Russomanno é “o novo”? Tem certeza, Forastieri?

André Forastieri, blogueiro do R7 (IURD), cometeu este texto. Eu me irritei com ele (com o Forastieri, não com o texto). E me irritei porque não posso acreditar que ele o escreveria dessa forma caso seu blog estivesse em outra casa.

Segundo o autor, Russomanno seria “o novo”, e Haddad não. Quanto à segunda afirmação, eu concordo. Aliás, ninguém é “o novo” na política brasileira (inclusive Russomanno). O motivo da minha irritação é que eu achava que André Forastieri, por quem tenho apreço e considero inteligente, soubesse disso (bem, desconfio que ele saiba, mas…).

Em palpos de aranha por ter sido escalado para uma tarefa tão difícil (vender Russomanno aos hipsters sem botar muito a mão na mercadoria), Forastieri usa um artifício tão antigo quanto desonesto: morde nas linhas, assopra nas entrelinhas; parece contundente e crítico, mas é laudatório e conformado. O pessoal modernoso adora isso, cala fundo no coraçãozinho deles. No meu, não. Cheira a picaretagem.

O problema de usar essa técnica é que chega uma hora em que você se enrola todo e começa a se contradizer no parágrafo seguinte. Sim, não é preciso pesquisar o acervo de textos do André e cotejá-lo com este pra ver que ele não pensa nada do que escreveu. Quando a opinião é nossa, a gente segura o rojão pra cima até estourar no céu; quando não é, na primeira fagulha a gente se assusta, o rojão cai e estoura no chão. Mas vamos ao texto.

Ao opinar “sob encomenda”, é sempre bom iniciar usando um “pensador a favor” como escudo. Afinal, se desandar a maionese, pode-se jogar tudo nas costas dele com o velho “não concordo, mas é uma outra visão, né?”. Forastieri escolheu Boris Fausto, tratando-o como o “bambambam que manja mais até que eu”. E utilizará uma “sacada genial” dele no final, pra fazer o CQD próprio afiançado pelo “pensador”.

Diversos outros autores levantaram esse “voto de consumidor” que alicerça a liderança de Russomanno, portanto Forastieri não está descobrindo nada. Só que, como qualquer fenômeno, ele pode ser analisado de forma neutra, negativa ou positiva. Adivinhem qual ele escolheu? Positiva, claro. Só que um “positivo envergonhado”, que passa ao largo da explicação política e confere certo conforto a quem escolhe o candidato do PRB. Afinal,

“o paulistano paga, em grana e stress e saúde, por serviços que não recebe. Para a cidade ter água, esgoto, polícia, hospital, transporte, ar respirável. Quer algo em troca. Quer o que foi combinado.”

Quer versão mais descolex para o velho “sou cidadão de bem, pago meus impostos e quero um governo que me sirva direito” que essa?

Esse tipo de proposta (“vou fazer mais e fazer funcionar melhor o que já existe” – lembraram do Serra/2010? Então…) é oferecida pelos candidatos desde 1500.

André colou o “novo” na testa do Russomanno usando uma justificativa bem da velhinha. Agora eu quero ver, hein? EI, PERAÍ, ele também colocou que Haddad NÃO É “o novo”! PUXA, pode ser uma boa idéia: basta provar que o Haddad é o “velho”, e, como o Russas tá ali ao lado mesmo, ele rejuvenece! Eu, perto do Niemeyer, sou um bebê. BOA! Avante na missão!

Com base nessa tática, Forastieri desanda a bater sem piedade no candidato do PT desde o primeiro parágrafo. É claro que ele deve ter escolhido o Haddad por causa do slogan da campanha petista. Mas não se perca no caminho, o objetivo é usar o mote A FAVOR do candidato da IURD. A surra no Fernando é efeito colateral. Como ele deixa claro no texto, nada tem contra Haddad, inclusive tem amigos e parentes que são. Vejam:

Haddad propõe mais escola, creche, centro de saúde, bilhete único, isso e aquilo. Tudo importante? Claro. Mas é o que todos falam. 

Russomanno promete: você me conhece, vou lá buscar o seu direito e resolver essa parada.

Dentre as duas promessas que você selecionou, qual é a “nova”, Forasta? A do Russomanno? Ora, você já tem cabelos brancos, amigo! Não é possível que nunca tenha ouvido um candidato prometendo ser o Justiceiro do Povo, o defensor dos fracos e oprimidos! Varre, varre, vassourinha! Varre, varre a bandalheira!

