Reinaldinho protegendo a Liberdade do Salgadinho

Reinaldo Azevedo, por razões ocultas que eu não identifiquei (as aparentes são “defesa da liberdade de expressão” e “respeito ao texto constitucional”), abriu fogo contra o Instituto Alana.

Por coincidência, eu assisti ontem ao filme “Muito Além do Peso” (você também pode assistir no link), que fala sobre a pandemia de obesidade infantil, em todas as classes sociais, atribuída por especialistas aos péssimos hábitos alimentares disseminados na sociedade, e sobre as estratégias mercadológicas dos fabricantes de alimentos processados para alcançar o paladar infantil. O Instituto pugna pela aprovação de uma lei que retsrinja a propaganda desses produtos.

A característica mais marcante de um “liberal” (aspas necessárias quando o sujeito é Reinaldinho) é lutar pela liberdade de quem nunca sofreu qualquer tipo de restrição: muito ao contrário, sempre está com a chave da cadeia. Para estes “liberais”, o mundo é dividido em competentes apesar do Estado e incompetentes que vivem à custa do Estado. Ninguém precisa ser protegido de nada, o único bem jurídico a ser tutelado pelo Estado é a liberdade de quem hoje está sambando na cabeça do semelhante (que só está na posição de sambódromo porque é um incompetente, claro).

Bem, voltemos ao caso da publicidade dos alimentos dirigida a crianças.

Existem diversas restrições à propaganda de diversos produtos (no mundo todo, não só em Banânia™): tabaco e álcool são as que vêm à mente logo de cara. Posso estar enganado, mas nunca vi um “liberal” se insurgir contra a violação do direito de se expressar da Souza Cruz ou Ambev (e como se publicidade se encaixasse neste direito). A lei está aí, “estuprando a Constituição”, e as restrições só aumentam. E o Reinaldinho, nada?

Ora, mas a Nestlé vende COMIDA!!!1 nadavê cara.

Bem, eu defendo a liberdade de um adulto ingerir qualquer coisa, inclusive MERDA (e textos do Reinaldinho). Defendo até o direito deste adulto OFERECER merda ao seu filho. Desde que ele SAIBA que é merda.

Como o filme mostra de forma inequívoca, a propaganda de alimentos processados é de uma perversidade e desfaçatez comparável às peças publicitárias de cigarro dos anos 1960. Engana adultos, seduz crianças e produz obesos, diabéticos, hipertensos e obesos-diabéticos-hipertensos. Um produto composto por 10% de suco de fruta, 50% de água e 40% de puro açúcar é vendido com o nome de “néctar”, e na TV aparece um senhor grisalho, tipo vovozinho, cheirando languidamente duas tangerinas retiradas do pé e selecionando a mais bonita para preparar o “néctar”; um passarinho voa pela seção de frutas de um supermercado e resolve bicar justamente o saquinho de um kissuco ~sabor~ manga.

Enquanto batuco este texto, aprecio um cigarro (mentira, agora sou dependente e mal sinto o gosto). Quando comecei a fumar, tabaco era vendido como um produto que tornava o homem bonito, forte, destemido e irresistível. Às moças, conferia beleza, sensualidade, carisma e personalidade. A situação saiu completamente do controle, porque o cigarro é cancerígeno, destrói os dentes, dá bafo, tira o fôlego do herói, enche a perna da moça de varizes e entope hospitais. Trinta anos depois do “Carlton, um raro prazer” ou do “Hollywood, ao Sucesso”, o que eu vejo no maço é a foto de um pé corroído pela gangrena. Não foi por iniciativa da Philip Morris que isso ocorreu.

Sim, agora eu sei que cigarro é uma merda, e fumo se eu quiser. Mas a bolacha recheada ainda é vendida como a bolacha do Ben10, sendo que o consumo excessivo dela vai transformar o aspirante a Ben10, com sorte, num lutador de sumô aposentado.

“Ora, é função dos pais educar os filhos!”

Sim, é. Mas eles ENTENDEM a composição, o valor nutricional e o processo de produção desses trecos? Conseguem avaliar com clareza se esses produtos são mesmo alimentos?

Claro que não! E não entendem porque:

1) a propaganda dessas porcarias seduz o adulto com a idéia da praticidade, vida moderna, aplacando sua consciência pesada por não cozinhar para a família com a imagem de que o miojo sai quase igual ao macarrão da mamma com o sachê Sapore di Napoli blablabla.

2) não é nada fácil para o cidadão médio entender o que é maltodextrina, sorbato de potássio ou glutamato monossódico presentes nas fórmulas impressas nas embalagens. E também porque essas fórmulas NUNCA contemplam a totalidade dos ingredientes usados e a quantidade de cada um deles na composição. Afinal, a fórmula de um produto é considerada propriedade intelectual e segredo industrial do fabricante. 

