E se fosse o SEU filho?

Confesso que me faltou vontade pra comentar os casos policiais do momento, o tal “Caso Bruno” e o atropelamento do filho da Cissa Guimarães. Aí alguém me mandou um link pra este artigo aqui da Cristina Grillo para a Folha (cabe confirmar se ela realmente escreveu lá e se é a autora deste artigo – não encontrei na versão do jornal).

Usando o argumento do “e se fosse o teu filho?”, ela tenta colocar  a forte emoção e instinto de proteção paterna como atenuantes no caso de corrupção ativa do pai do atropelador, que teria pago propina aos PMs que atenderam a ocorrência para que eles desmanchassem a cena do crime e “quebrassem o flagrante” contra o pimpolho asno volante sub-20.

E se fosse o meu filho?  Ó, Cristina, é difícil, sabe? Acho que eu pegaria o telefone e ligaria pro 190, que tal?

Mas, ora, veja só! Retidão de caráter, por aqui, só vale para os outros. Todos temos motivos bacanas e justos para que exerçamos o sacrossanto direito de sermos corruptos, burlarmos leis, passarmos a perna no semelhante. As multas de trânsito são injustas (contra nós), as leis são falhas (quando não nos beneficiam), e os puliça são gente boa quando “quebram a nossa”.

Vamos estender esse raciocínio para, por exemplo, um corrupto qualquer: aquele cara dos Correios (Maurício Correia, é isto?), pego num filme embolsando uma grana suja: e se ele chegasse depois dizendo no JN: “olha, o que eu fiz é muito feio, mas eu tenho um filho doente, e não tinha dinheiro pra pagar o tratamento”? Seria instalada a tal CPI dos Correios? Ou a Globo faria um “Maurício Esperança”?

Até quando teremos esse tipo de reação mesquinha contra males que causamos contra o próximo? Sim, porque independentemente do atropelamento, estimular e praticar corrupção atinge pessoas que nem estavam no túnel e estão por aí, vivinhas da silva: você, eu e mais uma penca de gente. Você livra a cara do filhão e, automaticamente, ensina ao PM “como agir em caso semelhante”.

Só se esquece que, um dia, o seu filho pode estar a bordo do skate, não do carro. E neste dia, papai zeloso, você vai convocar uma passeata pra protestar contra a corrupção policial e a ineficiência do judiciário?

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17 Responses to E se fosse o SEU filho?

  1. Sempre que vejo declarações assim lembro de minha mãe dizendo: “se vocês fizerem mal a alguém, eu mesma os denunciarei à polícia. Porque é o melhor que posso fazer pelo bem de vocês”.

    E não era da boca pra fora (exemplo fútil, mas dá por ele perceber a forma como ela pensava e agia). Quando tinha 15 anos, minha irmã fugiu de casa após uma briga feia com ela. Apareceu três dias depois, no Rio de Janeiro, assustada e sem um puto pra viver. Meu pai foi busca-la e, no mesmo dia, minha mãe a levou para ter uma “conversinha” com um Delegado amigo dela, famoso pela intransigência que tratava delitos, fossem pequenos ou grandes.

    Eu não sei o que ele falou com minha irmã, mas me disseram que ele pegou pesado…rs Só sei que ela nunca mais teve ações tresloucadas desse tipo!

    Passar a mão na cabeça do filho quando ele transgride as regras não é educar. É ser conivente com o erro. E perpetuá-lo…

    Ótimo post, Vinicius!

    Bjs

    Dri

  2. Vejamos o que diz o artigo da Cristina:

    Imagino a sensação de impotência ao ouvir dos policiais militares, sob ameaças nem tão veladas assim, quanto custaria o “serviço” feito: R$ 10 mil.
    Na “tabela” da corrupção dos policiais de plantão nos arredores do túnel interditado, esse é o preço para desmontar a cena do crime, não registrar a ocorrência e livrar seu filho de acusações que poderiam lhe render uma condenação e, horror dos horrores, quem sabe até mesmo uma temporada na cadeia.
    Roberto Bussamra concordou em pagar a conta. Na linguagem jurídica, foi o agente ativo de um crime de corrupção. A pena, diz o Código Penal, vai de dois a 12 anos de reclusão.”

    Se eu bem entendi, o pai do garoto não fez a proposta de pagar alguma coisa para que os policiais prevaricassem. Pelo contrário, o que o texto diz é que os policiais fizeram a proposta de prevaricar em troca de dinheiro.

    Isso não é caso de crime de corrupção, em que ambas as partes, corruptor e corrupto, são criminosos. Isso é caso de crime de extorsão, em que o agente público é criminoso e o cidadão extorquido é vítima.

