Esse papo de “Censura!” não é brinquedo, não!

Funciona assim: abro o editor de texto do blog e saio escrevendo sobre o que eu quiser. Ninguém me impede de escrever e qualquer um pode ler. Não submeto previamente meu texto a nenhum órgão do governo ou pessoa. O nome disso é liberdade de expressão, e é o que temos hoje (como nunca antes neste país). Não precisa montar jornal, ganhar concessão de TV ou rádio. Vai lá, monta podcast, videolog, blog, site e recebe meia-dúzia ou 6 milhões de visitantes diários. E, a despeito de toda essa liberdade, está na moda como nunca gritar que foi, está sendo ou será censurado.

É muito triste pra quem viveu o tempo da censura ouvir isso hoje, principalmente de bocas libertárias, liberais ou libertinas, algumas inclusive que foram MESMO amordaçadas nos anos de chumbo, mas parecem ter se esquecido como era sinistra a parada.

Quando eu era moleque, ligava a TV e antes de TODOS os programas aparecia um papel datilografado na tela, escrito “Censura Federal”, com um locutor de voz tenebrosa ao fundo: “Este programa foi aprovado pela Censura Federal para ser exibido NEESTE horário”. Pra quem foi sortudo e não viu, era assim:

Uma vez eu perguntei pra minha mãe o que era aquilo, e ela me explicou: “tem uns caras que ganham pra assistir todos os programas antes de todo mundo e, se eles gostarem, batem esse papel aí e deixam a TV transmitir.”. Eu achei um baita emprego maneiro.

Isso, pra felicidade geral, não ocorre mais no Brasil. E já faz um bom tempo. Promulgamos uma Constituição em 1988, ela é bem bacana, tem um artigo 5º com trocentos incisos (78) e parágrafos, num capítulo denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. No inciso IV, está escrito assim:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

Logo abaixo, tem o inciso V:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

E aí começa a bagunça: tem gente que quer usar o direito conferido pelo Inciso IV sem os problemas que essa besta do inciso V prevê a quem passa da medida no direito de dizer o que pensa a respeito de outrem.

EPA, PERAÍ, mas não é livre a parada? Que medida é essa? Liberdade não tem limites!

Claro que tem, e aprendemos isso logo cedo: você pode andar livremente por aí, mas experimente entrar na casa de alguém sem ter sido autorizado. Se o dono não for com a tua cara (e for meio esquentadão), você será retirado aos tapas do recinto. E, convenhamos, ficaria meio esquisito você ficar no portão da casa dele alegando que seu “direito de ir e vir” foi violado, né?

Pois é, mas voltemos à tal da “Nova Censura”, e dois casos emblemáticos: o site “FAlha de São Paulo” (uma paródia ao jornal “Folha de São Paulo”) e a ameaça de processo do jornalista Marcelo Tas à blogueira Lola Aronovich. Um por vez.

No primeiro caso, o jornal paulistano ingressou com ação para retirar do ar o domínio do site e o layout da página, alegando violação de propriedade intelectual e dano à imagem. Acabou ocorrendo que saiu foi TUDO do ar (até o conteúdo), pois o site, como ocorre nas paródias, era totalmente calcado no original. Seria como se a Maria Bethânia ingressasse com uma ação contra o Didi Mocó por isto aqui:

Se a Bethania ganhasse, o Didi ia ter de tirar do quadro: a música, a peruca, os brincos, os colares e o vestido. Acabou a brincadeira. Seria censura?

Pra mim, não. Ninguém é obrigado a servir de escada pra ninguém. Ninguém é obrigado a rir de si mesmo ou aceitar que façam graça consigo, seja com bons ou maus propósitos. Não é crime ser mal-humorado ou não ter senso de humor (é só uma falha, mas ninguém é perfeito…). E, caso o cidadão entenda que a paródia é ofensiva, o judiciário está lá é pra isso mesmo: PROTEGER SEU DIREITO de não fazer parte do show alheio sem dar permissão para tal.

No caso da Lola, ela disse o que bem quis sobre o Marcelo Tas/CQC:  “misógino”, “fascista” e o escambau, usando o direito garantido pelo inciso IV da CF. E, vejam, O POST ESTÁ LÁ até agora, e ela já  ESCREVEU OUTRO marretando mais ainda a cabeça do carequinha. E esse segundo post foi escrito DEPOIS que o Tas ameaçou usar o seu direito conferido pelo (maldito) inciso V (da MESMA CF que permitiu a Lola exercer seu direito de opinião). Se o post está lá, CADÊ A CENSURA? O pessoal me explica assim:

– argumento-padrão nº1: “ah, tudo bem, ele ATÉ tem direito, mas é HIPOCRISIA, porque quem se diz democrático e pluralista não age assim.”.

