Casoy mode on, Casoy mode off

A grande imprensa fechou o ano de 2009 com tudo: esse videozinho aí (santo youtube! – eu sempre me pergunto: quem grava essas coisas?) causou indignação em muita gente.

“Que merda… dois garis desejando felicidades, do alto de suas vassouras… o patamar mais baixo do mercado de trabalho…”

Não há muito mais a falar de Casoy, além do que já foi dito. Ele já pediu desnecessárias desculpas pelo que alguns de seus indulgentes colegas classificaram como “gafe”. Desnecessárias porque o importante seria Boris explicar o que realmente se passa na cabeça dele, e resulta em lapidares pensatas como essa. Por acidente, essa todos ouviram, mas será que não existiriam outras, piores, declamadas a cada intervalo do “Jornal da Band”?

Boris Casoy é um formador de opinião bastante experiente e razoavelmente consagrado. Apresenta a milhares de pessoas, “em on”, sua visão de mundo. E dela vários acabam comungando. Se ele serve pra alguma coisa, é pra isso. Claro que, como bem disse o @microcontoscos, é possível ficar uma semana sem BC na TV, mas não dá pra ficar uma semana sem limpeza pública.

Psicologicamente falando, BC “desligou o superego” e soltou a batatada. E dizem que, quando se suprime o superego, aparece a pessoa real.

A Revista Mad, lá pelos anos 70/80, tinha uma seção denominada “você diz isto, mas na verdade queria dizer…” (ou algo parecido). Se o Boris tivesse de dar uma opinião idêntica, mas com o “superego ligado”, o que sairia? Talvez algo assim (liguem a “voz editorialista” dele para ler):

“É lamentável (e, ao mesmo tempo, surpreendente), que pessoas nesta situação de penúria (os garis) ainda encontrem ânimo para desejarem felicidade a alguém. Isto é UMA VER-GONHA.”

Ficou mais bonitinho? Não sei. Mas talvez esse episódio ajude a quem ainda dá crédito à opinião “em on” de Casoy a entender em que ele realmente está pensando quando vocifera sua “indignação com os rumos do país e do mundo”. O que, convenhamos, deve ser algo digno de muita vergonha.

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33 Responses to Casoy mode on, Casoy mode off

  1. Ademir disse:

    O problema, para mim, é a nítida contradição em relação a sua já conhecida postura moralista. Se fosse o RA ia passar batido (o que é ainda pior).

    É mais uma contradição entre o discurso de “querer ver as coisas certas” e, intimamente, pensar que o mundo é dividido em castas, e que o “direito à felicidade” não pode existir entre os “dalits”. Talvez ele seja adepto do hinduismo, sei lá…arebaba!

  2. Claudio disse:

    O que esperar de um ex-membro do CCC mackenzista e que foi o sujeito plantado na Falha de S.Paulo pela ditadura?

    Nada muito longe disso aí. O duro é saber que a verdadeira cara dele é escondida pelos patrões e colegas, há décadas.

  3. Valmir disse:

    No futebol, como você já bem sabe, divido os caras em “boleiros” – os caras que efetivamente merecem alguma atenção pelo fino trato à bola – e “outros” – porque, se já tá difícil arrumar um boleiro por time, há que se completar os onze para a entrada em campo -.
    Adaptada à política, tenho dividido a turma da imprensa em “os caras” e os “imbecis”. O dito cujo aí, desde sempre fez parte do segundo grupo … Aliás, de relevante mesmo, só tirou chinfra geral num debate para prefeito, onde sacaneou o Suplicy com o preço do pãozinho, o Correia com o orçamento de São Paulo e o “ateu-comunista” Fernando Henrique, dando brecha pro Jânio Quadros deitar e rolar. Depois disso, não pasou disso.

    Ele é o Denílson dos âncoras faz tempo, mas tem um “bom empresário”, que sempre arruma uma brechinha pra ele, mesmo que seja no “Vietnã”. E o Pannunzio defendendo o escroto foi uma cena patética.

