De cinema eu não entendo, mas de aritmética…

São essas (e outras) que dão munição a mal-intencionados para desancar a chamada “blogosfera independente, pluralista e de esquerda”. Há de se defender aquilo em que se acredita, mas não se pode ficar cego, sob risco de atrair pena, escárnio ou indiferença sobre as palavras proferidas, inclusive as boas palavras.

Eduardo Guimarães, do “Cidadania.com”, um dos maiores blogs “particulares” do UOL (e que pauta boa parte dos blogueiros “de esquerda” brasileiros) escreveu um post sobre o que chamou de “mentiras da mídia” sobre o filme “Lula, um Filho do Brasil”. Através do gúgol, comparou resultados obtidos pesquisando-se o nome do filme (entre aspas) com as palavras “decepciona”, “fracasso” e “aquém”, obtendo milhares de resultados. Com base nisso, concluiu que existe uma cobertura tendenciosa da imprensa, com o fito de esculhambar a fita (trocadilho infamérrimo).

Para comprovar que a mídia é golpista até na “Ilustrada”, juntou ainda um texto da “Folha”, onde Ana Paula Sousa analisou como “decepcionante” o público do filme. Logo a seguir, colou uma página do site “Filme B”, onde “Lula…” aparece como o 4º mais visto no país entre os dias 8, 9 e 10/01, atrás de “Alvin e os Esquilos”, “Avatar” e “Sherlock Holmes”. C.Q.D., só um cara muito sacana para dizer que o 4º filme mais visto no país seria um “fracasso” ou “decepção”.

Aí vou eu, o enxerido, comentar no blog:

Eduardo, não me parece adequada a comparação “quanto mais caro o filme, maior a bilheteria prevista/alcançada”. Houve filmes caríssimos com bilheterias pífias, bem como filmes rodados com pouca grana e que viraram sucessos estrondosos. O que conta, para se aferir sucesso ou fracasso, é a oferta de exibição x lotação das salas. A estratégia de lançamento de “Lula, o Filho do Brasil” foi, sim, bastante ambiciosa – muitas salas de exibição, muita publicidade -. E a procura foi menor do que a oferta até o momento. Apontar isso não quer dizer que se esteja “malhando” o filme, apenas que foi superdimensionado o lançamento em função da expectativa de público.

Do Eduardo, a resposta:

É uma afirmação distorcida (qual?). Os lançamentos mundiais dos únicos três filmes que superam “O filho do Brasil” são de um potencial enorme. São filmes feitos para arrastar legiões por todo mundo. E é claro que há fiascos, mas todo filme muito caro acaba arrastando muita gente até por lógica comercial. Se não fosse assim, não haveria uma indústria como a hollywoodiana (ahn?). Sua tese não pára em pé (tudo bem, mas não foi você quem a derrubou, tá?). O filme de Lula é mais assistido que a maioria de filmes muito mais cotados pela crítica. Está sendo um sucesso. E só não é maior porque a mídia começou a fazer campanha contra (sempre ela, a malvadona – o filme é da GLOBO) muitos meses antes de estrear. Pelo visto, ela fracassou de novo. Mais um plano midiático “infalível” (cebolinhaFeelings) que foi pelo ralo.

Malgrado a costumeira rispidez do blogueiro com vozes dissonantes – atitude que interdita o debate e não esclarece nada -, é isso: eu falei alface, ele respondeu cenoura. Mas vamos lá: se eu planejo o lançamento de um filme com 500 salas, com cada sala tendo 100 lugares, estou estimando que devem ficar “na vibe” de assistir o filme, no mínimo, umas 50.000 pessoas por sessão mais concorrida. Se nessas sessões acorrem ao cinema apenas 10.000 pessoas, furou a previsão, mas isso não quer, necessariamente, dizer “fracasso do filme”. Foi erro no lançamento, megalomania. Acontece nas melhores famílias, e não é a primeira vez.

O texto da “Folha” faz aquelas ilações bestas de sempre (enfiar a Dilma na parada), mas, no que diz respeito ao lançamento, não é nenhum absurdo. Os produtores acharam que ia ter público para essa montueira de salas (400), e não teve. Veja só: se “Avatar” (usarei como paradigma de sucesso) passa em 600 salas e arrecadou R$ 5.500.000,00 no último fim de semana,  a indústria esperaria, lançando um filme em 400 salas (e esperando sucesso), que arrecadasse 67% disso, ou R$ 3.600.000,00. “Lula,…” arrecadou, segundo o mesmo site, R$ 1.100.000,00. Ou seja, alcançou 30,5% do valor esperado, considerando-se a estratégia de lançamento.

Não há, aqui e no comentário, juízo de valor sobre o filme, mesmo porque não o assisti. Há apenas a constatação de que o lançamento foi superestimado. Erro comercial, coisa besta, não diminui a obra. Ou nem isso se pode apontar mais? Haja paranóia, pô!

