Admiração, inveja, plágio e quebra-quebra no botequim Twitter

Foi um bafafá nas redes sociais nos últimos dois dias, mas agora passou (como todos os bafafás na internet): dois textos da Leonor Macedo publicados no blog Eneaotil (Revista TPM) apareceram “remixados” no blog da Gabriela Yamada, editora de Cidades da EPTV Ribeirão Preto/Globo.

Esse é um problema cada vez mais recorrente, desde o advento do ctrl-c-v: a cópia de textos (ou trechos) na internet, sem indicar a fonte ou, em casos mais carudos, atribuindo-se a autoria.  Como a rede é grande, nego acha que ninguém vai ver se ele der uma roubadinha de leve. É um crime fácil de executar, e parece difícil de se descobrir. E é óbvio que não é, basta pegar um trecho do texto e dar um google. Se você for um sujeito cheio de amigos nas redes sociais, então, mais fácil ainda: sempre haverá um conhecido que, indo de lá pra cá, acaba trombando com o plágio e vai te avisar.

No caso em questão, foi isso que aconteceu: a Leonor é uma blogueira conhecida, alguém deu de cara com o texto no blog da Gabriela e a avisou. A Leonor, CLARO, não gostou e gritou pro povo no twitter. Mas antes de entrarmos no quesito  “histeria tuiterística e linchamento virtual” (que a Camilla Lopes levantou hoje, depois do vendaval, e o Maurício Savarese levantou no meio da confusão, mas partindo de uma premissa equivocada, a meu ver), falemos sobre o plágio.

Quando uma pessoa faz algo, mais que eventuais recompensas materiais, quer ver o seu trabalho RECONHECIDO pelas pessoas. Nem vem querer dar uma de “tô nem aí”, porque ninguém cai nessa. Quem se expõe deseja, em primeiro lugar, a glória, o aplauso, o elogio. E o plágio irrita o autor original porque o plagiador rouba não só a obra, mas o aplauso que seria dele. A gente canta no chuveiro por diversão e canta no palco pra ser aplaudido.

Gabriela Yamada escreveu os posts em janeiro/2011; a Leonor em outubro/2010. Gabriela leu o texto da Lelê e se emocionou, se viu no texto, deixou até comentário! Sentiu aquela coisa que eu já senti muitas vezes: “putaqueopariu, por que eu não escrevi esta porra antes dela?”. É compreensível e humano, chamam de admiração que causa inveja. Até aí, tudo normal.

Só que, se eu não escrevi foi porque não fui capaz, não saquei, tanto faz. Perdi o bonde. Nunca senti a menor vontade de pegar uma obra que tanto admirei e fazer uma igual pra chamar de minha e mostrar pros amigos como eu sou foda.

Quando a pessoa faz isso, é desonesto com quem foi surrupiado e, pior, desonesto com ela própria, pois as pessoas verão a obra e dirão: “cara, você é sensacional! Maravilhoso! Lindo, tesão, bonito e gostosão!”. É o estado-da-arte do auto-engano! Você sabe que é um bosta, ladrãozinho barato de idéias e loas alheias. Por isso, de todos os tuítes meus a respeito da confusão, destaco este:

Agora, o linchamento/histeria na rede: a estratégia de defesa possível no caso de você ser pego em flagrante cometendo um crime utiliza vários instrumentos e artifícios, MENOS UM: negar o fato criminoso flagrado. Você pode demonstrar arrependimento, buscar excludentes de ilicitude, atenuantes, etc. Ou, se vê que vai em cana mesmo, sem colher de chá, só te resta fugir. Se der.

Quando estourou o rolo, Leonor usou o twitter para chamar a atenção da Gabriela, mencionando-a. IMEDIATAMENTE (é, caixa alta mesmo), a Yamada tomou três atitudes: 1) tirou todo o blog do ar; 2) “trancou” o twitter dela; 3) ignorou solenemente a queixa da Leonor.

A segunda atitude eu até entendo, porque foi uma enxurrada de gente partindo pra cima dela. E isso, sinto muito, é incontrolável no twitter: a rede funciona como se fora um grande botequim de periferia: todo mundo conversando animadamente, jogando dominó e tal, até que sai uma garrafada numa mesa. Daí, amigo, sai de baixo que voa cadeira, mesa, copo, facada e tiro. Nego toma partido do amigo sem saber nem se ele foi o responsável pela treta.

