A volta da “bolsa-bandido”

fevereiro 16, 2012

Nesses dias de júri coberto pela TV, a doutrina jurídica mais utilizada para discutir o caso é a do Prof. Dr. J.L. Datena. Com isso, diversos fantasmas saem das catacumbas e voltam a assombrar os vivos:

COMO ASSIM? O pilantra do Lindemberg vai ganhar R$ 915 para curtir umas férias na cadeia? Confere a informação, Márcio Campos? Isso é um tapa na cara da sociedade! Me ajudaê, PÔ! Quero as iBagens!

Pois é, amigos e amigas, ele voltou com pompa e circunstância. E percorreu um longo caminho: saiu da lista de email da D. Marocas em 2002, circulou pelo orkut por anos, andou por bocas anônimas e renomadas, e é a febre do Facebook e Twitter nestes tempos de Lindembergs e Eloás: o HOAX do BOLSA-BANDIDO! êêê, uma salva de palmas!

Com todo o respeito, precisa ser muito idiota pra chamar Auxílio-Reclusão de “bolsa-bandido”. Seria  como eu chamar você, sr. José da Silva, de Maria Catifunda, apenas por eu te achar com cara de  mulher (e mulher, pra mim, se chama Maria) e feia (mulher feia, pra mim, se chama Catifunda).

Sim, porque Auxílio Reclusão não é bolsa, e nem é pra bandido. Explico:

1) Não é bolsa, porque não é uma “doação”, e sim uma RETRIBUIÇÃO. É, só recebe Auxílio-Reclusão QUEM CONTRIBUI PARA O INSS. É obrigatório o beneficiário ter CONDIÇÃO DE SEGURADO. Clique no link e leia com a mesma atenção que você leu o “e-mail do bolsa-bandido”, e com a mesma diligência que você teve para  repassá-lo para sua lista de contatos.

2) Por consequência do item 1), não pode ser pra bandido, pois VOCÊ JÁ VIU ALGUM BANDIDO RECOLHENDO INSS? Imagina o Fernandinho Beira Mar na fila da lotérica, com seu carnezinho laranja de autônomo embaixo do braço. E mais: se é pro bandido, como ele faz pra sacar o dinheiro? Como ele gasta? Tem caixa eletrônico na penitenciária? Tem mercadinho, Casas Bahia etc.? Ou será que o Estado deposita tudo na poupança pra ele viver como um nababo quando cumprir a pena?

Aí você pode dizer “tudo bem, é difícil bandido pagar o INSS, mas pode ter um que pague e é errado sustentar bandido!”. Amigo(a), o condenado foi o(a) cara, não a família dele. O auxílio é pra família do preso. Diz aqui pra mim: QUE CULPA TEM O FILHO da merda feita pelo pai/mãe? Você quer condenar a criança a passar fome, sendo que o pai/mãe, por mais sacripantas que tenham sido com a sociedade, deixaram uma merreca garantida pra ele pagando as contribuições ao INSS igualzinho a você?

Aliás, é sempre bom repisar um fato bastante importante: não importa se o recluso tem 1, 2, 5 ou 300 filhos (ou seja o cover do Mr. Catra): o valor do benefício é sempre o mesmo: 100%  do salário de benefício (média dos 80% maiores salários de contribuição), limitado ao teto de, atualmente, R$ 915.

E só pra deixar registrado (já que o hoax atribui a ele a criação do benefício), Lula era uma CRIANÇA quando foi instituído o Auxílio-Reclusão. Na verdade, nem o INSS se chamava INSS, pra vocês verem como é velho o benefício.

Existem mais ou menos 500.000 pessoas presas no Brasil. O INSS pagou em 2011, aproximadamente, 29.000 benefícios de Auxílio-Reclusão. Isso dá 5,8% da população carcerária. Fique tranquilo, amigo(a), é bem mais provável o Lindemberg estar entre os 94,2% “sem-bolsa”. Mas, se ele não estiver, sua família merece o auxílio-reclusão, pois o moço foi um cabra previdente.

