O "subprime" no Largo da Batata – cap. 2

LINK PARA O CAP. 1 AQUI

Maik volta para casa, depois de mais um dia cabuloso. Ele está trabalhando na área de cobrança, para um grande banco que terceiriza a função para a empresa dele. É um negócio muito estranho: ele recebe um script na tela do computador, com os dados do devedor (nome, telefone, origem e valor da dívida, dias em atraso, propostas de composição). Na verdade, ele não sabe bem o que está cobrando, e, além da fúria natural dos devedores importunados, ainda coloca mais lenha na fogueira pela incapacidade de responder a questões básicas feitas pelos inadimplentes. Mas garante uma graninha a mais, pois ganha uma comissãozinha por acordo fechado. Melhor que vender assinatura de revista “Veja”, sua função anterior.
Subindo a rua escura, vislumbra um alvoroço defronte ao portão de casa. Corre para ver o que se passa, chega e dá de cara com a mãe, dona Maria, chorando:
– Filho, pelo amor de Deus, teu pai tá passando mal lá dentro! Acode!
O cara voa em direção ao quarto. Seu Aristides respira com dificuldades, deitado na cama. Sente muitas dores no peito.
– Mãe, chamou o Resgate?
– Eles disseram pra ligar pro SAMU, mas lá falaram que não tinham ambulância disponível!
Maik tinha de ser rápido, aquilo parecia um enfarte. Correu na casa do amigo e vizinho Alexsandro, que tinha uma “fuqueta” tunada, muito louca. Maik era louco por ela. Altos rolês a bordo, muitas boas lembranças.
-Mano, pega a “fuca” e vamo levá meu pai pro hospital! Eu ponho 50 paus de gasosa depois!
– Quiéisso, véio, peraí que eu vou pegar a chave do portão. Vai tirando teu pai pra rua.
O fusca 78, motor 1.9, cabeçote usinado e escape 4×2 do Alex roncava alto na porta da casa do Maicon, que chegava amparando o forte Aristides nos ombros, ajudado pela Dona Maria. Colocar o pai dentro do carro não foi lá muito fácil: os bancos tipo “concha” eram estreitos para acomodá-lo. Maik entrou no banco traseiro e o valente carrinho saiu a milhão pelas sinuosas ruas do Morro da Cachoeirinha, rumo ao Pronto-Socorro do bairro.
Era mesmo um enfarte. Seu Aristides tinha duas artérias entupidas, caso de fazer cateterismo. Ficaria internado por uns cinco dias, mas estava fora de perigo. Graças ao Alex e sua “fuqueta bala”. 
Dia seguinte, dia de trampo, Maik, aliviado, voltava a ver seus objetos de desejo pela janela do busão. “Porra, se ontem o Alex não tivesse em casa, meu velho tinha morrido”. Sentiu algo diferente em relação aos carros da loja: uma real necessidade de ter um deles, e rápido. Sua família precisava de um meio próprio de locomoção, quase tanto quanto do feijão do almoço. O pai do Maik nunca teve carro, sempre se virou, mas agora eram outros tempos. “Quem não tem carro nessa cidade tá é fudido, não tem transporte decente pro povo”, pensava, enquanto levava um “aperto de mochila com objeto pontiagudo” nas costas. “Aí, tá vendo??”
Chegou no trampo, disse pro chefe que não ia poder fazer extra, tinha que resolver umas coisas na rua. Ia sair no seu horário normal, duas da tarde. O chefe chiou, mas não podia fazer nada, além do que o Maik sempre foi ponta firme com ele. Durante as 6 horas de xingamentos na orelha a que foi submetido naquele (como nos outros) dias, a cabeça do Maicon só tinha lugar pra uma frase: “hoje eu entro numa loja de carro e não saio a pé, PQP, é nóis!”.
(continua no próximo CAPÍTULO…)
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One Response to O "subprime" no Largo da Batata – cap. 2

  1. André Nogueira disse:

    Coitado do Maik…
    Vai levar um R8 na taxa…do leasing q aprova mais fácil.

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