Intelectual de esquerda, o filho enjeitado do Lulismo

 

 

Primeiramente, quero deixar claro que não tenho nada contra intelectuais e acadêmicos, inclusive tenho amigos que são.

O vídeo acima é o registro da participação de Vladimir Safatle no debate “A Ascensão Conservadora em São Paulo”, realizado na USP. Marilena Chauí também participou, e classificou a sociedade paulistana, em especial sua classe média, como “protofascista”. Mas deixa a Chauí pra lá, meu papo é com o Safatle.

Vladimir alicerçou sua fala no surgimento de um “filho bastardo do Lulismo”, que seria um neoconservadorismo oriundo de fatores como alianças políticas heterodoxas, fortalecimento de programas assistenciais e aumento de renda que gerou inclusão social pelo consumo. Pode-se concluir, portanto, que o apoio maciço da população ao PT demonstrado nas últimas eleições seria um apoio tão fisiológico quanto o apoio que o PRB do Russomanno dá ao PT nas votações do Congresso. Não haveria um componente ideológico na adesão popular ao PT. Desta parte eu não tenho muito o que discordar. Ideologicamente, o Brasil não mudou quase nada com a ascensão do PT.

Mais adiante vêm os pontos nos quais eu gostaria de meter minha colher de pedreiro: Safatle fala em “quebra da hegemonia cultural da esquerda no Brasil”. Olha, eu tenho quase 50 anos e nunca identifiquei essa hegemonia, mas ele (e seus pares) identificaram. É fácil explicar o motivo da discórdia: eles são intelectuais, eu não.

Intelectuais, em sua maioria, vivem em um mundo apartado da realidade concreta da maioria das pessoas. Isso não é uma crítica, é assim que deve funcionar. O pensador/intelectual deve cometer seus pensamentos/intelectualidades olhando as coisas do alto, para que enxergue o todo e tenha grandes sacadas.

Mas esse distanciamento (necessário) tem efeitos colaterais: um deles é que intelectuais ficam tão isolados nas suas casinhas conversando somente com outros intelectuais (por corolário, todos pensando muito parecido), que acabam criando uma fantasia de que o mundo seria melhor se todos pensassem como eles, e que eles sabem o que é melhor para o mundo. Afinal, se eu sou mestre e o PhD concorda comigo, quem é o pedreiro pra dizer que eu tô errado?

Outro ponto (que acaba sendo meio que consequência do anterior): como a academia brasileira tem como marca a luta travada contra contra a ditadura militar nos anos 60/70, intelectual no Brasil já vem com “de esquerda” embutido no título. Não há intelectual “de direita” reconhecido entre nossas cabeças pensantes. Vejam que Safatle, lá pelos 6 min. do vídeo, associa as hediondas discussões morais suscitadas nas campanhas eleitorais recentes com um “antiintelectualismo ferrenho”. Ora, a riqueza do debate de idéias e a difusão para a sociedade aparece com intelectuais contra e a favor do tema suscitado, seja ele até uma discussão sobre casamento gay, aborto, ditadura etc. Isso não acontece no Brasil, porque está definido que o intelectual-padrão deve sempre estar de um dos lados (não preciso dizer qual), e quem estiver no oposto não é digno do título.

Essa falta de dicotomia no discurso intelectual no Brasil acaba dando margem ao aparecimento de caricaturas do tipo Bolsonaro para compor o outro time, pois esses temas conservadores/morais são, sim, de interesse da população média. Eles discutem isso no bar, na feira, no ônibus, na igreja. O que ocorre é que, contra opositores tão toscos, os intelectuais acabam desistindo da discussão. E como o discurso das tosqueiras é de fácil assimilação, vence por WO e se dissemina pelos bares, feiras, ônibus e igrejas. O ciclo se repete, há anos, e acabou por transformar o país num lugar MUITO conservador. O “país da FFLCH” é liberal, o Brasil não é. E, sinceramente, neste quase meio século, nunca foi.