Queridos e queridas, incoerência não é hipocrisia, muito menos crime. Se fosse, muitos dos que cerram fileiras na cyberatividade estariam PRESOS hoje. Eu, inclusive. Quantas vezes defendemos coisas que nos parecem razoáveis à primeira vista, mas que, olhando BEM de perto e com calma, é uma grande cagada? Quantas vezes deixamos de nos colocar no lugar do outro em determinada situação e sentamos o cacete no comportamento dele, mas QUANDO ARDE NO NOSSO pelo mesmo motivo ficamos putos e queremos briga?

– argumento-padrão nº2: “o processo é uma forma de calar o réu pelo uso da força (da grana, dos bons advogados…), a justiça sempre julga a favor dos poderosos contra os oprimidos e não temos chance contra ‘o sistema’!”

Vamos tomar isso como verdade, muito embora eu esteja aqui rodeado de processos nos quais o patrão opressor sempre perde a causa para os empregados oprimidos, e é flagrante a diferença técnica entre os defensores das partes (os advogados dos patrões são muito melhores). É uma amostra viciada, reconheço. Mas mostra que nem todo juiz olha a conta bancária ou a fama das partes para decidir.

Deixando isso de lado, façamos a seguinte analogia: tem um cara tipo “armário 2×2” falando um monte de besteira a seu respeito numa festa, e sendo aplaudido pelos ouvintes. Você, um mirradinho de 1m60 e 40 kg, puto com aquela situação, faz o quê? a) vai lá e mete o dedo na cara dele; b) deixa quieto e vai chorar em casa; c) chama uns 30 amigos teus e parte pra porrada.

Se você escolheu a), tá mais que na cara que vai apanhar feito boi ladrão e periga ser ridicularizado mais ainda pelos presentes. Se escolheu b),  julgou-se impotente e sofrerá as consequências da sua passividade. Se escolheu a c), pode obter algum sucesso (desde que seus amigos sejam bons de briga e a comprem).

E é isso que as pessoas não entendem nessa parada de liberdade de expressão: quer falar, FALE. Tá tudo liberado. Mas segura o BO depois, ok? Não vai lá meter o dedão na cara do maluco (mesmo que você tenha razão!) e achar que ele, segundo a SUA avaliação, tem o dever de aguentar calado. Se ele agir assim, será POR MERA LIBERALIDADE dele, entende? Ele não é obrigado, e nem estará sendo canalha ou censor por revidar contra algo que ele considerou ofensivo, por mais que você esteja certo. Lembre-se: se ele pensasse como você, vocês não estariam discutindo. E ele, tanto quanto você, tem liberdade de expressão. Se você interditar a dele, a sua morre junto.

No que diz respeito à “parcialidade” da Justiça, um dado estatístico: 100% das sentenças são injustas. Duvida? Saia entrevistando os perdedores das ações e comprovará o número. A gente sempre tem razão, pena que o nosso julgamento próprio nunca é levado em conta. Puta mundo injusto.

Portanto, se você quer expor opiniões fortes na internet, fortaleça-se também pra aguentar as porradas vindouras, sejam elas na forma do contraditório (eu prefiro, mas às vezes não é suficiente), ou na forma de se defender de um eventual processo na justiça. O primeiro tipo de porrada você deve aguentar (se não, nem entra pra brincar); contra o segundo tipo, mostre seu texto a um advogado antes de publicá-lo, ou conheça a lei e os limites da liberdade concedida. Ou vá pra cima deles com sua turma. Isto não é censura, é jogar conforme a regra do jogo. Não gosta da regra? Lute para mudar a regra, mas ANTES de começar a partida. Não com ela em andamento, que isso é coisa de criança que não sabe perder.

O uso do termo “censura” em situações nas quais o que está ocorrendo é apenas o direito de defesa ou resposta pode ter um efeito contrário à liberdade que conquistamos a duras penas. Vai que aparece um doido querendo impor o “jeito certo” de pensar ou agir, e ai de quem pensar diferente. Eu já vi este filme e não gostei.

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38 Responses to Esse papo de “Censura!” não é brinquedo, não!

  1. Marina disse:

    Veniçils,
    eu dei rt no assunto do Tas processsando a moça e me arrependi um pouco, só um pouco, pq no fim das contas é bom que as pessoas saibam do que acontece e dá discussão. Mas não cometi o erro de dar rt no texto da moça. Fui ler e os argumentos não me convenceram, ela não foi nada racional, apenas é contra os cequecenianos e já nem sabe pq. Vai passar a vida tentando encontrar o motivo. Longe de mim, tomar partido em favor do Tas, eu sou daquela época em que ele parecia um cara legal, mas como muitos, me decepcionei e nem foi só pq tomei unfollow dele, até pq, qdo tomei unfollow dele, eu ainda achava que o mundo era um paraíso, que o twitter era cor-de-rosa e que o Tas era um fofo.

