O "subprime" no Largo da Batata – cap. 3

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– Bom dia, amigão, gostou do carrinho?
– É, da hora… Tá bom de mecânica?
– É o mais novo de SP! 8V (não bebe nada!), completíssimo: ar, direção, vidros e travas elétricas, rodas… Todo selado, nunca bateu! E a “sapataria”, vê só! Cada pneu desse aí tá, pelo menos, 500 paus!
– Aro 16, né? Tá pra quanto?
– R$ 13.000,00. Mas isso aí é um CARRO, não é essas conduçõezinhas de Palio, Gol. Na verdade, digo que esse carro aí tá saindo por 10 paus, pois só de roda e pneu aí tem mais de 3 mil reais, amigão! Quer dar uma volta nele, sem compromisso, só pra tu sentir o carro?
– Vixe, mas 13 paus vai ficar pesado…
– Amigão, anda no carro primeiro, depois a gente senta e conversa! Vou fazer um negocinho jóia pra você sair montado.
Maicon não sabia dirigir direito, tinha até tirado carta, feito aula, mas sem carro pra treinar, estava sem a necessária prática.
– Vamos lá, mas toca você. Gosto de sentir o carro “de passageiro”.
O vendedor, boqueiro velho, viu logo que se tratava de um “calça branca”, nunca tinha comprado carro antes. Sentou no banco do motorista, pôs o cinto e esperou o Maik se acomodar. Ligou o carro, o ar-condicionado (“viu? Tá gelando!”), fechou os vidros e saiu pela avenida, escolhendo com cuidado as ruas mais bem asfaltadas. Maic só olhava o painel, o conta-giros subindo nervoso, o monte de botões. Arnaldo, o vendedor, dirigia esportivamente, mas só de “agá”, acelerando em falso para o motorzão 2.0 do Tempra SX  roncar na orelha do Maik.
– E aí, gostou?
Maik, tentando demonstrar que não ficou chapado:
– É, parece que tá bonzinho… Mas…
Arnaldo interrompe rápido, pra derrubar a máscara do comprador e pressionar:
– Amigão, pode chamar teu mecânico aqui, chama quem tu quiser! Tenho 20 anos nessa porra, e poucas vezes peguei um carro tão alinhado, tão bom de mecânica, com essa idade. Esse carro era duma senhora, quase não rodava. Um playboy ali de Santana comprou dela, pôs as rodas e os pneus, mas aí teve de casar… Cê tá ligado, né, pôs o pãozinho no forno antes da hora, hehehe. Só não fico com ele pra mim porque agora estou construindo, sabe? Puta despesa, e o caralho… Daqui a pouco vem mais um bacuri, tô arrumando o quartinho dele… Como é teu nome?
– Maicon.
– Arnaldo, seu criado. Então, Maicon (não é o lateral da Seleção, né? hehehe), vamos ali na minha mesa e te mostro os planos. Cê tá com os documentos pessoais aí (CIC, RG, comprovante de renda e endereço)? Vamos aproveitar que a mina da financeira tá aqui na loja, ela dá uma força e tua ficha sai aprovada em 5 minutos!
As mãos de Maik suam como nunca, levou um atropelo do Arnaldo e seu coração não queria mais sair de dentro daquele Tempra vinho. Coloca os documentos na frente do Arnaldo, que tira uma pasta preta e uma ficha de cadastro da gaveta.
– Tem conta em banco, Maicon?
– Tenho no Bradesco…
– Opa, beleza, então vamos fazer pela Finasa, que é do mesmo grupo e é justo a mina que tá na área. Putz, que sorte, hein?
Enquanto Arnaldo preenchia a ficha, Maik olhava pro carro e pensava: “Vixi, acabou o sofrimento, mano! Eu e a Jé, só no rolê, a molecada toda babando, solzão comendo lá fora e a nega toda fresquinha, cheirosa… Meto um DVD, telinha de 9”, pego a Imigrantes e vamo curti a praia!”
Volta à realidade:
– Então, Maicon… Posso te chamar de Maik?
– Opa, claro! É o meu apelido!
– Então, Maik… Essa máquina aí até daria pra te financiar em 48x sem entrada, mas a mina do banco falou que com essa porra de crise nos EUA – cê ouviu falar, né -?
– É, eu ouvi no jornal nacional…
– Então, os FDP fazem cagada lá em cima e a merda escorre aqui embaixo, né? O banco tá fazendo o financiamento, tua ficha já tá aprovada, mas precisava de uma pequena entrada…
– Quanto?
– 20%, merreca, R$ 2.600,00.  Mas eu vou fazer um negócio bom aqui pra você. Eu banco a entrada e te financio aqui pela loja, mesmo. Você trabalha com cheque, cartão?
– Trabalho, tenho conta-salário, cheque especial, cartão de crédito… 
Maik desfiou o rosário de benesses concedidas pelo banco a ele, com medo de perder o negócio.
– Ah, então é tranquilo! Te parcelo a entrada em 4 vezes, a primeira pra 30 dias, no cheque ou no cartão, o que for melhor pra você!
– Pode ser no cheque?
– Sem “poblema”, amigão! Aí eu já embuto também os documentos, transferência, IPVA, tu sai com o carro já “em dias”, é só curtir!
Maicon sempre fez contas na vida, mas agora não estava fazendo mais nenhuma.
(continua no próximo capítulo…)
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