TV Cultura e a nota que nega sem negar

O assunto do dia está sendo este post do Daniel Castro/R7, onde o jornalista afirma estar em curso uma reestruturação radical na TV pública paulista, com venda de patrimônio, fim de produção de vários programas e corte brutal no quadro de funcionários (o post falou em 1.200 demitidos – vê lá no link). Em época de campanha eleitoral, é um prato cheio.

Com o post espalhado como fogo morro acima pelo twitter, apareceram os bombeiros tucanos e os incendiários petistas (ó, os papéis dos militantes tuiteiros se alternam de acordo com o “lado” da notícia, tá?): os primeiros, tratando a nota do Daniel como boato, mentira e quetais; os segundos, lançando “campanhas de salvamento” da TV Cultura e alguns chorando como carpideiras o desmonte estatal. E nada do João Sayad (presidente da FPA) falar. Até que apareceu a seguinte nota oficial (grifos são meus):

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.

Do lado dos bombeiros, houve quem visse na nota da FPA a negativa cabal da matéria do Daniel Castro, e trataram, como todo bombeiro competente, de abafar o foco de incêndio. Eu não sou nenhum incendiário, mas sei ler e reconhecer, por força de ofício, palavrório “sabonete” de advogado quando não quer se comprometer e é obrigado a “falar nos autos”. E esta nota aí é exatamente isto, um “nego tudo sem negar nada, nem confirmar, muito pelo contrário”. Vejamos:

1 – Existe, sim, um plano de reestruturação administrativa em curso. As bases e diretrizes, ninguém sabe e a nota também não especifica. Até aí, o Daniel Castro não falou nenhuma besteira. Ponto pra ele;

2 – O blogueiro do R7 AFIRMOU COM TODAS AS LETRAS que está em curso na FPA um plano de demissões em massa. Ora, para que se refute esta afirmação, só há UM caminho: dizer que não haverá demissões em grande número. Afirmar que “manterá os talentos” não quer dizer, em hipótese alguma, que o gestor acredita ser a TV Cultura um oásis de talentos e todos mereçam continuar trabalhando! Muito ao contrário, basta ler o trecho grifado anterior, onde  os administradores atribuem à emissora a pecha de INEFICIENTE, CARA e que PERDEU QUALIDADE. Ora, não é preciso ser nenhum gênio pra inferir que uma empresa com este diagnóstico não primaria pela abundância de talentos em seus quadros.

2 – Dizer que “contratará novos jornalistas e apresentadores” TAMBÉM NÃO É garantia de manutenção de postos de trabalho. Ora, se eu demito 1.200 pessoas e contrato 100 para fazer o serviço, isto não é demissão em massa? E o “acervo de programas e ótimos jornalistas que começaram aqui, mas que precisa se renovar”, te diz algo?

4 – Quanto à denúncia de encerramento da produção de programas para terceiros, nem uma linha sequer na nota. Quando os contratos acabarem (e deve ter algum pra acabar antes da eleição), talvez surja uma pista sobre os “novos caminhos” propostos pela FPA para a TV Cultura.

Resumindo: tudo que essa nota oficial da FPA provocou foi mais cheiro de queimado. E agora cabe ao Daniel Castro sustentar sua denúncia, investigando a fundo o que será da TV Cultura no próximo governo, caso Alckmin vença as eleições. Ou passar recibo de boateiro, caso esqueça o assunto e o desmonte não se confirme.

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20 Responses to TV Cultura e a nota que nega sem negar

  1. Saudações, Vinícius!

    Isso é que eu chamo de saber ler um texto.

    Embora o texto tenha sido escrito num enrolês nojento de quem não quer afirmar nem negar, está tudo lá.

    “Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.”

    +

    “acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar”

    =

    demissões.

    Muito óbvio. Mas aposto que muita gente que não sabe somar dois e dois vai dizer que a nota significa o contrário.

    E aquilo que não está lá, ou seja, uma negativa explícita de que haverá demissões, também é muito eloqüente.

    Cheiro de queimado?