3) Também não é nada fácil para ele entender as “tabelas nutricionais” que o Estado manda imprimir nos produtos, porque elas são feitas para CONFUNDIR e podem induzir o consumidor a achar que o produto FAZ BEM à saúde! Senão, vejamos: a tabela mostra os percentuais de açúcares, carboidratos, gorduras, fibras, sódio etc. presentes no produto em relação ao NECESSÁRIO para uma dieta equilibrada (chamado “Valor Diário de Referência”). Ou seja, se um saco de Cebolitos™ contém 2% de proteínas necessárias para uma pessoa, o incauto pode achar que 50 sacos de Cebolitos™ equivalem a um bifinho (já ouviram isso?). No filme, é marcante a passagem em que o entrevistador pergunta: “se o produto tem zero gordura trans, o que quer dizer?” “Ah, que faz bem pro coração, né?”

4) o mais importante (e tão óbvio que dá vergonha explicar): criança é… criança. Não tem o discernimento necessário para perceber que uma mensagem publicitária é uma peça de ficção elaborada por adultos espertos e criativos, com o objetivo de despertar no consumidor um desejo em relação ao produto. Impactar a consciência frágil e fantasiosa de uma criança com um filmete publicitário chega a ser uma covardia, de tão fácil. Mostrando na TV os poderes mágicos do salgadinho XYZ, oferecendo à criança um brinquedo (que todo mundo tem na escola, menos ele) junto com o lanche, que pai conseguirá impedir a birra no corredor do supermercado? Além de tudo, “ai, é tão baratinho, deixa de ser pão-duro e faz um agrado pro moleque!”

Pra terminar, Reinaldinho descobriu que o Instituto Alana é dirigido por pessoas ligadas ao Banco Itaú. E aproveitou para construir mais uma das suas incontáveis falácias: saiu caçando anúncios do banco em que houvesse a atuação de crianças. Deu aquela misturada marota no objetivo do Alana (restringir propaganda DIRIGIDA A CRIANÇAS) com o objetivo do Itaú (fazer propaganda DIRIGIDA A ADULTOS usando CRIANÇAS).

Mas fica tranquilão, Reinaldinho: a propaganda do Itaú com o bebê rasgando papel não motivou a petizada a se atirar em porta de banco gritando “mããããe, eu quero abrir uma conta aquiiii!”.

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23 Responses to Reinaldinho protegendo a Liberdade do Salgadinho

  1. Macka disse:

    Claro está que o chamado “Rola Bosta” defende a publicidade por interesse da empresa onde opera. Já pensou a gibizada sem propaganda das bolachas e sucos e porcarias relacionadas? Já pensou maquidonaldis não poder anunciar nos canais de tv “comandados” pela abriltv?
    Se o Itau não atraiu crianças ainda, a OI começa a atrair pivetes e pivetas querendo celular com seu chip.

    • Vitor disse:

      Faz sentido, até pq o Reinaldo tava criticando o Itaú, que nunca anuncia na Veja, né?

    • Leonardo disse:

      Lógico que publicidade deveria ser só aquela do Governo, convenientemente controlada pelo partidão, que financia somente a esgotosfera que diz amém para tudo que vem da esquerda.

      Afinal de contas, Governo tem muita concorrência (ou precisa fazer muita lavagem cerebral para usar a população de baixa renda como massa de manobra).

      Mas, enfim, é muito engraçado assistir os esquerdinhas defendendo banqueiros, como também Sarney, Maluf, entre outros.

      O problema é que meu pragmatismo não me deixa cair na retórica dos paladinos dos fracos e oprimidos, porque faltalmente essa doutrina termina em um país comandado por um ditador e seu grupo, e o resto da população vivendo na merda.

      • Lógico que você não leu meu post aqui mesmo CONTRA QUALQUER PROPAGANDA GOVERNAMENTAL. Lógico que você me coloca no mesmo balaio dos que você chama de “esquerdistas” (que, dentro da sua lógica binária, é qualquer um que vá contra a opinião do mestre Reinaldo Azevedo). Quanto ao resto, dispensa comentários.

  2. Macka disse:

    Só complementando: Muitos produtos, por exemplo o picolé, tendo embalagens padronizadas têm também fornecedores “únicos” vai daí que todos os picolés – principalmente os de marcas locais- trazem a mesma tabela nutricional. Isso acontece com amendoim, paçoca, pururuca, e outros produtos cujos produtores não têm recursos para contratar “estudo nutricional”.

  3. Ademir disse:

    Grande, Vinicius!
    Os liberais, vamos dizer assim, mais “roots”, adoram o termo “Estado babá”, por meio desse conceito metem o pau em TODAS as formas de restrição a propaganda, pois de adultos é esperado discernimento.
    O que eu acho engraçado em relação a esses liberais é que gostam de dizer “menos estado, mais sociedade civil”. Para estes, se esta restrição tivesse surgido de uma entidade patronal que escutou a opinião pública, aí tudo bem, isso seria liberdade. Fico eu aqui imaginando esse mundo em que a Souza Cruz e a Phillip Morris vão dialogar com essa sociedade civil que nunca existiu. O problema não é o salgadinho, é o Estado, pra esses caras nada pode surgir de positivo vindo do governo.