“Tá, mas esse negócio de ficar prometendo fazer as coisas também não é novo, viu?”. Pois é, este é o truque: colar algo reconhecidamente velho (político prometendo obra) ao lado de uma coisa sem-pé-nem-cabeça, mas que por isso mesmo parece nova. Afinal, o que significa exatamente um candidato a prefeitura dizer “vou buscar o seu direito”? Vai advogar para o povo contra si mesmo (ele é o executivo!)? Seria, por acaso, fazer o que não está sendo feito? Ora, mas isso não é o que TODOS prometem? Cadê o “novo”, doutor?

Russomanno é pós-democrático. Por isso é o novo, e não Haddad. Novo não é o que eu digo, ou você diz, que é novo. O novo é o que o eleitor paulistano entende que é novo. E ao mesmo tempo, Russomanno é herdeiro de uma tradição da cidade. Não, não é o malufismo. É o janismo, sugere Boris. Eureca.

Pronto, aí desmoronou tudo a casinha do Forasta. Ele até tentou jogar uma massa grossa na rachadura da laje com esse “pós-democrático”, mas se descuidou com a viga que estava comprometida pelo peso de um JANISMO sendo adotado como paradigma da novidade na política. Aproveitando o tema “construção civil”, é bom lembrar que se uma criança de 10 anos herdar uma casa velha, esta continuará sendo velha.

O cidadão é automaticamente membro de uma comunidade. Comunidades pressupõem negociação, pressão e contrapressão, trocas, regras. Já o consumidor é um indivíduo. Está pagando, pô! E o novo consumidor brasileiro, que não é classe média coisíssima nenhuma, mas o trabalhador com um dinheirinho no bolso, quer ser tratado como indivíduo – finalmente. É uma conquista. Não é pouco. Não é tudo.

A “pós-democracia” do André Forastieri, pelo que se depreende, passa pela total despolitização da sociedade, um verdadeiro “cada um por si, quem tiver dinheiro leva”. Quem paga, exige. Isso até pode ser “novo”, mas não costuma acabar bem quando aplicado fora das relações de consumo. No governo, então… EI, mas pra que governo, né? É muito mais fácil o mundo ser um emaranhado gigantesco de contratos bilaterais “um-contra-um”! Para quem não estiver cumprindo, resta chamar o prefeito Russomanno, ele faz um acordo e Fica Bom para Ambas as Partes™.

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12 Responses to Russomanno é “o novo”? Tem certeza, Forastieri?

  1. Claudio disse:

    Perfeita a tua última lembrança, a do slogan do ruçotruta, que resume bem o que seria a administração que se anuncia. A cidade não precisa que esteja bom para ambas as partes, porque pra uma das partes já está bom faz tempo. Já a nossa parte aqui, meu Deus (como diria o outro, exclamação!). E aí, o ruçotruta não é o novo, mas sim o “de novo?”.

  2. Vitor disse:

    Ótimo texto Vinícius.

    Agora imagina se todos os blogueiros do R7 forem obrigados a escrever a favor do Russas ? Fabiola Reipert contando fofoca sobre o Haddad ? O Cosme escrevendo vários parágrafos de uma linha de como o PT arruinou o futebol ? O Tedouumdado fazendo montagens marotas ?

    HAHAHAHAHAHA mas pode esperar, que já já o “Provocador” recebe a encomenda dele.

  3. Fábio Peres disse:

    Mas essa eleição está mostrando um fato novo: está surgindo um tipo de político na praça que se preocupa somente com as pequenas coisas, bem de acordo com o eleitor-consumidor que só quer o “venha a nós”.

    E nada de “seja feita a tua vontade”, no caso, o Estado.

    Verdade. E quem passa a mão na cabeça desse tipo de político (mesmo que disfarçadamente), ou é burro, ou está de má-fé.

  4. botecoterapia disse:

    Quando a gente pensa, eu pelo menos penso, no quanto se lutou pelo direito de escolher prefeitos, governadores etc.
    Dá um desespero de ver a qualidade do que é ofertado a cada eleição.
    Se por um lado criaram regras que impedem os comícios, os brindes o desejo de andar com a camiseta de um candidato, por outro lado pioraram a qualidade e honestidade dos postulantes. Ultimamente vencem, ou se aproximam mais da vitória os que de alguma forma estão ligados a meios de comunicação. Resumindo, pode até ser novo mas está estragado.