Mas a primeira e, principalmente, a terceira, deixaram claro que a Gabriela SABIA que tinha feito merda. Viu que foi pega com a boca na botija e fugiu. E quem foge de briga de boteco acaba sendo perseguido na rua até por quem nem estava dentro do bar.

Não conheço pessoalmente a Lelê, mas o twitter acaba conferindo boas dicas sobre a índole das pessoas. Ela é da paz, não é barraqueira, é bem-humorada e inteligente. Mas tem quatro mil e poucos amigos no twitter que, eventualmente, podem ser barraqueiros, mal-humorados e da guerra. E, na minha opinião, alguns desses amigos acabaram influenciando negativamente no desfecho pacífico do caso. Apareceu advogado (real, não virtual) oferecendo serviço, investigadores de polícia (esses, virtuais – eu incluído, haha) e muita gente pra xingar a moça, dentre vários que estão na internet só pelo prazer de agredir virtualmente sem o ônus de receber um revide real.

Em desfavor da moça Gabriela (e nisso concordo com o Sava), pra piorar o que já estava feio, o fato de ser funcionária da Globo. Aí apareceram os interessados não em defender a Leonor, mas em bater na emissora (usando a Lelê como marreta e a cabeça da Gabriela como bigorna).

Talvez o melhor para a Gabriela fosse não ter fugido, evitando a horda correndo atrás dela com paus, pedras e picaretas. Quando um bandido é pego pela população enfurecida, tudo o que ele quer ver na sua frente é um camburão de polícia quentinho e aconchegante, que o leve a um delegado que ouça suas razões para ter cometido o crime.

Hoje Gabriela, a ré, deu o seu depoimento à “Delegacia da Internet”. A vítima, Leonor, também deu o seu. Leiam e façam seu julgamento pessoal.

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ATENÇÃO: muito embora plágio seja realmente crime contra a propriedade intelectual, os termos policialescos usados neste post estão em sentido figurado.

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14 Responses to Admiração, inveja, plágio e quebra-quebra no botequim Twitter

  1. Eu gosto demais dos seus textos, você sabe disso. E nesse, como (quase) sempre, você brilhou! =)

    Não, não vou copiar. Meu estilo é bem diferente do seu. Sua marca é registrada em cada parágrafo e a minha também. E isso que é bacana de quem gosta de dar uma de escritor – os textos são, usualmente, o retrato da nossa personalidade…

    Eu admiro alguns escritores. Mas tenho muito orgulho do meu jeitinho de escrever. Não sou das melhores, mas sou o que sou. E isso já tá de bom tamanho pra mim!

    Bjs!

    Pode elogiar, criticar, NEM LIGO PRA ISSO MESMO… HAHAHAHA beijo.

  2. De tudo só me vem a lembrança da canção ou música que diz:
    Falador passa mal rapaz, falador passa mal…

    A “internet” não perdoa Galvão Bueno, Datena, Serra nem Gabrielas, Mayaras etc. Ness caldo de cultura cabe todo mundo…

  3. Aliás a música é de um grupo que nada tinha de cópias posto que eram Originais do Samba hahaha

  4. Emerson disse:

    Realmente você escreve muito bem (gramaticalmente falando). Deve ser professor de português da rede pública..
    Peca nas opiniões e conteúdo.
    Se mete a falar do que não conhece e se alia a pessoas de carater duvidoso.
    Você falou em plágio. Muito bem. E a censura?
    POr que os comentários a respeito da derrota do Flamenguinho de Guarulhos estão sendo censurados?
    Este assunto é de extrema importância.
    Mas brincadeiras e discordâncias a parte, realmente seus textos são perfeitos. Parabéns.

    Sou aliado da minha família. E só. Censura? Derrota do Flamenguinho de Guarulhos? Assunto de extrema importância? HAHAHAHA Amigão, dá um tempo, vai…

  5. Daniel CMS disse:

    Putz, nao sei o que pensar sobre este bafafa. Muito barulho por nada? Existem assuntos mais importantes? Ou como parte de uma vida normal, devemos discutir? Nao sei, so sei que ajudou a enrolar e passar o tempo no trabalho, em um raro sabado de sol em Londres… 😦

    De qualquer forma, a Leonor parece estar correta. E na outra, jogamos pedra na Geni 🙂

    PS: Nao consigo entender o apelo do tuiti…

    Bem, apareceu um cara aqui dizendo que um assunto de extrema importância a abordar seria a derrota do Flamenguinho de Guarulhos. Como você pode ver, o que importa pra uns não faz a menor diferença pra outros.