    Eu aconselharia muita gente a começar a tirar a naftalina da agenda de contatos…

  2. Fábio Peres disse:

    Enrolês típico tucano, para atitude tipicamente tucana: terceirizar tudo o que não é essencial, e até mesmo o que faz parte da função do Estado, para aumentar a receita e reduzir a despesa “na marra”.

    E o povo ainda vai aplaudir e dizer que a programação nova, com Discovery, NatGeo e o melhor do Nickelodeon à exaustão, é muito melhor que a antiga, com Castelo Ra-tim-bum e Cocoricó …

    E tem uma coisa (que eu não abordei, pra não fugir do tema – a nota): como um partido tem a cara de peroba de gerir uma empresa por DEZESSEIS anos e, ao cabo desse tempo, dizer AGORA que “a TV é ineficiente, cara e perdeu qualidade?”

    • André disse:

      Olha, eu acho que esse é justamente o ponto mais relevante, muito mais do que se vão ser demitidos 1200 ou 120. Mas não é estranho, faz parte do jeito tucano de ser. Escolas e hospitais estão enfrentando o mesmo problema (perdendo qualidade e se tornando caros), a diferença é que não tem tanta visibilidade.

  3. Rafa disse:

    Parabéns pela analise

  4. […] This post was mentioned on Twitter by Jorge Cordeiro, João Sérgio, Conceição Oliveira, Daniel Castro, Caio Tiago Oliveira and others. Caio Tiago Oliveira said: RT @DanielKastro: Recomendo: @viniciusduarte – Porque a nota oficial da FPA não refuta NADA do post do @DanielKastro sobre TVCultura: http://bit.ly/9b4sw2 […]

  5. DE onde menos se espera, é de onde realmente não Sayad!

  6. Piazera disse:

    Vinicius, a interpretação de texto está perfeita. Parece que há mesmo um planejamento de reestruturação e esta passa pela demissão de funcionários. Não poucos, diga-se de passagem. Pelo jeito a informação vazou cedo demais e causou um certo desconforto aos “homis” que gerenciam tal ação.

    Fugindo um pouco do objetivo do post, gostaria de fomentar alguma discussão. O que leva um produto a tornar-se caro e ineficiente?

    Vamos ao caso do canla em questão. Ao menor sinal de problema na tv Cultura, todos bradam em alta voz: Mas é um excelente canal… Programas educativos… Para familia… Uma perda irrreparavel!

    Agora, façamos uma pesquisa entre estes mesmos defensores da qualidade televisiva. Quantos deixam de assistir os Faustões e Gugus da vida no domingão a tarde e saboreiam um excelente programa-televisivo-cultural?

    Se mais de 3 entre 100 defenderem que o fazem, pelo menos 2 estarão mentindo… Fato! Ora, se não há consumidor, não há necessidadde do produto. Portanto, antes de chorarmos tal qual viuvas abandonadas, aproveitemos aos máximo as grandes qualidades do morto, enquanto vivo.

    Voltando ao tema. A guerrinha de fachada incendiarios X bombeiros, é comum antes de cada eleição. Fachada sim, pois depois do pleito passam a se tratar como irmãos em troca de migalhas de poder.

    O mais interessante é que para tal guerra iniciar-se basta uma pequena fagulha. E esta fagulha por vezes é acessa pelos incendiarios e outras peloss proprios bombeiros, para ter o que apagar.

    O importante é eestar na midia… Mas na Globo, na Record, no SBT… Porque na tv Cultura não dá IBOPE.

    Abraço amigo!