Bem, mas e o Lulismo? Safatle identificou que, para Lula governar como governou (com alianças e inclusão pelo consumo) e receber esse apoio popular maciço (ainda que fisiológico), optou por afastar os intelectuais (de esquerda) do seu rol de colaboradores, uma vez que eles não são adeptos desse método. Sim, nisso ele também está correto. Lula enjeitou os filhos acadêmicos do PT. Mas não foi o ato de enjeitá-los que tornou a sociedade brasileira esse angu de caroço moralista, ela JÁ ERA ASSIM. E, em grande parte, porque a própria academia brasileira interditou e empobreceu o debate desde sempre, não dando vez e voz aos divergentes de suas teses, além de restringirem-se a seus guetos.

Outra coisa que o Vladimir também não percebeu é que Lula, depois de 25 anos ouvindo os intelectuais (e aprendendo muito com isso, justiça seja feita), viu que o projeto deles até era de um Brasil bem bacana, mas que não tinha a menor possibilidade de ser implantado. Viu FHC sair da academia para o governo e mandando todo mundo esquecer o que ele escreveu.

Lula disse “ó, pra chegar lá, só se for assim”; os intelectuais não curtiram. Pior, disseram que assim não dava, que as coisas não mudariam nada. Só não conseguiram convencer o povo de que aquilo tudo que eles sentiam e viam de mudança na vida deles não era real, pois o discurso “nóis vai” do Lula ou o “porrada neles” do Bolsonaro a população brasileira entende facilmente; o “epifenômeno” do Safatle nunca lhes foi ensinado. Essa função era dos intelectuais, mas eles preferiram usar seu tempo pra conversar entre si e mostrar uns aos outros o quanto eles eram geniais.

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14 Responses to Intelectual de esquerda, o filho enjeitado do Lulismo

  1. Vinícius, você incluiria entre as “caricaturas” que representam o pensamento de direita caras como Mainardi, Coutinho e Pondé? Ou acha que eles podem ser considerados como intelectuais conservadores? Caso não considere, você identifica algum pensador mais à direita minimamente sério no Brasil?
    Abraço.

    Pô, o Mainardi nem intelectual eu considero. O Coutinho é português, não é? O Pondé é muito fraco, tão fraco como muitos que brilham “do lado esquerdo”. Eu não me lembro de nenhum, exatamente porque a academia brasileira sufocou o surgimento dessas pessoas. Mas não sou parâmetro pra nada, haha. Abraço.

    • O Coutinho é português mas, salvo engano da minha parte, radicado no Brasil, por isso o inclui na lista.

      • Kadu disse:

        Acredito que dentre os intelectuais de direita no Brasil, o mais importante e talvez o único que pensou num Projeto de Nação ultra conservdora foi o Moralizador Social Andrade Neto.
        Todo o legado Andradino vai no de contra ponto ao Lulismo e nos mostra o outro lado da moeda que é tão certeiramente abordado no texto.

  2. A análise do Safatle é, basicamente, a que venho fazendo há meses, quiçá mais de um ano (não a parte da hegemonia, apenas teu terceiro parágrafo), e estou logne de ser intelectual e/ou relevante… Vamos ver se com ele falando – os governistas a-d-o-r-a-m o cara (ou adoravam, dada a volatilidade seletiva das paixões governistas, vide o ódio recente ao Joaquim Barbosa) – a cosia anda.

    Aliás, se me permite, um trecho do que já escrevi sobre o assunto (em janeiro de 2011!):

    “Lula e o PT promoveram política de inclusão social, de elevação da renda e, efetivamente, tiraram muita
    gente da pobreza e levaram uma boa parte da população à classe média. Mas tudo isto sem crítica, sem necessariamente levar educação básica, crítica social. Todo este processo se deu dentro do marco do consumismo desenfreado.
    O Brasil efetivamente escapou com louvores da crise mundial, mas o preço foi incentivar o consumismo desenfreado. A escensão social se deu apenas através do bolso e não, também, através de um processo de conscientização, de formação de pessoas críticas ou minimamente prontas para serem atores sociais relevantes.
    No fim, foi engrossada a classe social de cidadãos acríticos e conservadores. engrossamos a fileira daquela classe média consumista, alienada politicamente e pronta para continuar a ser massa de manobra de organizações evangélicas, dos meios de comunicação golpista.
    O acesso foi dado à nova classe média sem que, porém, lhes fosse também dado o poder de crítica, que vem somente com educação, com a proximidade aos movimentos sociais, com a noção de que sua situação era reflexo do capitalismo.”