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PS.: ok, não acredite em mim como você acredita nos emails da D. Marocas e posts do FB, leia direto da fonte. Tem mais um monte de informações sobre o tema.


Reflexões sobre repartições públicas

dezembro 26, 2011

Fui renovar minha CNH achando que, nesses tempos de internet e poupatempos, seria uma grande moleza. E acabei descobrindo que a profissão mais necessária no Brasil é a de despachante. Deveria até existir um curso profissionalizante no Senac. “Sem despachante, o Brasil não anda”, o despachante é mais necessário que a Kombi.

Fui a um CFC (aka autoescola) para fazer o “curso” de direção defensiva (uma prova), pois eu fui habilitado em 1983 e o Estado descobriu agora que, durante todo esse tempo, eu fui um psicopata do volante. Tudo bem, regras são regras. Mas o moço da autoescola disse que o ~sistema~ mudou (bem na minha vez, claro) e eu teria que agendar uma “coleta biométrica” (tocar piano eletrônico) no Detran. “É que tinha muita fraude, os caras dos CFCs tiravam molde de silicone da mão dos candidatos e faziam a prova por eles”. Brasil, sem limites para a falcatrua (e os burocratas vão ao delírio).

Frustrado, voltei para casa e entrei no site do Detran pra agendar a tal coleta biométrica (e ver todos os procedimentos necessários para a renovação). Lendo a portaria que disciplina o assunto e lembrando de muitas desventuras nos balcões de atendimento, cheguei a algumas conclusões sobre repartições públicas e normas em geral:

1 – Toda boa norma deve ter uma regra simples e 3 milhões de exceções complicadíssimas; uma boa norma pública deve ser IMPOSSÍVEL de ser representada por um fluxograma;

2 – Na parte das exceções (99.99% do texto), uma boa norma contém, entre uma exigência e outra, dezenas de “E” e “OU”, aleatoria e estrategicamente situadas para confundir o cidadão.

3 – Normas oferecem ao cidadão muitas opções, mas são escritas de forma a parecerem obrigações. Com isso, o pobre contribuinte fará inúmeras tarefas redundantes e/ou desnecessárias;

4 – O uso indiscriminado (e sorrateiro) de “DEVERÃO” e “PODERÃO” no texto (dica do @emendesjf, obg) também surte efeito altamente complicador na cabecinha da pessoa: se ela entender UM “deverão” como “poderão”, o objetivo será inapelavelmente frustrado; se entender o inverso, ela verá o diligente funcionário público, com ar de desdém, dizendo “pra que o sr. trouxe isso, nem precisava!”, atirando ao lixo toda papelada que você passou HORAS para conseguir;

5 – É de bom tom também usar a informática: faça o trouxa preencher quilométricos pré-cadastros via web: isso dá um ar de modernidade ao serviço público. IMPORTANTE: ENCHA o formulário de “códigos CAPTCHA” (um em cada bloco – quanto mais ilegíveis, mais seguros-), e deixe o coitado ir preenchendo cada bloco de dados SEM CORRIGIR os erros no final daquele bloco; quando ele chegar ao final do formulário, aponte TODOS os erros de uma vez, direcionando-o para o primeiro bloco e fazendo-o digitar NOVAMENTE todos os códigos captcha (mesmo que o erro esteja no último bloco).

6 – O “protocolo do pré-cadastro” deverá sempre ser impresso, para garantia. E o “número” de protocolo deverá ter, no mínimo, 36 caracteres hexadecimais e aleatórios (usar, por exemplo, o número do RG+data é coisa pra amadores e não dá ~segurança~ ao sistema).

6 – Claro que, quando o infeliz encostar a barriga no balcão, o servidor dará a ele OUTRO cadastro idêntico, só que de papel (pra ficar ~documentado no processo~).