    Olha, amigo palestrino, eu tenho um carinho muito especial pela TV Cultura. Na qualidade de “babá eletrônica”, ela teve um papel marcante na educação dos meus filhos. Até hoje eles sabem de cor as falas dos personagens do “Castelo Rá-Tim-Bum”, aprenderam muita coisa com o Prof. Tibúrcio (ah, Tas…), tiveram noções de socialização importantes com o “Cocoricó”. Voltando mais um pouco no tempo, qual amante do futebol não assistia ao “Grandes Momentos do Esporte”, né? E o “Roda Viva”? Vale lembrar que, no final dos anos 80 e início dos 90, a audiência da Cultura era maior do que a da Gazeta, e os programas infantis alçavam a emissora com frequência ao terceiro lugar, atrás somente de Globo e SBT. O que foi feito com ela de 1994 pra cá? Autorizaram a captação de anúncios e, estranhamente, o negócio, em vez de melhorar, foi piorando. Hoje, infelizmente, não há mais quase nada a assistir lá: o “Roda Viva” foi desmoralizado, os infantis foram extintos (15 anos passando reprise…), o “Grandes Momentos do Esporte” virou um “Esporte Espetacular” sem dinheiro. E comprar enlatado velho do Discovery Channel pra encher grade foi bater a tampa do caixão. Agora, realmente, ficou difícil saber o que fazer.

    • Piazera disse:

      Sim amigo bambi, ops, São Paulino, tambem me recordo com saudosismo do Roda viva, do Cstelo Rá-tim-bum (que assisti)e até mesmo de um seriado teen que não recordo o nome (passsava todo dia pertoa da 19 horas).

      Já fazem alguns anos que a tv Cultura não existe mais aqui em Joinville como tv aberta. E só sei da sua situação atual pq apareceu como brinde na minha tv a cabo.

      O fato é que apesar de ser um patrimonio, hoje ela não se sustenta mais. Não vou aqui entrar no mérito de quem a administra ou gerencia.

      Mas é fato tambem que precisa reestruturar para não morrer. Espero que saibam trabalhar isto sem descaraccterizá-la.

      Quando falei que ninguem assite, me referi aos dias de hoje. Só nós, os mais velhos, ainda lembramos dela e daquilo que tinha de bom.

      Pois é, amigo suíno, ops, palestrino, da situação em que se encontra hoje, também não sei o que fazer. Mas que foi mal gerida durante esses anos todos, é inegável.

  7. Excelente, amiguinho. Texto exemplar.

  8. Quando era moleque eu participei do “É proibido colar”… hahaha. E a gente aqui da rua fazia “caravana” para participar do Enigma. E o Serginho Groisman, que teve programa ali. Os programas especiais, tipo O Poder do Mito, do Joseph Campbell. Vestibulando me ajudou na escola. Tinha o Papau. O programa do Kid Vinil cujo nome não lembro. Aos sábados passavam jogo de várzea. Era bom, mesmo.

    Porra, “É proibido colar” era show! Uma espécie de “Domingo no Parque” entre escolas, cultural e sem merchans… Ah, o Piazera falou da série teen, era o “Anos Incríveis”, né, Kevin Arnold?

    • Carlos Rosas disse:

      apesar de morar em brasília, alguns programas da cultura passavam aqui via tv nacional (atual tv brasil) esses programas, enigna, quem sabe sabe eu assistia sempre, cheguei até a ganhar prêmio (foi uma das raras vezes que fui sorteado em alguma coisa na vida, não tem como esquecer rsrs) programas desse tipo fazem muita falta na tv mesmo. Parabéns pelo post.

  9. Salve Vinícius,

    Excelente análise!

    Chamaria atenção para mais alguns pontos:
    O PSDB governa São Paulo, ininterruptamente, desde 1995. Se, de lá pra cá, a emissora estatal perdeu espaço, audiência e qualidade, além de não ter conseguido se renovar, estamos tratando de um problema de governança. Logo, a responsabilidade recai sobre a gestão e não sobre o modelo.

    Não é a primeira vez que se utiliza o resultado de uma má gestão (ineficiência) para justificar o fechamento, encolhimento ou a entrega de instituições públicas para a iniciativa privada.

    A BBC é a primeira e a maior emissora de radiodifusão/televisão do mundo, fundada em 1922. Além de ser pública, não recebe qualquer quantia com publicidade privada. Sua independência do mercado, a autonomia de arrecadação e a legislação que impede com que ocorra ingerência política naquele órgão, faz com que se enalteça o compromisso público de se prestar um serviço que atenda de maneira aceitável as premissas básicas do jornalismo, tais como: independência, honestidade, isenção, imparcialidade e neutralidade.