    Concordo totalmente com o que vc escreveu. Mas a minha questão enm sobre o que é censura ou o que deixa de ser, penso numa terceira coisa: estão judicializando a internet, a vida, o mundo – pelo menos os advogados estão bem e agradecem. Ninguém resolve mais nada sozinho, pra tudo chamam a turma, o depto jurídico inteiro, o advogado, a mamãe.

    Algum fenômeno aconteceu nesse intervalo entre ditadura e democracia, e sei lá pq viramos uns bosta. Até mesmo alguns dos que sentiram na pele, como vc bem disse.

    Somos uns fracos, não temos culhão pra aguentar nada. Não sabemos conviver e resolver as diferença nem dentro do casamente, depois de duas brigas, dá-lhe separação, somos incapazes de chegar num consenso sem ficar de mal pra sempre. E assim, criamos nossos filhos, uns fracotes, os protegemos de tudo e de todos. não As crianças resolvem nada sozinhos, não têm mais rua pra brincar pra solucionar pequenas perdas sozinhos como era antigamente, na pelada com meninos de todos os estilos: chato, malvado, pobre, rico, preto, branquelo, o japoneis, o ranhento, o encapetado e o filho da biscate ali da esquina. O convívio é cuidadosamente selecionado escolas particulares, amigos particulares, condomínios fechados, bem fechado pra quem é diferente. Hj, onde as crianças aprendem a lidar com as diferenças? E pior, na escola, tudo é pela agenda, pais vão na escolala pra resolver briga de criança, diretora liga pra dizer o que devemos fazer com os filhos, não sabemos decidir nem a porra do lanche das crianças, pq a nutrcionista decide isso por nós.
    Estamos formando uma geração de merdinhas Jr, que usam o conceito de democracia quando convém, sabem reclamar, gritar, pedir, responder, dizer tudo o que podem e o que não deveriam, mas na hora de assumir e resolver, chamam a mamãe e no nosso caso, o advogado.

    PS:Estou completamente enjoada, enojada. Experimente participar de reuniões na escola, nos condomínios, nas empresas, na faculdade e no escambau, tudo a mesma coisa. Uma gente ignorante, intolerante que não está ali pra resolver, ajudar, entender e melhorar, mas pra causar intriga, pra não admitir, pra não perder, pra não aceitar, pra botar obstáculo, pra ser contra.
    Ect, etc, etc e talz..
    beeeijo
    marina

    A Marina é uma boba, não quis comentar aqui e me mandou por email. Mas eu sou bem cara de pau e publiquei, porque tem muita coisa legal e eu não iria deixar de compartilhar com os amigos.

    • rafael disse:

      Opa, Vinícius, Marina, e aí.
      Eu estava acompanhando, de longe, a discussão, sem dar pitaco pra não falar besteira. Tinha mais dúvidas e questões do que respostas e posições.
      Mas sabe que a imagem que me veio à cabeça foi essa mesma? Acho que era no South Park, alguém achava alguma coisa ruim e repetia a pérola ad nauseam: “sue the bastards!” O que aconteceu? importamos o American way mesmo, não?
      O resto, aplausos. Só concordo. Folha x Falha, Gravata x Nassif, Tas x Lola… gente de tamanho e posições diferentes, mas nada pode se sobrepor à equidade.
      Abraços

    • renata disse:

      gostei demais do comentário/email da marina. vejo a mesma coisa. sou professora universitária há quase 10 anos e, nesse pouco tempo, já consigo observar o quanto estamos – não apenas os jovens – cada dia menos donos das nossas vidas. não nos responsabilizamos por nada e diante de qualquer problema ou procuramos um culpado externo ou alguém prá resolver, nunca olhando para nossa própria responsabilidade diante da vida. acho que isso faz parte do que a marina chamou de judicialização da vida.

      A Marina é uma LINDA e quer esconder as coisas LINDAS dela dos outros. Mas eu não deixo.

  2. Mario menezes disse:

    Só uma coisinha: Perfeito!
    Parabéns velho.

  3. Você está certo, a Lola está certa e o Tas, bem o Tas tá se fazendo. Ao ameaçar “confessa” no mínimo a sua omissão em assunto tão cabeludo. Opa, cabeludo não…

    A Lola tá certa em dizer que está sendo censurada? Com o post lá, publicado, e com direito a publicar OUTRO, mais virulento ainda? Esqueceu o que é censura, mano? E eu tô certo, a Lola tá certa e o Tas tá “se fazendo”(que deve ser qualquer coisa, menos estar certo)? Esse é o problema: as pessoas tomam partido, e se porventura a justiça decidir contra o seu predileto, ela é a errada.

