“Quanto tá, mesmo?”

Molecagem-arte (Foto: Guilherme Dionísio/Futura Press)

Já tem um baita tempo que eu não sinto lá muito prazer assistindo futebol. Ainda falo a respeito e vejo algumas coisas por hábito ou vício, sei lá. A bola que se joga hoje é feia e sem graça. Mesmo os jogos dos campeonatos europeus são muito chatos. Talvez por isso tenha se instalado a chamada “cultura dos highlights“: se ninguém suporta ficar noventa minutos na frente da TV assistindo futebol, então vejamos os “melhores momentos”.

Anteontem a ESPN passou Brasil 2 x 3 Itália, na copa de 1982, que marcou o início da minha desilusão com o esporte. Um jogo épico, 22 caras que trataram a bola com uma suavidade incrível e uma inteligência superior. Movimentos combinados e belos como a visão de um caleidoscópio, onde as contas de vidro, isoladamente, não representam nada, mas, quando reunidas e com a ajuda de espelhos, fascinam os olhos com novas formas e cores [vixi, isso ficou meio “Armando Nogueira Rosing Bial”, mas deixa].

E ontem eu senti uma nostalgia vendo o Santos jogar contra o Guarani. Voltei uns 30 anos no tempo, me senti o moleque que almoçava e jantava futebol. Liguei a TV pra acompanhar o jogo de soslaio, como de costume, zapeando entre outras coisas e vendo a internet. Com 2 minutos de jogo, fui abduzido pra Vila Belmiro, e por lá permaneci até depois do fim da partida.

Esse Santos de Neymar, Ganso, Robinho, Wesley, Marquinhos (!) e Arouca (!!) não joga melhor ou pior que os outros times, ele simplesmente pratica outro esporte sujeito às mesmas regras do futebol. Os caras vão se espalhando pelo campo adversário, trocando passes e driblando com uma ousadia absurda, sufocando o oponente como uma sucuri enrolada na presa. Não é normal a atitude dos times que jogam contra eles: ficam parados, perdem bolas bobas, não tentam nem pará-los na porrada (na verdade, nem “acham” os caras pra bater). E isso é um bom sinal: sinal de que todos gostam do velho futebol e gostariam de vê-lo novamente. Nem que isso custe levar de oito no lombo, como o Guarani levou ontem.

O Santos impõe sua superioridade sobre os demais por fazer aquilo que ninguém mais está acostumado a ver no futebol: enquanto os outros pensam em vencer de qualquer jeito, o Santos só pensa em fazer gols. De preferência, golaços. Exatamente como quando éramos crianças e jogávamos bola na rua e, de tão concentrados nas jogadas, esquecíamos o placar da partida. “Quanto tá, mesmo?”, dizíamos. Lembra disso?

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30 Responses to “Quanto tá, mesmo?”

  1. barreto disse:

    ô se lembro! rss

    Descalços geralmente, com as pernas sujas até os joelhos, pedindo para alguns dos vizinhos idosos para tomar água ( seja na torneira disponível no quintal ou quando uma das senhorinhas emprestava a mangueira com paciência enquanto lavava seu quintal )

    Essa coisa dos moleques “se espalharem” no campo é realmente impressionante…e a calma do sábio, do tal PH Ganso distribuindo o jogo é de encher os olhos.

    Venho com constância aqui, muito bom o blog.

    Abraços!

    Essa de pedir água pros vizinhos foi muito boa, Barreto. O espírito é esse mesmo: jogar bola, não praticar futebol profissional. Valeu.

  2. ricardobt disse:

    Fala Vinicius!

    É o que eu falo: a necessidade de se ter resultado para poder ganhar $$ fez com que times ao redor do mundo e não só aqui no Brasil, abrissem mão de jogar futebol para jogar um esporte meramente parecido. Esse Santos e esse Barça são uma luz no meio de uma escuridãode talento.

    Vamos a alguns exemplos dos absurdos cometidos com o futebol bem jogado: me explica como chegamos ao ponto de ter Maicon como lateral da seleção? O cara só é forte, está mais para zagueiro do que qualquer coisa. Sou da época em que lateral era um cara franzino,driblador e ousado. O Maicon, é forte, marca bem e é forte novamente. Para por aqui, mas poderia continuar citando nego grosso que faz “sucesso na telinha da Sportv”.

    Outra coisa que mostra como há falta de talento nos gramados: repare a quantidade de improvisos temos no futebol (principalmente o brasileiro) hoje em dia. Qualquer volante que sabe matar uma bola vira “meia de criação”; temos centroavantes que jogam menos que o Ronaldão, não conseguem parar a bola no gramado e são disputados a tapas pelos clubes (i.e. Fernandão).

