400, 500, 600… Pára, pára!

Enquanto “o Brasil todo” se escandaliza com os atos secretos do Sarney (eu também, só não comecei a me escandalizar no mês passado), existe uma certa ponta de admiração quando se divulga salário de técnico de futebol. “Ah, o cara é vencedor”, “ah, ele merece”, “ele é trabalhador!”. Pára tudo.

Existem três aspectos que derrubam a “versão meritocrática” dos salários astronômicos dos “professores”: é imoral, é socialmente injusto e é contabilmente inconsistente um cidadão, aqui no Brasil, ganhar essa grana toda para treinar time de futebol. Vamos a eles, um a um:

O  imoral: em um mês, o cara ganha muito mais do que 90% das pessoas da mesma sociedade em que ele vive ganhariam durante toda a vida. Muito mais que imoral, isso é irreal. Seria como se o Brasil fosse um Bahrein, sendo que os sheiks seriam os técnicos dos grandes clubes, não os “indicados” por Alah.

O injusto: Em uma sociedade justa, existe uma relação direta entre a responsabilidade do trabalho, as implicações e complicações envolvidas na tarefa e o valor a ser pago. Usemos como comparação o salário de um médico, que é pago para salvar a vida de muitas pessoas durante a sua carreira: o cara ganha lá seus 10 paus por mês; se, em um ano, ele medicar/atender/curar 1000 pessoas (5 pessoas/dia em 200 dias de trabalho), temos que, em 20 anos de trabalho, ele ajudou 20.000 pessoas a se curarem. Isso, no período, custou à sociedade, grosso modo, R$ 2.400.000,00. Esse valor foi o que Vanderlei Luxemburgo ganhou em 6 meses da SEP para escalar o Obina, Mozart, Jéci…

Antes que venham com aquela história de “o problema é o salário do médico”, digo: algo tem de servir como parâmetro. Se o parâmetro for o salário do Luxa, um faxineiro deveria ganhar R$ 5.000,00 mensais, e o médico teria de ganhar R$ 100.000. Quem está “fora da curva” é o Luxa. Aí reside a injustiça.

O contabilmente inconsistente: é sabido que o futebol brasileiro não gera receita compatível com as despesas: a TV paga pouco, os patrocínios são ínfimos diante dos oferecidos aos clubes europeus, a bilheteria é fraca. Mesmo assim, a receita do futebol sobe em P.A., e os salários dos artistas sobem em P.G. Algum economista poderia fazer um comparativo entre a evolução da remuneração dos atletas e treinadores no período 1999/2009 e as receitas auferidas pelos clubes no mesmo período? Isso explicaria quase tudo.

O resultado  dessa bandalha é um monte de clubes falidos, ações pululando na justiça trabalhista, rendas penhoradas, Timemania, Clubemania, Loteca, REFIS 1,2,3,4…

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4 Responses to 400, 500, 600… Pára, pára!

  1. Rubão disse:

    Na verdade, os patrocínios estão longe de ínfimos: para vc ter uma idéia, a LG paga ao Boca apenas 1/3 do que paga ao São Paulo.

    E o dinheiro das tvs de serem ruins aqui. O problema é que não há meios de processar os dirigentes que se locupletam dos times e ficam décadas como presidente.

    Mas eu concordo que pagar 500 mil ou 400 prum profissional da bola é dose pra mamute.

    Ah, Rubão, mas eu não estou comparando com a Argentina, porque lá e aqui é tudo a mesma coisa. Comparei com os valores europeus. Porque R$ 600.000/mês é salário de europeu (talvez nem eles paguem isso).

  2. Rubão disse:

    Ficou ruim minha dissertação sobre tv. Eu disse que o dinheiro está muito longe de ser ruim. É bem razoável.

    Mas o futebol aqui é tratado como mera mercadoria, sem influência de dirigentes, jogadores, torcedores.

    É razoável, mas incompatível com a folha de pagamento dos grandes clubes brasileiros. E é o programa mais barato da Globo, com o melhor custo-benefício. Chute: com a grana do Brasileirão, a Globo não faz uma novela de 5 meses, e o campeonato dura 9 meses. Abraço

  3. Valdir disse:

    Você é um tremendo cretino, Vinicius. Eu acho isso há mais tempo que você e já disse e até escrevi.

    Infelizmente eu escrevo com o fígado e o resultado é um lixo, embora a ideia esteja correta.

    Preciso aprender a escrever com o cérebro, por assim dizer…

    Cara, você é uma figuraça! Quase apaguei o comentário quando li “você é um tremendo cretino”! rsrsrs…
    Eu também escrevo com o fígado (por isso tem “fel”). Mas eu nunca publico “de prima”. Dou uma respirada antes de apertar o “enter”. Mas, ainda assim, sai muita merda. Valeu!

  4. André Nogueira disse:

    Só não concordo com a citação de Obina ao lado de Mozart e Jéci. Obina é um injustiçado pela imprensa calhorda cujo líder é RMPrado.
    Acrescento um detalhe. Muitos justificam os altos salários de jogadores ao tempo curto de carreira. Ganham muito por pouco tempo, 15 anos em média. Técnicos podem trabalhar até ficarem caducos. Alguns até depois de caducos.
    Vc usou Luxa como exemplo (coitado, já não basta a perseguição do 1nho). Falarei do Muricy. O Santo André vice do paulista treinado por ele ficaria em 10º. Só sabe treinar time com elenco acima da média. Provas: São Paulo meia boca do ano passado. Fracassou. Foi pro Palmeiras, idem. Ah, mas ele é ético, boa gente. O São Paulo foi tri-brasileiro apesar dele. Foi pro Flu, com elenco muito bom, por quanto? 500 mangos?

    Queridão, esse post é mei veinho, né? Na época, tava na moda zoar o Obina (e um nome desses é pra zoar, mesmo :D). Claro que o escrivinhado aí em cima vale pra todos os pofexores, mas é que, à época, o Luxa tinha acabado de sair do Palmeiras. Por isso o exemplo dele. Sem contar que esse negócio de se pagar fortuna pra treinador é “cria” dele, pode ver.

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