    • Lola está certa em não ficar calada, e reclamar da forma como o Tas a “ameaça” de processo. Ele pode falar as merdas que quiser e desejar mas também tem que “ouvir” os que discordam. Não tenho lados nisso é por isso que todo mundo está certo, até o juiz ou promotor que recusar o tal processo por, no meu modo de ver, conta da importância ou relevancia do tema. O judiciário tem mais o que fazer cacete.

  4. Diego Pereira disse:

    Acho esse pessoal que adora processar os outros ou que ameaça processar por qualquer coisinha (Juca Kfouri, Milton Neves, PHA, Marcelo Tas, Nassif, Rica Perrone, etc), um bando de frescos. Falam mal de uma porrada de gente e quando são criticados ameaçam com um processo na cara. Parecem a criancinha que diz: “vou contar tudo para mamãe” ou “vou contar tudo para tia”.

    E o Tas que defendeu o José Simão e desceu o pau na Juliana Paes por causa do processo dela contra o Simão agora posa de vítima e quer processar os outros.

    A Justiça tem coisa mais importante para se preocupar.

    Bem, eu acho que deixei claro no texto que prefiro o debate, mas algumas vezes isso não adianta muito. Não falo sobre este caso específico. Veja, por exemplo, o caso Chapaulinho. Faz o quê com aquele sujeito, Diego? Fica debatendo, trocando “idéias”? É foda, nego.

    • Diego Pereira disse:

      Mas casos como o do Chapaulinho são diferentes desse. Ele não só emite as opiniões esdrúxulas dele, como também faz acusações graves e sem provas. O e-mail enviado por você do Ronaldo e Andrés na noite carioca antes do jogo da Libertadores prova que ele é asno e desonesto. Aquilo sim mereceria um belo processo.

      Nesse caso da Lola com o Tas e de outros que eu citei, uma pessoa fala: “você é covarde.” e lá vem um processo no sujeito. O dono da CBF é mestre nisso. Apesar de não morrer muito de amores pela mãe de cuecas do Chapaulinho, acho uma puta sacanagem quando ele é processado pelo Ricardo Teixeira por falar que é um mal para o nosso futebol.

      Ê, Diego! Você bota “covarde” pra aliviar a barra da Lola, falaê! E se colocar FASCISTA (tem lá, pode ver!), não rola um 139? Sim, é filhadaputagem do RT processar o JK por ele dizer que o RT é um mal pro futebol, mas SÓ isso não garantiu ao “Barão de Munchhausen” nenhuma vitória nos tribunais.

      • Diego Pereira disse:

        Não tô aliviando a barra de ninguém. Continuo achando uma frescura a ameaça do Marcelo Tas. Quem tá na chuva é para se molhar, diria um ex-presidente do Curintia. Se quer processar, que processe. O Marcelo Tas bate em deus e no mundo e agora aquente o tranco das críticas.

        O presidente disse que quem tava na chuva era pra se queimar. 😛

      • Carlos disse:

        R.I.P, grande Vicente Matheus.

  5. Raphael disse:

    Opinião curta e rápida: as críticas da autora podem ter soado exacerbadas, mas foram todas fundamentadas e justificadas pelo comportamento do próprio apresentador. Se você analisar o contexto em que a opinião foi colocada, verá que em momento algum foi imotivada. Segundo ponto: ele fala em “calúnia”, sendo que o tipo penal nem preenchido foi. Calúnia é a falsa imputação de um crime: no dia em que misogenia for crime, estamos perdidos!

    Claro que tem de haver limites para a opinião: seu direito acaba quando começa o do próximo. Mas o fato é que há muito alguns membros do CQC vem exacerbando nessa mania insuportável do “politicamente incorreto”. Não dá pra esperar uma reação elegante de todo mundo. ele, como pessoa pública, e que lida com o público, deveria saber disso melhor do que ninguém.

    Raphael, pensa comigo: se fosse a Lola a querer processar o Tas por (insira aqui o tipo penal), qual seria a reação da galera que hoje MALHA o cara? Quando o Nassif processou o Gravataí Merengue (com direito até a expor o endereço dele no blog), o que mais se lia lá era “issaê, bota esse fidumaputa na cadeia!”. Gravataí GANHOU o processo. O que Nassif falou sobre isso? N.A.D.A. Quanto ao erro na tipificação penal: ele não é advogado, e as pessoas usam a palavra “calúnia” no lugar de “injúria” ou “difamação” com bastante frequência. Mas sobre o centro da questão: houve alguma censura contra a Lola pra ela botar aquela imagem no blog e fazer esse estardalhaço todo?

