Cheque Espacial

Não terminei (e nem vou terminar, estava chata…) a novelinha “O subprime no Largo da Batata”, mas o objetivo dela era mostrar a quem lê essa josta que existe uma hipocrisia absurda em tudo que se lê ou ouve sobre os juros praticados no Brasil. Quando digo “juros praticados no Brasil”, me refiro aos juros que eu, você, as pequenas empresas pagamos AOS BANCOS. Estes culpam a inadimplência e a SELIC pelas altas taxas cobradas dos clientes. Mentira deslavada. Sem “oráculo google”, sem pôr nenhum número, e – bem ao estilo do blog – toscamente, vou explicar:

Quando você consulta aquela tabelinha de taxas cobradas pelo seu banco, qual é a maior? A do cheque especial. Por que?
Se perguntar a um banqueiro, ele dirá: “Ah, porque é um crédito sem garantia, de difícil recebimento e que apresenta grande inadimplência“. 
Resumindo: é uma bosta para os dois lados, certo?: para o banco (que é muito caloteado) e para o cliente (é muito caro). Isso é o que o banqueiro fala no JN, e os “especialistas de como usar o péssimo-terceiro salário” repetem. 
Pois bem, então por que cargas d’água o cheque especial é sempre o primeiro produto oferecido quando você vai abrir conta no banco???? 
Resposta do idiotinha: porque é o mais lucrativo para o banco, ora! Gera tarifas (muitas) e tem um spread ABSURDO. Quando tomado, gera uma “fidelização” involuntária com o banco, pois o cliente/devedor fica amarrado pela dívida que, por conta dos juros, fica impagável. Ah, mas e o calote? Sigamos.
Historicamente, sabe-se que não é usual o cliente sacar o limite do cheque especial no dia da sua concessão e sair correndo do banco para nunca mais voltar. Ele é consumido aos poucos, como se você estivesse num poço de areia movediça. Com um ano de “relacionamento intenso” com o limite (indo e vindo no saldo devedor), você já pagou de juros tudo o que tomou emprestado e mais um pouco (bem mais que um pouco, para ser preciso). Aí, cansado de tanto pagar encargos, você tem três saídas: ou toma um dinheiro mais barato (mas ainda caro) para cobrir o rombo (geralmente dentro do mesmo banco, por oferta do gerente), usa o “péssimo-terceiro” e deixa as crianças sem Papai Noel ou…dá o calote. Vamos a ele:
Quando um cliente não paga, o banco cobra. Se ele vê que não vai sair nada, deveria executar a dívida (cobrança judicial). Dentro do universo de concessão de cheque especial, é ínfima a percentagem de execuções em relação ao número de calotes tomados.  E também não são também tantos calotes assim, mas isso é outra história. Então os bancos ficam com o “mico”, certo? Não.
Quando chega o final do ano, os muito lucrativos bancos brasileiros têm de divulgar o balanço. E precisam de despesas para pagar menos imposto. Legalmente, vão lá nas suas carteiras de crédito e vêem tudo que está vencido há algum tempo (o cheque especial do caloteiro está lá) e jogam tudo numa conta chamada “provisão para devedores duvidosos”. E abatem do imposto, afinal levaram cano. Vira o ano, isso se torna prejuízo. Mas, lembre-se, eles já abateram do lucro deles e, por consequência, pagaram menos imposto. E os valores lançados são com todos os juros e encargos absurdos que cobraram do caloteiro. Mas ainda não acabou.
Isso feito, se você, amigo(a) caloteiro(a), tiver um acesso de honestidade e procurar o banco para saldar a dívida lançada como prejuízo – para limpar seu nome -, eles vão te dar um bom “desconto” (parece piada…). Faz um acordinho lá e fica tudo beleza. O valor recebido entra como receita e gerará um imposto a pagar no ano seguinte, somente sobre o valor efetivamente recebido. Mas eles descontaram no ano anterior o valor integral da dívida, lembram?
Mas e a execução? Não ocorre porque demora, dá trabalho pra advogado e custa caro. Os bancos são espertos, e usam outro expediente: terceirizam a cobrança de duas formas: ou pagam comissão a cobradores externos, baseados num mínimo estipulado (do tipo “o que você conseguir a mais é teu“) ou VENDEM os créditos a terceiros, por um valor que é de, no mínimo, o principal da dívida (o capital emprestado). Se você já ficou devendo na praça, isso explica aquelas empresas que te ligam oferecendo “grandes descontos” (piada again…) para saldar uma dívida velha.
Ficou comprido e confuso, mas a conclusão é uma só: os bancos brasileiros não perdem nada com inadimplência: se você paga, eles enchem as burras; se não paga, eles “recebem do governo” via redução de impostos a pagar, e ainda faturam algum “vendendo” seu crédito podre. Mas usam isso para justificar os juros escorchantes que cobram dos incautos clientes.
em tempo: não devo nada a bancos, nem tenho limite de cheque especial, e juro que esse post não é por despeito…rsrsrs
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3 Responses to Cheque Espacial

  1. André Luís Nogueira disse:

    Pô cara!
    Tinha que terminar o contô.
    Como ficarão seus leitores numa “história sem fim”?

  2. Vinicius Duarte disse:

    Os leitores eram poucos (acho que só um, rsrs). Aqui é que nem o SBT: não deu audiência, corta a novela no meio: mata todos os personagens.

  3. […] para camuflar a usura praticada), passaram a jogar a culpa nos “inadimplentes” (as aspas já expliquei aqui) que não deixam as taxas […]

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