18 de maio, Azeitona e Cida Louca

Não me ligo em efemérides, quase sempre às vezes me esqueço até de aniversário de pessoas próximas. Mas a timeline do twitter avisou, logo cedo, que hoje era o Dia da Luta Antimanicomial, uma causa que eu apóio.

Estava voltando do almoço, e encontrei o Azeitona. A gente se conhece desde criança. Ele tem um distúrbio mental que eu não sei qual é, estudou um tempo na antiga “Classe Especial” – a escola segregava os deficientes -, acho que nem concluiu o fundamental.

Desde que me entendo por gente, Azeitona anda de lá pra cá vendendo sorvetes com uma caixa de isopor a tiracolo. O pessoal sempre zoou o cara aqui na Vila, tinha uma molecada que vivia dando chapéu nele no comércio de gelados: ou tomava e não pagava, ou tomava quatro e pagava um. Mas ele tá na área, firme e forte, com aquela mesma cara, só os cabelos ficaram grisalhos. Quarenta anos se passaram, e eu nunca soube de uma internação do Azeitona.

Por aqui tinha também a Cida Louca. Sobre ela pairavam diversas lendas. Ou verdades, não sei, era muito pequeno e, pra ser bem sincero, nunca dei muita bola pra isso. Diziam que ela ficou louca porque viu a mãe ser atropelada por um caminhão. Cida era brava com a molecada, dava uns berros e tal, mas, como o Azeitona, não oferecia perigo algum. A Cida vivia sendo internada, e não sei do paradeiro dela. Outra lenda (ou verdade) versava sobre ela ser a única herdeira da casa onde mora a família e uns terrenos anexos. Sei lá, não é da minha conta. Só sei que a Cida Louca sumiu e o Azeitona não. Enquanto a Cida passava de manicômio em manicômio, o Aze vendia seus sorvetes. A sociedade acolheu o Azeitona e escondeu a Cida Louca.

Não é fácil ter um louco na família, mas também não é nada desesperador. A gente tem uma tendência a eliminar os pontos fora da curva, mas a humanidade não tem nada de estatístico. E não é porque você ou eu temos CNH, declaramos IR e cometemos outros atos civis livremente que não sejamos loucos.

Aliás, é cool ser “louco”, né? Nego faz coisas como ficar dependurado pela própria pele num gancho pra demonstrar resistência à dor. São “radicais”, “viciados em adrenalina”. Outros se julgam mais importantes do que realmente são, e a sociedade os chama de “celebridades”, “polêmicos” ou “excêntricos”E quem vai pro hospício é a Cida Louca. Sorte do Azeitona.

Talvez um dia apareça alguém e me considere louco, querendo me internar num manicômio. Contando com essa possibilidade, quero o fim deles. Ser louco não é crime.

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14 Responses to 18 de maio, Azeitona e Cida Louca

  1. qualquergordotemblog disse:

    O engraçado é que toda cidade pequena ou bairro de periferia tem um doido. Perto de casa tem o Mimi, que eu conheço desde que me tenho por gente e anda pra cima e pra baixo com um monte de jornais debaixo do braço e a Cíntia (coincidência)Doida agressiva igual a sua. O foda é que tem gente que quer lidar com os loucos da sua família e não sabem como, aí mandam (indevidamente)para um manicômio.

    E aí só piora a coisa. Tem de integrar o cara no mundo “normal”, é assim que eu penso. Aqui fora cabe todo mundo.

  2. olheiro disse:

    quem já leu “canto dos malditos”, sabe bem que você tem toda a razão. Apertei errado aqui cara, foi faltando, não me internem por favor, já estou me ajustando…

    Não li. Li “O Alienista”, que talvez seja um dos livros mais cabulosos que eu já li.

    • olheiro disse:

      brother, leia o livro do Carrano, é curtinho, mas é no fígado, e se pá se informe sobre a batalha que esse livro enfrentou, um abraço.

      Lerei, valeu pela dica. Abraço.

    • Roberto disse:

      vou te indicar um livro: Rosinha, minha canoa, de José Mauro de Vasconcelos.
      Abraços…

      Do JMV, só li o “Meu Pé de Laranja Lima”. Valeu.