  6. […] Continue lendo em https://comfelelimao.wordpress.com/2011/06/03/esse-papo-de-censura-nao-e-brinquedo-nao/ […]

  7. Raphael disse:

    Esse é o ponto: ela não pode processar qualquer pessoa por ser misógeno, arrogante ou o raio que o parta. Desvio de personalidade, seja qual for, não é crime (deveria para algumas pessoas, mas fazer o que)… Nem mesmo uma ação cível poderia ser impetrada, já que não houve qualquer menção direta a ela.

    Aí caímos no dilema que você mesmo apontou: ignorar ou bater de frente? Ignorar é fácil, cômodo, e convenhamos, muito mais seguro. Mas nem todo mundo pensa assim. Eu mesmo não penso assim, e sou um dos que já está de saco cheio com esse diogomainardismo exagerado que temos visto por aí. As pessoas chocam pelo bel prazer de chocar. Aí, quando alguém se levanta contra elas de forma mais exacerbada… processam. É a “trollagem” sendo elevada à enésima potência.

    Eu preciso confessar que tem horas que preciso contar até 10 para não sair falando besteira. Vai ver que, por ser advogado, eu tenho consciência das consequencias dos meus atos, e aí, o freio moral fala mais alto sobre o frenesi de discordar de alguém.

    Sobre o erro na tipificação penal… Bem, ninguém é obrigado a saber de fato. Mas é sempre bom procurar saber pra não passar vergonha ou passar pelo ridículo de falar besteira, né?

    Foi o que eu disse: o Tas tem o direito de expressar a idiotice dele, a Lola tem o direito de expressar a indignação dela. Quem se sentir ofendido, que resolva do jeito que achar melhor.

    • alice disse:

      Ué, mas o ponto do Raphael foi justamente esse: não existe remédio legal pra impedir a galera do CQC de expressar misoginia e desvio de personalidade (aka falar merda). Mas eles estão usando a via judicial para calar aqueles (a lola, no caso) que criticam as coisas q eles falam.

      Quando ele diz q vai processa-la se ela não retirar do blog que ele se posicionou (como ele, de fato, se posicionou) contra a amamentação em público (e ainda fez troça da figura feminina), ele está censurando o blog dela, sim. É negar oq ele fez e obrigar que o mundo concorde. Ele pode mentir pra si mesmo e para seu público patético de que oq ele fez e disse n tem nada de errado, mas ele n pode esperar q o mundo pense assim tb.

      Espero sinceramente que o judiciário não acolha o pedido dele, mas se o fizer estará dizendo para o mundo: “o cqc pode falar oq bem entende e ninguém pode criticá-los”.

      Em tempo: creio que, como boa parte das pessoas que simpatizam com o socialismo, a lola usa sempre o termo fascista no sentido de “autoritário” (assim como o nosso ministro Haddad, republicado pelo Estado de SP: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,criticos-adotam-vies-fascista-diz-haddad,726461,0.htm ). Não creio que seja calúnia. Até porque fascismo com a conotação de doutrina política (nazismo, etc) nem tipificado no nosso CP está.

      Quanto à injúria/difamação, vamos ver oq o juiz acha… Há juízes e juízes… há machismo no judiciário. Há quem pense que rir de mulheres feias e defender a amamentação dentro de banheiros públicos não seja machista ou imoral. Se a pessoa acha q isso é normal, realmente vai dizer que a honra do sujeito foi maculada. Só me pergunto onde está essa dignidade toda…

      Alice, eu tuitei outro dia: Se os debatedores da internet se preocupassem menos em desqualificar o oponente e mais em desmontar suas teses, ninguém era processado. Não existe remédio legal para interditar o direito de ser imbecil, e AGRADEÇA por isso. Se você cala um imbecil, um outro imbecil no poder pode achar que você deve ser calada.

      • Wagner disse:

        Concordo Vinícius… acho q no caso, ela desqualificar o Tas não desmontou a tese (q aliás nem sei se é dele) sobre a amamentação e de quebra deu o direito à ele de processá-la… o q há de censura nisso é o q eu não entendi…..
        abraço

  8. @brevidades disse:

    Tem uma coisa que vc não levou em consideração: toda vez que algum político se sente ofendido pelo CQC e ameaça de processo, o Tas é o primeiro a gritar “censura!”. Boa parte da repercussão desse bate boca com a Lola foi por conta dessa incoerência. Como vc mesmo diz, tanto o Tas quanto a Lola (e até o Bolsonaro) podem falar o que for; só que tem que aguentar o tranco depois.

