Arte, loucura, bizarrice e interesse público

Diálogo: “Você conhece o Van Gogh?”  “Ah, aquele pintor que ficou louco e cortou a orelha?”

Depois da extenuante cobertura dos meios de comunicação sobre a vida e a morte de Michael Jackson, ficou uma dúvida: o que realmente interessa saber sobre um artista? Ou, formulando mais precisamente, o que as pessoas querem saber sobre um artista?

Não acredito muito em “artistas normais”. Um artista tem de, necessariamente, ter uma visão totalmente anticonvencional sobre o mundo que nos cerca, tem de enxergar aquilo que ninguém viu. Pelé é artista quando transforma uma canela inimiga num companheiro que lhe passa a bola, Van Gogh é artista quando despeja pinceladas frenéticas, aparentemente desencontradas, que se transformam em imagens vivas. Mas quando falarem de Pelé, depois da sua morte, vão esmiuçar o caso da filha renegada, como se referem à orelha decepada de Van Gogh como a parte mais importante do seu corpo.

E esse mundo de hoje, sinceramente, acredita que a característica sine qua non para identificar um artista (e, pior, a obra dele) é o conjunto de atos bizarros praticados. O que, por óbvio, dá margem para se considerar Paris Hilton, Xuxa, Britney Spears, Dennis Rodman e até aquele seu conhecido que gosta de usar calça xadrez, camisa florida e fumar narguilé… artistas!

Todo artista é louco, mas nem todo louco é artista. Principalmente, os chamados “loucos convenientes”, que estudam detidamente o que vão fazer para chocar as pessoas e receber a “medalha de artista”. Michael Jackson nunca “fabricou escândalos”. Simplesmente, para ele, nada daquilo era motivo de escândalo!

Excetuando-se dois ou três depoimentos bastante equilibrados e babações de ovo previsíveis e repetitivas, muito pouco se discutiu sobre a obra deixada por Michael Jackson, sua contribuição inestimável para a música popular, para a dança, para o audiovisual, para a “cultura pop”. Mas, mesmo que essas análises tivessem sido feitas, não era bem isso o que o povo queria saber. Não queriam saber, tampouco, sobre o processo psicológico da construção de uma personalidade controvertida e inusual. Queriam, mesmo, saber como Michael fez para “ficar branco”, se tinha nariz ou não, quantas criancinhas ele bolinou em Neverland, quanto deve na praça.

Mas Michael Jackson fez tudo direitinho: conseguiu fechar todas as portas e janelas aos abelhudos das TMZs e Daily Mirrors da vida, espalhou boatos e contra-boatos, depoimentos e desmentidos, prisões escandalosas e sentenças  a seu favor, esbanjou quando estava quebrado. E fez isso, talvez, porque não achasse que nada do que fazia fosse absurdo, então não interessava a ninguém.

A única coisa que Michael Jackson deixou escancarada, documentada, gravada e fartamente disponível foi sua obra. Foi isso que ele fez, especialmente para nós. E é só isso que ele queria que soubéssemos a respeito dele.

Por isso, desistam: nunca saberão “a verdade sobre MJ“. Aproveitem seu tempo disponível e ouçam os discos, vejam os clipes, cantem e dancem. Façam de conta que foi um presente de Deus e pronto.

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One Response to Arte, loucura, bizarrice e interesse público

  1. Andre Nogueira disse:

    Vamos falar de música?

    Off the Wall é um disco de Soul/Funk/R&B, digno de Al Green, Stevie Wonder e Marvin Gaye…ou é um disco de Jazz?

    Certamente é o último disco de música verdadeiramente negra que fez.
    Thriller é bom, mas é Pop Rock.

    É por aí… O trabalho de “Off The Wall” é bem superior, do ponto de vista musical. Thriller inovou na parte “visual” (dança e clipes). E tem umas coisas lá que eu não gosto: muita “eletrônica embarcada”, por exemplo. Se “Thriller” tivesse sido feito sob a “plataforma Off the Wall”, acho que seria imbatível.

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