  5. Carlos Rosas disse:

    Nessas horas que eu fico feliz de morar em Brasília e aqui não ter eleição para Prefeito, eu sou paulista, mas “ô povinho” que não sabe votar rsrs também os candidatos não ajudam né… tem que dar um desconto, mas Russomano? sério isso? se ele ganhar eu aposto com quem quiser que ele vai conseguir ser pior que o Celso Pitta… mas para um Estado que elege o Tiririca com mais de um milhão de votos, isso não surpreende, o que surpreende mesmo é que esse mesmo pessoal que elege essa gente são os mesmos que entopem o facebook, o twitter com reclamação contra político, que político é tudo ladrão, mas também elegendo essa gente vocês não deveriam ter direito de reclamar… eu já votei errado, mas procuro sempre me informar e me preparar para quando chegar a eleição votar em alguém decente.

  6. Paulo disse:

    Parece que nessas alturas tudo o que Russomano deseja é Haddad no segundo turno. E eu, que não quero nem um , nem outro, nem aqueloutro ( Zé do Pedágio ), nem ninguém, o que faço? Voto facultativo já! Da última vez que preguei isso aqui quase fui linchado, até sob a acusação de ser anarquista, mas vamos prosseguir na causa, uma hora a ficha cai…

    Amigo, o voto já é praticamente facultativo. Justificar no correio demora um minuto e, se vc nem isso quiser, é só pagar a estrondosa multa de R$ 3.

    • Paulo disse:

      “Praticamente”, disse você! Ocorre que sou servidor público e aí o buraco é mais embaixo… Por quê vocês aceitam com tanta naturalidade ser “tutelados” pelos políticos ( taí um tema que une direita e esquerda neste País )? A mim me parece tão claro que não se pode transformar um direito em obrigação…

      Se o voto fosse facultativo o Russomanno não iria se candidatar? Não vejo relação entre as duas coisas.

  7. Ricardo disse:

    Olá Vinicius, faz tempo que não passo por aqui, mas deu saudades do ncdj 🙂
    Só pra dizer, nada a favor do Russas (mto pelo contrário), mas vc já reparou que o maior jornalista brasileiro (Paulo César, evidente), parece estar mantendo a pocilga às custas de algum adversário do Russa Mano? É que tá rolando um post diário (acho eu, ou quase diário) atacando o homem, e já faz algum tempo. Acho que ta descarado de mais, deve ser um “donate” considerável hahahaha. Se vc não viu da uma olhada. Abraço

  8. André disse:

    A Soninha diz que vota no Serra por que ele fez tudo isso:
    “Mas ele fez muito em Heliópolis e Paraisópolis (aí vem o PT dizer que é obra “do PAC”, brincadeira um negócio desses). Avançou muito com o metrô e fez muitas reformas na CPTM, que estava caindo as pedaços. Melhorou o padrão do CDHU. Fez a Virada Cultural,sensacional. Fez o CCJ da Cachoeirinha, legal demais, em um “esqueleto” que estava abandonado desde o Janio. Criou órgãos em defesa dos direitos LGBT (Coordenadoria da Diversidade, Centro de Referência para Travestis). Começou a desocupar a margem das represas, tirou o pessoal das áreas de risco altíssimo da Serra do Mar e construiu moradias muito decentes na Baixada. Bancou a meta obrigatória para redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa, quando muita gente era contra. Reviu sua opinião contrária sobre os CEUs e fez muitos mais. A Comissão Municipal de Direitos Humanos tem um trabalho muito legal. Terminou o bendito Fura Fila até o Sacomã. Deu muito mais espaço para as bicicletas (metrô, CPTM). Fez coisas incríveis pelas Pessoas com Deficiência. Pelos assentados na zona rural. Bancou a proibição de cigarro em lugares fechados. Fez lá o Instituto do Câncer, sensacional, e a AME Heliópolis, excelente. Arrumou estrada vicinal a dar com pau. Mandou despoluir dezenas de córregos.”
    Não sou da capital, por isso gostaria de saber se o homem é tudo isso mesmo.

  9. José Roberto disse:

    Olá Vinicius, tudo bem? por que não escreve mais? Adoro seus textos sobre o soberano. Abraços.

  10. José Roberto disse:

    Não passo dessa semana. Foi bom ter encontrado você na internet. Aceite os últimos abraços de um SOBERANO.

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