A agonia de Richarlyson

Tá jogando bola, mas para ele só isso não é suficiente

Tá jogando bola, mas para ele só isso não é suficiente

Jogador de futebol que se diz “injustiçado” tem aos montes. Falcão se disse injustiçado em 1978, quando preterido para a disputa da Copa da Argentina – Coutinho convocou Chicão, do SPFC. Mas esse rapaz aí da foto é um dos casos mais absurdos de massacre sem causa esportiva que estes olhos viram num campo de futebol.

Richarlyson Barbosa Felisbino – irmão de Alecsandro (também jogador), filho de Lela (ex-jogador do CFC, alcunhado “Mentira”, pelas suas pernas pouco extensas) -, é um coadjuvante. Nunca será negociado com a Inter de Milão por 100 milhões de euros, teve uma passagem apagada pela seleção da CBF quando estava em grande fase jogando improvisado na lateral esquerda. Mas Ricky – assim pediu que fosse estampado seu nome na camisa 20 tricolor – é um atleta útil a qualquer equipe: voluntarioso, esforçado, disciplinado e de boa técnica.

Originalmente, é meia. Como tal, chegou ao SPFC, oriundo do ECSA. Lá, time pequeno, era “o dez” da equipe. Como seria “o dez” em pelo menos, 12 dos 20 clubes da série A, e em 19 dos 20 clubes da série B. No tricolor, só não jogou no gol: foi lateral direito, zagueiro, lateral esquerdo, volante, meia, atacante.

Todos os treinadores gostam de trabalhar com ele: é humilde, acata ordens, não faz “igrejinha”, não é estrela. Corre muito, chuta bem. Tem, vez ou outra, uns surtos de se achar um Rivelino, ou um Zico: mete umas bolas de “três dedos” esquisitas, faz umas jogadas que só ele entende (e que dão merda, via de regra). Mas pergunte a qualquer técnico brasileiro se ele queria o Ricky no seu time: todos diriam SIM.

Esses atributos garantiriam a Richarlyson uma carreira tranquila no futebol, mais brilhante do que a do seu pai: jogaria sempre em times grandes, faria bons contratos, uma passagenzinha no exterior (tipo Turquia, Japão, Grécia) para fazer o “pé-de-meia”, e uma aposentadoria digna. Mas o final não parece caminhar para isso, por um motivo que nada tem a ver com o esporte.

Richarlyson tem contra si os rumores, as piadinhas e a intolerância contra a sua suposta (desculpe o “suposta”, mas aqui é necessária) orientação homossexual. E ainda teve o azar de defender as cores de um clube onde os rivais estigmatizaram como “bambi”. Os “torcedores” deste time, querendo se ver livres dessa pecha, malham Ricky como um judas em sábado de aleluia. Não gritam seu nome no estádio, ridicularizam-no. No SPFC, Ricky é persona non grata, mesmo se for o artilheiro do campeonato, o rei das (argh!) assistências, o “bola de ouro” do Brasileirão. A ele não basta vencer jogos, mister para o qual é pago. Ele tem de vencer toda uma sociedade: corinthianos, flamenguistas, palmeirenses e SÃOPAULINOS, em uníssono: “ô, Ricky, viadooo!

Ir para outro clube no Brasil? Só se for pequeno, e seria um retrocesso. Mais que isso, um absurdo futebolístico: clube grande no Brasil dá camisa a Mozart, Zé Luiz, Eduardo Costa e Paulo Almeida, mas nega a Richarlyson, que joga, sozinho, mais que todos eles juntos.

Dirigentes dos clubes grandes não têm coragem de contratá-lo e afrontar os pit-boys das organizadas, e chegam ao absurdo de destilar o preconceito contra Richarlyson em programas de TV.

Com Ricardo Gomes, ele voltou a jogar bem. Para os “torcedores” do SPFC, isso parece não ser suficiente. Mesmo se o time for tetracampeão do mundo com gol de Ricky no último minuto da final,  os muros do CT tricolor amanhecerão pichados com um “fora, Richarlyson bicha!”.