    Do ponto de vista de um pai, de uma mãe, ou de um familiar próximo, sob ameaça – real ou infundada, pois sob forte emoção muitas vezes não há como discernir adequadamente – a primeira coisa que passa na mente é como livrar o ente querido de um mal. Faz-se o que for necessário. Não se pensa em conceitos como cidadania, moralidade ou justiça, tudo que se quer é que a pessoa que se ama não sofra.

    É por isso que existe todo um tratamento especial no Direito quando há parentesco, seja na esfera penal, cível ou tributária. por sorte estas leis foram feitas antes da praga politicamente correta nublar a visão de tanta gente e exigir gestos heróicos e sublimes de um pai ou de uma mãe em desespero, sofrendo pressão e ameaças.

    É certo pagar para livrar o filho da cadeia? Não, não é, pois “estimular e praticar corrupção atinge pessoas que nem estavam no túnel”. Mas também não é certo pagar resgate para o seqüestrador que ameaça enviar seu filho de volta pelo correio em suasves prestações semanais, pois isso “estimula o crime” e “atinge pessoas que nem estavam no túnel”.

    Eu sou da opinião que o Felipe Massa deveria ter mandado a Ferrari lamber sabão quando deu – de novo – a ordem antiesportiva para um piloto deixar o outro passar, eu sou da opinião que o jogador deve informar o juiz “olha, eu fiz pênalti, sim, mereço o cartão vermelho”, porque o esporte deveria ser o reino da ética por excelência, onde uma vitória só é verdadeira se for atingida 100% dentro das regras.

    Mas na vida real, quando não existe replay, quando o que está em jogo é a vida de um filho e não umas míseras centenas de milhares de dólares a mais ou a menos em um certame multimilionário, quando não há possibilidade de reparar o erro após uma longa deliberação de uma comissão qualquer, é muito difícil condenar quem faz não uma reles pilantragem para se dar bem, mas um gesto desesperado para tentar fugir de uma desgraça.

    Comparar pagamento de resgate de sequestrador com pagamento de propina para que a polícia não indicie o filhão irresponsável que invade um túnel interditado a 100 km/h e atropela uma pessoa foi só pra criar polêmica, né? Eu gostaria de saber onde a vida (de estar vivo) do atropelador estava em risco. No máximo (e muuuuito dificilmente – homicídio culposo por acidente de trânsito nunca dá cadeia), ia pagar uns boquetes pros manos da prisão. Depois da pena cumprida, era só “sair e dar seguimento ao trabalho”, na linguagem boleira. Quanto à “praga do politicamente correto que nubla…”, o que nubla é a situação de pré-barbárie que muitos estão propondo, com o salve-se quem puder, o mundo é dos espertos, quem pode mais, chora menos. O engraçado é que você é a favor da punição às crianças com palmadas, mas “quebraria” um flagrante do filho para que a SOCIEDADE não o punisse. OU SEJA, só os pais podem punir os filhos? Eu não “exijo” nada, Arthur, apenas respondi à pergunta da moça: se fosse MEU filho, eu não corromperia, nem cederia à extorsão. Ele que pague pelos seus erros. E eu posso responder, porque tenho filhos. Um deles tem a idade do atropelador e sabe MUITO BEM que eu não seguro BO de adulto. Talvez por isso mesmo nunca tenha me trazido um pra segurar (espero que assim continue). E, ao contrário do que você pensa, eu não considero um “herói” quem “salva” o filho nessas enrascadas. Acho um bosta. Quanto aos aspectos criminais (se foi C.A. ou extorsão), não dou palpite sem ver os autos. Por isso mesmo não escrevi diretamente sobre o caso.

    • 1) Não, não foi pra “criar polêmica”. Foi pra estabelecer um paralelo entre o desespero de um pai que vê o filho passar por uma desgraça – não importa se justa ou injustamente – porque tanto “só” (!!!) “pagar uns boquetes para os manos” quanto ser despedaçado por seqüestradores são desgraças.

      2) Eu também acho uma desgraça “salve-se quem puder, o mundo é dos espertos, quem pode mais, chora menos”. Desgraça e decadência. Isso não tem absolutamente nada a ver com tudo que eu sempre defendi. Nem sei por que isso veio à baila.

      3) NUNCA eu falei em “punir” as crianças com palmadas. Nem uma única vez. Eu falei em “estabelecer limites e noções de hierarquia” do mesmo modo que qualquer primata. Primatas não espancam os filhotes para dar lições. (Já vi que tem gente lendo nos meus textos mais do que eu escrevo. Acho que este é um destes casos.)