  4. Thiago Ferreira disse:

    O que esse cara “trabalhou” na epoca das privatizaçoes do FHC, foi uma grandeza.No caso banespa então, a campanha foi diária e sistemática. Bem feito por ter sido flagrado em sua verdadeira face. Pode encerrar a carreira tranquilamente, deve estar rico, não sei, porém ao andar nas ruas, deve abaixar o focinho, sempre que cruzar com um gari. Ótimo.

    O sindicato poderia colar a foto dele nos carrinhos de coleta, tipo “procurado”.

  5. Enojante! Ultrajante! Repugnante!
    Uma das criaturas mais abjetas e repugnantes já vomitadas pela direita brasileira exibiu a sua verdadeira face.
    Será que os blogueiros não conseguiriam fazer um movimento (acho que a onda será altamente favorável) e fazer com que esses dois BRASILEIROS, TRABALHADORES HONRADOS, sejam recebidos no Palácio do Planalto, pelo Presidente Lula, com toda a dignidade que eles merecem?
    Que tal a sugestão?

    Ah, quando o Lula se reúne anualmente na associação de catadores de material reciclável, a imprensa cai de pau, chamando-o de demagogo. Imagina se ele for ao sindicato dos garis, ou conceder audiência a eles. Vão dizer que ele só fez isso porque tem rusga com o BC.

  6. Boris deve ser a matéria prima para ácido bórico. Aqui usamos o tal ácido para matar baratas.Ele deve imune, ISTO É UMA PENA!

    Boris é um lixo de gente, se for gente.

  7. Alê disse:


    Credo! Entre ter uma defesa tosca igual a do Pannunzio e a do Prof Harivaldo, eu optava pela segunda.

    Minha leitura do ocorrido é diferente da sua, Vinícius, pra variar.

    Imagine vc (e vcs tb, leitores) se um Diretor de Arte chegasse na reunião de briefing de uma agência de publicidade e apresentasse o script ou layout da mensagem de Ano Novo da emissora (no caso, a Band) usando a imagem de um lixeiro (poderia ser coveiro, faxineiro ou outras profissões terminadas em “eiro”) como protagonista da campanha.

    Uma mensagem que deveria ter sido concebida no sentido de desejar o que geralmente todos desejam para o Ano Novo: PROSPERIDADE, SUCESSO, DINHEIRO.

    Vc, prezado Vinícius (e leitores) ao verem o filme/outdoor/anúncio reagiriam de que forma?

    – Que bacana! Dois lixeiros me desejando prosperidade no ano novo. Até chorei!

    ou

    – Mas que merda! Dois lixeiros desejando felicidade do alto de suas vassouras. Porra! Mas dois lixeiros? Os representantes mais baixos da pirâmide do trabalho? É essa a prosperidade que vocês querem desejar aos telespectadores?

    Invoco aqui o espírito de Joãozinho Trinta, para reafirmar que pobre gosta é de luxo, intelectual é que gosta de pobreza.

    A cena escolhida pela BAND no sentido de desejar FELICIDADE e PROSPERIDADE foi sim inadequada e o comentário do Boris dirigido a quem escolheu tal imagem (e não aos garis, na minha percepção) foi sim apropriado se não tivesse vazado e tomado as proporções que tomou.

    De qquer forma, o BC não disse nenhuma mentira, ainda que seja uma profissão digna e mais do que necessária, blablabla, ninguém almeja pra si ou seus filhos que eles venham a se tornar lixeiros, coveiros, faxineiras…etc.

    Na escala das profissões, estão no nível mais baixo, naquele nivel que não requer estudo, esforço intelectual ou habilidades especiais. E isso não é apenas no Brasil, mas em qualquer outro lugar do mundo.

    -Ah! Mas e as risadinhas jocosas ao fundo? Hein? Hein?

    Ainda no meu entendimento, o BC não estava rindo dos garis, mas sim da situação ridícula que é escolher para mensagem de Ano Novo (repito: uma mensagem que deveria ter sido concebida no sentido de desejar prosperidade entre outras coisas) justamente a imagem de dois coitados que são considerados como parte do nivel mais inferior na escala das profissões.
    não acredito que ele estivesse rindo dos garis, mas do paradoxo da situação.
    É como se vc fosse fazer uma mensagem de fim de ano para uma igreja usando justamente a imagem de uma prostituta em atividade.