7 – Agendamento via web é a bolsa Louis Vuitton do serviço público: toda repartição chique deve ter. Mas o bravo servidor não precisa se preocupar em cumprir o horário marcado (afinal há muito serviço e pouca gente pra fazê-lo). E é CLARO que o contribuinte não pode atrasar UM minuto sequer, pois será punido com a necessidade de “reagendar” um novo horário (que sempre terá uma “carência” de vários dias ÚTEIS para ser novamente efetuado);

8 – Exigem sempre mais documentos que o necessário; o que abunda, não prejudica. E “evita fraudes”.

9 – O bom servidor público sempre usará seu “poder discricionário” para interpretar a norma como bem lhe aprouver (geralmente, para negar o atendimento). Não raro, existem 384 interpretações diversas sobre um mesmo tema, e o sucesso depende do cidadão ter a sorte de ser atendido por um funcionário que concorde com ele na interpretação da portaria.

10 – Painéis eletrônicos e papeletas de senha são a coqueluche do momento na administração pública: o importante é deixar o dispensador de papeletas no local mais improvável possível. Deve também ser criado um tipo de senha para cada sub-sub-tipo de serviço (a probabilidade do caboclo pegar a senha errada aumenta consideravelmente). Também é legal colocar um painel para cada tipo de senha, pois aí o infeliz fica olhando no painel errado e a vez dele nunca chega. Quando ele vai reclamar da demora, o servidor só diz “o sr. é que não prestou atenção, já chamaram seu número faz tempo!”

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PS.: No ano que vem, vou ver se invento um manual de sobrevivência nas repartições públicas.

Feliz 2012 a todos.


Louca Academia sem Polícia

novembro 4, 2011

Este texto estava no rascunho do blog desde quando houve o homicídio do rapaz da FEA, eu não tive coragem de publicar. Com a ocupação da FFLCH em protesto contra a presença da PM, resgatei.

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Semana passada morreu um estudante de Ciências Atuariais da FEA/USP, assassinado dentro do campus quando ia pegar seu carro no estacionamento. Com isso, reabriram um velho debate: como efetuar policiamento ostensivo/preventivo na USP, se a universidade não curte a presença da PM por lá?

Quem me acompanha nas redes sociais sabe o que eu penso a respeito, e sabe também que muita gente (100% deles do meio acadêmico) veio oferecer o contraponto às minhas opiniões, dizendo que “Polícia e Universidade não combinam”, que a PM “não entende de manifestação cultural/política e vai chegar dando porrada”, “PM é sinônimo de repressão”…

Como diz a receita culinária, separe isto e reserve. Foi só um gancho para entrar em outra seara: para que serve a USP? A quem serve a USP? Quem toma conta da USP? Como funciona a tal “autonomia universitária”?

Claro que, quando eu digo “USP”, refiro-me às universidades públicas. No final dos 1970 e começo dos 1980, era comum ver em qualquer manifestação no Brasil a faixa “MAIS VERBAS PARA A EDUCAÇÃO” (eu vi até em estádio de futebol, e o portador saiu acariciado pelos PMs do Choque).

Pois bem: as “mais verbas” chegaram. Não sei se na medida dos anseios da comunidade universitária, mesmo porque verba pública é igual a encher pneu furado: quanto mais se põe, mais falta pra se obter a pressão ideal. E, evidentemente, as tais “mais verbas” chegaram na ponta final (a universidade), haja vista a situação precaríssima do ensino básico no Brasil. E, pra ser bem sincero, não creio que os portadores daquelas antigas faixas de protesto estivessem lá muito preocupados com o dinheiro para a escola de ensino fundamental da periferia.