      A forma da SOCIEDADE estabelecer limites e noções de hierarquia é fazendo leis que, caso não cumpridas, geram penas (“palmadas”). E, com todo o respeito, pagar um boquete pode ser ruim (tem quem goste), mas ser retalhado por sequestradores é “um pouco” diferente.

      • Vinícius, eu não tentaria traçar um limite objetivo de validade universal entre “desgraça aceitável” e “desgraça inaceitável”. E eu não disse que o guri não deve ser penalizado pelo homicídio culposo ou até com dolo eventual, eu disse que entendo a atitude do pai dele e não acho que o sujeito (pai) deva ser crucificado por isso. Pode até ser penalizado (depende de ter sido corruptor ou extorquido), mas não transformado em símbolo de corrupção e falta de cidadania, como muitos estão pintando.

        Entender, eu também entendo. Só não concordo, não faria o mesmo e acho, sim, que isto alimenta a corrupção e impunidade, como deve ter ficado patente no post.

      • Arthur, a pedagogia Darth Vader ilustra bem o tópico três. Ninguém leu mais do que devia. Não que eu discorde, acho uma palhaçada a lei. Aprontou, principalmente se aprontar for agredir, a chinela canta.

        Quanto ao caso do suborno/extorção, até agora tou em dúvida, não consegui formar um juízo decente sobre o assunto, só sei o que a mídia conta.

    • Thiago Ferreira disse:

      Entendi a posição do Arthur. O pai entendeu o valor como pagto de um resgate.
      Uma galinha angola, ante a ameaça a seus filhotes de uma raposa, deixa-os em lugar seguro, sai cacarejando no maior barulho, e oferece a sua vida para protegê-los.
      Pai que é pai, age assim. Iamginou o filho delinquente padecendo em uma prisão. Só isso.
      Condenem o homem pelo que quiserem. Cumplice, corruptor, ativo, passivo, ect, mas o entendam.
      Simples. Foi um acidente, não ignorem esse fato.
      Tanto skatista como o garoto atropelador não deveriam estar naquele local, naquele horário.
      Fatalidade.

  3. Quando você se submete aos achaques ou a pressões de “autoridades” é por que você foi incompetente, relapso, ou é um azarado do kct.
    Pai que paga cagadas de filho(a) pode ser enquadrado em qualquer uma, ou nas 3 categorias supra.

  4. Hannibal disse:

    Filho sem limites dá nisso, um filho mal criado é reflexo da incompetência paterna de impor limites, ora bolas, quando eu ou você eramos malcriados havia punição, se pagava um “preço” por infringir algo pré-determinado, não estou falando de algo banal, quebrar um vidraça, ofender alguém sem motivo, bater em alguém sem razão, apenas alguns exemplo.
    A juventude de hoje ainda não foi apresentado a algo chamado: RESPEITO.
    Não sabem aproveitar a vida, um bando de alienados e idiotas, juntando isso ao poder aquisitivo dos papais e o ambiente urbano, tá pronta a merda toda. Esse negócio de repressão não criou esses monstrinhos mimados e emburrecidos, isso não importa o colégio tradicional e particular em que os papais entocam o rebento, educação vem de berço, vem de casa, é responsabilidade total dos pais.
    Não importa todo dinheiro do mundo, caráter não se compra, mas ser bom pai, isso é possível, deem mais atenção aos seu filhos e não tenham medo de puni-los, o mundo já está abarrotado de babacas.

  5. Fábio Peres disse:

    Tem gente que fala como se imaginar a chance do filho pagar um boquete na cadeia e arruinar qualquer chance de um bom emprego fosse uma coisa que um pai aceitasse tranquilamente, “para ele aprender o que é bom”; e numa sociedade que aceita a manipulação de maternidade (lembrem do caso de “Por amor” e a troca de filhos nas novelas de Manoel Carlos) não me espantaria o endosso desse tipo de comportamento.

    Que muito pai faria, por sinal.

  6. Fábio,

    a questão não é essa. Se você realmente ama seu filho você quer vê-lo tornar uma pessoa de bem (até mesmo pessoas de caráter duvidoso querem isso para o filho, acredita?)

    Aprendemos através do reforço positivo ou negativo. Se cometo um delito, seja ele pequeno ou grande e arco com as consequências desse, eu aprendo (talvez não da primeira, mas após levar algumas coronhadas da vida, sim, a gente aprende).

    Pais que não permitem que o filho responda pelos seus erros não permitem também que eles amadureçam e se tornem pessoas plenas. Permitir que o filho seja preso é permitir que ele se torne adulto, em minha opinião.