    É claro que os politicamente corretos iriam dizer:

    -Mas Jesus andou com prostitutas e Maria Magdalena era o quê? E prostituta não é gente?

    É sim, claro. Mas num contexto católico-natalino a figura não bate. Serve para chocar, somente.

    Enquanto a Globo caprichava na sua mensagem de Natal, mostrando todo o glamour que eles sabem mostrar, a concorrente pagava o mico de desejar SORTE, PROSPERIDADE e SUCESSO usando dois lixeiros. Foi isso que o BC considerou ridiculo e riu. Não dos garis em si.

    Alê

    Ps. Oi Vinícius! Foi bem de ano? Aqui foi na paz.

    Realmente, Alê, você defendeu o BC melhor que o Pannunzio e a Barbara Gancia juntos. Não que seja grande coisa, mas foi melhor. Você é bom em defender causas indefensáveis. Fui bem, sim.

    • Quer dizer que para você e Boris um gari/pedreiro/jardineiro e outros eiros não pode desejar um ano novo bom e próspero, tem que se contentar com a miséria simplesmente? É como já disseram, vivemos muito bem sem Boris, no entanto sem gari/pedreiro/jardineiro e outros “eiros” fica difícil.

      Como está no texto, eu passo um ano, fácil, sem ver a cara do Boris. Mas 3 dias sem um gari limpando as ruas, é impraticável. Se o trabalho fosse remunerado pela sua importância…

      • Alê disse:


        Claro que podem. Aliás, eles o fazem, a cada final de ano e, ato contínuo, me estendem a mão.

        Se vc reler atentamente o que escrevi, verá que estou falando sobre o paradoxo de um lixeiro desejar prosperidade e sua inserção no contexto midiático.

        Se “contentar em viver na miséria” é coisa que está saindo da sua boca, dentro do entendimento tacanho que vc teve sobra a minha opiniào.

        Alê

      • André Nogueira disse:

        Boa parte das ruas de Sampa ficam mais de 3 dias sem varrição. Uma caminhada de meia hora comprova isso.
        Qto ao Bóris, o nivel de boa vontade para com o cabra gerará avaliações opostas.
        E o lixo continua.

        É, o lixo continua.

    • Alê disse:


      A minha resolução de fim de ano é procurar ver sempre o lado melhor das pessoas ao invés de ficar catando pelo em ovo pra demonizar aqueles nunca simpatizei.
      Vai durar mais 10 dias, portanto tente me aturar durante esse período.

      Se o BC tivesse vindo a público pra esculachar profissionais humildes, apenas por serem humildes, teria meu total repúdio, mas não vi dessa maneira.

      BC foi infeliz. Mesmo sendo puta velhíssima de TV, deve ter se esquecido que comentários supostamente OFF são gravadas de forma sacana pela mesa de mixagem e câmeras, para ter o que vender ou dar pra mídia. Um comentário em off, vazado, comprometeu para sempre sua carreira profissional e, provavelmente, vai mandá-lo pro gelo mais cedo. A Band nào vai engolir esse tijolo, sem fazer nada, creio. O operador de áudio, já foi demitido.

      Não acredito que o Boris tenha se deliciado com o que disse. Mesmo sendo um comentário em off (e qtos não fazemos no decorrer de um dia?), NA MINHA IMPORTANTE OPINIÃO, não teve a malicia que muitos insistem em atribuir. No dia posterior voltou e pediu desculpas a quem se sentiu ofendido.

      O que não está certo é as pessoas enrolarem o rabo e sentarem em cima feito macaco pra depois falar do rabo do outro.