    Infelizmente o futebol é um esporte que caminha para seu fim, cada vez mais chato, nada perto do que um dia conhecemos. Primeiro mataram o jogo. Aos poucos matam os torcedores. A almas do futebol convalece.Ficaremos apenas com um “ótimo produto para TV”, uma mistura de “Domingão do Faustão” com “Holliday on Ice”.

    Abs

    P.S. – assiti o jogo novamente. Infelizmente Careca não pode jogar naquela Copa. Serginho destoava demais dos seus companheiros. Acredito que a história seria outra, se o Careca houvesse jogado.

    E ainda me vem gente dizendo que o tal Maicon fez gol igual do Maradona. O cara vai levando todo mundo no peito, sem cintura nenhuma… É o fim da picada.

  3. olheiro disse:

    Tenho que concordar com cada vírgula, é isso mesmo.

  4. André Nogueira disse:

    Além de não lembrar do placar, os dois times sempre tentavam chutar uma placar favorável e descrever todos os gols pra avivar a memória: O Bacuri fez aquele de letra, o Maionese fez um de barriga e o André fez aquele de bicicleta que bateu nas duas traves (qualquer semelhança com lances reais da época é mera coincidência). E na falta não valia “bicuda”.

    É, era assim mesmo! 😀

  5. Vira 6 acaba 12.
    – Você tá mancando?
    – Nada não mãe, é que “dei uma topada” quase arranca a unha.
    – Na Igreja não foi né?
    – Não, tô jogando bola no campinho
    – Jogar bola, só pensa nisso! Vai estudar moleque.
    – Depois, só vim pegar um conguinha e vou voltar pará terminar a partida. Saí de lá tava 5 a 3 mas acaba em 12.
    Pedaço de pão* numa mão, conguinha na outra e corre de volta ao campinho**

    * num tempo que pão vendia-se bengala ou filão.
    ** campinho, qqer terreno baldio, ponta de rua

  6. Carlos disse:

    O time do Santos parece aquela molecada que joga na rua, esfolando a sola do pé sem tirar o riso da boca.
    Ao contrario dos outros “profissas”, que só pensam em não dividir uma bola, com medo de arriscar a canela e não ser convocado pra seleção, ou se quebrar e não ser contratado por um time das estranja.
    Esses, só pensam na grana.
    A molecada do Santos joga bola, não estão, aparentemente, pensando na conta corrente.
    Esperemos que continuem assim, pelo bem do futebol brasileiro.
    Em tempo: Sou corinthiano, “de nascença”…

    Mas vai ser difícil, já tá pintando oferta de milhões pros caras jogarem naqueles campos cheios de frufru da zorópia…

  7. Eu tenho uma teoria para tornar os jogos de futebol em geral mais animados, como eram antigamente: AUMENTAR A PUNIÇÃO DA FALTA.

    Ficou tão grande a explicação que mais tarde vou postar o texto no Pensar Não Dói como artigo. 😛

    Teu blog não tá atualizando a home.

  8. Sabe o que não entendo? O torcedor gosta mais de bom futebol que de resultados. Prova disso é a seleção de 1982, que é lembrada com saudade. Ninguém cobra o título. Os torcedores do Barcelona não aceitam jogo feio. O resultado é consequência. Por isso, não entendo por que os técnicos não apostam no futebol bonito, agradável de ver, ofensivo. Juro que não entendo.

    Abraços,

    Marcelo Costa.

    Nem eu. Na verdade, eles só consultam o torcedor na hora de tirar dinheiro dele.

    • Carlos disse:

      O torcedor gosta de futebol bonito, mas os dirigentes gostam é de grana. E a grana só vem com vitória, nem que seja quebrando as canelas dos adversários, que nessa altura, já são tratados como inimigos…

      Grana, grana, grana…

    • Lucius disse:

      Pior que treinadores e muitos jornalistas falam que jogar bonito não ganha jogo, mas a maioria que perde joga feio e não ganha do mesmo jeito.

      É um paradoxo interessante, Lucius.

  9. Thiago Ferreira disse:

    Pode me chamar de invejoso, qualquer adjetivo, e eu também não sei porque, mas domingo vou torcer pro seu time dar uma sabugada nessa molecada.

    Talvez só pra depois falar: “Tá vendo? bem feito”
    ehehehe

    Eu também vou torcer, mas por outros (e óbvios) motivos. Eu acho até que dá pra ganhar. De dois, é mais difícil. Mas dá, sim.