Existe, sim,  injustiça no futebol. A carreira de Richarlyson é a maior prova disso. Enquanto isso, gritam na imprensa e levam até pra cadeia jogador que chama o outro de “macaco”. Só que ninguém nega emprego a esse injuriado. Ao Ricky,  chamam de “viado” e ainda fecham o mercado. E todos se calam, convenientemente.

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7 Responses to A agonia de Richarlyson

  1. André Nogueira disse:

    Vinicius,
    Em diversas entrevistas de boleirs que li, vi ou ouvi, sempre que o tema homossexalismo é levantado a resposta é a de que sempre existiu jogador gay.
    Dizem até que um grande artilheiro do Palestra era homossexual.
    O mito sobre esse assuto no futebol é criado pelas aparências. O cara pode ser uma libélula, mas não pode demonstrar em público, se não o povo desce o, como o perdão da palavra, o cacete.
    O problema do Ricky é “demonstrar” (sim, aqui não pode) ser afeminado. Talvez seja um problema de estrutura física. Tive um amigo de primário com um problema nas articulações do calcanhar que andava nas pontas do pé e de traseiro arrebitado. Aos olhares de todos, era gay. Sofria o coitado.
    Se ele não usasse óculos escuros femininos e tirasse as munhequeiras que evidenciam o peculiar movimeto de seus braços, seria mais fácil viver num meio onde existe homossexualismo, mas não pode haver afeminados.

    Putz, cara. Discordo 99,5% de você. Richarlyson disputa as jogadas com a mesma “virilidade” de um Emerson, por exemplo. E, viadagem por viadagem, o Beckham já vestiu calcinha, o C. Ronaldo usa umas camisetinhas bem esquisitas, não? Eles são “metrossexuais” – isso vem de dar o cu no metrô? -, e o viado é o Ricky e seus óculos da “Priscilla, rainha do deserto”? Jogador de futebol “MACHO” usa necessaire, passa creminho na mão e o caralho… Agora, o Ricky tem de coçar o saco e cuspir no chão?
    Ronaldo pegando 3 (três!) “travas” e levando pro motel é “deslize”. Se fosse o Ricky, coitado, era sentença de morte.
    Cara, viver num mundo onde você tem até que ANDAR conforme o “padrão macho” é absurdo. Mais absurdo ainda quando uma pá de boleiro que te critica pela orientação sexual, não faz o serviço com metade da competência. Troco 1 Richarlyson no meu time, desmunhecando, por 22 Carlos Alberto, um dos que zoava o cara no tempo de SPFC e não joga porra nenhuma.
    Os 0,5% de concordância vão para o fato de que sempre teve homossexual jogando bola, treinando e dirigindo equipes de futebol. De fala grossa em campo, gemiam como gatas na alcova.
    Agora, a pergunta fatal: com aqueles volantinhos de merda sobraram no teu desmanchado time, você pediria o Richarlyson ao Andrés? E a Gaviões?

  2. André Nogueira disse:

    Por mim ele poderia ir para o Corinthians. Sobre a Gaviões, acho até que as torcidas envolvidas com carnaval (Indepedente e Mancha inclusas) deveriam ser mais tolerantes, pois é um meio com participação enorme dos homossexuais. No carnaval são bem vindos e convivem em harmonia, no futebol, não. É contraditório, pra não dizer absurdo.

    Não entendo como alguém pode ter prevenção ou preconceito contra alguém que nunca lhe fez mal, nem tampouco saiba se o fez um dia a alguém.

    Lembro que escreveu algo sobre o Ricky onde argumentou que para ter seu talento reconhecido teria que fazer algo extraordinário que deixasse em último plano sua “provável” preferência sexual.
    Minha opinião? É bom jogador, mas não fará nada extraordinário. Qual a solução? Não sei, mas deve ser bem complicada, pois ele e o SPFC não a puseram em prática.

    Pra finalizar, elogie seu jogador, mas não vem falar mal dos volantes do Corithians só pq vcs deram uma melhoradinha.
    Vejo futuro em Jucilei. Edu está mostrando que ainda é bom jogador. Moradei e Boquita são bons pra compor elenco de série b, mas assim como vieram e sairam Túlio e Eduardo Ramos e foram efetivados Elias e Cristian, o mesmo deve ocorrer no futuro.