      Como se não fizessem jamais algum comentário ou fuxico a respeito do modo como as pessoas se comportam, se vestem, sua classe social, seu nivel econômico ou intelectual.
      É essa linha de pensamento chamada HIPOCRISIA que eu detesto. E critico. E disso a internet tá abarrotada.
      A virtualidade é tão hipócrita qto a vida real. Onde os mesmos que dizem que ser lixeiro é uma profissão de respeito, tb afirmam que é um trabalho pra quem não estudou, que é um trabalho ruim, que é mal remunerado, que não querem isso para os filhos, etc.
      Até aí tudo bem. Reconhecer que é um trabalho ruim não significa que você necessariamente tenha desprezo por garis.

      Vivemos uma mentalidade quen não vai além do “oh! Os garis são trabalhadores e honestos”, como se isso, essa idealização, garantisse-lhes um vida realmente saudável e o respeito que eles merecem.

      “-É preciso acabar com o preconceito!” Sim. É preciso. Mas como se faz isso? Fingindo indignação em forum de internet?

      Porque a única maneira que eu vejo é aumentar os salários e melhorar as condições de trabalho dessa profissão, o que não cabe a mim e nem a quem está me lendo, já que não somos as pessoas que decidem o salário de garis e assemelhados.

      Como cantava Bob Marley: “The road of life is rocky and you may stumble too, So while you point your fingers someone else is judging you”.
      Traduzindo: A estrada da vida é cheia de pedras e vc poderá tropeçar tb. Então enquanto vc fica ai apontando seu dedo, tem alguem com o dedo apontado pra vc tb.

      Alê

      Ei, ei! Eu, pelo menos, não estou “fingindo indignação” nenhuma, ok?

      • André disse:

        Ótima resolução de fim de ano. O Bóris poderia fazer uma igual. E aproveitar para explicar melhor se aquilo foi uma brincadeira cretina ou uma cochilada que deixou aflorar uma parte pouco bonita de sua mentalidade. Se ele não fosse tão moralista esse vídeo não teria tido a repercussão que teve.

    • Claudio disse:

      Acabo com a argumentação de que ninguém almeja ser gari e que para ser gari não precisa de estudo com apenas um link:

      http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL1349960-9654,00-CONCURSO+PARA+GARI+NO+RIO+REGISTRA+INSCRICOES+DE+CANDIDATOS+COM+DOUTORADO.html

      Até.

      • Alê disse:


        Realmente. Acabou mesmo. Fui ingênuo ao afirmar que ninguém almeja ser gari.

        Imagino que vc vá incentivar seus filhos a seguirem essa gloriosa carreira. Ou, quem sabe, vc mesmo abandone o que está fazendo e se dedique com afinco a passar nesse concurso.

        Inté.

        Alê

      • Lucius disse:

        Essas procuras por concurso de gari no Rio tem algo muito estranho.
        Pena que os jornais não mostram onde esses doutores vão trabalhar depois da aprovação.

        Você tocou num ponto interessante (ui!), Lucius. Muita gente presta concurso para cargos de menor exigência de escolaridade no serviço público para entrar no serviço público. Depois, se tiverem algum “conhecimento”, arrumam comissionamentos, DASs e outras cositas más, permitidas pelo regime dos servidores públicos. Em suma, não é todo gari que varre ruas, por aqui.

    • Lucius disse:

      Alê, entendo o seu ponto de vista mas, no Brasil, a figura do gari já tem um certo “destaque” nessas reportagens de fim de ano (tem hífen?), carnaval e outras datas/festas.
      Até já se criou um certo “esteriótipo” nas reportagens: garis sempre de ótimo humor, dançando, jogando bola… Nunca vi uma que falasse dos salários, condições de trabalho etc.
      De toda forma, apresentar pessoas das classes mais pobres com otimismo, acreditando no futuro, num período que o Lula visita catadores de papel, que uma das bandeiras do Governo é justamente o foco nos mais pobres, acho que talvez seja uma escolha acertada.
      Contudo, não vi o jornal e não sei se nos outros intervalos outras pessoas/classe de trabalhadores foram apresentadas, o que talvez justificasse ou não sua linha de pensamento.
      Por outro lado, o que mais pesou, entendo eu, para essa reação toda, foi a forma que o BC falou: com deboche.

