Consulte o Regulamento

"Bin Laden da Pedroso", revoltado: "Esses moleques da Veja não me dão nada e ainda atrapalham meu serviço!"

"Bin Laden da Pedroso", revoltado: "Esses moleques da Veja não me dão nada e ainda atrapalham meu serviço!"

A revista “VejaSP” publicou uma matéria com o título “Profissionais da Esmola”, fazendo os velhos (e maus, no sentido de perversidade) julgamentos “senso comum” sobre a atuação de pedintes diversos na capital paulista. Chegam até a “quebrar o sigilo fiscal” dos caras, afirmando (com base em investigações pra lá de furadas) a renda diária auferida por eles.

Meu tempo de rua me fez conhecer vários dos pedintes expostos na reportagem. O “Bin Laden” da Pedroso de Moraes (com sua indefectível plaquinha “N anos desempregado”) e a vovozinha da mesma Pedroso x Cardeal, eu chegava a encontrar mais de uma vez por dia. Invariavelmente, as mãos estendidas se aproximavam do vidro do carro, à caça de uma moeda.

Dar esmolas é um ato voluntário, e eu não o pratico por princípio, da mesma forma que não compro nada de pessoas que me tocam a campainha de casa. Uma digressão: doadores de esmola são pessoas com a consciência pesada.

A reportagem da “Vejinha” tenta atribuir aos mendigos citados na reportagem um caráter de má-fé, de engodo ou de (isso é grave) “dinheiro no mole”.  Não é nada mole ficar numa esquina o dia todo, batendo de vidro em vidro, levando “nãos” e gestos de desprezo explícito pela cara. É, sim, uma mostra da degradação da pessoa, a humilhação pública admitida como melhor forma de subsistência. Só que o objetivo aqui é achincalhar a revistinha, e não ficar fazendo masturbação sociológica. Sigamos.

Quando uma pessoa dá esmola, não quer (e não teria, mesmo se quisesse) envolvimento nenhum com o receptor. Da mesma forma que não é recomendável apaixonar-se por prostituta, ninguém fica amigo de pedinte, muito menos ele vai justificar a você sobre o destino do óbolo concedido, ou os motivos pelos quais acabou naquela situação. Se os fizer, mentirá, como as putas mentem aos clientes. Ele está lá e pronto, como estamos todos em nossos postos de trabalho. A estratégia mercadológica do mendigo não pode, pela natureza do trabalho dele (sim, É um trabalho!), ser calcada em fatos reais pouco comoventes. É a história triste que tira a grana do bolso doador, diretamente para a sacolinha do mendigo. Esse é o show. Se não gosta, não pague o ingresso.

A reportagem do rapazola da “Vejinha” é, mais uma vez, preconceituosa, pois tenta dividir os pedintes em “falsos” e “autênticos”, bonzinhos e malvados, quando nem entre eles existe essa divisão. Você, repórter, não conseguiu provar nada. Só fez atrapalhar o serviço deles, pois os diletos “doadores-leitores” vão ficar esperando uma lista sua contendo os “mendigos do bem”, que receberão o “selo Vejinha” de qualidade, como fazem com os restaurantes paulistanos. Mas não vá pedir “jabá” também para os pedintes, hein? Oooooolha!!!

A mendicância é uma atuação teatral, e cada um monta a sua peça como bem entende. Ninguém deveria acreditar na plaquinha do “Bin Laden” – “7 anos desempregado” -, como ninguém deveria acreditar na propaganda da Telefônica, quando diz para você comprar um telefone em que poderá “falar à vontade, 7 dias por semana, 24 horas por dia”, pagando um preço fixo. Ao final da peça, vem o aviso: “Consulte o regulamento”, e você percebe que pode, claro,  “falar à vontade”, contando que a sua vontade seja igual à vontade da Companhia. Isso não é engodo. Engodo é o “Bin Laden da Pedroso”.

“Bin Laden”, uma sugestão: faça uma plaquinha “7 anos desempregado”, e embaixo coloque uma inscriçãozinha: “Consulte o Regulamento”. Quem sabe esses moleques te deixam em paz e te dão o “selo VejaSP 10 melhores mendigos”.

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10 Responses to Consulte o Regulamento

  1. boa tarde.
    Que tal uma plaquinha:

    “Meu caro, deixe de ler a veja e dê esmola. É mais barato e ainda alivia teu coração!!!”

    *consulte sempre o regulamento

    Taí! Uma boa idéia, nobreza! Vou fazer uma placa dessas e levar pro “Bin Laden”.

  2. Alguém podia criar a placa “Mendigo autêntico. Aprovado pela Veja”.

    Ah, esquerdopata, mas tem de ter o selinho na placa. E você sabe bem que esse selinho custa uma nota.
    Vai chegar o dia em que a crassemédia vai comer “bosta aprovada pela Veja”. Eu espero ansiosamente por este dia.

  3. saulo disse:

    O Nosso Governo adora falar que está chovendo emprego no Brasil. É claro que eles falam isso né. Eles tem tudo na mão.

    Saulo, o “emprego” do mendigo é a mendicância. Pedir é opção, não a falta dela. Não tem nada a ver com governo.

  4. Alê disse:


    Se eu tivesse um blog, teria escrito a mesma coisa.

    De um modo geral, discordo de uma boa parte do que vc escreve, mas esse post está irretocável.
    Faltou, em minha opinião, apenas mencionar a Revista da Folha dessa semana, que traz matéria de capa enfocando o trabalho dos artistas de rua. É um belo contraponto.