    Sobre o Richarlyson: não vai adiantar ele fazer algo “extraordinário” dentro de campo para que o deixem em paz. Nada do que ele fizer será maior do que a intolerância quanto á sua orientação sexual. E você sabe que, se o Andrés quiser ser “derrubado”, é só fazer soar a sirene do PSJ e anunciar o Ricky na coletiva.
    A “melhoradinha” a que V. Sa. se refere é sair do 16º lugar para o 4º. Em 7 rodadas? Cinco vitórias seguidas? Hmmm, sei. Tremei! JASON rides again! rsrsrs.
    O Edu é um baita jogador, mas acho que a dele agora é ser um meia, tipo carimbador de bola. Ele não vai dar uma de Pierre e correr atrás de moleque de 20 anos. Os Moradei e Boquita da vida são muito fracos. E o Elias já está com a cabeça fora do Brasil.

  3. Anderson M. disse:

    Bom texto.
    Mas não é toda torcida que faz isso com o Richarlyson. Trata-se apenas da facção Independente, que fica no setor laranja do estádio.
    Os torcedores “normais” não participam dessa vergonha. E muito pelo contrário… grita o nome do jogador como forma de apoio.
    abs

    Por isso coloquei “torcedores” assim, com aspas, no texto. Sempre que me refiro à T.T.I. ou outra “organizada”, coloco aspas. Brigadão, Anderson.

  4. Thiago Ferreira disse:

    Eh cara nesse meio, o futebol eh um negocio esquisito mesmo.
    Sabe qual eh o problema? Tem muito homem concentrado.
    ahahaha
    Agora vc. tem razao ao afirmar que o Richarlisson eh persona non grata no Morumbi. Os cartolas ate ajeitaram uma convocaçao na esperança de venda para fora, mas nao colou.
    Na epoca, conseguiram com o Breno, que jogou poucos jogos, foi convocado, vendido e sumiu.
    Uma referencia que vc. fez, que sofre restriçoes de pais, sao treinadores gays de escolinhas de garotos.
    Esse assunto eh muito complicado.
    Gostei do “coçar o saco e cuspir no chao”.
    Tem mulher que nao se depila,e nao geme na alcova. ahahahahah

  5. André Nogueira disse:

    Vc, torcedor do tricolor, podia começar dando o exemplo. Compre uma camisa com o nome do Ricky nas costas. Vc já viu alguma?

    A última camisa do tricolor que eu comprei foi em 1992, e não pretendo comprar mais nenhuma. Nem do Ricky, nem do Rogério Ceni. Bem, talvez um dia eu compre uma do Pedro Rocha. Eu não sou museu, mas vivo do passado.

  6. fernando disse:

    FORA BICHARLISON. ENCERRA A CARREIRA!

    Porra, nego, desenterrou o post, hein? Por que? Viado não pode trabalhar mais?

  7. Excelente post Vi, como sempre (cansei de escrever isso, vê se escreve mais aqueles que eu discordo por favor? rs)

    Como eu disse a você no twitter, eu sinto na pele essa dificuldade de ter que, a todo momento, estar provando minha competencia, por ser mulher, por ser loira, por ser razoavelmente atraente…

    Vocês podem achar exagero, mas não tem a mínima ideia do que passamos para conseguirmos esse status profissional.

    O preconceito exite, seja com a mulher, com o homossexual, com o negro… fingir que isso é coisa do passado é faltar com a verdade. Ainda temos um longo caminho pela frente.

    Eu sempre fiz brincadeiras sobre as “marias” do Cruzeiro. Até que trabalhei em uma Organização onde 90% dos homens eram homossexuais. Quando eu soltava minhas piadinhas homofóbicas por total costume de fazer isso, eles simplesmente me olhavam. Não falavam nada, só olhavam, com aquela cara de piedade pela minha ignorância.

    Vergonha de mim. Vergonha de todos nós, seres humanos, que não sabemos respeitar o diferente e julgamos suas competências baseados em premissas torpes e falaciosas.

    Obrigada pelo post. E que o Ricky traga muita alegria pra minha querida torcida alvinegra! Farei questão de comprar uma camisa com o nome dele estampado!

    Beijos!

    Adriana, sempre benevolente comigo… bj.

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