      • Alê disse:


        Lucius, vc tem razão em todos os seus argumentos; o estranhamento com o fato de pessoas graduadas concorrerem a um cargo de gari; o estereótipo que apregoa que os garis são pessoas de bem com a vida, apesar de serem garis; e o deboche saido da boca do Boris, sujeito que se julga dono de uma reserva moral inatacável.

        Há um estudo acadêmico, afirmando a invisibilidade dessa categoria de trabalhadores. Reproduzo abaixo uma entrevista muito interessante a esse respeito:

        Ser **IGNORADO** é uma das piores sensações que existem na vida!

        ‘Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível’

        Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da ‘invisibilidade pública’. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
        Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

        O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo.. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são’seres invisíveis, sem nome’. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

        ‘Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência’, explica o pesquisador.

        O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. ‘Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão’, diz. Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.

        Diário – Como é que você teve essa idéia?
        Fernando Braga da Costa – Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.

        -Com que objetivo?
        -A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis.

        -Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação? Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
        -Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos.. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.

        -Dê um exemplo.
        -Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo arua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: ‘-É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão’.

        -Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
        -Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente.
        As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

        -Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
        Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger..

        -Eles testaram você?
        -No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca.Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe,varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande,esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: ‘E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?’ E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

        O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
        Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central.Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim.. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

        E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
        Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando – professor meu – até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

        E quando você volta para casa, para seu mundo real?
        Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma ‘COISA’.

        Pois é.

        Alê

      • Alê disse:


        Se o assunto interessar a alguém, dá pra comprar o livro. Nesse link aqui dá, inclusive, para folheá-lo antes.
        -> http://vqv.me/2kv

        Alê

  8. gell costa disse:

    Que merda, o bóris casoy(minúsculo mesmo), do alto de sua empáfia, fingindo pedir desculpas… Faltam apenas os coadjuvantes se manifestarem.

    Ao mesmo tempo que “pede desculpas”, a direção da Band bate a porta na cara dos garis, que queriam entregar um documento de repúdio.

  9. Thuago Ferreira disse:

    Alê. A Band pode seguir a sua opinião, e a “real intenção” do BC, e no ano que vem, pagar um cachezinho para o Antonio Ermirio de Moraes, e o Abilio Diniz, enviarem a mensagem de fim de ano. Que tal?
    Ai pronto, você ficará satisfeito, e tudo beleza certo?
    Os garis que se fodam.

    • Alê disse:


      Thiago, lembre-se de Joãozinho Trinta e sua sábia frase. Ele podia ter muitos defeitos de caráter, mas decididamente era um sujeito que entendia de pobres e de glamour.

      Alê

      • Thiago Ferreira disse:

        Alê. Vc. pegou Joaozinho 30, para justificar Casoy, e pisou na maionese, Deveria ter escolhido outro simbolo, ou abraçar outra bandeira, me desculpe. Leia essa:
        Grande Rio: Ala dos mendigos será formada por socialites e alunos

        POR BRUNO ASTUTO

        Rio – A ala dos mendigos do desfile da Grande Rio, que homenageará Joãosinho Trinta no próximo Carnaval, ganhou mais um reforço de peso no enorme time de socialites que estão adorando se vestir de ‘ratos e urubus’. Cinquenta e três alunos que se formam em 2010 na chiquérrima Escola Americana vão desfilar.

      • Alê disse:


        Thiago, vc leu o que postou? Vou negritar alguns trechos:

        Ala dos mendigos será formada por socialites e alunos.

        A ala dos mendigos do desfile da Grande Rio, que homenageará Joãosinho Trinta no próximo Carnaval, ganhou mais um reforço de peso no enorme time de socialites que estão adorando se vestir de ‘ratos e urubus’. Cinquenta e três alunos que se formam em 2010 na chiquérrima Escola Americana vão desfilar.

        Pq pobres não se fantasiam de mendigos e ricos de reis/rainhas? Seria mais natural, não?

        Alê

  10. Luiz Carlos disse:

    Alê, vai aí o meu protesto:
    Suas seguidas intervenções no tema tem me mantido conectado por tempo muito superior ao que disponho. Peço recolher-se visto que preciso trabalhar.

    Ahn???

  11. Alô, Vinícius!

    Alô, Alê!