  3. Adorei, como sempre. Lembro de alguns textos de Foucault (acho que eram dele) que li na época da faculdade, apontando o manicômio e a psiquatria como formas do homem controlar o outro – ao dizer o que é razão e o que não é… O que é loucura afinal?

    Bem, dentro do que você colocou, todos temos nossos “loucos” de infância. Lembro de uma Senhora (nunca soubemos o nome) que vivia enrolada em sacos de lixo pelas ruas da Savassi, região nobre de BH. Além de recusar moedinhas (ela pedia dinheiro, se fosse pouco jogava na cara de quem dava) não gostava das roupas que recebia, preferia os sacos de lixo. Uma vez, meu avô, bem velhinho e enxergando mal, atendeu a campainha da porta da casa dele e era ela, pedindo esmola. Ele tinha o costume de atirar a chave do portãozinho de entrada para o visitante (tinha uma pequena passarela até a porta da entrada da casa) e, não vendo que era a doida, jogou a chave. Ela, achando que ele estava brincando, jogou de volta…O caso ficou famoso na família…rs

    Eu estou desde o nascimento tentando me integrar no “Mundo normal”. Você acha que um dia vou conseguir? 😉
    Bjs

    Aqui na VM e arredores tem várias figuras assim. Tem um cara que passa os dias escrevendo, já foi até tema de reportagem. Acho que você tá integrada DEMAIS ao “mundo normal”. Mas pode ser só impressão, né? bj

  4. Valmir disse:

    Chico Louco (o das motos), Ananias (de boa memória), Amaraúúúúú, Belão, Seu Toninho, Rodrigo (Brasílio, irmão da Rose), Caioba, Edão, Patão, Paulo Celso …só numa passada rapidinha pela memória … que seria de nossas vidas sem esses caras ???
    Certamente seríamos ainda piores.
    Muito louco o texto …

    Grandes lembranças, mano. Só louco de responsa na lista. E o Amaral foi o primeiro RAPPER da Vila: “Amaral, internacional, só toma sonrisal…”

  5. André Nogueira disse:

    Concordo, claro.

    Eu atraio loucos. Na rua, numa fila, num bar, comendo sanduba de pernil no Pacaembu, num evento gratuito qualquer como a Virada Cultural, sempre vem um louco conversar comigo como se fosse amigo de infância.

    Na virada cultural apareceu um camarada falando que adorava aquilo tudo, que já tinha andado por vários shows e que era pedreiro. Disse que era pedreiro, mas que pedreiro é artesão (repetiu 15 vezes). Concordei, de verdade. Pedreiro bom é artesão mesmo e pela firmeza o cara deve ser a reencarnação de Gaudí.

    Eu e “vaçalos” que me acompanhavam (4 da manhã) conversamos um bom tempo com ele. Não foi por caridade, o papo tava bão mesmo. Até falei que ele era gente boa pra caramba.

    No final ele solta a frase: _Só que agora vcs não vão mais gostar de mim…Sabe pq?.

    Pensei: Pô, ladrão ele não é. Qual será a pérola que soltará?

    Arrisquei, curioso: Pq, mano??

    Ele respondeu: Pq moro em Osasco, sou Corinthiano e Petista!

    Entoamos então eu, Ana, Juliana e Ricardo: _AQUI TEM UM BANDO DE LOUCOS! LOUCOS POR TI CORINTHIANS!

    Só espero que a Ana do teu relato não seja a tua irmã. 😀

  6. São tantos malucos; uns caretas, outros “agregavam valor à caretice”. Tinha um em Guarulhos, Toninho, um Uruguaio meio tupamaro que chamava a todos de japonês.
    Dizem, não sei, que se “casou” com uma artista plástica e vivem(viviam?) na Vila Madalena vendedo seus quadros antes de desabarem na cachaça/canabis.

    Tem louco oficial e louco disfarçado de normal. Mas só os primeiros vão presos. Sacanagem.