    Alê

    “irretocável, mas faltou mencionar”… Seu “irretocável” está parecendo o “irrevogável” do Mercadante! hahahaha! É verdade, eu vi a matéria da revista da Folha e ficou bem legal. A rua é muito rica, e tem histórias sensacionais. Valeu, Alê. Ah, e quando discordar, desça a lenha, também!

  5. Alê disse:


    Hahaha… Me pegou… Tava escrevendo e a chata da minha mulher tava falando na minha orelha, amolando com algo que já esqueci. Como não sou multitask, dividi as atenções e deu esse erro aí. #Fail com tela azul…

    Alê
    PS. Até provoquei o @amaya no twitter para que ele escrevesse um post no blog dele a respeito desse assunto. Ia comentar o mesmo que vc…

    A ciência popular já comprovou: a diferença entre o cromossomo “x” e o “y” é a falação desenfreada, redundante e irritante presente no “x”, hehe.

  6. barbara disse:

    Pior é que a matéria trata como sinal de má-fé a pessoa que sai de não-sei-onde da zona leste pra ir pedir em uma zona de mais alta renda. Poxa, isso mostra o esforço.

    Quanto ao comentário sobre o cromossomo X, bom lembrar que os homens também o têm.

    Exatamente. Essa abordagem da matéria foi bastante maldosa.
    Sobre o par de cromossomos: sim, Bárbara, mas você os têm em dobro… rsrs. Não leve a sério, foi apenas uma brincadeira.

  7. carlos disse:

    O duro é que os caras além de escreverem de maneira preconceituosa e sem graça, fizeram uma matéria pra lá de fria: o livro “A Alma Encantadora das Ruas” traz João do Rio escrevendo muitíssimo melhor sobre este assunto (no caso, sobre os mendigos do centro do Rio de Janeiro) por volta de 1908.

    Ah, Carlos, mas aí já é covardia sua, né? hehehehe. Querer alguma sensibilidade desses reporterezinhos da VejaSP, que saem do “mundo encantado do Colégio Sta. Cruz” para o “mundo encantado da ECA-USP”, depois pra redação das Vejas da vida? É um bando que nunca andou de ônibus, criado no leite-com-pera da vovó… mendigo, pra eles, é como ET.

  8. Me lembrei agora. Essa revista não é a mesma que considerou “meio normal” quando o maluf descarregou um montão de crianças de rua em Camanducaia-MG?

    Não me lembro disso, Conde, mas não me espantaria em nada. Para a VejaSP, a cidade começa na Oscar Freire c/Melo Alves e termina na Oscar Freire c/Augusta.

  9. Acácio Neto disse:

    Gostei da sua crítica.

    Abraços
    http://www.anetux.com.br

    Obrigado.

  10. Lelo Brito disse:

    Olha, eu acho que a imprensa impressa (argh, detesto essas aliterações…) tá sofrendo do mesmo mal da eletrônica. Falso mendigo é coisa que vemos desde a nossa infância e que provavelmente nossos avós viam na deles. Não precisava de nenhuma reportagem pra nos contar isso.
    A bosta toda é que foi publicada na Veja. Assim como a Globo, a revista é a menos querida pela galera que já não se ilude com qualquer coisa. Pelo menos eu, desde que aprendi que a chegada do Cabral aqui em Tupinicóplis (esse é do James) foi dolosa, sempre me interessei em procurar as outras versões do fato. Assim, Veja nada mais é que um pasteurizado do discurso da oposição, assim como a Carta faz o mesmo pelo governo.
    Eu falo isso pois, depois de ler a reportagem, pensei da mesma maneira que você. Até a minha veia semiótica saltar e começar a questionar o porquê dessa reportagem.
    Até certo ponto, concordo contigo na questão do paradoxo “Colégio-Santa-Cruz-ECA-Leitinho-com-Pêra” (aliás, sensacional!). Uns anos atrás, namorei uma dona recém-separada, que morava em Alphaville e tinha três filhos. Segundo ela, as crianças nunca tinham tomado um busão, um metrô ou sequer tinham saído do Fort Knox residencial a não ser num carro. Uns tempos atrás, li na Revista da Folha uma reportagem sobre uma molecada de um colégio do naipe do Bandeirantes (se é que não era ele mesmo) falando sobre a “aventura de pegar um metrô e ir ao Centro Velho de São Paulo”. Com direito a foto de turista e tudo… dentro do vagão do metrô!
    Jesus Carlos! Que visão do mundo esse povinho tem hoje, 5 ou 6 anos depois? Talvez a mesma do repórter recém-ex-rato-de-internet da VejinhaSP, supostamente criado pela vovó.
    Ainda assim, não entendi o real motivo da reportagem.
    Houve um tempo em que eu era PhD em Teoria da Conspiração. Talvez, naquela época, eu diria que isso tá com cara de preliminar de justificativa para uma limpezinha estilo Rudolph Giulianni protagonizada pelo Kassab.

    1 – “falso mendigo” é redundância, hehehe.
    2 – não precisa ser PHD em teoria da conspiração para ver que o objetivo da VejaSP e simpatizantes sempre foi uma “faxina”, uma espécie de separatismo: a “SP verdadeira”, para eles, compreende o quadrilátero que tem seus limites na Rebouças, Paulista, Brigadeiro LA e Av. Brasil. Saiu daí, nego…

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