    • Daniel CMS disse:

      A historia do Flamenguinho so pode ser ironia.

      Como o Rafael citou, parece que plagio ta virando lugar comum. No lugar onde fiz mestrado, rolou alguns casos. Pessoas de diversos lugares no mundo passaram por esse vexame. Porem a escola alerta para as penas impostas para plagio, fora o boato que existe um software pra identificar textos copiados…

  6. rafael disse:

    E aí, Vinícius.
    Legal. Copiei e colei, tá? 😛
    Sério, sabe o que é triste? Tenho visto casos de plágio cada vez mais frequentes, na internet ou na “vida real”. Na universidade, por exemplo, um amigo teve dezenas (sem forçar a barra) de páginas de sua monografia copiadas numa dissertação. A pessoa estava querendo um título de mestre, rapaz, e copiou o texto. O que é isso, fim da capacidade criativa?
    O pque mais me incomoda é que o plágio não tem o menor sentido, porque, 1) quem lê uma dissertação (ou blog) provavelmente vai ler o original e 2) existe o jeito certo de citar (ou homenagear), com referências bibliográficas (ou, neste caso, links).
    Forcei demais na comparação? Acho que não, né? Sei lá, efeitos da progressão continuada, talvez.
    Forte abraço. Se eu lhe citar coloco a referência.

    HAHAHA, por favor. Senão eu vou lá no twitter e boto o povo pra te linchar.

  7. TRITÓRIA disse:

    Dr.Norberto, por acaso você poderia colocar o post “requiém de um boquirroto”, pois infelizmente perdi esse comentário.
    Abs.

    Taí, amigo: https://comfelelimao.wordpress.com/2010/01/27/requiem-de-um-boquirroto/

  8. André disse:

    Nesse caso discordo de você. Pelo que a própria Leonor escreveu, ela acha que a punição correta nesse caso é denunciar a Gabriela para a EPTV (cujo efeito óbvio seria a perda do emprego) e processá-la (para que mais seria senão tomar uma grana dela, se o post já havia sido retirado e o pedido de desculpas feito?). E ainda diz que não iria fazer a segunda parte só por causa do filho da Gabriela. Como você brilhantemente colocou, twitter é buteco de periferia, quem não quer levar facada de bêbado que fique em casa. Não dá para fazer parte do twitter e ficar melindrado por atitudes de terceiros. Mas a discussão entre as protagonistas é importante. O texto era uma homenagem de uma mãe ao seu filho, não me parece que havia pretensões financeiras ou intelectuais envolvidas. Por isso achei exagerada a reação da Leonor, não me pareceu a atitude de alguém do bem, da paz.

    Sinceramente, eu não vi em momento algum A LEONOR dizer que “o certo seria denunciar a Gabriela pra EPTV”. Outra coisa: a Gabriela é (era) tida e havida no meio RibeirãoPretano como BLOGUEIRA FORMADORA DE OPINIÃO (tem até um vídeo no youtube apresentando-a como tal). Não é dinheiro ou projeção profissional que conta nesses casos. Releia o texto, por favor.

    • André disse:

      Reli o texto. Concordo quanto à sua análise do twitter/buteco e de que ter uma sacada genial copiada na caradura é foda. Mas discordo de sua análise da atitute das duas:
      1) “a Gabriela SABIA que tinha feito merda. Viu que foi pega com a boca na botija e fugiu.”, o que mais ela poderia fazer além de retirar os textos e pedir desculpas?
      2) ” boas dicas sobre a índole das pessoas. Ela (Leonor) é da paz, não é barraqueira, é bem-humorada e inteligente.” Ela pretendia processar a Gabriela por um texto-homenagem que não visava lucro, pretendia denunciá-la ao empregador (EPTV), e é da paz? Não concordo. Não foram só os amigos da Leonor que extrapolaram.

      PS: “Nesse caso específico de Gabriela Yamada, a EPTV deveria ser notificada porque quem vestiu a camisa da empresa fulltime foi ela.” (http://eneaotil.wordpress.com/)

      André, é que parece que você não acompanhou diretamente as coisas no twitter, então talvez não tenha visto que: 1) ela demorou TRÊS DIAS para “pedir desculpas”, e, veja, NÃO ADMITIU ATÉ HOJE O PLÁGIO! Fala em “inspiração”, “admiração”; 2) Ela tirou os textos do blog imediatamente após o tuíte da Leonor, mas NÃO SE DIGNOU a respondê-la com a mesma celeridade. Ao contrário, fechou o twitter para não receber mais mensagens. 3) Quando a Leonor anunciou o plágio (informada por 3ºs), um advogado já começou a fazer uma barulheira infernal no twitter e, ao mesmo tempo, o povo saiu metendo a marreta na Gabriela. Se você der uma olhada na TL da Leonor, percebe que em nenhum momento ela teve uma atitude beligerante contra a Gabriela. E, nesse post, percebe-se claramente a mágoa da Leonor que, além de ter sido roubada, ainda foi tratada como uma “vilã do bem” ou “vítima do mal” pela Gabriela.