Ah, e sobre a “pesquisa gúgol” para corroborar a perseguição, fiz uma assim: “Vinicius burro” deu 849.000 resultados! “Vinicius GÊNIO” deu só 485.000. E eu não sou burro, nem gênio. Tô na média. Ou seria mais pra burro, segundo aponta o oráculo?

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14 Responses to De cinema eu não entendo, mas de aritmética…

  1. É tão independente que também independe da lógica, da razão, da coerência, do Planeta Terra…

    Não é legal defender tese na base da marretada. Pense nisso você também, Gravata, quando for defender as suas lá no IM, caindo na tentação fácil de usar “coturnos sem sol” e “narizes refrigerados” como fontes de informação e pesquisa. 😀

  2. Thiago disse:

    Todo mundo sabe que o Eduardo só gosta de comentarista que concorde com ele e o aplauda. Se você discorda dele é porque é direitista, tucano, cafajeste, bla bla bla.

    O pior é que dessa vez o cara escreveu um texto sem pé nem cabeça, e ainda usou uma informação equivocada. Disse que foram 2 milhões de ingressos vendidos, quando na verdade foram 2 milhões de reais arrecadados. Quando chamaram a atenção dele nos comentários, disse que dá na mesma.

    Uma coisa é querer discordar quando a questão é política, ideológica, etc. Mas ele não dá o braço a torcer nem num caso ridículo desses.

    Por essas parei de comentar lá há muito tempo.

    Eu também tinha parado de comentar (de ler, também), Thiago, mas eu não resisti, tamanho o samba do crioulo doido do post. E olha que foi super recomendado no twitter!

    • Vinicius Duarte disse:

      Esqueci de uma coisa: o Eduardo e vários outros “independentes pluralistas” têm uma tese interessante sobre só publicarem comentários e posts que eles gostam de ler: para falar diferente, já existe o tal de PIG. Eles são “peça de resistência”. O que, fazendo comparação, é a mesma coisa que o RA diz para justificar a “caça aos petralhas” na sua caixa de comentários.

  3. Que nada, cara! Na verdade tu és um alien:

    http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&source=hp&q=vin%C3%ADcius+alien%C3%ADgena&btnG=Pesquisa+Google&meta=&aq=f&oq=

    Hehehehehe… 🙂

    Na régua do Eduardo Guimarães, sou mesmo! 7.100.000 resultados!

  4. Pois é, a gente tem que tomar muito cuidado na interpretação de certos resultados de busca. Por exemplo, eu estava preparando um artigo sobre drogas e fui pesquisar no Google Trends qual era o interesse relativo de pesquisa entre maconha e crack na internet.

    Eu imaginava que o termo “maconha” seria bem mais procurado que “crack”, mas o resultado foi que “crack” era um termo 176 vezes mais procurado que “maconha”. Logo percebi que qualquer análise deste tipo produziria uma distorção imensa, porque o termo “crack” tem diversos significados (“crackear” um software, por exemplo) e é usado sem tradução em diversas línguas, enquanto “maconha” só tem um significado e só é usado em língua portuguesa.

    Se a simples ocorrência de duas pelavras em um mesmo site fosse indicativo de alguma coisa, o Google ganharia um Prêmio Nobel em estatística.

    Um outro questionamento: se o sujeito entrou com os termos de busca “Lula” e “decepciona”, como ele de fato fez, como ele diferenciou os textos que diziam “Lula decepciona” e “Lula não decepciona”?

    Não estou nem aí para o Lula e quero mais é que o governo dele se exploda, mas é inegável o interesse histórico na figura de um governante com a trajetória dele e com os índices de popularidade dele. Pode até ser que eu vá assistir o filme e goste, por que não?

    O que eu jamais faria seria uma análise distorcida e tendenciosa, com evidentes falhas metodológicas, só para tentar corroborar a minha opinião sobre alguém. Muito mais que impor uma opinião eu tenho interesse que as pessoas que me ouvirem ou lerem saibam que eu não cometo malabarismos conceituais e metodológicos para justificar minhas posições.

    O governo Lula tem um apoio popular imenso. Fato. Eu não gosto. Minha opinião. Qual a dificuldade de reconhecer a validade das duas afirmações? Pra mim, nenhuma.

    Abração!

    Veja o post dele (está linkado o blog, não tem link p/o post). Não foi tão tosco assim, Arthur. Mas como é o termo técnico usado quando o pesquisador faz de tudo para que a pesquisa dê o resultado esperado por ele, biólogo?

  5. Ah, mais uma possibilidade interessante: como ele diferenciou “Lula decepciona” de “oposição a Lula decepciona”? 🙂

  6. Tô criativo hoje…

    Como o cara diferenciou “governo Lula decepciona” de “o camarão está ótimo, mas a lula decepciona”? 🙂

  7. Se a cobertura da blogosfera sobre Lula decepciona, por outro lado o bater muito na tecla sobre as possibilidades de ocorrência do termo “Lula decepciona” também não leva a nada…

    (Auto-referência também é divertido.)