  10. Falando em torcer, Santo André. Veio quietinho, quietinho e fará a final. Tem minha simpatia.
    Até parece que corithiano ia torcer diferente!!!

    Santo André tem um bom time e vai complicar.

  11. André disse:

    Uma vez, quando moleque participei de uma partida de “futebol” que durou umas 5 horas. Em campinho de terra batida, sete jogadores descalços para cada lado, vários intervalos, nosso time era muito ruim (pra ter uma idéia, eu era um dos craques do time). Perdemos de setenta e tantos a quase vinte. Futebol deveria ser diversão. Hoje até moleque de cinco anos quer chuteira dourada, camiseta do Real Madrid (que provavelmente nunca vai ver jogando ao vivo). No profissinal, parece que o medo de levar um drible, perder o jogo, não ir para a Europa, etc. trava todo mundo. Fica aquele jogo amarrado, feio, neguinho tentando enganar o juiz ao invés de jogar bola. Já vi comentarista chamando 3×0 de goleada. Longa vida ao Santos (e dêem um desconto para o saudosismo).

    O Santos joga bola, os outros praticam “futebol”. Essa é a diferença.

  12. Renato disse:

    Enquanto todos comentam o belo futebol apresentado pelo Santos; ontem, mais uma cena lamentável, foi protagonizada pelo Danilo do Palmeiras, com direito a cuspe na cara e ofensas racista. Desse jeito fica cada dia mais difícil assistir (acompanhar) o futebol brasileiro.

  13. qualquergordotemblog disse:

    Que bom que mesmo sendo são-paulino tu reconhece as virtudes do meu time. Fico feliz com isso.

    O que houve com as assinaturas do blog? Não recebei a atualização a tempo.

    Não sei, mas andaram sumindo uns assinantes da lista. Eu achei que era a falta de qualidade do blog. 😀

  14. rafael disse:

    E aí, Vinícius.
    E a cereja do bolo é a propaganda da cerveja que chama os jogadores de guerreiros. Incentivo ao anti-futebol: vale a briga, a luta, a disputa, a raça; a retranca que garante o resultado. Só não vale o nosso bom e velho (como se diz lá em Piracicaba) futebor, esse tar de jogo de bola, que é sensacional.

    Embaçado, né? Tá tudo virando de pernas pro ar.

  15. O Vinícius, daria pra fazer outro post ?
    Não aguento mais entrar aqui e olhar pra esses dois merdinhas do museu…
    Obrigado.

    ***(*) ******(*)

    😀 Pior que eu ia fazer um hoje, com a foto do Robinho sentado em cima do Alex Silva. Aí você ia me matar, eu desisti.

  16. Lynx disse:

    O time do Santos é bom e tudo mais, porém, se jogar contra um time argentino, com arbitragem sulamericana, Neymar não fica em pé até o fim. Talvez por isso esse garoto não se dê bem na Europa, assim como seu “padrinho” Robinho, pois, quando jogam contra uma marcação forte e arbitragens sem vícios, eles desaparecem em campo.

    Discordo, Lynx. O que faz jogador bom (e Robinho É MUITO bom jogador) ir mal na Europa é a CABECINHA DE MERDA: o idiota, cheio dos euros, começa com vagabundagem. Robinho tem bola, mas não tem juízo. Neymar? Não sei, mas me parece um rapaz com cabeça muito boa.

  17. Luiz Carlos disse:

    Meu time, caso passe pela próxima fase da Copa do BR, vai pegar Robinho, Neymar, Ganso e cia.
    Putz, Atleticano sofre!!!

    O pofexô Luxa vai quiá uma fisojofia di tabaio pa contê us minino da vila.

  18. Alê disse:


    Em 2005 trabalhei em uma convenção da AMBEV. Foram 05 dias de um evento odioso e desgastante, contando com performances ora dramáticas, ora aguerridas, ora belicosas da diretoria, distribuidores e “oficiais” das diversas marcas que compunham o universo da cervejaria.

    Recordo perfeitamente o mal estar que eu sentia qdo entrava no salão de convenções, rodeado por umas 2000 pessoas gritando palavras de ordem, gritos belicistas, patrulhamentos e convocações a todo momento. Similar a entrar em um ônibus/metrô repleto de torcedores uniformizados.

    Era mais um plenário de guerra que deliberava sobre as conveniências de execução de determinados planos mercadológicos. Recursos como chantagem e sabotagem eram discutidos séria e abertamente. A cultura corporativa que impregnava todo o corpo funcional da AMBEV exalava determinação massacrante e ódio aos rivais.