    Alô, pessoal!

    Feliz 2010!

    Voltei, após trinta e poucos dias de licença-prêmio, que passei organizando a atividade que será meu novo ganha-pão e que me permitirá abandonar o caos urbano e ir morar à beira-mar! 🙂

    Quem diria que eu voltaria e concordaria em gênero, número e grau com tudo que o Alê escreveu, hein? Parece que 2010 será mesmo diferente… 😛

    Vinícius, tem um artigo ou dois sobre futebol que estão prometidos há séculos, mas ainda não terminei de escrever. Não cria muita expectativa, é pra gente se divertir discutindo. Logo irão ao ar.

    Alê, nossa discussão sobre a legalização da maconha em breve poderá ser retomada, só deixa eu postar umas coisinhas no Pensar Não Dói e logo virá mais um artigo sobre legalização das drogas. Enquanto isso, fica de olho por lá!

    Abraço a todos!

    Olá, Arthur, feliz 2010!

  12. Ah, sim, sobre o Casoy…

    Vou copiar e colar algo que postei por aí:

    ODEIO pedido de desculpas após esse tipo de gafe. Neguinho não se dá conta que, além de ninguém acreditar, ainda passa por bundão. Já que a m*rd* estava feita, ele tinha mais é que sapatear em cima: “pois é, eu disse e repito, acho essa profissão um lixo (ou sei lá que trocadilho infame seria adequado, porque a única coisa que vi sobre o episódio foi este post) (*) e quem não gostar que vá catar coquinhos – ou latinhas”. Pelo menos não passava por bundão. 😛

    .
    .
    .

    (*) Isso foi em outro blog. Com este aqui, são dois. 🙂

    Agora que eu li os comentários do Alê, até que entendo melhor o Bóris. Recrimino-o menos pelo comentário original e mais pela bundamolice de pedir desculpas. 🙂

  13. Saíram dois comentários idênticos, desculpa aí.

    Na verdade, vieram 3 e eu apaguei 2. Calmaí, amigão…

  14. Thiago Ferreira disse:

    Tambem vou pra casa. Já fui convencido que o Casoy é sensacional, e que está rico, por ter ficado tanto tempo aposentado, tomando seu importador, e curtindo ferias longuissimas em hoteis 5 estrelas.
    Voltou por diletantismo pra Band, e está certo em não gostar de pobre mesmo. Pobre tem é mais que se fuder, e fazer festinha de fim de ano na laje, com cajuzinho, como dizia o Dolabella. E viva Boris Casoy.
    Mas de vez em quando tenho uma recaida, e quero que ele vá tomar bem no centro do seu c….!

  15. ANDRADE NETO disse:

    *ANDRADE NETO HISTORICIZA A FRASE DE JOÃOZINHO TRINTA*

    O SAMBISTA CANDEIA RESPONDEU ÀQUELA ALTURA À INFELIZ FRASE DO AUTO-INSTITUÍDO PORTA-VOZ DOS POBRES, JOÃOZINHO TRINTA:

    “COMO POBRE PODE GOSTAR DE ALGO QUE NÃO CONHECE”?

    A REDE GLOBO, DONA DO CARNAVAL DE LUXO, É CLARO, DEU PREFERÊNCIA POR “ETERNIZAR” A FRASE QUE MAIS LHE CONVINHA.

    LEMBRANDO QUE O QUE JOÃOZINHO TRINTA DISSE FOI PROFERIDO NA TENTATIVA DE DESQUALIFICAR O MOVIMENTO “QUILOMBO” LANÇADO POR CANDEIA, PAULINHO DA VIOLA, ELTON MEDEIROS, NEI LOPES E OUTROS MAIS VISANDO A SALVAR O CARNAVAL CARIOCA DO COMERCIALISMO E DO LUXO OSTENTATÓRIO QUE O ASSOLARA NOS ANOS 1970.

    ANDRADE NETO, VERITAS ODIUM PARIT.

    Certo, Andrade Neto. E aí, pensei que ia zoar o Paulinho ao vivo, ficou tietando o cara? Qualé, mermão?

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