    HUAHUAHUAHUAHUA!!!

    Vou parar por aqui para não ser crucificado!

    Fui!

    Já respondi. Veja o post dele antes de zoar tanto. 😀

  8. “Mas como é o termo técnico usado quando o pesquisador faz de tudo para que a pesquisa dê o resultado esperado por ele, biólogo?” (Vinícius)

    Quando o autor da pesquisa age de boa fé, chama-se “viés de expectativa”.

    Quando o autor da pesquisa age de má fé, chama-se “picaretagem”, mesmo. 🙂

    Isso mesmo. Grato, Arthur.

  9. Vinícius, agora eu li o artigo do Eduardo Guimarães.

    Ainda bem que eu aproveitei o meu “momento hiperativo” pra zoar e me esborrachar de tanto rir viajando na maionese com as possibilidades esdrúxulas que eu ia inventando, porque o artigo do sujeito é sóbrio e não parte de premissas absurdas.

    “Se você puder optar entre ser arrogante e ser humilde, seja arrogante! Se você estiver errado, haverá muitas oportunidades para ser humilde depois…” 🙂

    Ele escreve bem, é sóbrio, bem informado, coisa e tal. Justamente por isso eu não esperava um delírio conspiratório daquele. Mas o povo que é fã dele gosta mesmo é disso.

  10. Lucius disse:

    Engraçado é que quando se afirma que o filme tem cunho eleitoreiro muitos saem gritando que não, é apenas o retrato da trajetória do Presidente. Mas quando se faz uma crítica, como a sua, de erro de estratégia de lançamento, ou que o filme não é bom por questões puramente artísticas, os defensores do filme afirmam que é crítica eleitoreira, que é coisa da oposição.
    Vai entender.
    Além disso, o Jornal O Globo já publicou notícias sobre a bilheteria do filme, mesmo fazendo parte do grupo que o produziu.
    Outra coisa é que o sucesso de um filme está também relacionado à propaganda de quem vai ao cinema e fala aos amigos se o filme é bom ou não.
    Segundo a reportagem da Folha, houve forte queda da bilheteria na segunda semana de exibição.
    Suspeito que o filme irá passar rapidinho na Tela Quente.

    Na tela quente, rapidinho, eu não sei. Mas no Telecine Premium, este ano ainda. E parece que vai virar minissérie da Globo.

  11. Júlio Bressane, na Época, em Junho de 2009:

    ÉPOCA – É algo que independe do público que vai assistir ao filme?
    Bressane – Não depende do público porque eu sou o público. Não existe o público. É outra coisa que foi uma das vitórias da tirania, foi se criar essa ideia de público, como se houvesse um público, ou como se houvesse um filme de público. O filme de público foi o que destruiu o cinema brasileiro. Filmes caros, que não pagam nem as cópias e são feitos para o público. Isso sem exceção. Às vezes tem uma exceção em muitos: uma em 100, 150. O cinema é mantido no Brasil e no mundo inteiro com dinheiro do Estado. Sem Estado não tem cinema. Não tem mais público para isso. Ainda mais aqui, com os contrastes de economia que nós temos.

    Então o post do EG perde totalmente a razão de ser, pois não fala nada sobre o valor artístico da obra e fica fazendo ilações sobre número de espectadores. Ah, o Bressane é cineasta, né?

  12. André disse:

    O cara é vendedor de autopeças, até onde eu sei não fez metodologia científica, vamos dar um desconto para ele. Pelo menos ele é bem intencionado e transparente, certo ou errado não existem jogadas ocultas em suas postagens. Esse negócio de PIG pegou porque é uma bela sacada, pode ter algum exagero mas mentira não é, pelo menos segundo o Azenha e o Marco Aurélio Melo (?).

    Eu daria o desconto que você pede se ele não respondesse aos comentaristas do jeito que ele responde. Já discutimos isso por aqui, André: toda a imprensa tem lado, inclusive o Azenha e o Marco Aurélio Melo. Só é chato quando esconde de que lado está.

  13. Thiago Ferreira disse:

    Vinicius. No tempo dos “caras pintadas”, pode crer que os numeros seriam outros. Aliás, concordo com a tese de que a juventude (que seria o publico alvo desse filme) estudantil, esta completamente alheia a tudo isso, e ao que vem ocorrendo na politica, porque se flagrou assistindo uma eterna tirinha de SPY vs SPY, (preto e branco, ou branco e preto). Nao sabem nem em qual cavalo montar. Preferem um zgraça no youtube.
    Abraços.

    No tempo dos caras pintadas, ou se Lula não tivesse sido eleito. Vai saber. Abraço.

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