      • André disse:

        Vinícius, de fato eu não acompanho o twitter, um dos motivos é a impossibilidade de se ter uma discussão com algum grau de detalhe com apenas 140 toques (ainda é assim?). Recebi o link para um dos textos-homenagem (que achei meio piegas) e depois fiquei sabendo do outro, nem lembro mais a ordem. Lembro que, então, os posts me pareceram meras homenagens melosas sem fins lucrativos, com alta probabilidade de virarem aquelas correntes de e-mail edificantes e chatas. Fiquei sabendo da polêmica pelo seu blog, resolvi dar uma olhada no blog das envolvidas com suas (delas) versões finais (link que você colocou acima). Claro que o fato de eu não ter achado grandes coisas a obra da Leonor não diminui a dor dela de ter visto sua obra surrupiada. Mas acredito que a reação da parte ofendida (no blog) foi desproporcional à ofensa.

        “1) ela demorou TRÊS DIAS para “pedir desculpas”, e, veja, NÃO ADMITIU ATÉ HOJE O PLÁGIO! Fala em “inspiração”, “admiração”;”

        Ela admitiu o erro. Não sou especialista, mas plágio não envolveria cópia um pouco mais extensa ou fiel? Além disso, essa confissão não teria implicações legais?

        “2) Ela tirou os textos do blog imediatamente após o tuíte da Leonor, mas NÃO SE DIGNOU a respondê-la com a mesma celeridade. Ao contrário, fechou o twitter para não receber mais mensagens.”

        Pode ser que ela estivesse sem tempo para pensar melhor e dar uma resposta mais ponderada. Pode ser que estava pensando numa estratégia para sair por cima. Pode ser que estava tentando salvar o emprego.

        “3) … Se você der uma olhada na TL da Leonor, percebe que em nenhum momento ela teve uma atitude beligerante contra a Gabriela.”

        Não conheço nada mais beligerante do que ameaçar com processo na justiça e notificar o empregador com vistas a tirar o ganha-pão do outro. Isso foi admitido pela Leonor no blog, e suponho que tenha aparecido no twitter (mesmo que através de terceiros) ou não haveria necessidade da Leonor se explicar.

        “3.5) E, nesse post, percebe-se claramente a mágoa da Leonor que, além de ter sido roubada, ainda foi tratada como uma “vilã do bem” ou “vítima do mal” pela Gabriela.”

        Me parece que a Gabriela reclama muito mais da reação exagerada dos “amigos” da Leonor. Já a Leonor deixa claro o que ela entende como punição justa para o crime da Gabriela.

  9. Thiago Ferreira disse:

    Vinicius. Sabe no que seu texto é brilhante?
    Demonstra definitivamente que, quem se auto proclama “jornalista”, passada a euforia inicial do “eu sou o cara”, descobre que sua criatividade tem braço curto, (óbvio) e aí…..melhor mesmo é lavar roupa, ou louça.

  10. Malandragem, que papelão da jornalistinha global hein ?

    Acho que a história deveria ficar por ai mesmo, até porque a grande porrada da Leonor na plagiadora foi essa: “Não vou te processar em consideração a TEU filho, de sete anos.”

    Consideração que a mãe que plagiou não teve ao usar o texto de outra mãe ( a do Lucas ), para homenagear o seu filho.

    Conclusão. A Leonor é tão maior como jornalista e mãe, que no seu enorme coração coube mais um.

  11. Adhemar Santos disse:

    Fala sério, um texto piegas, beirando a mediocridade, e a mulher está reclamando que foi plagiado? Deveria é dar Graças a Deus que alguém gostou e resolveu aproveitar parte dele….

    O texto É DELA. Não existe nenhuma regra no Direito Autoral que diga: “ó, se o Adhemar Santos disser que seu texto ‘beira a mediocridade’ você perderá todos os seus direitos sobre ele.”

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