A universidade pública coloca gente no governo? Sim, mas na cúpula do governo. Deveria colocar na base, e isso não faz (e, a continuar assim, nunca fará). Formandos em pedagogia pela USP, por exemplo, deveriam ser obrigados a, ao final do curso, prestar serviços em sala de aula da escola pública por, pelo menos, o tempo que levaram na sua formação acadêmica. Mas quem está ralando como professor I da rede estadual é o formado na UNIBAN, que mal sabe pra ele. O formando em pedagogia da USP vai para a escola privada, que paga mais, ou entra no chamado ciclo eterno: faz pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, publica, publica, publica, faz concurso e vira professor da USP, dá umas aulas, faz conchavos, arruma uma boquinha no Departamento e cabô, tá aposentado.

Nos dois caminhos acima (ir pra iniciativa privada ou virar estudante profissional – isto vale para quase todas as carreiras), temos dois movimentos: 1) ou a universidade pública alimenta o setor privado, ou 2) a universidade pública cria um sistema hermético de proteção aos integrantes da própria academia. Quem tá dentro, não sai; quem tá fora, não entra.

E a sociedade, que é quem sustenta a universidade pública, o que ganha com isso? Muito pouco. E ela precisa de pessoas capazes compondo a máquina do Estado. Não lá nos primeiros três escalões, mas aqui embaixo. O problema do Estado brasileiro está na base, não no topo. Um gênio comandando uma cambada de idiotas não resolve nada.

Voltemos ao reservado lá de cima: toda e qualquer ação que vise a controlar ou fiscalizar a atividade universitária ou o seu funcionamento é prontamente rechaçada pela comunidade acadêmica, sob os argumentos mais criativos (alguns até válidos, reconheço).

A Cidade Universitária quer ser uma bolha, um ente autônomo, quase uma Embaixada do Reino da Sapiência no Brasil. Não é da conta de ninguém saber ou cobrar o que ocorre por lá: como são utilizados os recursos, em que a sociedade brasileira está sendo beneficiada com a produção científica, qual é a produção científica…  tudo em nome da autonomia universitária. A universidade não gosta de ser vigiada. Nem pela polícia, nem pela sociedade.

Não se metam com a USP. Mesmo em caso de assassinato. Se a coisa apertar muito, eles criam uma polícia própria, um judiciário próprio, um cemitério próprio…


O câncer de Lula e a miopia dos neopseudodefensores do SUS

outubro 31, 2011

A imprensa noticiou que o ex-Presidente Lula tem um câncer na laringe. Esse anúncio gerou, nas internets da vida, três reações: uma parte das pessoas ficou triste e demonstrou sua solidariedade (política, humana ou rodrigueana, tanto faz); outra parte mandou um “bem feito, desgraçado!”; e uma terceira leva (os que se julgam politizados) iniciou uma campanha exigindo que ele fosse se tratar no SUS, pra sentir na pele o que sentem os brasileiros sem plano de saúde. Deixemos os dois primeiros grupos de lado. O primeiro, pela obviedade da reação; o segundo, pela anencefalia que os acomete.

Os que se manisfestaram exigindo nas redes sociais que Lula fosse se tratar no SUS, esses, sim, preocupam. Preocupam porque julgam estar interferindo politicamente nos destinos da nação, mas suas atitudes atabalhoadas e infantilóides só pioram as coisas. Mas isso é tema para outro dia.

Muitos identificaram na exigência insólita feita a Lula um ódio de classe, já que nunca se exigiu isso de inúmeras autoridades abastadas que, adoecidas, recorrem ao serviço privado de saúde. E nem é preciso ir muito longe para constatar isso, já que o VICE do Lula passou um tempão no caríssimo Hospital Sírio Libanês e, morto, foi tratado como herói nacional. Por que só Lula?

Eu respeito essa tese, mas ofereço outra forma de ver a coisa (mesmo porque Lula já mudou de classe faz tempo): existe um ressentimento político contra Lula. E, a meu ver, injustificado.

Como a história de vida de Lula é diferente das histórias de todos que o antecederam (e parecida com a da maioria da população brasileira), o povo viu na ascensão dele ao poder a chance de tudo mudar por aqui. Só que, obviamente, não mudou. Por conta disto, o ex-presidente (e CANSEI de ouvir isso) seria um traidor do movimento. Aos traidores, você bem sabe, o esquartejamento em praça pública é a pena.

