Dioclécio, o Joselito da Rua do Limoeiro

O Sr. Dioclécio Luz fez um texto com o título “HQ e Ideologia – Violência na Turma da Mônica” no Observatório da Imprensa. À tarde, antes de sair, dei uma lida “na diagonal” e achei absurdo. Ao voltar, fiquei cheio de vontade de escrever, mas deparei-me com o sempre impecável texto do Rob Gordon no Championship Vinyl e ia dando a situação por encerrada (com a tampa do caixão do colunista do OI definitivamente batida). Só que, a despeito do conhecimento e da paixão do Rob por quadrinhos (milhões de vezes superior à minha), ainda cabem mais umas porradas no cidadão.

Tão despropositada quanto a analogia entre bullying (aliás, é assim que se escreve – com “y” – e não “bulling” como está no texto) e as atitudes da Mônica é aquela que afirma que videogame com cenas de violência estimula comportamento violento no jogador. É muito engraçado como a nossa sociedade atual tem a mania de atribuir a terceiros a responsabilidade por atos exclusivos nossos. Educação dos filhos é atribuição dos pais, não do videogame, da TV ou do gibi. Se seu filho toca fogo em gente na rua, a culpa é sua, papai/mamãe. Não adianta fugir.

Meus filhos cresceram DENTRO de uma banca de revistas, e não há nenhum exagero nessa afirmação. Os dois lêem a “Turma da Mônica” desde que foram alfabetizados. Meu filho, hoje com 19 anos, NUNCA se envolveu em episódio de violência. Mas o mais espantoso vem a seguir: minha filha (igualmente leitora do Maurício) foi praticamente obrigada a se retirar de uma escola por estar sendo assediada moral e fisicamente (o tal do bullying) por jovens que, certamente, NUNCA tiveram contato com a publicação (ou qualquer outro gibi, violento ou não). Pela lógica do sr. Dioclécio, minha filha deveria ter sido a chefe da gangue, nunca a vítima.

Os personagens da Turma da Mônica encarnam uma vida quase impossível nas grandes cidades hoje, o sonho de toda criança, que eu e meus contemporâneos vivemos: brincam na rua, visitam a casa um do outro, vão à escola sozinhos e a pé. Não têm “medo de sequestro”, são crianças livres. Criança livre e educada pelos pais tem alma de criança, criança engaiolada tem alma de fera assustada.

Criança livre (e educada pelos pais) não maltrata animal; criança engaiolada e criada pelo videogame mata gente na escola (com a arma do pai); criança livre (e educada pelos pais) se defende – como a Mônica – e sabe da consequência dos seus atos – como o Cascão, quando tenta fugir da co-autoria em mais um “plano infalível” do Cebolinha. Qual menina não gostaria de ser a Rosinha e ter um namorado romântico e apaixonado como o Chico Bento? Talvez aquela menina “criada” por pais que deixam a educação a cargo do “Pânico”: se esborrachando de rir, bêbados no sofá, enquanto os idiotas colam adesivos “vô/num vô” na bunda das transeuntes.

O mundo era muito mais humano quando as crianças se pareciam com os personagens da Turma da Mônica. Eu fui criado com ela e nunca machuquei ninguém. No meu tempo, o tal do bullying não tinha esse nome, muito menos essa perversidade de hoje (nem as vítimas se importavam tanto). Nós líamos o Cebolinha; hoje a molecada vê JackAss, pegadinhas humilhantes, desenhos idiotas. Nosso “professor de sacanagem” seria um trouxa, hoje. Nós rimos do Joselito (H&R), mas eles o levam a sério. Fazem campeonato de “Joselitagem”, quando, no tempo da Mônica, um sem-noção era apenas digno de escárnio da turma.

Esse Dioclécio merecia, mesmo, era uma bela duma coelhada na testa. E mudar o nome para sr. Joselito, o sem-noção.

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14 Responses to Dioclécio, o Joselito da Rua do Limoeiro

  1. Tem certeza que o, agora chamado “bullying”, era inofensivo? “Bullying” não é só bater. É botar apelido, fazer chacota, perseguir, isolar, humilhar, constranger ( às vezes publicamente ). Mais ou menos o que acontece no mundo adulto, só que criança, geralmente, consegue relevar e enxergar um dia seguinte. Que não vem, claro. Que o cara cagou no texto, tudo bem, mas que o bullying da época não tinha – e continua não tendo – essa conotação lúdica, posso te garantir que não tinha.