    Bom. E o cu com as calças?

    Acabo de ler esse post do Mauricio Stycer Jogo bonito” x “guerreiro”: existe um estilo brasileiro de jogar futebol? que considertei pertinente e reafirma minha (má) impressão a respeito desse assunto.

    -> http://mauriciostycer.blog.uol.com.br/arch2010-04-11_2010-04-17.html#2010_04-16_14_13_34-143380757-0

    Minha pergunta é: Até que ponto essas questões se inter-relacionam e produzem torcedores violentos?

    Alê

    Torcedor violento tem no mundo inteiro.

    • Alê disse:


      É. Mas pq só no futebol esses torcedores se destacam? Basquete, por ex, é um esporte muito mais tenso e nervoso e não se tem conhecimento de torcedores fanáticos/violentos.

      Outros esportes reconhecidamente violentos como Hóquei, Rúgbi, Futebol Americano tb não produzem torcedores violentos.

      Acho que essa analogia que apregoa o futebol como uma emulação guerreira acaba a, sei lá, nível subliminar impregnando e exaltando a belicosidade de muitos torcedores. Belicosidade real e virtual.

      Tb acho (e veja: são meros achismos) que o jogo bonito, como esse do Santos, promove a pacificação entre torcedores rivais. E o jogo “feio” deixa os torcedores com vontade de sair batendo em todo mundo.

      Alê

      Ora, Alê, não dá pra comparar a paixão que o futebol exerce no mundo com a do basquete, né? E, de mais a mais, nos países onde o basquete desperta essa paixão, o pau come solto também. Excluo os EUA disso, porque lá os clubes são geridos como franquias, e o torcedor não pega “amor”. Se bem que, em toda comemoração de título da NBA NHL (hóquei) e NFL (fut. americano) as cidades dos times vencedores viram um caos, com violência, saques e depredações. Em verdade, violência não tem nada a ver com esporte, os vândalos só o usam como desculpa.

  19. Três coisas:
    1) O Santos está jogando muito,
    2) Pau na bunda dele,
    3) Ganhou do Timão com dois a mais quase sofrendo o empate e com o soprador de latinha acabando co nóis.
    4) Sou corinthiano e não sei contar direito.
    5) É isso.

  20. carlos luchetta disse:

    Sobre dois comentários:
    1. Vinicius, tô com o Lina, não aguento mais entrar aqui e ver esses dois “merdinhas”. Tira pelo menos a foto deles. hehe.
    2.Comentário do Lynx: concordo com a análise do Vinicius sobre o Robinho, mas ele nunca foi cai-cai, como o Neymar é. No jogo de domingo, se fosse árbitro europeu, esse menino teria armado um monte de contra ataque. Teve lance que nem falta foi e o “árbitro” deu cartão amarelo. Ele consegue ser mais cai-cai que o Dagoberto e o Valdivia juntos.
    Pelo nível dos atores globais ele teria uma boquinha em alguma novela “teen” da emissora carioca.

    Ele cai porque sabe que vão marcar falta. Quando vir que não adianta cair, ele pára. É assim que funciona: você se adapta ao meio em que vive.

    • carlos luchetta disse:

      Huumm. Não sei se é bem assim que funciona.
      Nem todos conseguem se adaptar ao meio. Exemplo, temos muitos, o Viola que o diga.
      Mas no caso especifico, houve um exagero no domingo. Só árbitro do marco polo para ‘sobrar’ o apito daquela maneira.
      Se ele encenar daquela maneira na Europa, na 3º vez toma cartão é é vaiado pela própria torcida.
      Quero deixar claro que não é preconceito com relação a jogador de futebol. Eu mesmo não me adaptei a uma situação, quando tinha uns 19 anos, que até hoje tem consequencias.

      Sim, nem todos conseguem. Os que não conseguem terminam sua carreira no Duque de Caxias ou jogando showball, como o Viola.

    • Lynx disse:

      Foi por isso que disse que ele não termina em pé uma pertida contra time argentino e arbitragem sulamericana, que não fica marcando qualquer “faltinha”. O próprio Santos de Diego e Robinho foi vitima disso, era um futebol envolvente e foi “envolvido” pelo Boca naquela final. Portanto mantenho minha opnião de que quando a coisa aperta, esses garotos do Santos somem e só mudo caso esse time do Santos ganhe uma libertadores jogando como está no Paulista. Infelizmente, por conta dessas arbitragens “viciadas”, futebol brasileiro não é padrão para definirmos se um time realmente é antológico.

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