    Daniel: que eu saiba, houve UMA vez em que o Tas usou a palavra “Censura!”: foi quando alguém conseguiu uma liminar na justiça e impediu um quadro do CQC de ir ao ar. Ele não impediu a Lola de publicar o texto dela, inclusive ela ESCREVEU OUTRO, batendo mais ainda nele. Se ele conseguir retirar as postagens, a gente volta a conversar sobre o assunto.

  9. Adorei o post. Eu falei no twitter que justamente pelo fato de o Tas ser… bem, aquilo que ele é, não haveria necessidade de ser tão virulento quanto a Lola foi. Eu tenho muito respeito por ela, mas raramente concordamos, e meu modo de discutir é diferente, vc sabe. Acho desnecessário (e ficou meio carne de vaca, convenhamos) chamar alguém de “fascista” e afins. Não precisa. Quando a pessoa é suficientemente equivocada e autoritária como é o caso do Tas, partir pro ataque pessoal é fazer o jogo da pessoa. Mas essa é a minha opinião. cada um critica como bem lhe aprouver – e responde pelo tom da crítica também.
    Só discordo quanto à hipocrisia do Tas: acho que ele foi hipócrita na acepção pura do termo sim. Muita gente também é? Sem dúvida. Mas isso não o torna menos hipócrita, só o coloca em companhia de outrem 😉
    Mais uma vez parabéns pelo post.
    Beijos

    Flavia

  10. @hugocao disse:

    Eu acho que vocês tão focando muito na palavra censura e esquecendo a questão principal. Acho que o que doeu na Lola não foi o Tas tê-la “censurado”. Foi a forma hipócrita em que ele, apresentador crítico de língua ferina, que não perde tempo em criticar e ofender as pessoas, vir se doer e ameaçar processá-la. Tá certo que ele como todos tem o direito de se defender, mas, na minha humilde opinião, é a mesma coisa de um político corrupto chamar o outro de ladrão.

    E eu acho que você não viu o 2º post dela sobre o Tas/CQC, pois foi ilustrado com uma imagem bem grandinha, preta, onde se lê a seguinte palavra: “CENSURA!”. Também não deve estar acompanhando a AVALANCHE de tuítes dizendo que ela está sendo CENSURADA pelo carequinha.

  11. Gisele disse:

    Vinícius,

    Quase sempre, boto a maior fé nas coisas que tu escreve. Mas, neste caso, discordo em um ponto, que, em princípio, nem é o tema principal do post.
    (Confesso que nem fui atrás para saber o que um falou do outro nessa história, porque, afinal, essa é só “a polêmica da semana no Twitter”, que sempre rola entre algumas pessoas pessoas que acompanham os Twitters de certas pessoas. Whatever…)

    Minha discordância é mais “filosófica”… em relação ao que tu disse no fim do texto… sobre “tentar mudar a regra antes de começar a partida”.
    Na minha opinião… levando isso a sério… a Bastilha não teria caído, a ditadura no Brasil não teria acabado, uniões civis homossexuais não existiriam de fato antes de o STF “dizer que pode”, as pessoas não poderiam se “sentir no direito” de fumar maconha quando quisessem… enfim… nenhuma revolução seria legítima… Gandhi teria sido um mané e Thoreau não faria sentido.

    Sou totalmente contra essa ideia de que “só o Direito salva”.
    Beleza… o Direito é uma boa e útil invenção humana (como tantas outras e, nem de longe, é a mais importante) e existe para, em última instância, mediar nossos conflitos de forma proporcional (justa, enfim).
    E, embora vivamos, sim, uma democracia representativa – que, em princípio, corresponde às nossas vontades e escolhas enquanto cidadãos -, sabemos que o processo legislativo nem sempre “inspira e transpira” legitimidade.

    Também não estou dizendo que, por o sistema ser imperfeito (reflexo das nossas próprias imperfeições como seres humanos), a gente deva “enfiar o dedo nessa porra” (embora pudéssemos, se quiséssemos).

    Só estou dizendo que a maior parte da vida ocorre mesmo à margem da Lei. (E que isso é normal, é saudável e, principalmente, totalmente legítimo.)

    Obs.: Por favor, só publique meu comentário se tu não for me esculhambar muito na tua resposta.

    Abraço.

    Gisele.