  4. Adriano disse:

    “criança é… criança. Não tem o discernimento necessário para perceber que uma mensagem publicitária é uma peça de ficção elaborada por adultos espertos e criativos, com o objetivo de despertar no consumidor um desejo em relação ao produto.” Cabe aos pais ajudarem as crianças a discernirem, não ao Estado.

  5. André disse:

    Hermenauta vive?

  6. Pelaipe disse:

    Vinicius e o muro. Pífio.

  7. Minha referência de democracia e liberdade de expressão são os EUA, a Grã-Bretanha e a Alemanha. Não me consta que em nenhum destes 3 países a publicidade para crianças ou de alimentos industrializados seja proibida. Muito pelo contrário.

    O único país que conheço onde a Coca-Cola, o McDonalds e as bebidas alcoólicas são proibidas se chama… IRÃ, aquele lugar fofo.

    • E propaganda de cigarro, é liberada? Por que uma democrcia modelar como as que te iluminam restringiria a propaganda de um produto legalmente produzido e vendido? Não é um contrassenso? Ademais, o instituto Alana NÃO fala em PROIBIR, mas em REGULAMENTAR a propaganda no sentido que não faça apelos diretos às crianças.

    • Maha disse:

      Opa, Nova Iorque, aquela cidade onde o departamento de saúde decretou a proibição de refrigerantes de mais de 500ml em alguns estabelecimentos, deve ficar no Irã, então.

    • Idelber disse:

      O mais engraçado dos garotos do Brasil que tomam os EUA como modelo de liberdade de expressão é que eles invariavelmente não têm ideia do que acontece aqui. Nosso amigo aí acima evidentemente jamais ouviu falar do Children’s Advertising Review Unit, agência estatal que desde 1974 REGULAMENTA toda a propaganda dirigida às crianças nos EUA. Aqui, ó: http://www.caru.org/guidelines/guidelines.pdf

    • Rodrigo disse:

      Sabe quais outros países proíbem propaganda infantil? Suécia, Dinamarca e Holanda. Pois é, ter a lucidez para perceber que propaganda infantil é um moedor de carne psicológico não é exclusividade dos nossos irmãos muçulmanos.

    • Macka disse:

      Lá naquele berço da democracia onde uma mãe pode ser presa por amamentar e não vai em cana por socar cocacola num bebê?

  8. Olá Vinícius, sou publicitário (ninguém é perfeito) e concordo com o seu ponto de vista. Realmente é comprovado que as crianças não tem capacidade de discernir sobre as publicidades de TV. Também acho que deva haver uma regulamentação, pois do jeito que vai, dizer “criança gorda” será redundância.

    Não sou contra o fim total dos produtos ultraprocessados, fazer propaganda das mesmas etc. mas deveria ser algo mais restrito aos pais e não direcionado às crianças. E sem essa de “liberdade de expressão” do Reinaldo.

  9. Excelente, Vi. O documentário é excelente e um bom alerta pra todos. E claro, a regulamentação é necessária. Eu que sou formada em marketing me envergonho profundamente dos que usam de estratégias sem ética para conquistar clientes.

    Agora, eu sempre digo: toda vez que o Reinaldo ou seu irmão do outro lado (Nassif) apontam a metralhadora para alguém eu já me simpatizo com o tal.

    Aliás, acho que se um dia ele falasse mal da minha pessoa eu sentiria que finalmente cumpri minha missão no mundo e posso descansar em paz! =D

  10. É isso, e nem acho essa posição polêmica. Acho mesmo é um atraso os que defendem selvageria publicitária como sinônimo de liberdade de expressão. Confusão típica de quem é usuário de serviços e consumidor de produtos, apenas.
    Já tinha visto o “Criança: a alma do negócio” e dele extraio a comparação com o mundo civilizado europeu – tão cara aos liberais: na Alemanha, TODA publicidade durante programas infantis é vedada.
    No Brasil, o CONAR auto-regulamenta – e funciona tão bem como pode-se atestar nas propagandas de automóveis: nenhum incentivo à velocidade, né?
    A publicidade no Brasil é uma questão séria, mas não muito complexa. Só precisa de limites. Mas as reinaldetes nunca entenderão que isso não tem nada a ver com censura.
    Ótimo texto, como sempre. Só estão ficando cada vez mais raros…
    Abs.

  11. Gisele disse:

    Oi, Vinícius!
    Voltou em grande estilo, hein, cara? (E com a maior moral… Cheguei aqui pelo link no Twitter do NPTO.)
    Parabéns pelo post.
    (Tá vendo só? Maldito Twitter! Não tivesse você se deixado levar pelas vantagens do mundo do “microblogging”, teríamos mais Fel e Limão…)
    Abraço.

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