Mas vejam só o paradoxo: por que Lula mudou e “traiu o movimento”? Porque VOCÊ MANDOU ele mudar! Ééé, você mesmo que postou no facebook que ele deveria se tratar no SUS, sabia? Não? Explico.

Em 1989, você elegeu Collor contra Lula porque o 1º era “caçador de marajás” e o 2º era um “agitador badernista greveiro barbudo comunista que ia dividir sua casa própria com os sem-teto”. Só que Lula e o PT, à época, estavam muito mais sintonizados com o que você HOJE considera o “movimento traído”. Você não o quis.

Em 1994, a mesma história. E novamente não foi dada a Lula a chance de “mudar tudo”. Preferiram FHC (e até com certa razão, a coisa parecia que ia engrenar, e o PT não oferecia nada mais atraente do que o já rejeitado em 89). Em 1998, cansado de apanhar e sem saber o que fazer, o PT se mostrou mais indeciso que mulher em loja de roupa. Outra sova no PT/Lula.

Aí o segundo governo FHC te deixou bem puto da vida, lembra? E você, de saco cheio, pediu pra oposição um projeto de mudar tudo, pero no mucho.

O PT entendeu bem a parte do “pero no mucho“, e escreveu uma cartinha de amor aos brasileiros, garantindo que tudo iria mudar, sem traumas ou revoluções. O velho e bom “fique rico grátis”, ou “vá pro céu sem morrer”, o esporte mais adorado pelos brasileiros.

E o Lula aparou a barba, passou falar mais corretamente, usar ternos chiques e, principalmente, apertou a mão e abraçou gente que, num passado nem um pouco distante, ele havia chamado de “300 picaretas”. Barganhou, ofereceu posições e garantiu que nada mudaria na vida deles, os picaretas.  E você, tão politizado, não percebeu que, para mudar tudo sem mudar o principal, o caminho é mais longo e penoso. E pode-se nunca chegar ao destino.

Agora, sem todas as mudanças que você gostaria que ocorressem sem o ônus da ruptura, acreditando numa terceira via que nunca existiu, você fica bravo com o Lula e quer se vingar dele. Age como o cara que propõe à esposa participar de swing e, no meio da brincadeira, reclama que ela está gozando mais com um desconhecido recém-conhecido do que contigo.

Lula mudou? Sim. Lula traiu ideais históricos do PT? Sim. Mas fez tudo isso à sua ordem, cidadão-de-bem, ou não teria chegado lá em 2002. Portanto, dê a quem foi tão subserviente à sua vontade o direito de usar o mesmo hospital que você usa ou usaria. Porque, certamente, o PT de 1989 (aquele que você escorraçou) era bem mais preocupado com a melhora da saúde pública. E, cá entre nós, você também nunca deu muita bola para o assunto, já que resolveu o seu problema comprando um plano de saúde de uma empresa que, certamente, faz generosas contribuições para a campanha dos políticos (Lula e o PT, inclusive). E aí fica difícil dar aquela vontade neles de melhorar a saúde, né?


A FIFA enganou o Brasil? Não, porque a regra é clara.

outubro 21, 2011

É bem forte o barulho contra as exigências da FIFA para a realização da Copa no Brasil. Estão falando que o governo está abrindo mão da soberania nacional, atropelando direitos conquistados a duras penas… É, talvez estejam mesmo, mas quem se candidatou a sede da Copa-2014 sabia que isso talvez fosse necessário. Se não sabia, deveria saber. Se sabia e não contou ao povo, sinto muito. Agora a bola já está rolando.