    No mais, muito estranho essa devassa na emissora depois do episódio em que o jornalista Heródoto Barbiero foi afastado do Roda Viva, coincidentemente, após espremer o Serra: http://tinyurl.com/2chzx89

    Um abraço!

    É, eu constatei isso num tuíte ontem e acho que falei algo parecido com alguém nos comentários.

  10. Thiago Ferreira disse:

    Bom. Assistia o cartão Verde, porém hoje, ao ver o Sócrates falando com uma pose, que parece ser o único ser inteligente do planeta encheu o saco.
    O Birner, gagueja mais do que galo carijó(péssima dicção, deveria só escrever e olhe lá), e o Xico Sá, calado é um poeta.
    Acho que a cultura deveria ser fechada, ou vendida.
    TV, nas mãos de governo todo mundo sabe o que vira.
    Lugar para dar salários a amigos.

    É, mas não era assim antes. O que houve?

    • André disse:

      Talvez seja reflexo do Estado Mínimo (agora chamado de Necessário) que os tucanos pregam. Até acho que eles têm legitimidade para implantar esse negócio já que vêm ganhando as eleições democraticamente. Mas fica ridículo essa nota no estilo alguém peidei não sei quem fui.

    • Thiago Ferreira disse:

      Vinicius. Não se justifica em absoluto uma TV pertencente ao estado. Me desculpe. Aqui não pode ser Irã, Cuba ou Venezuela.
      TV CULTURA FORA! Não importa, se governo é PSDB, PT, ou o caralho. A merda sempre será a mesma.
      Uma TV estatal, ideológica, não cabe no mundo atual.

      Pois é, tem que combinar antes com os ingleses da BBC essa parada aí, Thiago.

  11. Hannibal disse:

    Meu Deus… será que a TV Cultura virará uma Band, Record, Globo, Rede TV, SBT, emissoras evangélicas ou cristãs… o que será das gerações sem Castelo Ra-Tim-Búm, Anos incríveis, Cartão Verde, Roda-Viva, Cocoricó, etc, etc?

    Acho que vai virar repetidora do Discovery Channel e NatGeo.

    • Hannibal disse:

      Menos mal, sou fã desses canais fechados, pena que a audiência da TV Cultura que já é baixíssima ia ficar nula, brasileiro é desacostumado a tv informativa.

  12. carlos luchetta disse:

    A impressão que tenho é que os tucanos acabaram com tudo. Não é só a TV Cultura. Tá tudo terceirizado e, ainda por cima, com qualidade inferior ao que se tinha no passado.
    Não sei se já falaram aí, tinha um programa no Sesc Pompéia, acho que chamava Fábrica do Som.
    Não sou bom de memória, mas Ultraje (Inútil), Lingua de Trapo, o Plebe Rude (mesmo sendo de Brasilia) e muitos outros grupos de qualidade, que nem devem existir mais, tocaram lá. Os grupos estavam começando, era porrada, era muito bom.
    ET.: não é uma opinião política. Voto desde de 82, esta vai ser a primeira vez que não vou chegar nem perto de uma urna. O quadro é terrível.

    Tá feia a coisa, mesmo.

  13. Que nada, bom mesmo era na época do “Bambalalão”, que tinha uma apresentadora (cujo nome esqueci) que era mó gostosa. Era Juju, um negócio assim. Coisa de louco mesmo, tirava meu sono a mulher…
    Desculpe, mas é menos dolorido fazer piada do que tentar entender como a situação chega à esse ponto. A Cultura SEMPRE foi referência em SP, e conseguiram destruí-la. Esse pessoal é bom nisso, aliás. Parabéns a eles.

  14. Ah…Saudades do Ra-Tim-Bum, do Castelo Ra-Tim-Bum e outros programas, cresci com eles.

    Que grande merda, hein!!!

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