Goleiro: louco, simples e objetivo

Ser goleiro de futebol é um negócio muito estranho. Quando a gente se inicia no jogo, tudo o que não quer é ser goleiro. Mas sempre tem um louquinho que se dispõe. Via de regra, é o quietão da turma: tipos soturnos, ficam lá, isolados, pensando em não sei o quê, esperando para pegar com as mãos a bola que todos os outros insistem em manejar com os pés.
Mas quando conhecemos um goleiro, queremos sempre estar junto dele. Quem joga “na linha” sabe: arrume um bom goleiro e seu time está quase pronto. Se você, antes de iniciar uma peleja, olhar para trás e reconhecer naquela figura parada sob as traves um verdadeiro goal-keeper, joga até melhor do que sabe. Goleiro é a mãe do time.
Assisti agora há pouco a partida SEP x SCR. Torci os noventa e poucos minutos  para o clube do Recife. Ele venceu e levou a decisão das oitavas da Libertadores para os pênaltis.
Aí eu olho o camisa 12 da SEP. Careca, meio gorducho, fez miséria durante o jogo. Pegou tudo. O cara tá com a vida mansa, tem 36 anos, só defendeu um time durante a carreira, tem aquela cara de louquinho que eu só vejo nos bons goleiros e está lá, na Ilha do Retiro, aguentando a gritaria do Sport… Quem sou eu pra torcer pro Fumagalli?
Quatro pênaltis batidos, o cara pega três
Só quem já ficou na frente de um gol, na marca penal, sabe o que isso significa. Nada é tão covarde quanto bater um pênalti. Mal comparando, é como  se um condenado a morte tivesse que desviar da bala que lhe atiram, se quisesse salvar a pele.
Marcos pegou três, de quatro. No último, corre para a diminuta torcida palestrina e, desajeitado, desliza de joelhos em direção à galera ensandecida. Ele não precisa mais disso, já é amado pela torcida. Não precisa fazer média. Mas ele nunca faz média. Bons goleiros nunca fazem média. Loucos não fazem média. 
Termina o jogo, e o repórter vem com aquelas perguntas que ele cansou de responder durante sua longa carreira: “e aí, qual a sensação?”, bla, bla, bla… Até que vem a última (o repórter promete): “Qual foi a defesa mais difícil hoje?”. Marcos olha pra ele com aquela cara de louco e diz: “Com 36 anos, qualquer defesa é difícil”.
Esse é o Marcos, goleiro do Palmeiras. Louco por escolher ser goleiro; simples por saber de onde veio e para onde vai; e objetivo para fazer magistralmente aquilo que planejou: pegar com as mãos as bolas que outros 20 burros insistem em impulsionar com os pés.
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One Response to Goleiro: louco, simples e objetivo

  1. André Luís Nogueira disse:

    O melhor de tudo:
    Não fica fazendo showzinho, batedo no peito pra torcida qdo sumpre sua obrigação.

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