    Antes, numa escola de 100 pessoas, tinha uns 10 Joselitos. Hoje, são 50, o que potencializa a joselitagem a níveis alarmantes, pelos motivos expostos. O bullying das antigas não era tão aprovado, grosseiro e disseminado como é hoje. Fazia vítimas (algumas graves), mas não em número tão grande. Dependendo do assédio praticado, até se pedia pro joselito parar. O ponto central do texto do cara é querer insinuar que a Mônica é uma criadora de joselitos, quando a origem deles é bem outra.

  2. Lucius disse:

    Parece até piada. Fico imaginando uma pessoa presa, dando entrevista pra uma emissora de tv e dizendo que começou no mundo do crime lendo a turma da mônica.
    O cara não deve saber o que a professora do Calvin costuma pensar sobre o garoto (o que rendeu muitos protestos nos EUA).
    Pela lógica dele, Malhação deve formar terroristas.

    O Rob deu grandes lições a ele sobre quadrinhos e personagens. Imagino o que ele deve pensar sobre o Asterix.

  3. Claudio disse:

    Acho que esse imbecil prefere os filhos assistindo a um dinossauro roxo e boca-aberta durante a infância. Vai saber…

    Foda, né?

  4. Vinicius, o pivete aqui de casa tem 8 anos e contabiliza no momento 52 exemplares da turma entre Chico Bento e Almanaques da Turma. Tem horas que a gente entervem e diz : não cara isso aí é só no gibi (goiabeiras frutificando o ano inteiro); Anjo da guarda que proteje do cachorro etc.
    O resto é babaquice dessa tchurma politicamente correta. Aliás há muito existe uma campanha para queimar “personagens nacionais”, desde os tempos do Juvêncio, justiceiro do sertão que no rádio era sucesso, nas bancas onde competia com Zorro & Tonto, Flexa Ligeira(com x mesmo) etc e o analfabetismo, dançou feio. Putz vou a um sebo vê se acho o Flexa.

    O Dioclécio teve a manha de escrever para esculhambar a Turma da Mônica e conseguiu exatamente o contrário. É um texto muito do vagabundo.

  5. qualquergordotemblog disse:

    Confesso que quando li o título do post no meu e-mail (“dio”)pensei que fosses escrever sobre aquele baixim que foi vocalista do Rainbow e do Black Sabbath.

    Gostei da sua opinião. O pai não educa e quer depois botar a culpa no videogame, na TV, na propaganda…

    Só tome cuidado. Logo logo vai aparecer aquela turma que vai dizer: “Mas o pai de hoje tem que trabalhar, a mãe também, não ppode ficar 24 horas cuidando do filho etc.”

    É, parece que a humanidade resolveu trabalhar de uns 20 anos pra cá. Antes, ficava todo mundo em casa e as coisas caíam do céu. Filho não precisa de dedicação 24 horas, nunca precisou.

  6. Carlos Rosas disse:

    Acho que existem revistas mais violentas do que a Turma da Mônica… Homem-Aranha, Batman, Superhomem, mangás japoneses… tá certo que o público alvo é um pouco mais velho, mas não duvido muito que tenham crianças menores que leiam, mas nem por isso deve-se afirmar que isso faz a criança ficar violenta… se fosse assim o que teria de criança morrendo fazendo as idiotices que o coyoto do papa-léguas faz ia ser um absurdo… mas deixa esses idiotas falarem o que quiser, afinal se no mundo virtual gente como o 1nho pode falar o que quiser mais um menos um não vai fazer diferença… pensando bem, só vai aumentar a quantidade de fertilizantes que tem por ai, pois é falando (e lendo) muita merda que se aduba a vida rsrs

    Esse Dioclécio escreve no Observatório da Imprensa, não é num portal-fantasma qualquer. Se bem que o OI foi despejado pelo IG.

    • Carlos Rosas disse:

      Não disse que o OI é um portal qualquer, muito pelo contrário, eu até respeito, acontece que esse palhaço deve ter pensado, se o 1nho pode ele também podia rsrs o perigoso mesmo é um site como o OI dar trela para gente assim, daqui a pouco até o motoblogueiro vai se achar no direito de fazer suas ilações lá…

      Claro! Se ele já recusou propostas que ninguém imagina, OI é fichinha. Não teria grana para bancar sua estrutura midiático-credibilizatória (vixi).

  7. André Nogueira disse:

    Tenho ótimas lembranças dos gibis.Nos 80’s tive uma coleção de aproximadamente 2000 gibis. Turma da Mônica, Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey (desse eu não gostava muito), todos da Marvel, DC Comics, Tex (acho que era isso). Chamávamos os gibis de “revistinha”. A TV Cultura tinha um programa com esse nome. Era ótimo. Vc citou um ponto importante. A ambientação das histórias era em casas espaçadas e sem muros. O amigo chegava e colocava a cara na janela pra chamar o outro.