    http://www.tsavkko.com.br/2011/01/o-governo-lula-vitima-de-suas-proprias_02.html

    Falando sobre seu texto, o parágrafo sobre a tosqueira ganhar de WO é impecável. A intelectualidade – de esuqerda – ficou muito confortável em seu lugar, deixando (ou esperando) que o povo absorvesse sua superioridade. Não absorveram. De fato estamos experimentando talvez não um crescimento do conservadorismo, mas vendo o conservadorismo – mesmo o mais tosco representado pelo Bolsonaro e outros – ganhar força, ganhar mídia. Oras, a renda cresce, o poder da classe cresce. Ela aparece. Claro que alguns acabam aderindo por convencimento, oras, os intelectuais estão numa redoma, mas a direita radical está nas ruas, está na TV.

    O PT no poder deu VOZ e ESPAÇO para os mais radicais de direita, para os conservadores. concordo integralmente com seu texto!=)

  3. Emil disse:

    Cara, sou cria da USP, e gostei muito do raciocínio desenvolvido no seu texto.

    Uma porque é real, a gente tende a superestimar muito nossa importância. Outra é mais real ainda, a gente não consegue descer do pedestal e conversar no bar, na igreja, no ônibus. Eu mesmo tenho uma puta dificuldade, a maior parte do tempo prefiro ficar quieto e ouvir. E ainda me considero raridade, por causa dessa parte de ouvir.

    Outra, que vale tanto pra os intelectuais (os supostos e os de verdade) quanto para boa parte da esquerda. A gente só consegue debater com quem é 100% parça (favor enxergar um TM voando aí). Porra, no twitter galera te acusou de botar palavra na boca do Safatle, só porque você pegou o raciocínio dele e extrapolou pra outra situação — e fez muito bem feito, repito.

    Temos chance nenhuma, pelo andar da carruagem. Vamos nos isolar no nosso cantinho até nos tornarmos completamente desnecessários, e se sumir, ninguém vai sentir muita falta (meio o que a USP já é hoje).

  4. Fred Rosas disse:

    intelectual de direita o último que eu lembro é o Roberto Campos… depois dele não apareceu mais ninguém só o anti isso ou anti aquilo ou os que só criticam por criticar, quando puderam fazer alguma coisa não fizeram… Lula não chegou a abandonar totalmente os intelectuais do PT, tanto que o Mantega foi e continua sendo Ministro, ele criou aquele conselhão de notáveis, que se reunião só para fazer masturbação sociológica, como diria FHC rsrs, na minha forma de pensar houve sim uma diferença entre o governo de FHC e de Lula, enquanto FHC combatia as crises externas com arrocho e empréstimos exteriores o governo Lula priorizou o consumo e o crescimento, mas para encerrar, debate de intelectual só serve para uma coisa, curar insõnia rsrs abração.

    PS: Não abandone aqui como você abandonou o NCDJ seu ponto de vista é sempre interessante para nos fazer pensar e refletir.

  5. Leonardo disse:

    Vinícius virando reaça?

    xD

  6. André disse:

    Sou da área de exatas, no meu meio impera uma direita cada vez menos envergonhada.

  7. André disse:

    Na minha cidade natal tinha um cara com hanseníase que vagava pelas ruas usando andrajos e carregando um saco imundo nas costas. Ele ia muito no boteco que eu frequentava para filar pinga. Nunca conheci alguém mais conservador e reaça que ele, nem o RA ou o Bolsonaro.

  8. qualquergordotemblog disse:

    Onde é que eu assino, Vinicius?