    Desobediência civil. Thoreau, Direito da força e a força do direito. Também acredito nisso, mas falta Gandhi nessa terra. E é por medo dos “Gandhis” que escolhem por aqui (tipo Marcelo Tas, Rafinha Bastos, Bolsonaro etc.) é que eu prefiro que fique como está. JAMAIS te esculhambaria (posso, sei lá, te processar, quem sabe…) 😀

  12. FerBalestra disse:

    Olás.
    Primeiramente… sim e não. 🙂

    “Sim” porque de fato não se trata de censura. O termo está errado mesmo.

    Mas “não” porque em momento algum achei que o ponto principal era o termo ou o significado estrito da palavra. (e digo isso de minha parte, sem querer defender a Lola, que sequer conheço e acho que nunca havia lido)

    O problema, e achei ser disso que o texto dela se tratava, é o cara viver de um programa que se baseia em tentar humilhar outras pessoas, mas ficar nervoso e ameaçar quando foi criticado (acho que me encaixo no primeiro argumento que você citou, ao que parece).

    Aliás, pensando bem, se ele achar que deve processar, que processe. Mas ir lá dizer que vai processar para ela aprender (não lembro as palavras exatas), só mostra a canalhice, a meu ver.

    Enfim, era isso.
    Abs!

    FerBalestra, se o ponto principal não é o termo ou o significado estrito da palavra, por que a Lola ilustrou o 2º post com uma plaquinha “censurado”? Abs.

    • FerBalestra disse:

      Para mim isso só diz que ela ilustrou o texto justo com a palavra errada que escolheu.

      Meu ponto é que, PARA MIM, o que importa ali é a idéia da incoerência, independente do termo usado. E que se pegar na questão da “censura” é dar atenção demais a um detalhe (ainda que correto), e olhar menos para o todo.

      Mas, anyway, não acho que você está errado. Só tentei dar um pitaco da minha visão.

      Abs

      Sim, como ilustrar uma matéria sobre o goleiro Rogério Ceni com a foto do Marcos. Os dois são goleiros, e o que importa é a posição, né? Pergunta se os sãopaulinos vão curtir.

      • FerBalestra disse:

        Certamente não, mas a comparação me parece completamente descabida.

        Mas ok, e obrigado pelas respostas.

        Abs

  13. FerBalestra disse:

    Mas obrigado pela visão de Bolsonaro e Tas na mesma frase, no comentário ali de cima. Não quer dizer nada mais profundo, mas foi legal. 🙂

  14. FerBalestra disse:

    (prometo que é o último por hoje)

    Por conta desse post acabei lendo um monte de outras coisas do blog (que não conhecia). E queria registrar que apesar de não concordar com este, o blog é muito bom! Abs

    Valeu, muito obrigado. Tá meio paradão, mas de vez em quando a gente solta umas bobagens. Abs.

  15. Patricia Canarim disse:

    Acompanhei sua discussão e do JHCordeiro no twitter, sem dar minha opinião, justo pois não consegui ter algo formalizado. Esse texto me esclareceu muito. Mas, confesso q minha já formada opinião do TAS me faz discordar dele de cara e concordar com a Lola. E sim, censura, é bem diferente de processo. Mas, não concordo com o processo movido pelo Tas.

    Patrícia, eu também não concordo, acho uma bobagem. Mas isso não faz com que o Tas perca o DIREITO dele de processar a moça.

  16. Ades disse:

    Vinicius

    Muito bom o texto. As pessoas em geral, não entendem que seus direitos terminam onde começam os direitos dos outros. O que mais me irrita é que não conhecem ou fingem não conhecer seus deveres, mas por qualquer besteira já saem gritando por seus direitos.
    Já passei dos 40 e me lembro destes cartazes no inicio de cada programa de tv, até mesmos “inocentes” desenho animados da dupla Hanna e Barbera.
    O mundo tá ficando um pouco chato. Quando era garoto chamava um colega de rua de “negão” e os outros me chamavam de “alemão” em função dos cabelos louros, hoje isto já não é possível. Com certeza vai ter alguem querendo me processar por chamar meu amigo de infancia de “negão”, mas ele não era branco, era negro! Qual a ofensa? E por que eu poderia ser chamado de alemão, só por ter cabelos loiros?
    Como disse a Marina, nossos filhos já não sabem se defender. Quando era menino, se não concordava com o gol do adversário, brigava, discutia e às vezes convencia os outros de que o mesmo não valia. Era tudo ali, sem adulto, advogado etc…, aprendi a lutar pelo que queria, e aprendi tambem que nem sempre estava certo e até a me desculpar.

    De qualquer forma parabens pelo post. Essa molecada de hoje não tem idéia do que é censura, ou ouvir todo domingo na hora do almoço uma dupla cantando na tv “Eu te amo meu brasil”.