A Copa do Mundo FIFA é um evento privado, uma espécie de circo que fica parado em Zurique e, a cada quatro anos, viaja por um mês para fazer uma turnê no país que pagar melhor a ela. Por “pagamento”, entenda-se ATENDER AOS REQUISITOS do famigerado “Caderno de Encargos FIFA” e realizar uma miríade de conchavos políticos que garantam a sua escolha como país-sede.

De 1986 para cá, o circo da FIFA vem ficando cada vez mais sofisticado e cheio de não-me-toques, toalhas de linho branco e garrafas de Möet Chandon a 8ºC no camarim, graças à exacerbação do conceito de futebol-empresa. A Copa é o espetáculo esportivo mais visto e mais caro do mundo, nada pode dar errado (segundo os parâmetros da dona do evento). Não se perca de vista que a dona da Copa é a FIFA, não o país-sede.

Tá, mas e daí?

E daí que a FIFA usa padrões do futebol europeu (Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra – não Grécia, Portugal ou Croácia) para formular seu conceito de “tudo certinho”. Então, ANTES de se meter a fazer Copa do Mundo, o candidato tem de ver como as coisas funcionam por lá, pra ver se AGUENTA a bagaça. Se não aguenta, nem se candidata. E por “aguentar”, entenda-se não ter de rasgar leis ou violar direitos e, claro, não quebrar o país ou enchê-lo de inutilidades (se você não tem dinheiro para desperdiçar com elas).

É absolutamente ingênuo achar que a FIFA vai “se adaptar” ao país-sede, por três razões muito simples:

1) existe UMA FILA de países querendo os jogos, muitos deles submetendo-se a qualquer coisa para tê-los;

2) existe OUTRA FILA de países querendo os jogos e que não precisam mover uma palha para “se adaptar” aos caprichos da entidade, pois os tais caprichos estão plenamente incorporados (os tais países-modelo da FIFA).

3) É a FIFA que aceita o país-sede, não o contrário.

Bem, mas você pode perguntar: “peraí, mas tem coisa que não estava no Caderno de Encargos e que estão exigindo agora, estão rasgando o contrato!”. CLARO que tinha, porque a tal brochura é um documento que deve ser seguido por todos os candidatos, não comportando especificidades do tipo “ingresso de aposentado não pode”, porque isso é uma jabuticaba.

Para a FIFA conseguir sua almejada qualidade HDMax no evento, ela nivela todos os países candidatos “por cima”, e exige de quem quer fazer o evento que suba se estiver embaixo. “Suba”, sempre é bom ressaltar, de acordo com os parâmetros dela, não os da sede. O objetivo da entidade é um só: seja na África do Sul, Inglaterra, Brasil ou Qatar, o cliente deve se sentir da mesma forma e os parceiros devem ter as mesmas regalias, senão o contrato dela fura e ela perde dinheiro.

A história recente mostra que, quando o país não é “modelo-FIFA”, depois que o circo vai embora a coisa fica bem feia: lixo pra todo lado, bosta do elefante branco espalhada pelo terreno e um monte de conta no espeto.

PS.: isso vale também para a Olimpíada, claro.


A Praça é Nossa!

setembro 15, 2011

Printei a página porque acho que o grupo deve ser trancado jájá.

Quando você pensa que já viu tudo, a humanidade volta a supreender (e este moribundo blog renasce).

Depois da gente diferenciada da Zona Sul e Central, cidadãos-de-bem-pagadores-de-impostos-que-contribuem-para-o-crescimento-do-país da Zona Oeste da Locomotiva do Brasil se unem, num gesto cívico, para salvar a nação da massa ignara e chupim que só faz sangrar valiosos recursos que poderiam ser aplicados em saúde, educação e SEGURANÇA.

O Hospital Panamericano, incrustrado nas ruas arborizadas e cheias de casas com 30 metros de frente do Alto de Pinheiros, realmente, era algo estranho. Afinal, naquela zona da cidade só tem edificações térreas, e ele era um predião de vários andares. Estranho, sim. Mas São Paulo é uma cidade estranha, e o Alto de Pinheiros é um bairro tão estranho quanto, pois seus habitantes precisam ir de carro à padaria, de tão isolado que é. O transporte público é uma peça de ficção, e os moradores já chegaram a pedir para que os escassos ônibus que atendem a região sejam transferidos para outras ruas mais distantes.