  9. Hiran disse:

    Ignorante sobre o tema como sou, lembro do que um personagem de uma HQ (nada menos intelectual do que esta “arte menor”) do Alan Moore disse: “A revolução é coisa de intelectuais da classe média, o povo quer é dinheiro e comida”.
    A maior parte do povo não sabe distinguir direita da esquerda, eles têm um pouco de cada um deles nele, sem entender nada de teorias ideológicas…

  10. marianna disse:

    Vinícius, visito seu blog há um tempo, mas nunca comentei. O texto me motivou a fazê-lo pela primeira vez. Peço licença para discordar:

    Primeiro eu quero sinalizar que não discordo da afirmação de que os “intelectuais, em sua maioria, vivem apartados da realidade concreta da maioria das pessoas”. O que eu discordo é da sua argumentação para concluir isso. Não se trata de “defender” o Safatle, porque nem estou plenamente de acordo com essa tese “do filho bastardo do lulismo”. Tenho sinceras dúvidas se de fato o “fenômeno” Celso Russomano é tão distinto da nossa velha tradição conservadora, como ele insiste.

    Para discordar, vou ao núcleo do seu argumento: não houve hegemonia cultural de esquerda, e Safatle só enxerga isso por estar distante da realidade. Eu penso que a hegemonia que Safatle se refere diz respeito a um dado momento da cultura brasileira ali entre os anos 60 e 90, onde era possível ver “música de protesto” tocando no rádio e lotando os grandes festivais. Onde, como ele próprio assinala em outro texto, “era possível achar marx na banca de jornal”. É a cultura brasileira do teatro de Boal e da tropicália. E, veja, um artista fazia música falando sobre fome, sociedade e coisa e tal e era disputado por gravadoras. Isso seria chamado de panfletário hoje.

    Hegemonia não quer dizer maioria, muito menos, claro, o todo. Mas quer dizer consenso. E em toda parte do Brasil, a chamada MPB é consenso e ela emergiu em meio a uma ambiência de esquerda. Acho que é disso que Safatle fala. E nesse ponto concordo com ele. Mais: uma boa parte daquela produção que é reconhecida como “nossa cultura” – historicamente e para a formação de uma identidade brasileira -, seja de literatura, teatro ou música, vem desse período e é fruto dessa ambiência. Nesse ponto, estou de acordo com Safatle.

    Sobre a falta de dicotomia entre intelectuais de esquerda e não de esquerda no Brasil, acho que tem mais elementos do que vc colocou. Primeiro: Safatle só reconhece um “antiintelectualismo ferrenho” porque para ele o que é de direita não é intelectualismo. O pensamento de esquerda, pautado na dialética, não abre brechas para certas discordâncias. Filho bastardo no racionalismo. O outro ponto que vejo é: essa “não existência de intelectuais de direita” pode ser até uma realidade da USP, mas te garanto que não é do resto do Brasil. Até concordo que a “academia brasileira tem como marca a luta travada contra contra a ditadura militar nos anos 60/70”, mas isso já mudou e faz tempo com a morte do Partidão. Assim como nossa hegemonia cultural foi quebrada (penso em Arnaldo Jabor saindo do PCB para falar as merdas que fala hoje), a intelectual também já foi.

    O ponto em que concordo com vc é que a “tosqueira vence por WO”. Aí sim, porque os intelectuais brasileiros são tão afastados da realidade que nunca foram capazes de junto com o povo construir uma “contra-hegemonia” popular, orgânica, crítica, de esquerda… Como queiramos chamar. Esse, eu acho, é mais um dos elementos do caldo que faz com que FHC seja eleito duas vezes (excluo o Collor porque acho que é outro processo): nossa intelectualidade não foi capaz de chegar ao povo. E Lula cansou da bravata intelectual e partiu para as alianças esdrúxulas. Essas sim ganham eleição, aquele papo “intectualóide” só levava à segundo turno.

  11. […] de Safatle, em especial o de que teria havido uma hegemonia de esquerda na cultura brasileira. Duarte argumenta que essa hegemonia nunca existiu em termos amplos e que ela só teria ocorrido sob a perspectiva […]

  12. […] publicado originalmente no blog Com Fel e Limão, de autoria de Vinícius Duarte […]

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