    Agora, veja bem: o jovem em questão que terá que amargar os “boquetes” como diz o Vinicius tirou a vida de uma pessoa! Isso é tão banal assim? O jovem que morreu não poderá ter um emprego, seja bom ou ruim. não poderá namorar, ter filhos, casar…

    Será que eu estou ficando louca? Será que a vida do próximo está valendo tão pouco assim?

    Ele não roubou um tênis de marca de loja (coisas que os filhinhos de papai adoram fazer, pelo que já li em vários artigos). ELE MATOU UMA PESSOA!

    Você vai passar a mão na cabeça dele e dizer: “tadinho do meu filho, ele não merece ter a ficha manchada para sempre…” Epa. A vítima aqui morreu, estão lembrados? Esse sim, merecia ter tirado dele TODAS AS POSSIBILIDADES DE VIVER E SER FELIZ?

    Todos nós erramos. Alguns mais feio do que os outros. Assumir isso e arcar com a responsabilidade dos nossos atos é a única forma saudável de continuar vivendo em sociedade…

    Não existe um estar ético. Ou você é, ou você não é. Não tem esse negócio de “ah, mas é meu filho”. Se fosse meu filho, eu o entregaria para a polícia pessoalmente. E pediria perdão de joelhos à família da vítima por não ter percebido que estava criando um delinquente…

  7. Carlos disse:

    Meus filhos foram criados assim:
    Sempre deixei bem claro que se fizessem merda na rua, não adianta correr pra casa porque sou o primeiro a ligar pro 190 e nem visitar na cana eu vou.
    E também não adianta me ligar pedindo socorro, porque estavam bem avisados das consequencias de seus atos.

    Bem, até hoje, eles já beeemmmm adultos, nunca me arrumaram problemas, e espero que assim continue…

  8. André disse:

    Não acompanhei o caso, então não sei se é extorsão ou um caso clássico de papailivrandoacaradofilhão. No primeiro, há atenuantes, mas no segundo é pau no pai do moleque.

    O texto da moça fala em corrupção ativa. Também não sei.

  9. Fábio Peres disse:

    Pois eu digo com todas as letras: duvido que alguém largaria mão do próprio filho por causa de uma atitude impensada do garoto; e, se fizesse isso, DUVIDO mais ainda que não teria sequelas irreparáveis na minha forma de ver o mundo.

    E por um motivo muito simples: se eu, como pai, não acreditar até o fim que meu filho possa ser alguma coisa melhor do que um monte de titica, não sou digno de ter filhos, de verdade.

    Até porque a sociedade não fará isso pelo meu filho.

    Bem, vou esclarecer o meu ponto de vista: eu faria tudo DENTRO DA LEGALIDADE para defender meu filho. Só. Não “largaria” ninguém.

    • Não sei se eu me limitaria à legalidade para defender meu filho. Não concordo que um texto escrito pela cambada de canalhas de Brasília valha mais que meu próprio julgamento sobre qualquer questão. E sim, eu entendo todas as conseqüências possíveis desse tipo de posicionamento. Eu sei que o mundo é bem mais complicado do que eu gostaria que fosse.

  10. André Nogueira disse:

    Estou assustado com opiniões de pessoas cultas, com excelente formação acadêmica sobre o assunto. Isso comprova minha teoria de que a elite (cultural e/ou econômica) foi, é e continuará sendo a culpada pela sociedade injusta em que vivemos.
    Quem acha normal acobertar um crime gravíssimo cometido por um filho é tão canalha quanto qualquer MAU legislador.

  11. Nossa, André, falou tudo! Estrelinha brilhante pra você, como diria um Professor meu…

    Estou tão chocada quanto. E, se falam isso do filho culpado, imagine se o filho deles fosse a vítima? Provavelmente contratariam capangas para esquartejar o outro e darem o corpo para os cães comerem…

    Pais assim são os responsáeis por termos na sociedade esses monstrinhos que colocam fogo em índio, matam cachorros a pauladas e postam no youtube para aparecer, entre inúmeros exemplos de total falta de noção do que é certo e errado.

    O que eles não sabem é que tudo volta para nós, um dia. Esses filhos sem noção de valores, do respeito ao próximo, são os mesmos que abandonam seus pais quando ficam velhos. Que os roubam e torcem (se não dão uma ajudinha) para eles morrerem rápido e ficarem livres.

    Tudo na vida é ação e reação. “Aquilo que você semear, também colherá”

  12. zoltan disse:

    O site da folha é este abaixo, mas precisa ser assinante.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2707201005.htm

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