeloco que não me deixa mentir.

    Um abraço, grato pela visita e apareça!

    ps.: Muito legal seu blog. Parabéns.

  3. andremc disse:

    O Lula ficou tão empolgado com o desempenho do Brasil nas Paraolimpíadas que já mandou suspender todas as campanhas de vacinação contra a paralisia infantil até o final do mandato.

  4. Anonymous disse:

    Por que será que o Brasil vai tão bem nas Paraolimpíadas e não vai nada bem nas Olimpíadas? Alguém pode me dar uma luz?

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