Facadas e Pauladas – Final

(continuação do post anterior)

Separadas por poucos metros de marginal, as torcidas se avistaram. Corre corre, pedradas, tiros. Os PMs pouco puderam fazer. Maicon corria com o bando vascaíno, em direção aos “gambás”. Corria, mas não sabia bem o que ia fazer. Na verdade, corria com o bando para não ficar sozinho, estava com mais medo de apanhar do que coragem de bater.

Rosinelson correu para não apanhar, subindo pela encosta gramada em direção à Praça Campo de Bagatelle, local que ele havia conhecido há pouco tempo, quando da festa pela conquista do “paulistão-2009”. Dez “linha de frente” da Força Jovem – mais o Maicon – estavam no seu encalço. Perto da estátua do “14 bis”, Rosinelson caiu, foi alcançado e começou a ser chutado, socado, pisado e golpeado com pedaços de pau, pedras e barras de ferro. Maicon olhava à distância: “vai, muleque, mata ele, porra!”. Rosinelson agonizava, com a cabeça cheia de sangue. Tiraram a camisa dos Gaviões dele; tiraram o blusão da Gaviões dele; tiraram a calça da Gaviões dele; a “bombeta” da Gaviões já tinha caído no caminho. Estava deitado sobre a grama da praça, só de cuecas, inerte, cabeça rachada, dentes quebrados. Não oferecia mais perigo algum, e, na verdade, nunca ofereceu perigo a ninguém. Maicon olhava e queria chorar. Quase não bateu em Rosinelson, mas sabia que era cúmplice.

Um integrante da Jovem decretou: “vamu arrancá o coração desse gambá filho duma puta!”. Puxou uma faca e olhou em volta. Maicon olhava para o chão, como se aquilo não fosse com ele. Não era com ele, ele só queria ver um jogo do Vasco, porra! Agora estava ali, ao lado de um quase-cadáver. O dono da faca decretou: “vai lá, muleque. Esse é o seu batismo na Força Jovem. Crava a faca no peito dele.”. “Não, porra, deixa ele aí sofrendo, vamu imbora, carai!”, disse Maicon tentando demonstrar uma frieza que não sentia. “Vai, porra, senão vai ser zoado. Tu é florminense, é?”.

Maicon sentiu um empurrão pelas costas. Estava cercado pelos “aliados”. “Vai, carai! Mete a faca nele, porra!”. Maicon pegou a faca, trêmulo. Rosinelson respirava com dificuldade. Maicon apontou no peito dele e desceu com a lâmina; a faca acertou o osso esterno e não entrou. Rosinelson teve um espasmo. “Aqui, porra! No coração”, disse o dono da faca, apontando para o mamilo esquerdo de Rosinelson. Maicon respirou fundo e cravou. O sangue esguichou. Rosinelson estava morto.

“Bora, carai!”. Não deu tempo: os onze justiceiros da Força Jovem estavam cercados por viaturas e motos da ROCAM na praça. Recolhidos ao 9º DP, juntaram-se aos outros 50 integrantes presos, sentados no chão da delegacia, cabeça entre as pernas.

Maicon não pôde trabalhar na quinta-feira. Não foi zoado pelos colegas do escritório pela eliminação do Vasco na Copa do Brasil. Foi a SP e sequer viu o jogo, nem o resultado soube. Foi a SP para matar uma pessoa que ele nunca tinha visto na vida.

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3 Responses to Facadas e Pauladas – Final

  1. André Nogueira disse:

    Vinicius,
    Alguns dilemas são facilmente copreendidos com breves histórias. Melhor se inspiradas e fatos reais.
    Essa sua história/parábola(?) explica o nosso mundo de merda.
    Acho que os mais “fortes”, nem sempre são/eram os “melhores”.
    Por status e proteção(?)os fracos se un(em)iam aos “fortes” e fica(va)m à mercê de suas vontades.
    Merdinhas mediocres unidos a valentões retardados = desastres regionais.
    Gênios unidos a líderes maquiavélicos = …
    Vixe…desce uma SerraMalte aê e uma porção de jabá…

    Eu: sei lá, cara, mil coisas… Mas eu acho que a qualidade do mundo depende muito da qualidade das lideranças. Por aí você vê a merda em que estamos. Essa molecada só se espelha em bosta, os seus ídolos são umas coisas que não deveriam servir nem pra catar lixo no fundo do tietê. É foda.

  2. André Nogueira disse:

    Porfvor, exclua o “fatos reais”.

  3. André Nogueira disse:

    Parei pra fazer uma análise mais calma sobre o assunto que vai até um pouco contra o que propus em meu post.

    1º A escolta, pelas armas usadas pelas torcidas, não revistou os ônibus que vieram do RJ e, quem sabe, nem o de Sampa. Tudo bem, eram muitos, mas preguiça não cabe nessa hora.

    2º A polícia parou o ônibus da Gaviões da Rua São Jorge para revista.

    3º A distância dos 14 ônibus do Vasco que levavam 800 torcedores para o local onde foi parado o ônibus do Corinthians era pequena, visto que os cariocas os alcançaram a pé.

    4º A Gaviões da Rua São Jorge é adversária “ideológica” da Gaviões do Bom Retiro, sendo que a 1ª não tem CNPJ, por essa razão não teve escolta (?????). Burocracia x Bom senso.

    5º Não sendo revistados os vascaínos armados e em maior nº foram atrás do ônibus da São Jorge.

    6º Tirando o garoto assassinado, os que foram presos e os hospitalizados, os torcedores do Rio em peso conseguiram chegar ao estádio e acompanhar a eliminação de seu time, como se nada tivesse ocorrido no trajeto.

    7º Nenhuma apuração detalhada foi feita ou divulgada sobre o caso, assim como aconteceu no pisoteamento do Morumbi.

    8º As otoridade, presentes, só fazem declarações inconclusivas. “Precisamos estar investigando”, “estamos indo averiguar”, é o que se escuta. Nada claro como: _ Foi assim, grelhado!

    Oito pontos bastam…mas cabem mais…Mas nesse mundão virtual de meu Deus as fibras óticas têm ouvidos. É preciso ser prudente e tomar canja de galinha, ainda mais com esse frio..

    Sorvendo a primeira colher da canja, me pego a pensar agora: _ Esse assunto já é antigo.

    Esse é o problema: O esquecimento, a banalização, a omissão por parte dos jornalistas para não desvalorizar o produto do qual depende seus empregos. O mesmo vale para as otoridades envolvidas.

    Aliás, imprensa é um assunto recorrente em meus textos e comentários. Sabe o que é? Sou favorável inconteste à liberdade de imprensa, mas a maioria desses profissionais gosta de ter limites impostos. Só assim conseguem “trabalhar”.

    Vence então o nosso esquecimento e a consideração de que, como no meu texto “gladiadores palermas”, todos têm que se fuder.

    O que ocorreu é só um dos milhares de sintomas da síndrome da imunodeficiência social.

    Nunca a causa mortis vai casar com a doença principal.

    Eu: Guarde (mais) este nome: Paulo de Castilho. É descendente direto do “saudoso” Fernando Capez (para as más línguas, Fernando InCapez). É outro vampiro fanfarrão querendo beber o sangue que jorra do peito do Rosinelson, hehe. Se ainda não foi, é presença certa no Mesa Redonda da Gazeta, em breve.

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