Nunca deu IBOPE aquele hospital privado, apesar da vizinhança abastada. Pertenceu a Intermédica São Camilo, passou para a SAMCIL. Era cheio dos plantonistas bolivianos, eu mesmo só estive lá uma ou duas vezes. Mas é um hospital pronto, um equipamento de boa qualidade, passível de ser encampado pelo poder público (um grande credor da SAMCIL). Fechou este ano, quando o dono do plano de saúde se matou no interior do hospital, atolado em dívidas.

Pois bem: esse grupo de preclaros moradores do entorno resolveu se mobilizar para pedir a DEMOLIÇÃO do nosocômio, com vistas a dar lugar a uma bucólica PRAÇA.

É, senhores: uma PRAÇA. Como ninguém é obrigado a saber a localização do Panamericano, vai um mapinha do google (abrilhantado com a minha conhecida habilidade no “paintbrush”):

Mais praças! Mais praças!

Como se depreende da imagem, se há uma coisa realmente necessária neste carente bairro é uma boa área de lazer para que seus moradores possam esquecer, ainda que por instantes, das vicissitudes da vida dura que levam. Vejam, cidadãos, há apenas SETE praças num raio de 200 metros do hospital. A mais ou menos um km. do local, o Parque Villa-Lobos. SÓ SETE praças (e um parque) para atender esse enorme contingente de desvalidos, onde vamos parar?

Chega de ironia e vamos ser claros: ninguém quer praça coisa nenhuma. Eles mal saem de casa a pé, apavorados com a “violência”.

O motivo é outro: aquele hospital era o tumor do Alto de Pinheiros, e a quebra da SAMCIL deu a chance que eles esperavam. Agora, fechado, imagina se aparece um louco e reabre o Panamericano como hospital PÚBLICO, ou transforma o prédio em outra edificação de uso comum. Babau.

Aliás, se pudessem, os moradores do Alto de Pinheiros erguiriam um muro em volta do bairro. Dissimuladamente, eles já tentam há anos (com relativo sucesso) impedir o trânsito de veículos fechando ruas para evitar que se desvie dos congestionamentos – com os quais eles contribuem regiamente pilotando suas frotas de SUVs – usando o viário alternativo.

Lamento, mas nenhuma iniciativa de moradores que conseguiram fechar uma ESCOLA PÚBLICA para uso como QG da Polícia Militar me espanta mais. Eles, quando querem, sabem por onde atacar e, geralmente, são bem sucedidos. Afinal, até o ex-governador José Serra faz parte do “Grupo Alto de Pinheiros Quer PAZ”.

PS.: se os moradores do Alto de Pinheiros querem botar abaixo um hospital que tem uns 50 anos, imagina se vão deixar uma LINHA DE METRÔ passar pela região.


Governo precisa gastar em propaganda?

junho 21, 2011

Há longínquos cinco anos, escrevi este texto. Não se trata, portanto de um posicionamento oportunista ou recente, mas ele voltou à minha cabeça ontem, quando eu li o documento dos autoproclamados blogueiros progressistas, que tem, no seu item “f”, a seguinte proposta para a “democratização da informação”:

f) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs. (o grifo NÃO é meu).

Pois é: os blogueiros progressistas querem dinheiro do governo para disseminar a informação pela internet. Muito justo. Afinal, o governo já gasta bilhões em propaganda com a Globo, Record, Folha de SP… Por que não destinar uma merrequinha para os “blogs sujos”, que são verdadeiros Dons Quixotes para levar a informação imparcial, corrigindo as distorções do malvado “PiG” (que, engraçado, também vive à custa do governo)?