  7. carlos luchetta disse:

    Vinicius, mudando de pato para ganso: voce finalmente se convenceu que os caras estão apenas e tão somente defendendo seus clubes?
    Acabei de ver uma mensagem do “toco” que mostra isso claramente.
    Em tempo: concordo com tudo que se fala do querelado, mas a intenção deles não é denunciar o “jornalismo fake”.

    É, realmente, foi uma saraivada de golpes. Fiquei bem decepcionado com a reação de certos tipos lá. Mas é do jogo. Paciência.

  8. Pena que eu não vi tua postagem no dia certo, ou eu teria escrito algo a respeito lá no meu blog.

    Eu já trabalhei em um manicômio. E já prestei consultorias tempo o suficiente dentro de outro para dizer que já trabalhei em dois manicômios.

    Eu não acho adequado extingüir todos os manicômios. Tem gente lá dentro dos que eu conheci que não tem a menor possibilidade de sobreviver aqui fora. São completamente disfuncionais, não se adaptariam e deixariam qualquer famíila louca por inteiro. Para essas pessoas é melhor ter um ambiente projetado para atender necessidades especiais, gerenciado por profissionais habilitados que se revezam (e portanto descansam e recarregam suas energias para lidar com os malucos) e que são capazes de lidar com emergências que muitos familiares não seriam.

    O problema maior, a meu ver, não é a existência de manicômios, mas o modo como são gerenciados. Uma coisa é considerar o manicômio “um ambiente projetado para atender necessidades especiais”, outra coisa é considerar o manicômio um depósito de malucos que ninguém quer por perto e que melhor fariam se se matassem de uma vez, pra não encher mais o saco.

    Ou seja: no meu entender, o que tem que deixar de existir são as instituições destinadas apenas a livrar a sociedade dos indesejáveis, não os ambientes planejados para melhor atender as necessidades especiais dos doentes mentais, com dignidade e respeito.

    Este é o mote da luta antimanicomial: não se transformar em depósito de indesejáveis. Quanto aos casos mais críticos, acredito que a estrutura dos CAPS (combinando atendimento psicossocial, ambulatorial e, para os casos graves, internações de curto prazo) ajuda mais na ressocialização do paciente com distúrbio mental do que uma “cadeia disfarçada”.

  9. Wilson disse:

    Concordo com o Artur, não dá para se eliminar pura e simplesmente todos os manicômios.
    É preciso cuidado com este movimento antimanicômio, pois ele é parte de um movimento maior antipsiquiatria, que disseminou muita bobagem e preconceitos contra a psiquiatria.
    Sugiro que vocês assistam a uma excelente entrevista do do presidente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Wagner Farid Gattaz no Canal Livre, na qual ele tratou deste tema e de vários outros.
    Desculpe-me, mas não achei o link da entrevista no site da Band. Se alguém conseguir por favor informe.

    Um abraço.

    A chamada Luta Antimanicomial não prega a extinção pura e simples dos manicômios, e sim dos “depósitos de loucos”, com a humanização dos tratamentos psiquiátricos e a extinção de tratamentos de choque e confinamento prolongado. Quem começou essa luta aqui foi uma médica psiquiatra, a Dra. Nise da Silveira.

  10. Agora sério. Tenho convivido com situações relatadas no texto de forma mais rotineira que gostaria. Penso que o que se prega hoje é o tal “hospital dia”, ou seja o indivíduo passa o dia em tratamento/terapia e retorna para o lar/abrigo para pernoite. Humanização do tratamento para que não aconteça hoje o que acontecia no tempo do Juqueri, Pinel e tantos outros depósitos de “loucos”.

    Alguns CAPS têm atuado assim. E, pelo que sei e vejo, com bons resultados.

  11. Wilson disse:

    Talvez está seja a intenção da campanha, mas na Europa, segundo o prof. Gattaz, a campanha foi além da conta e simlesmente deixou os doentes na rua, já que as famílias não queriam ou não podiam cuidar deles.
    A campanha antipsiquiatria tem uns 50 anos, começou na década de 60. Tanto que quase todos psicólogo fala mal e detona a psiquiatria e seu mediacamentos.
    Quem tem um amigo ou um parente com poblemas psiquiátricos e já presenciou os milagres dos medimentos modernos sabe o mal que esta campanha faz.

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