That’s what friends are for – CAP. 1

Alfredo é diretor de um grande banco, mas um cara muito simples. Todo fim de semana vai ao botequim do seo Luis, ver os amigos do antigo bairro e tomar uma cerveja.

Entre os habitués do bar está o Pedrão, figuraça e queridíssimo de todos (especialmente do Alfredo). Tem uma pequena empresa de instalação de divisórias. A empresa vai mal, muito mal. Mas ele não se abate, continua trabalhando e esbanjando bom humor.

Num certo sábado, Pedrão vai pagar sua conta no boteco. Merreca, 25 contos. Entrega o cartão de débito ao Luís. A transação não é autorizada por falta de saldo. Pedro se espanta, tem certeza de que possui saldo: “pô, recebi por um serviço ontem! Peraí, Luisão, eu vou tirar um extrato no banco e já volto!”

Pedro vai ao caixa eletrônico e descobre que o saldo da sua conta foi bloqueado por determinação judicial. E ele sabe o motivo: pegou uma grana emprestada no banco do Alfredo pra comprar umas máquinas, não conseguiu pagar e estava sendo executado. Ele é um cara simplório, não entendia bem essas coisas. Se apertou, viu que não tinha saída e ligou o foda-se. Voltou ao bar e foi ter com Alfredo:

– Fredão, meu camarada, vê só o rolo em que eu me meti, rapelaram minha conta,  isso é coisa lá do seu banco!

Alfredo era uma espécie de consultor financeiro dos frequentadores do bar, um verdadeiro oráculo quando o assunto envolvia bancos. E atendia a todos com presteza e simpatia:

– Porra, Pedrão, que merda! Por que você não falou comigo antes? Já foi pro Jurídico, a ação já correu! Agora é paga e não bufa, cacete!

– Ah, Alfredo, eu tive vergonha de falar contigo. Mano, será que não dá pra fazer mais nada mesmo? Tô fudido, sem dinheiro nem pro mercado! A patroa vai me matar…

– Bem, por ora, o que eu posso fazer é pagar a conta do bar e te emprestar algum. Vou pegar teus dados e olhar o processo lá no banco, conversar com os advogados e tentar solucionar da melhor forma.

– Meu, mas o BO é altíssimo, nem se eu vender tudo o que tenho cobre a dívida, os juros são absurdos…

– Tá, deixa eu ver lá a situação real. Na segunda-feira te dou um retorno. Só o que não tem solução é a morte, né?

Segundona braba, trânsito dos infernos, lá vai Alfredo para o banco. Pensando no Pedrão: um cara trabalhador, mas sempre atrapalhado com dinheiro. Estudaram juntos no primário: Alfredo, o CDF; Pedrão, o palhaço do fundão. Mas sempre se deram bem. Pedrão protegia Alfredo que, em contrapartida, sempre punha o nome do amigo nos trabalhos escolares. Bons tempos, aqueles…

Alfredo chega ao escritório. Vai ao computador consultar a situação do Pedro, ver o tamanho da encrenca: a dívida executada soma R$ 40.668,62. “Caraca, que paulada seca! E o Pedro só tem aquela Ford Pampa velha, não paga nem as custas desta merda!” Pede à secretária que ligue para o Jurídico.

– Dr. Marques, bom dia. Aqui é o Alfredo da diretoria de crédito, tudo bem?

– Faaaala, Alfredo, o que pega?

– Então, eu queria marcar uma reuniãozinha contigo – coisa rápida, não quero tomar teu tempo -, eu tenho um amigo que tomou um dinheiro conosco, não pagou e está sendo executado…

– Xiiiiii, mas AÍ JÁ ERA, né?

– É, então, mas eu queria ver se a gente arruma uma solução, é uma pessoa pela qual eu tenho muito apreço, sabe? Um cara trabalhador, mas deu uns azares aí. E, ademais, te garanto: ele não paga essa dívida nem em 100 anos, coitado…

– Bem, se você quiser, pode vir pra cá agora. Vai me passando os dados do rapaz, eu peço pra secretária pegar a pasta dele e a gente estuda.

– Opa, tô indo. Abraço.

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CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO

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8 Responses to That’s what friends are for – CAP. 1

  1. Esse Pedrão eu acho que conheço. Se não for esse é um igualzinho…

  2. Carlos Rosas disse:

    você deveria escrever um livro, você escreve muito bem, a estória nem acabou e a gente já fica querendo saber o que vai acontecer (muito melhor que as novelas da globo rsrs), desde lá no NCDJ com as novelas do araponga arapongado, do 1nho no tribunal, do dia a dia dos pobres oficiais de justiça em bunsca do chapaulinho que eu não perco uma estorinha sua rsrs abração.

    Pô, cara, bondade sua. Valeu.

  3. Alê disse:


    Eita!

    Agora temos uma web-novela para acompanhar?

    Blz. Já providenciei a pipoca.

    A descrição do Pedrão é a mesma de um amigo de infância meu.

    No caso desse meu amigo, a encrenca, foi a compra de um sítio (aquele que só dá duas alegrias).

    Nesse caso ele, meu amigo, só teve uma alegria…

    Alê

  4. Carlos disse:

    Cara, o Alfredo “non ecsiste”. Todos os gerentes de banco que conheço (e bancários de maneira geral) se acham pertencentes a uma casta superior.
    Até o dia em que tomam um pé na bunda do banco e vão tentar ser corretores de imóveis ou abrem uma adega.
    Também já estou com saudades das historinhas do 1nho.

    Sim, é uma história de ficção.

  5. Luiz Ribeiro disse:

    Considerando a política leonina que prevalece no mercado bancário somente um amigo surreal poderá salvar o Pedrão.

  6. Pedro “trabalhador”? Assim dá para quase simpatizar… E o banco é privado, público, de fomento? 😛

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