    Por meio dos gibis descobri o Kiwi uns 10 anos antes de importarem a primeira fruta para o País. Foi numa das aventuras do Tio Patinhas. Assim como conheci Macchu Picchu pelo mesmo Tio Patinhas muito tempo antes de ter a 1ª aula de geografia. Nessa aventura havia uma hárpia.

    Essa relação entre Mõnica e Bullying é despropositada. O bullying era feito em meu tempo pela molecada que não lia nada além do que estava na lousa (quadro negro/verde) ou no caderno, pois não tinham grana pra isso. Além de nenhum deles ser baixinho, dentuço e gordinho ao mesmo tempo. Era um assalto na verdade. Juntavam 3 ou 4 e pegavam a grana ou o lanche dos que eram considerados playboyzinhos. Tentaram isso 2 ou 3 vezes comigo qdo no Godô, mas viram que perdiam seu tempo, pois (eu era muito forte e valente) eu era tão durango qto eles, porém honesto.

    Nos últimos 3 anos de escola notei uma mudança no perfil do praticantes de bullying e dei muito tapa na cabeça de vagabundinho que abusava da molecada mais nova ou fraca.

    Não sei como estão os gibis hj, Nunca mais os li.
    Os meus foram doados para a Biblioteca Municipal de O. Noronha em 1991. Pelo que sei, não surgiu nenhum serial killer por lá depois disso.

    Fato é que as pessoas escondendo menos a crueldade por falta de discernimento entre o que é correto ou não. O modelo de comportamento de quem pratica o Bullying é realmente parecido com o do Pânico. É um assédio moral e violento disfarçado de humor. Esse é exatamente o passo da humanidade. Como dizia Ed Motta: O mundo é fabuloso, o ser humano é que não é legal.

    O mal do milênio é tentar encontrar justificativas para todo o mal que existe. Normalmente ele apenas existe e a “moral” quer dar origem a ele. Surge então a caças as bruxas nas página dos gibis, como fez o Joselito.

    Mundo lôco, né?

  8. Ricardo disse:

    Vincius, pior é saber que nem a inocência da turma da Monica foi preservada. O Mauricio, para se adequar aos tempos modernos ($$), lançou aquela aberração que é a “Turma da Monica adolescente versão mangá”. Confesso não ter lido, mas imagino o conteúdo quando se fala em “adequar a nova realidade”. E, sinceramente, preferia a “inocencia” do Rolo, da Tina, etc.

    Ademais concordo com seu texto. Como dizia aquela frase (nem me pergunte o autor, recebi por email): se as pessoas fossem influenciadas pelos video-games, haveria uma geração de pessoas imitando pac-mans, fechadas em salas escuras, comendo pastilhas e ouvindo musica eletrônica. Será?

    Abs

    Boa frase, esta. E TMJ é uma bela merda. Se não estou enganado, a idéia é da filha do Mauricio (Mônica).

  9. André Nogueira disse:

    Louco e com poder de síntese. rsrs

    O sr. esgotou o assunto, como sói.

  10. Só pensando, quem mais influência esse tal de Bullying hoje são os autores/atores do pânico, cqc, casseta etc.

    Total!

  11. […] estender sobre o texto desse cara porque já escreveram três ótimos textos sobre o assunto aqui, aqui e aqui, além de um ótimo tumblr, só queria demonstrar que outra maravilha da nossa tão querida […]

  12. aldoluiz disse:

    Excelente avaliação. Concordo que a régua e o compasso, dão-nos nossos pais; principalmente nossas mães. O fato é que a milenar gestão do sistema pela (agora eufemística velha) nova ordem mundial escravagista tem como alvo principal a opressão à mulher. Abatida a mulher, abatida a mãe, abatida a prole… Está garantido o meio de cultura da exploração e opressão do homem pelo homem e todo o processo milenar escravagista que lhes rende, à classe dominaste que os serve, fortunas obscenas enquanto a massa se destrói dividida. Os meios “midiotizadores” de sua própriedade se incumbem de “bater bater o prego na tampa”, como já foi dito por aí… A grande mudança de resgate de nossa humanidade começa mesmo dentro de cada um de nós, não aceitando como verdades absolutas o que a midiocracia vigente nos empurra alma adentro. Sinto muito, sou grato.
    P.s.: Seu blogue é muito bom, parabéns pela firmeza.

    Obrigado.

  13. […] onde zoaram o Kassab na época das enchentes e a turma da Mônica (quando o Dioclécio lançou aquela pérola). Enfim, tudo que gera grande discussão nas redes sociais da internet acaba virando tema de […]

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