Tá bom, chega de ironias bestas. O assunto é: você sabe quanto, onde e como o poder público gasta em propaganda? Fácil responder: muito, no lugar errado e da pior forma. O princípio constitucional da publicidade dos atos de governo é usado como desculpa para verdadeiras farras do boi, enriquecendo agências de propaganda e veículos (pequenos, médios e grandes). O dever de manter a população informada sobre o que o poder público está fazendo por nós foi substituído por peças publicitárias caríssimas que só servem para enaltecer QUEM está governando, muito embora exista também o princípio constitucional da impessoalidade na Administração Pública.

Sim, claro, eles não colocam o nomezinho deles no anúncio, mas, como você bem sabe, a propaganda é a arte de fazer coisas parecerem maiores, melhores e mais bonitas do que realmente são, com o objetivo de fazer o consumidor adquiri-las. E, se há uma coisa na qual não podemos ser ludibriados ou iludidos, esta é a administração do Estado e dos seus recursos. Sim, pois o dinheiro é nosso.

Não somos “consumidores” do governo A ou B, somos PARTE DELE. Portanto, as informações devem chegar a nós de forma clara, objetiva e até CHATA, de tão fria e transparente. Façamos uma analogia: imagine que o síndico do teu prédio resolva “informar” os condôminos não através de maçantes boletins de papel, mas por meio de um programa semanal que entraria nas TVs dos moradores via antena coletiva do prédio; para tanto, ele contrataria uma produtora de vídeo com o dinheiro do condomínio e ficaria lá, todo pimpão, dando uma de “Lula do prédio”. Certamente, seria decapitado na reunião de condomínio em que tivesse apresentado tal sandice, e sua cabeça seria colocada em uma bandeja na porta do apartamento dele.

Não há qualquer sentido em se gastar UM NÍQUEL em propaganda governamental, e desafio qualquer um (exceto os partidos políticos, é claro!) a tentar me convencer do contrário. Os atos de governo devem ser impessoais, transparentes e públicos, e SÓ. Não devem ser bonitos ou feios, grandes ou pequenos, de fulanos ou beltranos. Esses juízos de valor devem ser feitos pelas pessoas, sem qualquer tipo de induzimento por artifícios publicitários.

A “propaganda” da SABESP, por exemplo, é esta: o fulano abre a torneira, sai água; dá a descarga, os dejetos vão para a rede de esgoto, e de lá para tratamento. Só isso vai mostrar que a empresa está trabalhando direito. Não adianta patrocinar time de vôlei, peça de teatro, comprar 30seg. em rede nacional na Globo se as torneiras estão secas, ou se o cocô tá passeando na porta da casa do cidadão.

“Sim, mas tem também as campanhas de esclarecimento, de vacinação e tal…”. Verdade, tem sim. E daí? As TVs e rádios cobrem 100% do território nacional, são concessões públicas, e têm o DEVER LEGAL de ceder espaço para essas campanhas, e o DEVER MORAL de ceder equipamentos, produção, profissionais e insumos para produzir essas peças. Afinal, não são elas que vivem falando em “cidadania”? E, convenhamos, pra bolar um “Zé Gotinha” não precisa pagar nenhum Washington Olivetto.

Não há como lutar por uma imprensa independente e vigilante se esta mesma imprensa vive à custa de quem deveria denunciar. Como eu disse em outro texto, pode procurar UMA nota negativa sobre as Casas Bahia na imprensa, você nunca vai encontrar. Afinal, ela é o maior anunciante privado brasileiro.

Por tudo isso (e muito mais), me parece bastante claro que a blogosfera progressista, em vez de lutar contra esse sorvedouro abjeto de recursos públicos, prefere lutar para garantir seu lugar na festa.

Esta é uma briga muito grande, exige uma mobilização-monstro, mas que eu participaria com o maior prazer. E você, cidadão comum que quer ver o dinheiro público menos mal gasto, não toparia?