Experiência, idade, maturidade…

É voz corrente que o tempo traz consigo a experiência. Mas sabemos que não é bem assim, ou melhor, não existe uma relação direta entre dias vividos e experiência acumulada. É só ver por aí caras de quarenta anos se comportando como adolescentes, e jovens púberes sustentando famílias. Mas o modelo adotado pela sociedade, no que diz respeito á trajetória profissional dos nossos filhos tem um componente perverso: obriga os jovens a tomarem decisões sem que lhes seja dada a oportunidade de terem acumulado vivência suficiente para tal. E, como dito anteriormente, vivência não necessariamente tem a ver com “horas de vôo”. Na verdade, trata-se do velho e bom “eu sei o que é melhor para o meu filho”. Sabe? Aprendeu onde? Com quem? Com seus pais? Então seu filho é igual a você só porque é seu filho?

Há várias gerações se dissemina, por exemplo, que o caminho a ser seguido pelas crianças/adolescentes, para se alcançar o sucesso, é terminar o colégio e fazer uma faculdade. Depois de formado, se arranja um emprego na área e voilá! Tá pronto o nosso guri. Depois é só “dar seguimento ao trabalho”, agora tem MBA, especialização, pós isso, pós aquilo, latu sensu, strictu sensu, o caralho. 
Antes que digam que eu estou falando isso só porque não terminei uma faculdade até hoje, digo que é por isso mesmo: nunca terminei, exatamente porque sempre comecei todas elas sem a menor idéia da minha verdadeira inclinação, sem nenhuma vivência que me permitisse conhecer mais sobre mim e, principalmente, sobre o mundo. Entrava na faculdade porque via todo mundo entrando, porque minha mãe mandava, achava que era obrigação. Exatamente como se faz com os jovens de hoje: o moleque (menina), com 17/18 anos, prestando a POLI só porque tira boas notas em física no colégio, ou porque ficava brincando de Lego quando era pequeno. Ou, pior, porque o pai/mãe é engenheiro(a) e vai deixar a construtora pro filho tocar, apesar do moleque não conseguir resolver uma regra de três.
Talvez o que falte a nós, pais, seja deixar nossos filhos viverem mais. Proporcionar a eles experiência de vida, calejar um pouco a mãozinha deles, sacumé? Oferecer muitas cores, muitos aromas, muitos fedores, sabores doces, amargos e azedos. Não dar na boca, mas deixar sobre a mesa, sem palpitar. Ele pega o que quiser. Ficamos o tempo todo tentando enfiar em seus corpos a roupa que achamos bonita ou confortável, mas que, muitas vezes, não lhes cabe. Isso porque “sempre sabemos o que é melhor pros nossos filhos”. Sabemos? Aprendemos onde? Com quem?
A gente sabe um monte sobre a vida, né? Por isso estamos como estamos. Temos sempre a receita certa para a vida alheia, e, se a “vida alheia” for de nossa lavra, nosso esperma, nosso óvulo, aí, sim, estamos sabendo tudo: faça assim, faça assado, é batata! Vai nessa…
E como passamos o tempo todo escolhendo “tudo de bom” para as nossas crias, é fato que elas estão perdendo a capacidade de avaliar o que é melhor para elas. Estão nascendo na Terra um bando de zumbis, gente de opinião emprestada/comprada, depressivas porque só sabem fazer o que mandam, sem capacidade de inventar um jeito novo de viver e ver as dificuldades como uma oportunidade de melhorar algo. Têm todas as ferramentas, mas as usam por imitação. Padrão, template, múltipla escolha, preencha as lacunas, follow the pattern… Cidadãos-binários: ou é zero, ou é um. Mas o homem não inventou o computador justamente para nos livrar dessas tarefas chatas?
Onde quero chegar com esse amontoado é simples: quando escolhemos para os filhos o que eles devem fazer, somos irresponsáveis, pois o ônus decorrente de toda escolha feita na vida não vai recair sobre quem escolheu (nós), mas sobre o paciente da escolha (filho). 
Mas isso aqui não é o laissez-faire aplicado à educação, não senhor(a). Metaforicamente, seria uma abordagem keynesiana: intervenções pontuais, porém precisas, e atacando as causas, não os efeitos. Mostrando aos nossos inexperientes petizes as múltiplas opções existentes para cada conflito, e ajudando-o a escolher a melhor alternativa, ou a criar a sua (dele) própria, fora do leque que conhecemos.
O “menino da bolha de plástico” não sabia jogar bola, nem atravessar a rua sozinho. Era rico, mas muito infeliz. Nossos filhos não precisam de bolhas, precisam viver, porque alguém vai ter de tomar conta dessa josta depois que formos embora.
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3 Responses to Experiência, idade, maturidade…

  1. Humberto Capellari disse:

    Caraca, velho, que lirismo.
    Tem aquela música do Raul que trata disso, acho que é sapato 38, ou 37. Linda música e acho que combina com seu post.

  2. Randal disse:

    Creio que há uma questão de geração como pano de fundo.
    A geração dos pais atuais (quarentões, cinquentões) viveu uma época de final de repressão. Jamais seria possível em décadas passadas um filho questionar os pais, ou então, nem pensar em levantar a voz. Esses filhos de antigamente cresceram e tentaram criar uma geração de novos filhos com mais possibilidade de diálogo.
    Daí passamos do controle e do respeito absoluto para o desrespeito ao mais básicos valores da família. Ou seja, passamos de um extremo a outro, e atualmente, criamos delinquentes em potencial.

  3. Vinicius Duarte disse:

    Humberto: “lirismo”? Tá zoando, né?rsrsrs

    Randal: tem isso aí, também. Concordo contigo. Mas em vez de construirmos um diálogo com os filhos, do tipo “você fala, eu respondo”, queremos ser as duas pontas: “eu falo, você responde o que eu quero ouvir”. Democracia de fachada, entende? Só pra parecer “muderrno”.

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