    Abraços

    Marcos (aqui não preciso ser Ades, rs…)

  17. […] do Cão, pois não tenho como pagar bons advogados -, não se pode falar em “censura”, como bem lembrou o Vinícius Duarte. Afinal, o texto dela que originou a discórdia continua “no ar”. Assim como ela não […]

  18. Wagner disse:

    p…. velho, legal bagarai esse blog… concordo completamente com seu post e com o comentário da Marina ai acima também…
    tem umas “piadas” do cqc q considero à la Adnet, sem noção e sem graça porém acho q é como vc mesmo disse, a liberdade de expressão têm limites e quem ultrapassá-lo deve arcar com os prejuízos…
    abraço

    Obrigado, volte sempre.

  19. André disse:

    Muito bom o texto, como de costume, ou melhor, como raramente. Sugiro apenas que ponha negrito além do itálico no “opiniões fortes”, pois numa leitura rápida pode ficar parecendo que você está defendendo a judicialização da internet.

  20. André disse:

    Um adendo. Acho correto que, ao fazer um post denúncia contra alguém, se procure um advogado para não incorrer em crimes cujo post não comprove ou ao menos forneça indícios fortes. O papel do advogado nesse caso seria impedir a extrapolação ou ilações. Porém, é odioso e covarde quando o papel da consultoria jurídica se presta a escamotear a denúncia de forma que permita a agressão sem provas, ao mesmo tempo que evita a responsabilização judicial pelas ilações feitas.

  21. Luiz disse:

    Amigo, me deculpe se eu estiver escrevendo bobagens. No caso da imitação da Bethania pelo Didi não consigo ver “crime”. Não se trata da riducularização da cantora e sim uma “teatralização” da letra da música. Se for por este caminho, todas a “imitações” de cantores é “crime”, muitas vezes as imitações são humoristicas, ressaltando-se os trejeitos do imitado.
    Não sei, será que não se mistura a pessoa física com a “jurídica” no caso?
    Um abraço.

    Quem falou em crime no Bethânia/Didi? O Falha de SP foi acionado na esfera CIVIL (por uso indevido de imagem e violação de propriedade intelectual). Usei o vídeo do Didi pra efeito de comparação com o caso Falha (são duas paródias), não contra eventuais excessos verbais da Lola contra o Tas que, aí sim, podem configurar crime contra a honra (arts. 138, 139 ou 140 do CP). Abraço.

  22. Clovis disse:

    Mais uma vez um belo post Vinicius!

    Após ler o seu argumento, dei uma lida nos posts da Lola e achei que ela não pegou tão pesado não, na questão em si (amamentação) eu concordo com ela…

    Grande Abraço!

  23. Fábio disse:

    Tenho trabalhado sobre o termo, responsabilidade de consciência. Esta é a mais difícil de lidar. O doutorado mais árduo de qualquer ser.

    Segue a abaixo meu texto para ser avaliado e submetido a intersubjetividade de outras perspectivas, de outras leituras e talvez uma possível proximidade com o assunto em que trabalho.

    http://diariodeumontico.blogspot.com/2011/09/se-eles-se-incomodam-e-voce-tambem-e.html

  24. […] do Cão, pois não tenho como pagar bons advogados -, não se pode falar em “censura”, como bem lembrou o Vinícius Duarte. Afinal, o texto dela que originou a discórdia continua “no ar”. Assim como ela não […]

  25. Joenio Alano disse:

    Quando era garoto, me divertia,muito com essa sensura federal..era muita expectativa antes de um filme..
    As vezes era retirado da sala pelo hipocrita do meu pai, que fazia as coisas erradas as encondidas..

  26. Eu concordaria com você se a Folha tivesse entrado com uma ação contra a Falha por se sentir ofendida pela sátira. Mas a desculpa do roubo de propriedade intelectual não cola. Por isso eu acho que a Folha está errada. Chamar de censura é demais, mas acho que a Folha está errada no jeito que está conduzindo o processo.

    Achar que a FSP tá errada eu também acho. Mas meu juízo nada importa no caso, pq quem se sentiu ofendido (patrimonialmente pelo “uso indevido da marca”) foi ela. E ela tem, independentemente do que achemos, direito a exigir a reparação.

  27. Sergio Ferreira disse:

    Aparício Torelli, o Barão de Itararé, salvo engano, criou um jornal satírico no RIO, chamado “A Manha”, que parodiava um jornal da época, “A Manhã”
    Hoje, isso seria impossível, assim como hoje seria impossível existir um Sabin disponibilizando sua vacina contra a paralisia infantil.

    Os tempos são outros, o “direito de marca” ou “de propriedade” se impôs no mundo e as regras são outras.

    Tô meio bebum, aguardando o jogo do FLU, mas acho que passei alguma mensagem, não?

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